A Rainha de Copas
20 Cela 304.
A chuva caía dos céus num ritmo alarmante, era o sinal que todos deveriam se recolher para suas casas. As ruas estariam vazias se não estivessem abarrotadas de policiais, carros e sirenes. Uma ambulância havia parado em frente ao local há alguns minutos, o som era misto de chuva caindo sobre os telhados, sirenes, gritos de oficiais por ali e as cortinas fechadas das casas vez ou outra deixavam escapar algum par de olhos que espiavam por trás de seus esconderijos estratégicos. O que estaria acontecendo? Pode parecer normal, mas não era, ali as pessoas sempre ouviam o barulho de carros de policia, que fazia a ronda pelo bairro pelo menos uma vez por noite, procurando assaltantes, criminosos, homicidas, não era digamos o bairro que as pessoas sonham em morar, ali era um verdadeiro ninho de cobras, porém entre todas as noites, aquela era diferente. Haviam sete carros de policia fechando as ruas, algo de importante estava de fato acontecendo.
A garota abriu os olhos lentamente, recuperando as vistas perturbadas pelo desmaio, ou quem sabe pelas luzes que adentravam o quarto mesmo no ultimo andar, era noite, mas não podia ser a mesma, por quanto tempo dormira? Horas? Dias? Semanas? As sirenes soavam do lado de fora, incansáveis e faziam doer os ouvidos, os lábios estavam secos e sentia nas mãos algo pegajoso, segurava alguma coisa, mas não se lembrava o que era, precisava se lembrar o que havia acontecido, mas ainda estava tudo tão surreal, como se ainda estivesse dormindo em sua cama macia e confortável, estaria morrendo? Porque escutava vozes, duas vozes, talvez em sua cabeça, se misturando, e não podia identificar o que diziam, até que um barulho alto a tirou de seus devaneios.
A polícia abrira a porta num estrondo contra a parede, é claro que já sabiam o que havia acontecido, ou talvez ainda estivessem em dúvida, Gotham era um lugar estranho, mas a policia era tão rápida quanto em qualquer outro lugar. Um dos policiais a puxou do chão, não deram tempo nem para que ela pudesse assimilar o que ocorria, o oficial confiscou a faca que estava ao lado dela, e tudo que ela pode ouvir foram as vozes de ambos, embaralhadas em sua mente, ao menos enxergava tudo nitidamente agora, porém queria sair o quanto antes daquele quarto escuro e ver a luz.
– Gordon? Temos um problema. – Um dos policiais segurava o rádio próximo a porta. – É, o palhaço está morto. Encontramos a garota.
Perturbada e fraca, ela não conseguia assimilar nem onde estava, estava coberta de sangue, e caminhando para a saída, isso sabia, porém o policial segurava seus braços em suas costas e prendera suas mãos com um par de algemas. Tentou dizer que não havia feito nada, mas seria mentira se dissesse.
– Chefe, tem mais pessoas na casa.
– Mais pessoas? Quem está aí?
Um dos policias que subiu, – eram em três ou quatro ela não conseguiu contar – saíra do quarto ao lado onde estava e carregava consigo duas crianças segurando suas mãos. Eram duas crianças pequenas, tinham apenas seis anos de idade. Um menino de cabelos esverdeados e uma menina de cabelos ruivos. Ambos tinham a pele branca como neve, cabelos curtos de quase mesma altura nos ombros e os lábios vermelhos, seus lábios eram repuxados, parecia ser o resultado de alguma cirurgia mal feita ou de um corte muito feio que fora mal costurado com linha preta, um sorriso maligno em rostos de anjos. As lágrimas rolavam em suas faces sem parar, ao ver o corpo estirado no chão e seu sorriso permanente.
– Scarlett... H-Hunter? – A ruiva não tinha nem forças para se manter em pé, mas ao ver seus filhos ali tão próximos, não pode conter as lágrimas que novamente escorreram por seu rosto. Seus filhos estavam a salvo! Ela se moveu rapidamente, tão rápido que o policial não pode segurá-la, parecia ter uma força sobre-humana ao se soltar das mãos do policial e correu até as duas crianças ali paradas, ajoelhando-se diante delas. Ela moveu as mãos, tentando se soltar das algemas, porém não conseguiu, só queria abraçar os filhos pela primeira vez, e nem isso pôde fazer. O sangue não demorou para escorrer de seus pulsos, se movera com tanta força que o metal rompera a pele, e mesmo assim não havia se livrado das malditas algemas.
