A Rainha de Copas

6 Guerra é guerra!


O trabalho exaustivo levava todos a loucura, não só a própria Rainha de Copas, mas também as garotas que com ela trabalhavam. Alguns bocejos aos fundos da boate, entediadas, a noite nunca fora tão fraca. Angelique olhava para a parede vermelha fixamente, sentada num dos bancos do bar, e quase podia ver o vermelho se mexer, pular em sua face, escorrer como sangue a sujar todo o chão como as gotas de vida de uma pessoa que se esvaíam aos poucos.
Porém somente a presença dele poderia tirar o seu tédio. Notou em seu bar, um rapaz que certamente tinha a intenção de pedir uma bebida qualquer, para passar a noite fria de inverno na companhia de uma das garotas ali presentes. Passou rapidamente por um dos garçons e de sua bandeja tirou o drink que nem precisou ver para saber o que era, o que a maioria gostava de beber e colocou sobre o balcão em frente a ele.
– Não sei o que ia pedir, mas é Martini. Me diga, já nos conhecemos?
– Merci, vejo que tem um bom olho pra homens e bebidas... Mas se nos conhecemos? Depende, será que a noite foi boa?
Ela o observou por um pequeno tempo sem dizer nada, tempo suficiente para reparar em cada detalhe de sua roupa, de modo rápido.
– Se tivesse sido boa, eu me lembraria até do seu nome, meu caro. — Murmurou a pegar a taça de vinho, ja colocada sobre o móvel, talvez o pedido anterior dele e bebeu um gole, lambendo os lábios a limpar os restos da cor roxa pelos mesmos.
– Com certeza eu me lembraria também.
Abriu-lhe um pequeno sorriso ao ouvir o sotaque frânces, mesmo que despertasse a si tantas lembranças.
–Enfim, C'est un plaisir. — Ele pegou a mão da garota para lhe depositar um beijo. — Sua recepção é calorosa assim com todos os homens?
– Só com os que me parecem familiares. — Assistiu-o beijar a própria mão e o sorriso novamente tomou conta dos lábios, prolongado pelo batom que ultrapassava os lábios num sorriso permanente. — Moi aussi, Merci. Já veio aqui outras noites?
– Não, primeira vez, devo dizer que o local é bem de meu interesse, principalmente pela companhia. Mas eu recebi um cartão daqui de uma conhecida minha, então resolvi procurar e ver se me agradava.
A garota o observou por um pequeno tempo, novamente em silencio.
– Posso ver esse cartão?
– Aqui está. – Disse o rapaz a retirar o cartão da carteira e lhe entregar, o cartão que na verdade era a própria carta de um baralho de copas, porém, em seu verso possuía o nome da boate.
Ela pegou o cartão, levando-o fronte aos olhos e observou-o a ler o nome do local, porém não expressou reação alguma, somente seguiu a observá-lo.
– Entendo... Seja bem vindo.
– Vejo que esta tão entediada quanto eu, você gostaria de dançar?
Ela o observou, e percebeu instantaneamente que ele não desistiria de si, enquanto não lhe respondesse positivamente. Suspirou e assentiu. Por que não?
Ele estendeu a mão a ela e ela retribuiu o toque, ficando em frente a ele a acompanhá-lo na dança nem lenta e nem rápida pela boate, talvez ignorasse mo ritmo a girar pelo salão sem palavras, apenas encarando um ao outro. Talvez o outro pensasse em como ela era bonita, e em seu sorriso lindo, talvez seu perfume de rosas não passasse despercebido, mas ela não sabia no que pensar. Sua mente era confusa, com mil coisas passando por ela, mil problemas, conversas, horários, talvez vivesse realmente num mundo onde estava sempre atrasada para tudo, teria rido se pudesse a se lembrar disso. Mas pela primeira vez, pode ver nos olhos de alguém a indiferença, não por si, mas pelo fato de ser uma vilã, sabia que ele não poderia saber, mas mesmo assim, era bom se afastar do seu próprio mundo, por um pequeno tempo.

