Algumas ruas longe dali, o pequeno corpo se arrastava pelo chão, com o ruído baixo e sutil, atormentado, afinal, havia aspirado muita fumaça, havia sido um milagre de fato, que conseguisse escapar da casa antes que o fogo consumisse tudo. Agora, tudo que tinha era a visão da fumaça alta a infestar o céu e pintá-lo de cinza. As lágrimas preencheram seus olhos e transbordaram, escorrendo pelo rosto a manchar a pele clara com as gotas doloridas de água salgada. Seus pais haviam sido mortos, e ela não sabia por quem, tudo o que se lembrava era uma sombra, algo não identificado na cozinha, talvez o pânico houvesse apagado qualquer detalhe adicional de que podia se lembrar do incendiário.

Sentou-se no chão, escondida num canto escuro e secava insistentemente as lágrimas da face, suas roupas estavam sujas, e seus cabelos vermelhos tinham os fios emaranhados e cobertos pela escura camada de fuligem solta naquele crime. Os olhos procuraram algum lugar para que pudesse se guiar, e tudo que viu foi os piscas das casas, todas iluminadas, e quase se esqueceu de que era natal, mas agora não importava, afinal, nem tivera tempo de abrir os presentes que seriam abertos pela manhã bem cedinho como fazia todos os anos, já levantava animada, correndo em direção a sala de estar, onde a árvore bem enfeitada se encontrava e mesmo sem esperar seus pais, abria um por um de seus presentes comprados com carinho, as vezes, se quer conseguia dormir na noite anterior, e fora justamente isso que a salvou da morte.

Levantou-se, tossindo com todo seus pulmões e fez um esforço para ficar de pé, apoiou-se na parede e caminhou dificilmente pelos becos escuros daquela cidade atordoada secretamente. Viu pessoas ali, caídas ao chão, sujas e feridas pelo tempo que as envelhecia, o olhar assustado perseguiu todos os corpos jogados ao chão, pela primeira vez podendo ver com os próprios olhos a decadência da cidade, a decadência de um mundo que não fosse por trás das grandes paredes brancas de seu castelo particular. E então ela notou, não havia só adultos, havia também crianças, com suas roupas rasgadas e rostos paralisados, talvez pela fome, ou talvez a apatia e pode pensar que talvez todos os brinquedos que antes tinha somente para si não fosse suficiente para dar um para cada criança ali vivendo nas ruas sujas.

E sabia exatamente como se sentiam, todas elas. Agora o estomago doía de fome, as próprias roupas estavam quase negras pela sujeira e as olhos fundos e assustados demonstravam estar vivendo a pior situação de sua vida.

Decidiu por fim, passar por ali e seguir em frente, procuraria alguém conhecido, porém já não reconhecia mais o local onde estava, viu-se completamente perdida entre paredes negras e sujas, com marcas de tinta mal passada e quase inteiramente pichada pelos adolescentes da cidade em noites frias como aquela, tão diferente das paredes da própria casa, pensou. Cores opostas, vidas opostas, oportunidades opostas.

Perdida em tantos fragmentos de realidade, mal pode ver ou distinguir o que a puxou pela roupa, arrancando o casaco de seu corpo, tudo que pôde fazer foi se virar e fitar o responsável ou os responsáveis por tal ato, e pode ver dois rapazes altos e uma criança, quase do próprio tamanho que agora usava o próprio casaco. Afastou-se com passos rápidos a encostar-se na parede, e pode sentir o arrepio percorrer todo o corpo, dos pés a cabeça. Os garotos tinham o mesmo modo de agir, ambos adolescentes de rua, alguns dos que havia acabado de ver ao passar pela rua fechada.

– O que faz aqui, filhote de rico? – Disse um deles.

– É, nunca vimos você por aqui. Se perdeu dos seus pais, foi?

A garota abaixou-se e sentou-se a abraçar as próprias pernas, sentindo as lágrimas que escorriam pela face, mesmo antes que pudesse perceber.

– Você quer que a gente te leve pra casa?

Não houve mais nenhuma palavra, somente movimentos, e não veio de nenhum dos dois como esperado, os movimentos vieram das sombras, de algum lugar ali ao lado, e foi totalmente inesperado que os punhos da sombra atingissem o rosto de ambos os garotos e atirasse ambos ao chão, porém nada foi preciso fazer com a criança que correu assustada para longe dos possíveis irmãos, ou talvez conhecidos.

A garota levou as mãos aos ouvidos, talvez fosse um modo de se proteger do que acontecia fora do local e se manter numa bolha só própria, e por um segundo, desejou que eles não fossem mortos pela sombra ali presente, afinal, já havia visto atrocidades o suficiente, quando o ser misterioso largou ambos ao chão desmaiados e seguiu passos lentos até ela. Como ela sabia? Ela só pode ouvir, após retirar as mãos do ouvido, o barulho dos passos ecoarem pelo beco, cada vez mais altos e próximos.