– Vocês... Vocês estão vivos!
As crianças nada responderam, observaram a mulher ali, de joelhos em frente a eles, mas não compreendiam, não a conheciam, só sabiam que ela havia matado o homem que os criara. Os dois deram passos para trás e se esconderam junto ao policial ali parado, observando-a de soslaio, mas ela não pôde se explicar, e como queria, dizer a eles o que realmente havia acontecido, mas mesmo que dissesse, eram apenas crianças, jamais entenderiam.
O policial que a segurara antes puxou-a para que se levantasse novamente e empurrou-a em direção à porta.
– Andando, senhorita. Terá muito tempo para se explicar no Arkham.
– Não! Vocês não podem me levar! Eu achei eles finalmente! Estão vivos, estão a salvo, acabou, o Coringa morreu, ele é o culpado, eu não fiz nada!
Ela lutou, lutou o quanto pôde, tentou parar os homens, virar-se para ver ao menos o vislumbre do rosto de seus filhos mais uma vez, mas a porta atrás de si foi fechada.
♥
Do outro lado da cidade o céu estava limpo, tudo ocorreu em apenas um dia, e é claro que a manhã viria logo, a noite não era eterna afinal. A chuva havia cessado, nenhuma nuvem estava no céu, mas todos podiam ver que algo estava errado, pois o morcego refletido no céu não mentia.
Gordon estava sentado ali, sozinho sobre o telhado, olhava para o chão, o contrário do que se podia esperar quando a cidade toda estava feliz pela morte de um dos piores vilões. Agora tudo estaria em paz ao menos por um tempo, mas ainda não havia acabado. Ele se perguntava em silencio porque isso ocorreu, porque tinha que haver uma explicação. Coringa não se deixaria matar por um motivo tão inútil quanto esse, por uma garota num prédio abandonado. Tinha que haver algo, alguma peça que estava mal encaixada. Será que Batman apareceria naquela noite?
A resposta veio como um raio dos céus, porque ao seu lado havia pousado o morcego sem que ele nem pudesse notar, como era de seu costume fazer, ser silencioso.
– O que nós deixamos escapar? – Falou Gordon ainda melancólico olhando para o chão.
–Também acho que há algo errado nessa história. Não vejo motivos para comemorar.
– E a garota, ficou sabendo dela?
– Angelique? Já foi julgada uma vez e quase foi presa, dessa vez não tem como salvá-la, vai direto para o Arkham.
– Você é amigo dela, não é?
– Minhas amizades não tem vínculo com meu papel para com a cidade.
– Nós encontramos os filhos dela. Ambos tem seis anos de idade. A garotinha se chama Scarlett, tem cabelos vermelhos e o menino é o Hunter, e tem cabelos verdes. Ambos foram encontrados em boas condições embora estivessem morando com o Coringa num apartamento abandonado. O único sinal de maus tratos estava no rosto deles. Eles tinham cortes nos lábios que atormentaram até a mim que já vi tanta maluquice nesse mundo.
– Eu os vi, os levei até o orfanato.
– Eu sinceramente não acho que o Coringa os tenha criado por algum instinto paternal. Eu acho que ele sabia que sua vida estava chegando ao fim e tinha que fazer alguma coisa para deixar alguém que continuasse por ele.
O silêncio prevaleceu por alguns segundos, até que Batman interveio nos pensamentos.
– Mesmo que esteja certo, as crianças tem apenas seis anos de idade, ainda tem um longo caminho pela frente, podem encontrar bons pais que os eduquem.
– Sejamos sensatos, quem vai querer adotar os filhos do Coringa?
O riso deixou os lábios de Gordon em seguida e descontraidamente ele retirou do bolso o celular com algumas chamadas não atendidas que tratou de verificar no mesmo instante e ligou para o número ali gravado.
– O que aconteceu? ... Como assim as crianças fugiram? Você não deixou ninguém as vigiando? Eu espero que todas as patrulhas dessa cidade estejam atrás dessas crianças se não alguém vai ser demitido hoje!
Batman o observou até que desligasse o telefone, já havia ouvido o suficiente.
– Não sei dizer o que o Coringa planejou, só sei dizer que mesmo morto, ele vai nos dar muito trabalho.
♥
– Olha só quem voltou. Angelique, achei que nunca mais veria você. Veio pra ficar agora não é?