Ao fim da dança, afastou-se do outro e fez uma pequena reverência, cortesia, como sempre existiu e não tinha palavras, todas foram roubadas de seus lábios, mas o silêncio foi quebrado, pela garota que se aproximou, cochichando para si, que o outro rapaz já havia chegado. Foi então que percebeu, ainda estava em seu castelo, no país das maravilhas, e precisava voltar a realidade, ou ao próprio sonho que construíra. Despediu-se com poucas palavras, talvez houvesse apenas pedido licença e se retirou.
Seguiu em direção a porta ao fundo da boate, descendo as escadas, em direção ao próprio quarto, encontrando em frente a porta, ambas as gêmeas, seguranças próprias. As duas tinham estatura média, nem eram muito altas, nem muito baixas, uma delas vestia um vestido branco e a outra, um negro, e os adornos igualmente de mesma cor, a meia com o símbolo de ouros possuía os tons branco e dourado e em sua cabeça, a coroa enorme e branca, em conjunto ao bastão que segurava com um pequeno cavalo no topo, deixando a duvida se aquilo fazia parte de um jogo de cartas ou de um jogo de xadrez. Ela as chamava de Trump Cards, a com o vestido branco, era Heaven, e a com o vestido negro era Hellen.
A rainha fez uma sutil reverência e apenas viu as garotas lhe abrirem passarem para dentro de seu quarto luxuoso, com belas paredes no tom vinho, o lustre em cor dourada e o armário e cômoda eram perfeitamente feitos na melhor madeira que poderia ter, com certeza qualquer um que entrasse ali, veria que era um quarto de classe, se alguém que possui um certo lucro alto com seus serviços.
Os passos eram evidentes pelo barulho do salto que batia contra o chão várias vezes, e pode-se ter a visão escura do homem dentro do quarto, ao fundo, sentado na poltrona ao lado da parede como de costume. A garota aproximou-se do vilão, ponderava um segundo sobre a palavra vilão ter ecoado em sua mente, enquanto tantos o consideravam perigoso, ela o amava e o achava incrivelmente atraente, talvez fosse um vilão por ter roubado seu amor para ele.
– Demorou pra vir me ver.
A risada soou sutil, porém ecoou pelo local com sua natural aparência assustadora.
– Acha que eu posso ficar vindo todos os dias ver você? É raro quando eu consigo sair do Arkham. E não vim só pra saber se você está lavando atrás da orelha, eu preciso bolar algo pra causar o pânico nessa cidade de novo.
– Foi só nisso que pensou quando voltou pra lá?
– Não... Eu pensei também em como poderia destruir o Batman.
– Você só pensa no Batman? Isso é meio estranho.
– Não zombe de mim. Em breve eu farei algo tão grande e tão incrível que qualquer um vai parar pra admirar. A ruína de Gotham.
– Acho que... Você precisa esfriar a cabeça um pouco. Acaba de sair de um hospício, digo, fugir de um hospício, e afinal, não pode ficar pensando nisso o tempo todo. Você pode ficar aqui nesse tempo.
– É, acho que tem razão... – O rapaz olhou para a garota, percorrendo seu corpo com um olhar apenas e sorriu a ela, o habitual.
– Eu posso te distrair. Aliás, eu adoraria.
– É, vamos nos divertir um pouco...
O barulho da lâmina soou alto pelo local, e ela pode ver muito bem quando o outro a retirou de seu bolso, a faca afiada. O sorriso estava exposto nos lábios da ruiva e ficou ainda maior ao sentir os movimentos dele, rápidos e precisos a lhe cortar os cordões que prendiam o corset no lugar e a peça caiu ao chão, assim como o pouco sangue que escorreu de sua pele onde a faca havia passado e um gemido sutil soou pelo quarto, apenas o primeiro.
No andar de cima as coisas eram bem diferentes, o clima ao invés de esquentar, havia esfriado, congelado ao som do primeiro tiro e a voz estridente da garota a adentrar o local, gritando a plenos pulmões.
– ONDE ESTÁ O MEU PUDINZINHO?!
