O sol brilhava no céu, estava calor, mas duraria pouco, a noite prometia o frio, e em breve o outono e inverno viria em seguida, congelando tudo que tocasse como se todas as flores dormissem por alguns meses, recuperando a beleza perdida durante a neve, nem as gotas d’água que penetravam na terra e tratavam as raízes eram capaz de mantê-las vivas durante esse tempo de extremo frio, as pessoas usavam casacos grossos, toucas e luvas e liam livros perto das lareiras enquanto apreciavam o chá habitual.

Angelique se inclinava para ver as rosas atrás da cerca, estavam lindas, ela não compreendia como podiam morrer tão rápido, o cheiro de chá pairava pelo ar, mas o Earl Grey que ela gostava havia acabado, ela achava aquele cheiro de pêssego meio enjoativo, decidiu que pegaria o sachê de Lady Grey guardado, não era o que preferia, mas era o que tinha. As rosas pareciam tão lindas e serenas naquela tarde quente que ela teve uma ideia que julgou genial, pegaria uma rosa e colocaria num vaso com água dentro do quarto, colocaria alguns cobertores em volta do vaso e assim ela ficaria protegida do frio. É, faria isso!

Ela correu até o jardim e esticou as mãozinhas pequenas pela cerca, tocando uma das rosas que automaticamente desprendeu suas pétalas pelo chão, soltas pela rosa, não era essa que pegaria, afinal já estava morta, pegaria aquele brotinho que viu nascer uns dias antes e que ainda não havia dado flor. Espetou-se com um espinho ou dois, mas enfim conseguiu pegar a rosa. Levantou-se, vitoriosa, correndo até a casa como se a flor fosse sufocar e morrer por passar um minuto sem água e encheu um vaso transparente, mergulhando a flor no liquido da vida.

Naquela noite ela envolveu o brotinho com um casaco e ligou o aquecedor do quarto, observando a rosa bem de perto e até cantou uma musica para ela, diziam que flores gostavam de ouvir música, ela achava um absurdo, afinal, flores não tinham ouvido, mas naquele dia sucumbiu às crendices populares.

Na outra noite fora o mesmo, e no dia seguinte, porém ao terminar seu ritual de London Bridge matinal, notou que a o brotinho estava meio escuro, talvez morrera durante a noite. Em meio a lágrimas ela levou o vaso até a cozinha e deixou sobre a mesa, observando-o por longos minutos, frustrada, quando sua mãe parou em frente a ela e fitou o vaso.

– Angie, querida, o que é isso?

– Eu roubei do jardim. Sabia que estava chegando o inverno e não queria que ela morresse de frio, queria cuidar dela, então cobri ela com cobertores e cantei pra ela todos os dias, mesmo assim ela morreu, por que, mamãe?

– Ah, meu anjo... Escute. – Disse ela a se sentar ao lado da filha. – Tudo um dia morre. As flores, as pessoas, tudo tem seu nascimento e sua morte.

– Até você, mamãe?

– Até eu, um dia eu também me vou e nesse dia, você terá de ser forte.

– Eu não vou deixar você morrer! Eu vou cuidar de você!

– Esse é o problema, querida, não se pode evitar a morte. Como essa rosa, para que ela viva, ela precisa ter uma raiz na terra, água e luz do sol, está chegando o outono, é hora dela morrer, então não importa o quanto você a ame, quanto carinho você dá a ela, é a hora dela, nada se pode fazer.

– Mas mamãe, não é justo...

– Não é, não é justo mesmo. A morte é horrível para todos que ficam, nunca aceitamos que algo simplesmente morra, sempre queremos que tenha um fim melhor, que possamos vê-la com vida mais uma vez, falar com ela, nos sentir próximos a ela... Mas infelizmente, quando a morte chega, nada podemos fazer.

Angelique abaixou a cabeça, pensativa, ouvindo as palavras de sua mãe.

– Mas escute, minha rosa, um dia, quando eu me for, eu estarei com você mesmo assim, acompanhando seus passos, vendo você em tudo que você faz e você vai fazer parte de algo grande, tenho certeza. Eu sempre estarei com você, no seu coração, como a rosa, o vento é capaz de levar suas pétalas, mas nunca será capaz de apagar a beleza que ela tem. Não importa quanto tempo passe, se eu não estiver mais aqui, meu amor ainda estará com você.

Bruce abriu a porta de casa, estava um frio congelante lá fora, esse inverno seria com certeza o pior de todos. Sentou-se no sofá, tentando de alguma maneira se esquentar e observou o chá posto em frente è mesa.

– Sempre pontual, hein Alfred?

– Sempre, senhor.

– Está um frio de matar lá fora, parece que o frio chegou antes do inverno esse ano.

– Eu reparei, senhor, tratei de separar seu casaco para essa noite. O senhor ainda vai, não vai?