Já estava acostumada com tais brincadeiras imbecis das pessoas que trabalhavam na recepção do Arkham, já havia limpado todo o sangue do corpo, e vestia o ridículo uniforme laranja que achou que nunca iria usar na vida. Já perdera a conta de quantas portas de segurança haviam passado, sem contar que estava no meio do nada e quando se entra no Arkham uma vez, nunca mais se sai ao menos que esteja morto ou fugindo.
– Pra que ala ela vai?
– Ala C, cela 304. Já foi tudo organizado com o pessoal lá dentro, eles já arrumaram a cela, é só destravar as portas.
O rapaz assentiu ao pedido e entregou o cartão ao colega de trabalho, o qual usou para abrir as portas no caminho a guiar a garota até sua cela.
O corredor era interminável, tudo branco e cinza demais, seguro demais. E a garota observava as celas fechadas, abertas somente onde pudessem vigiar os presos. É claro que ninguém manteria nas primeiras alas criminosos como Jonathan Crane – O espantalho – ou Harley Quinzel – Arlequina. Esses eram mantidos em segurança máxima. A garota cessou a caminhada junto ao guarda, ao esperar o elevador, porém observou o local a volta, atenciosa e vislumbrou de longe uma cela conhecida por seus milhares de pontos de interrogação nas paredes.
– Charada...?
– Vamos! Eu não tenho o dia todo. – Disse o homem a empurrá-la para dentro do elevador.
– Não precisa ser grosseiro idiota, estou indo.
– Acho bom não me chamar de idiota, docinho, vamos nos ver por um bom tempo.
– Acho bom não me chamar de docinho, idiota, porque eu posso procurá-lo quando sair.
Ele gargalhou.
– Quando sair? Você acha que vai sair? Você matou um homem a facadas e arrancou o coração dele, sem contar seus antecedentes criminais de ser comparsa de um dos maiores criminosos de Gotham e participar de vários crimes terríveis como a morte de mais de vinte pessoas.
– Certo, não precisa citar a minha lista de crimes, o tribunal já foi mais do que solicito.
Ele riu e assentiu, levando uma das mãos ao ombro da garota e a empurrou para fora do elevador, aproveitando-se já que as mãos dela estavam presas.
Mais um corredor, e mais celas e novamente uma delas chamou a atenção da garota, porém tentou não fazer muito contato visual, não gostava nem um pouco da víbora presa. A garota ao vê-la passar se levantou e aproximou-se do vidro fechado de sua cela, deslizando uma das mãos pela mesma sinuosamente, em movimentos calmos e sutis, usava pouca roupa, como era de costume, e a ruiva nem de soslaio a fitava, sempre achara a outra muito exagerada.
– Ora ora ora, se não é a bonequinha do Coringa. Soube que você o matou, que feio... Eu nunca gostei dele, mas isso não se faz.
A garota estreitou os olhos e fitou-a ao passar por ela.
– Cale a boca, sua vadia, se não vou fazer você engolir todas as suas plantas que você tanto adora.
– Hm, nervosinha.
– Olhe pelo lado positivo, agora você fica livre pra casar com a Arlequina e satisfazer seus desejos lésbicos.
– Maldita! Repita o que disse! Eu vou fazer você engolir a própria língua!
Angelique riu e desviou o olhar.
– Você não pode me atingir crescendo em cativeiro, plantinha.
– Espere só até eu sair daqui!
– Estou morrendo de medo.
E a porta se fechou antes que ela pudesse ouvir alguma palavra vinda da outra.
– Você é bem corajosa hein garota? Da última vez que alguém falou assim com a Hera Venenosa morreu envenenado.
Ela deu de ombros.
– Sou imune ao veneno dela. Nada mais me atinge.
O cartão bateu na máquina presa a parede e a passagem foi liberada.
– Sua ala, princesa.
– Rainha. Eu sou uma rainha.
– Certo, que seja.
A garota pôs-se a caminhar pelo corredor, mesmo assim ainda estava atenciosa às celas, era tudo muito interessante por ali, mesmo que de modo cômico, afinal, estava sendo presa para sempre. O barulho na cela ao lado chamou sua atenção, e como o policial estava indo na frente, viu-se no direito de parar um pouco e analisar quem estava preso ali. Aproximou-se da cela, porém não viu ninguém na cama, nem na cadeira do quarto, estava vazio, ao que parecia, até que algo pulou em frente a ela, observando-a pela janela e fazendo-a dar alguns passos para trás.
– Maldito, você me assustou.
A risada vinda da sala fora abafada e maldosa, como se destruísse seus ouvidos.
– Seja bem vinda aos seus pesadelos, rainha de copas.
