A Rainha do Baile

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Estou passando por um intenso bloqueio, gente. Foi difícil escrever isso aqui. Espero que gostem ;)

Cemitério de Chamberlain — 1991

A garota que atravessou os portões do cemitério poderia ser confundida com um menino. Camisa folgada, calças todas remendadas, o cabelo cortado bem curto. Talvez, quando menor, tivesse sido bonita, mas a juventude iminente agora dava seus primeiros avisos de que aquele rosto não iria ver beleza pelo resto da vida. Espinhas amareladas e oleosas descamavam as bochechas com sardas, e os dentes tinham manchas pretas nos vãos. Uma mendiga, provavelmente. Uma mendiga e ladra, porque mendigas ladras adoravam cemitérios.

Podia ser um local para cheirar cocaína sem que os tiras incomodassem.

Para surrupiar flores de cima dos túmulos e vendê-las no mercado negro.

Para se esconder nas moitas com algum menino que arriscasse uma transa rápida com uma garota feia.

Ironicamente, o cemitério era um lugar onde a vida era boa.

Os coveiros faziam vista grossa porque não queriam se meter em problemas. O trabalho deles era cuidar dos mortos, e não dos vivos. E, como os mortos não ligavam para nada, o trabalho dos coveiros se resumia à fazer as covas e pronto.

A garota se deparou com um deles ao passar pelo portão, mas foi o mesmo que passar por um poste. Ele continuou fazendo o que estava fazendo, seja lá o que ele estivesse fazendo. Não importava.

Ela atravessou um longo caminho de pedra que cortava as várias fileiras de túmulos dispostas uniformemente pela terra úmida. No começo, as sepulturas eram majestosas, algumas até com estatuetas brilhantes segurando dizeres de filósofos que ela não conseguia ler. Nomes que seriam sempre lembrados, nomes de pessoas louváveis.

Em resumo, nomes de ricos.

Mais para frente, os túmulos ficavam cada vez mais iguais e simples, alguns apenas com cimento escurecido, o nome do defunto e a data de nascimento/óbito. No mais, havia uma foto mínima que provavelmente o morto não queria que pusessem lá, mas, como estava morto, não tinha mais monopólio sobre o que acontecia à sua figura no mundo dos vivos.

A menina prosseguiu seu caminho, apressada. O cemitério era grande, e ficava cada vez mais feio. Tudo bem que já frequentara aquele lugar por diversas vezes, mas isso não significava que não tivesse algum medo escondido dentro de si. As partes escuras eram as piores. Por isso ela viera ao meio-dia, mesmo que algumas nuvens e as árvores densas estivessem atrapalhando a passagem da luz.

Ela não estava lá para roubar. Nem para nada que não fosse apenas curiosidade de criança.

Chegou ao seu destino. Era o lugar mais feio e malcuidado de todo o cemitério, sem dúvida alguma. Parecia que ninguém limpava aquela área havia muito tempo, deixando lixo, folhas secas, fuligem e todo tipo de sujeira reinarem por ali.

A menina se aproximou de uma elevação estranha que se erguia do chão, escondida entre os galhos de uma árvore mal podada. Passou a mão em cima da superfície, retirando uma parte da poeira que encobria o concreto. Encontrara o que queria.

AQUI JAZ CARIETTA WHITE

Vadia. Estava cansada dos apelidos das meninas. Cansada de sofrer por causa dela. Faria alguma coisa para descontar sua raiva.

Mãos à obra.

*

Buenos Aires, maio de 1999

O olhar de Susan Snell não tinha foco. Suas pernas rijas eram as únicas estruturas de seu corpo que realmente estavam exercendo algum comando, enquanto a conduziam da maneira mais automática possível em direção ao seu apartamento, que ficava no terceiro piso do edifício Punta Del Leste. Ainda em frente à fachada do prédio, na rua levemente movimentada, os vidros dos carros que passavam e as vitrines das pequenas lojas refletiam o olhar entorpecido e cansado de Sue, mostrando a ela que os anos estavam passando e não teriam piedade de fazê-la envelhecer.

Trinta e seis anos.

Sue entrou no edifício e passou pelo hall deserto.

Estou com trinta e seis anos.

Sue subiu as escadas, os passos ecoando pelos patamares.

Só faltam mais quatro até os quarenta.

Tropeçou num degrau.

Ela estaria prestes a fazer 36.

Chegou à porta de seu apartamento.

Se estivesse viva.

As mãos ligeiramente trêmulas giraram a chave na fechadura.

Quando a porta se abriu, um odor de comida queimada emanou para fora do recinto. Mais cedo, Sue se descuidara de seu almoço e acabara tendo como refeição apenas macarrão preto e um suco de laranja em pó com gosto de plástico. Agora se lembrava de que tinha saído dali para comprar alguma coisa que compensasse a má alimentação, mas perdera a fome logo que pusera os pés para fora do Punta Del Leste. Decidira então andar a esmo por um tempo, para ver se achava algo interessante em que pensar.