– Tenho que ir, essa gangue está movimentando praticamente todo o dinheiro de Gotham.

– Tome cuidado, eu fiquei sabendo que hoje mais cedo um criminoso escapou do Arkham.

– Outra vez? Mas será que eles não aprendem?

– Parece que não.

– Quem foi dessa vez? – Disse Bruce a pegar o chá sobre a mesa.

– O rapaz com várias perguntas.

– Charada.

Alfred assentiu com a cabeça e Bruce assoprou o chá, bebendo um gole da bebida quente, fez silencio por alguns segundos e desviou o olhar a Alfred.

– É o aniversário da morte dela, senhor.

Bruce assentiu.

– Obrigado por me lembrar, Alfred. Fez o que eu pedi?

– Sim senhor, hoje mais cedo levei as rosas ao túmulo dela.

– Eu irei ao cemitério quando ele chegar aqui.

– Ele já chegou, senhor.

– O que?

– Está em seu quarto aguardando.

– Ora, Alfred, por que não me disse?

Ele se levantou, ajeitando as roupas.

– Achei que queria descansar um pouco antes de vê-lo.

– Não é preciso. Vou subir, obrigado Alfred!

Bruce correu pelas escadas, queria ver o rapaz, saber como estava. Girou a maçaneta da porta, empurrando-a e abriu o sorriso de um pai que encontra seu filho depois de tanto tempo fora. Hunter estava no quarto, vestindo um grande casaco preto, observando a foto de sua mãe que estava sobre a cômoda, nunca a havia visto sorrir, até ver aquela foto.

– Hunter! Suas cicatrizes parecem bem melhores.

– Obrigado. – Disse ele a deslizar a mão sobre as cicatrizes nos lábios. – Eu estou cuidando bem, estão cicatrizando melhor agora que parei de costurar todo mês.

– Entendi, era ela quem fazia isso pra você, não era?

– Era sim.

– Hoje faz um ano... – Bruce suspirou.

– Eu sei. Quero visitar o hospital.

– Pedi a Alfred para levar flores para sua mãe. Mas sua irmã… Eu deixei você decidir.

Hunter fez segundos de silêncio e tirou do terno a pequena rosa de metal, feita por ele e nela estava gravado o nome da irmã.

– Fico feliz em saber que você a perdoou.

– Eu prometi a ela.

Bruce assentiu.

– Depois que formos ao cemitério temos que tratar de alguns assuntos.

– Vamos atrás do Charada?

– Com certeza, e da gangue que invadiu alguns bares por aí.

– Falando em bares, abriremos o Wonderland de novo no mês que vem.

– Ótimo, assim teremos um lugar para conversar.

– Sem mais vilões dessa vez.

– Assim seja. – Bruce sorriu. – Acho melhor nos aprontarmos.

– Certo, vamos sair logo antes que lá fora fique mais congelante.

Bruce assentiu e sorriu a ele, pedindo que esperasse no quarto um segundo, deu meia volta e adentrou o closet amplo do quarto, apertando na parede um botão que fez uma passagem secreta se abrir entre duas paredes, ele colocou a mão ali e tirou o cabide com o traje coberto pelo pano negro, tinha sido feito dias atrás. Ele voltou ao quarto e observou o garoto que olhava fixamente a foto sobre o móvel.

– É sua, Hunter, pode ficar.

– Obrigado. Gosto do sorriso dela.

– Espero que goste da roupa, eu mandei fazer há alguns dias.

Bruce puxou o tecido que cobria a roupa e a deixou sobre a cama. Hunter olhou admirado o belo trabalho de sua equipe no uniforme preto e vermelho, o que achou ser em homenagem há Angelique, a capa de mesma cor presa no uniforme e a destacada letra “R” do lado esquerdo do peito.

– Bem vindo à equipe.

– A equipe de dois. – Hunter sorriu e Bruce retribuiu o sorriso, dando sutis tapinhas em suas costas.

–Espera, isso são rosas gravadas?

– São sim, sua mãe gostava.

– Mas são brancas... Ela gostava de rosas vermelhas...

– Bem... Podemos pintá-las.

Hunter desviou o olhar a Bruce e ambos riram da última piada.

Notas finais
Bem, chegamos ao final da minha incrível aventura -n Demorei um ano pra escrever uma fic de cem páginas, deus. Mas bem, obrigada a todos que seguiram, espero que vocês tenham gostado, se não gostaram, podem me matar em pensamento, eu deixo. O que importa é que ainda não acabou. Pra quem gosta da Angie eu ainda farei mais um final alternativo que vou postar em breve (espero) e terei também a coleção de memórias que foram retiradas da fic, retirei porque tinha umas desnecessárias e umas meio tensas demais, mas bem, vou compartilhar com vocês a parte, pra quem quiser ler.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!