Ela sorriu e afastou-se da porta da cela.
– Cuidado.
– Ah! – A garota virou-se, observando o policial e suspirou, havia levado outro susto.
– Desculpe. – Ele riu. – Tenha cuidado com ele, esse aí costuma espetar umas coisas nas pessoas.
– Eu o conheço de outras ocasiões. É o único daqui que me causa calafrios.
Outra risada foi ouvida de dentro da cela e fora a última. A garota andou junto com o policial e ele riu.
– Jonathan Crane. Tudo pra ser brilhante... Nunca vai sair daí.
– A não ser que fuja... De novo.
– Não, agora que o Coringa morreu, acho difícil mais alguém fugir daqui tão facilmente.
– O que?!
A voz soou do corredor, alta, estridente e a garota conhecia muito bem aquela voz, por um momento o instinto foi correr até a cela e esganar a dona da mesma, porém lembrou-se que estava presa com algemas e apenas estreitou os olhos.
– O que você disse?! O que aconteceu com o meu pudinzinho?!
– Cale a boca, Arlequina, sua voz me da vontade de ficar surda.
– Sua maldita! O que você fez com ele?! É verdade que ele morreu então?! Não! Não pode ser verdade! É mentira! Você o seduziu e armou tudo isso pra fingir a morte dele! Ele vai vir me buscar não vai?
– Vai sim, com um pônei voador.
– Hey, eu adoro briga de mulheres, mas é melhor vocês baixarem a bola um pouco. Não quero nenhuma morte aqui hoje.
– Não sou eu que tenho voz de taquara rachada.
– Vou fazer você comer a sua língua!
– Arlequina, supere, seu pudinzinho nunca te amou e sim, ele morreu, eu matei. Finquei uma faca no peito dele e arranquei o coração, eu fui a única que teve o coração dele.
O barulho alto se fez audível no local e a porta se abriu, no fim do corredor estava parada a garota, a expressão furiosa na face e caminhava rápido em direção à ruiva.
O policial tirou o radio do bolso e rapidamente comunicou a central sobre a falha na segurança da ala, o alarme foi ativado e a voz feminina disse em bom tom “Código vermelho, falha na segurança, ala C.” e fora repetido várias vezes, porém logo a luz se apagou. O policial se agarrou a garota e estreitou os olhos, tentando inutilmente ver algo no escuro .
– Droga, cara. Me solte! Não está vendo que se ela me pegar ela vai me matar. Quero poder bater nela também.
– Como diabos ela conseguiu a chave?!
– Me solte! Isso aqui vai ficar um caos dentro de alguns minutos. Vamos.
A luz se acendeu novamente e a ruiva voltou-se à porta de onde a loira havia saído, que agora se mantinha parada, segurando em mãos uma metralhadora.
– Surpresa!
– Ah, que merda.
A loira disparou e a ruiva se jogou ao chão, tentando proteger-se das balas da arma, o policial foi atingido primeiro, então usou-o como escudo para que não pudesse ser atingida.
– Não se esconda de mim, Angelique! Você queria me irritar, conseguiu, agora apareça!
Angelique chutou o policial, e ao notar que ele não se movia o deixou no chão, levantando-se e caminhou abaixada para trás de uma das celas ali.
– Angie! Se mostre pra mim. Está com medo agora?
A ruiva suspirou, tinha que pensar rápido, estava com as mãos presas, a saída estava visivelmente trancada e onde estavam os malditos guardas? Deve ser por isso que era tão fácil fugir do Arkham. Pensou em rir, mas não era a hora certa para isso. Ela se manteve em silencio alguns segundos, precisava pensar, o que fazer? O policial, é ele devia carregar as chaves para soltá-la ao chegar na cela, precisava voltar e procurar algo no policial. Com movimentos lentos ela se moveu pelo chão e observou o corredor livre, a loira fazia muito barulho, não era nada discreta e pelos passos, parecia estar no outro corredor procurando a si. A ruiva tateou o corpo no chão e enfim achou a chave, agradecendo mentalmente e destravou a algema, abrindo-a. Moveu os pulsos um pouco, tentando se acostumar a sensação e voltou a se esconder, andando abaixada em meio aos corredores estreitos da ala.
– Vamos Angie, eu não gosto de brincar assim! Brinque direito comigo! Vem cá, eu vou arrancar seu coração como fez com o meu pudinzinho, e cortá-lo aos pedaços.