Mais tiros que atingiram várias pessoas dentro da boate. Ela parecia zangada, e com certeza não sairia até achar o que procurava. As garotas surgiram, guarda costas da rainha, que cuidavam do local enquanto ela não estava presente. As garotas eram Vanity, Victoria e Violet, as três vestidas de coelho branco, a roupa comum de trabalho a noite, porém cada uma tinha seu jeito diferente de se vestir. Violet, vestia o collant branco, meia arrastão e salto alto, um colar de relógio antigo junto da gravata ao redor do pescoço e as luvinhas de renda, tinha os cabelos brancos e curtos e usava lentes de contato azuis. Victoria usava uma blusa de manga curta junto do short bom pequenos babados, as meias eram diferentes, uma era branca e a outra num listrado de branco e preto, tinha ao redor do pescoço o colar de cruz gótica e usava sapatos de boneca de salto alto, uma fitinha vermelha ao redor do pescoço que vez ou outra combinava com seus óculos, afinal sempre dissera que lentes a incomodavam, e não podia se esquecer de seus cabelos curtos e brancos que faziam par perfeito com suas orelhas de coelho. Vanity era a favorita da rainha, e também a coelha mais bonita e a mais forte, usava o vestido todo rendado, meia arrastão e botas brancas abaixo dos joelhos, pulseiras que combinava com seu vestido e tinha cabelos cinza claro.
Elas sacaram armas automáticas que carregavam consigo para a segurança do local e puxaram rapidamente uma das mesas a frente de todas, apontando as armas para a garota estranha que usava o collant preto e vermelho, como um bobo da corte. Todas dispararam e abaixaram a se proteger dos tiros que vieram em seguida, a outra não era fraca, apesar de meio lerda. Ela se levantou e novamente gritou.
– Eu sei que vocês sabem onde ele está! Podem ir falando!
E as garotas riram entre si, sem dizer uma palavra e apenas continuaram atirando, atenciosas aos movimentos dela.
Foi então, que pela porta passou o rapaz alto e magro, usando uma máscara branca sobre a face a cobrir somente os olhos. Ele sorriu a observar as garotas e retirou a espada da bainha a apontá-la a garota em pé, reconhecendo-a na mesma hora, Arlequina, uma médica do Arkham que se apaixonou por um dos prisioneiros, e desde então, vem perseguindo-o por onde vai, o famoso Coringa.
– Quem é você? Seu almofadinha?
– Não adianta fazer piadas, eu conheço todas que poderia fazer. Tem muitas mulheres bonitas por aqui essa noite.
Ela riu a observá-lo e apontou as armas a direção dele, atirando várias vezes, porém ele teve tempo apenas de pular para trás do balcão do bar antes que fosse atingido. Ao cessar dos tiros, ele ergueu-se a observar o local, mas antes que pudesse se mover, a garota empurrou sua cabeça contra o balcão, batendo-a contra o local a derrubá-lo no chão, tonto.
Angelique não gostou nada do que ouviu. Foram ordens completamente claras de manter o local em ordem até o fim da noite, e pensou não ser muito difícil de fazê-lo. Em um minuto, já estava amarrando o corset colado ao corpo, que teve de substituir as amarras cortadas. Suspirou e por fim colocou os sapatos, seguindo a gaveta onde pegou a máscara que levou sobre os olhos e a arma ali dentro, carregando-a com as balas.
– Eu achei que tinha sido clara com elas.
Dera alguns passos em direção a porta e pode ouvir a voz da garota no andar de cima, a voz tão conhecida, que detestava tanto. Nada disse e lançou um olhar ao outro na cama, já vestindo as roupas igualmente.
– O que?
– O que ela faz aqui?!
– Ora, eu não sei.
– Eu te falei, que não queria saber dessa vadia.
– Você sabia que fica muito sexy quando está zangada?
Estreitou os olhos.
– Não saia daqui, eu volto logo.
Falou a sair do quarto e fechar a porta, deixando as garotas encarregadas de cuidar do último andar, abaixo do solo.
Subiu, tranquilamente, mesmo a ouvir o barulho dos tiros até que chegasse ao primeiro andar da boate e empurrou a porta dupla que bateu contra a parede, chamando a atenção de todos no local.
– O que diabos está acontecendo aqui? Eu fui bem clara dizendo que eu não queria nenhum tipo de confusão que atrapalhasse essa noite!
– Você, você está com ele?! Onde está o meu pudinzinho?! Me diga, sua vaca!
– Você me chamou de que? Você me chamou de vaca? Quem você pensa que é, sua vadia? Só pra você saber, o seu pudinzinho estava passando a mão em mim agora pouco e não em você.