Carrie White foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Junto com ela, veio a lembrança de Tommy. Chris, Billy. A escola inteira. A professora Desjardin. O rei a rainha do Baile da Primavera de 1979: Tommy Ross e Carrie White! Música. Palmas. Ora, quem diria. Ela está vivendo seu maior sonho. Ela está maravilhosa. Não. Espere: aquilo é sangue. Um grito. Risadas. Medo. Choro. Por que vocês simplesmente não me deixaram em paz?!

Sue não estivera presente no momento da chacina, mas os sobreviventes do Baile fizeram questão de contar tudo. Ela desejava não ter ouvido, porém os malditos jornais espalharam a história como se não estivessem fazendo aquilo tudo somente por dinheiro. Na mídia, Carrie White virara uma espécie de galinha dos ovos de ouro. Todos queriam ler a respeito dela, enfurecer-se com seu comportamento de adoradora de Satanás e assassina. Carrie White era uma assassina, e ponto. Não importava se antes ela tivesse sido apenas uma pessoa que sofria na escola, não, não importava se Chris e Billy tivessem metido o nariz no que não era de suas contaas. A culpa era de Carrie, só de Carrie, e ela não merecia perdão porque o perdão não se aplicava às pessoas assassinas.

Sue deitou-se na poltrona da sala. Seu pescoço estava dolorido e pulsante, enquanto ela começava a sentir os primeiros sinais de uma dor de cabeça iminente.

Sentia falta de Carrie. Mais até do que de Tommy. Fazia vinte anos que tudo aquilo acontecera, que Chamberlain vira o inferno subir à terra por uma noite, mas as lembranças ainda eram vívidas. Nem mesmo mudar de país ajudara Sue a esquecer o tão comentado Baile da Ewen High. Não existem remédios para a memória, e ela sabia disso. Mas, embora houvesse o lado terrível da história — o que a maioria das pessoas tomava como verdadeiro —, Sue se lembrava de algo mais.

Às vezes, ao longo dos anos, Carrie aparecia em seus sonhos. Estava com o mesmo vestido do baile de formatura. Sorria, esperançosa, vibrante, a coroa de rainha decorando seus cabelos escovados. Obrigada, Sue! Obrigada, obrigada! Isso tudo que aconteceu... só aconteceu graças à você. Ah, Sue. Em seguida, o cenário se transformava em um banheiro todo branco. Havia muitos chuveiros nele, e nenhuma divisória. Vapor enchia o recinto, tornando as formas de Carrie vagas e pouco definidas. E então ela mudava.

Quando o vapor desaparecia da frente do rosto dela, seu rosto, corpo e vestido estavam todos molhados de sangue de porco. Seu cenho se franzia num movimento confuso, e ela parecia prestes a chorar. Isso tudo que aconteceu... só aconteceu graças a você, Sue.

O sonho acabava aí. Sue acordava instantaneamente, mas não se sentia nervosa ou agitada. Era como acordar de um cochilo breve, de um sono sem sonhos.

Tivera uma única filha. Era de Tommy. Assim que a criança nascera, Sue não conseguira olhá-la nos olhos. Tirem essa criança daqui! Gritara aos enfermeiros, desesperada. Pensaram que ela estivesse ficando louca. E estava, de fato. Até hoje era louca. A criança era linda, maravilhosa, sã e sem nenhum defeito. O defeito estava em Sue.

Entregara a menina a um orfanato.

O nome dela era Carietta Snell Ross.

Hoje em dia, provavelmente, seria uma jovem infeliz e odiada por possuir o mesmo nome que a Adoradora de Satanás.

Ou talvez tivesse trocado o nome para algo mais comum. Um nome que a tornasse invisível. Mary. Ann. Alison. Nomes de garotas comuns. Ninguém saberia que ela era filha de Susan Snell, a menina-piedosa-que-ajudara-a-assassina.

Talvez tivesse se matado, também.

Susan Snell estava longe de Carrie White havia vinte anos. Uma estava viva, outra estava morta. Mas era difícil dizer qual das duas tinha acabado pior.

Cemitério de Chamberlain, maio de 1999

CARRIE WHITE COME MERDA

Só agora as palavras pichadas no túmulo de Carietta White começavam a ficar ilegíveis. Estavam escritas numa caligrafia toda torta e garranchosa, como se a pessoa que tivesse feito aquilo não tivesse um bom domínio sobre o idioma. Chovera muito nos últimos dias, o que colaborara para transformar a tinta inicialmente escura em simples marcas cinzentas e opacas. Uma grande camada de sujeira e folhas secas — ninguém limpava aquele túmulo — também ajudava a esconder as palavras odiosas, quase como se aquela pequena elevação no meio do cemitério não passasse de um banco imundo para os pássaros se acocorarem.

Nenhuma flor, nenhuma foto. As pessoas não queriam se lembrar de Carrie White. As pessoas não queriam ouvir falar naquele nome que se transformara em palavrão, naquele nome que, não importava a circunstância, era tido como um sinal de adoração a Satanás. Ninguém em sã consciência falava de Carrie White porque Carrie White não merecia ser lembrada. Assim era a vida em Chamberlain.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!