Angelique estava com raiva, é claro, qualquer ser humano com capacidade lógica estaria, mas ao contrário da loira, não era de fazer estardalhaço por nada, provavelmente era por isso que o palhaço preferia a ela como comparsa do que a outra, era bem mais discreta. Andou devagar pelo corredor a procura da loira, e ao se virar na entrada de um dos corredores, foi vista por ela que atirou várias vezes, porém atingiu somente o chão.
– Você tem uma mira péssima hein?
– Haha, você não está em posição de ficar fazendo piada, quando eu pegar você, você está morta!
– Eu só sei fazer piada, querida, sou “filha” do Coringa afinal.
A loira atirou novamente, dessa vez sem motivo algum, somente para assustar a ruiva, porém ela se manteve calma e procurou pensar em algo para fazer. A outra avançou e agora procurava fazer silencio para que pudesse achar sua fugitiva.
– Angie? Ora, você já está me irritando. Cadê você?!
Angelique observou-a a adentrar um dos corredores e andava justamente em direção oposta a que estava. A ruiva correu, aproximando-se da loira e passou o braço ao redor do pescoço dela, apertando e a enforcou, tirando todo o ar que tinha nos pulmões, obrigando-a a soltar a arma, porém a loira disparou a arma diversas vezes, atingindo o chão e todos os lugares possíveis, menos a ruiva que tentava acertar. A última bala disparada atingiu sua própria coxa esquerda e só aí ela soltou a arma, caindo no chão e gritou de dor, levando a mão ao local. Angelique caminhou em direção a ela e ergueu uma das pernas, pisando sobre a coxa da garota, no local onde a bala se alojara e estreitou os olhos ao vê-la gritar novamente, contorcendo-se de dor.
– Não me chame de “Angie”. Só uma pessoa pode me chamar assim.
O portão se abriu e três seguranças entraram correndo. Um deles segurou a ruiva e novamente prendeu as mãos dela em suas costas, o outro, abaixou-se e examinou a loira no chão.
– Chamem um médico! Ela levou um tiro!
– E eu ainda achei pouco. – Angelique disse e seguiu o caminho até a cela destinada a ela, acompanhando o novo policial que agora a levava presa.
– Sem comentários garota, você já estava bem ferrada sem ter feito isso. Imagine só agora.
Ela suspirou e pouco se importou com o comentário dele, Arlequina havia procurado e levado o que merecia, as câmeras poderiam provar se quisessem ver.
O barulho da porta da cela ecoou alto por todo o local e fora empurrada lá dentro. Virou-se em direção a porta e esperou que o rapaz tirasse de si as algemas.
– Aproveite seu palácio princesa.
– Rainha... Eu sou uma rainha! – Ela disse a se aproximar da porta e observar o homem que nada disse, somente se virou e foi embora.
– Malditos.
Um suspiro deixou seus lábios, estava farta de fato, só queria se deitar e tentar dormir um pouco, mas sabia que ali não estaria nunca segura, teria de se manter sempre alerta, mas isso era o de menos no momento. Ela se virou e buscou a cama, porém o que viu fora ainda mais surpreendente do que qualquer coisa que passara desde que chegou.
As paredes eram brancas, mas manchadas, outro preso já havia estado ali e deixara suas marcas pelo local. Sorrisos marcavam as paredes com tinta verde, algumas piadas escritas e ao lado da cama algumas letras quase ilegíveis, achou ser um nome, mas não perdeu tempo lendo. Estava atônita. Como puderam, como tiveram coragem de colocá-la ali na cela dele.
Ela se sentou no chão e encostou-se na porta, abraçando as pernas e as lágrimas escorreram pela face. Fechou os olhos e escondeu a face com os próprios braços, não podia olhar, não queria olhar e gritou, o mais alto que pôde, levantou-se e bateu na porta, era mais um de seus ataques, e novamente veio o torpor, tomando conta de si, não podia ver nada a sua volta, só bater na porta com toda a força que pôde. As vozes no corredor vieram logo e a porta foi aberta, mas antes que ela pudesse se atirar para fora o enfermeiro a agarrou pelos braços e pediu a ajuda de um dos médicos para imobilizá-la, colocando-a sobre a cama.
– Não! Eu não quero me deitar aqui! Me tirem daqui! Eu quero sair, não posso ficar aqui!
Eles a seguraram pelos braços e as pernas, e quase não puderam conter a reação violenta da jovem, que não se cansava de se debater, até que os movimentos cessassem aos poucos, com a picada da injeção dada em seu braço. E tudo ficou escuro, novamente seu mundo era só sombras.
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