– O que?! Ah, sua...
Ela ergueu a arma e voltou a atirar, dessa vez em direção a ruiva que apenas abaixou na mesa próxima e se protegeu das balas. A seu lado, as garotas se preparavam para atirar na invasora, quando foram repreendidas pela dona.
– Hey vocês, nem pensam em atirar, ela é minha.
Angelique levantou-se e apontou a arma em direção a outra, porém, surpreendeu-se com o pulo repentino dela sobre si, caindo no chão sobre seu corpo a levar ambas as mãos ao redor de seu pescoço. A ruiva estreitou os olhos e ergueu a arma a tentar bater com a mesma na cabeça da intrusa sobre si, mas estava quase sufocando. Largou a arma e levou as mãos do mesmo modo ao redor do pescoço dela, apertando como pode a sufocá-la exatamente como fazia consigo.
– Sua... Vadia. – Falou abafado.
Ela preparou-se para se virar sobre a garota, tentaria desmaiá-la a bater sua cabeça no chão, porém foi impedida pelo homem desconhecido que arrancou-a de cima do próprio corpo, já a segurar as mãos dela nas costas, prendendo-as com algemas. Tossiu, levantando-se do chão e tentando retomar o ar perdido pela briga.
– Obrigada.
O elogio veio antes de ver quem estava ali, apartando a briga, e era ele, o próprio Batman. Não sabia o que ele fazia ali, muito menos o que estava procurando, mas engoliu em seco por um minuto.
– O que faz aqui?
– Tenho informações de que você esconde um criminoso procurado.
– Um criminoso procurado? – Riu com deboche.
– Alguém deixou isso na policia, — Falou a lhe entregar o bilhete “Foca na rainha” com um pequeno sorriso desenhado em vermelho abaixo. – e bem, ela está aqui. – Falou a apontar a garota presa.
– Desculpe, mas não tenho o que você está procurando. Se quer entendi o bilhete.
– Ela tem sim! Ela está com... – Foi impedida de terminar, pelo choque que levou vindo do outro rapaz no local, de sua espada.
– Sob controle. – Ele disse, recuperando-se do recente golpe na cabeça e de sua tontura.
– Você... Você não é...
Ela cessou a fala, de fato o rapaz mascarado era incrivelmente parecido com o homem que havia dançado a pouco. Não, era ele, definitivamente era ele, mas não poderia dizer, afinal, sua identidade corria perigo. Apenas lhe sorriu e permaneceu em silencio.
– O que você quer? Revistar a minha boate?
Ele assentiu, jogando a garota desmaiada para os braços do outro mascarado.
– Fique de olho nela.
A ruiva suspirou.
– Isso é realmente necessário?
– Não me faça perder mais tempo.
Ela ajeitou os seus cabelos, batendo sobre as roupas a ajeitá-las no lugar e iniciou o pequeno tour pela sua boate, passando por trás do palco, mostrando-lhe a estrutura do local, e as garotas escondidas atrás da cortina, com medo de serem pegas por uma das balas. Depois foi a vez do segundo andar, um corredor escuro com apenas uma luz ao meio, o piso era como um tabuleiro de xadrez preto e branco e dava a apenas uma porta, um escritório, sem nada e nem ninguém ocupando. Por fim, depois de muito tempo enrolando o morcego, atingiram o último andar, parecia ser o mesmo corredor, dando a ilusão de um labirinto sem saída, porém ao fim, duas garotas guardavam a porta. Com passos calmos, buscando atrasar a busca, a rainha caminhou até alcançar seus aposentos, as garotas lhe deram passagem após o pedido e ela abriu a porta, dando a visão de seu quarto enorme e luxuoso, talvez houvesse rezado em silencio antes de entrar, rapidamente. O quarto estava vazio, os lençóis trocados e a cama impecável. Sentiu um misto de satisfação e tristeza ao mesmo tempo, afinal, não gostaria que o outro fosse embora, mas ponderou sobre ser o melhor. No momento.

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Notas finais
Fiquei meio triste pelo Batman ter feito ela largar a Arlequina, sei lá. Acho que ando me apegando demais a esses personagens. haha