A Rainha de Copas

8 A dança da morte.


Já era cedo, ela sabia, mesmo que os raios de sol não pudessem ultrapassar as paredes vermelho sangue. A ruiva suspirou, e mais um dia viria pela frente, difícil, incômodo, como fora o anterior. Ela olhou o relógio, e dessa vez se quer sentiu vontade de levantar da cama, queria ficar ali, o dia todo, e assim faria. Mas algo estava a incomodando, e incomodava muito, talvez fosse a falta dele. Perguntava-se onde ele poderia estar e porque havia sumido durante tanto tempo, principalmente sem dar noticias.

Num movimento lento e preguiçoso, ela puxou o travesseiro ao seu lado na cama e o abraçou, aspirando o cheiro do mesmo e sentia o cheiro dele, onde ele havia se deitado anteriormente e tinha um cheiro tão peculiar que nem ela poderia descrevê-lo, mas para ela, estava longe de ser ruim. O suspiro lhe deixou os lábios e repousou a cabeça de lado na cama, descansando enquanto segurava o travesseiro junto a si, porém como todas as coisas aconteciam por ali, fora interrompida pelas batidas tensas na porta.

– Pode entrar. – Falou baixo, abafado e preguiçoso.

– Senhora! –Falou a garota a adentrar o quarto.

– Ai, calma, Vanity, vai criar rugas.

– Mas senhora, invadiram a boate novamente!

– E o maldito segurança?

– Ele desmaiou... De novo.

– Já está mais do que na hora de eu despedir ele. – Suspirou –O que aconteceu dessa vez?

– Pelo que ele disse, um mascarado o atacou com uma espada esquisita que dá choque.

– Mas o que aquele maldito faz aqui de novo? –Perguntou a si mesma – Eu já vou.

– Ta bem.

Ela suspirou mais uma vez e antes que pudesse se espreguiçar assustou-se com o barulho das cadeiras e mesas no andar de cima. Jogou o edredom para o lado e saiu da cama, quase em uma marcha, sentindo-se obrigada a fazê-lo. “Mas que inferno!” pensou. Ela foi rápida a seguir ao banheiro e fazer a própria higiene pessoal, vestindo-se em menos de cinco minutos e refez o caminho natural até o andar de cima da boate onde encontrou tudo em ruínas, novamente.

Não teve tempo para muita coisa, apenas para abaixar-se antes que uma taça atingisse a sua cabeça, manchando a parede de vinho, ou talvez não a tivesse manchado, afinal tinham quase o mesmo tom. Para sua surpresa, ali estavam os bandidos, que haviam lhe dito que ninguém viria a procura deles, no dia anterior.

– O que está havendo aqui?

– É um maldito vigilante. Como eles descobriram nosso negócio tão rápido?

– Vigilante?

– É, só pode ser! Droga, como ele simplesmente entra pela porta da frente de uma boate lotada de civis?

– Vocês podem por favor me dizer como conhecem o tal idiota? – Ela disse, já furiosa.

– Eu não conheço, mas a descrição bate. Se um maluco anda por aí com uma espada que dá choque,ou é um maluco qualquer,ou é um maluco vigilante! E só pode ser um vigilante, pra entrar aqui um dia depois de termos começado!

– Bom, eu vou falar com ele, espero que se resolvam.

– O que?! É sua boate!

– Vá pro inferno, você não vai me passar a perna, se der merda, eu corto a sua cabeça e coloco numa estaca em frente a boate.

– Mas... Vai deixar um maluco entrar e aprontar o que quiser aqui?

– É óbvio que não. O considerem um homem morto.

– Bom...vocês dois,acompanhem-na e a ajudem a caçar o maluco. Cumpram qualquer ordem que ela der.

Ela seguiu com passos precisos até onde o rapaz estava e cruzou os braços em frente a ele, fazendo-o parar e observar a si.

– O que você quer aqui?

– Quero os criminosos que está escondendo.

– Escondendo?

– Sim, escondendo.

– Não estou escondendo nada rapaz, eu sou transparente.

– Sim, acredito.

– Bom, eu vou pedir o obvio a você, por favor, se retire.

– Não vou sair até me deixar passar.

– Não vou te deixar passar. A porta é logo ali.

Ele manteve-se no mesmo lugar e ela suspirou, já cansada de tantos conflitos.

-Vanity, por favor, mostre a porta para ele.

A garota se aproximou, os cabelos cinzas e as orelhas no topo da cabeça e carregava consigo uma metralhadora. Poucos segundos foram suficientes para que ela iniciasse a sequência de tiros a tentar acertar o rapaz que escondeu-se para que não fosse atingido, enquanto encostada ao canto, Angelique apenas observava. O rapaz saiu de trás da mesa e observou a coelha, a garota iria atirar, porém notou que as balas de sua arma já haviam acabado. Ela estreitou os olhos enquanto tentava carregar a arma o mais rápido possível, mas antes que pudesse terminar, o rapaz havia acertado ela com a espada e lhe dera um choque, fazendo-a cair ao chão e largar a arma. O rapaz colocou-se sobre ela a prender as mãos da garota no chão, porém antes que pudesse lhe dar um golpe final ouviu o pequeno barulho vindo do canto, era a ruiva, batendo palmas a observá-lo.

– Muito bom, rapaz, mas já chega de show. – Disse ela a segurar seu bastão, o qual usava para lutar, era preto e tinha um coração de copas no topo. Não costumava usar armas de fogo, somente se necessário. – É minha vez.

Ele sorriu a ela e largou a garota que foi ajudada pelas outras duas guarda costas próprias. Os rapazes permaneciam ao canto, como estátuas, e passou pela cabeça dela que eles não poderiam ser mais inúteis. O mascarado ergueu a espada a bater sobre a mesa do DJ que ainda tocava uma música e lhe ordenou que mudasse o ritmo para um mais agitado, e o rapaz ali, sem opção, apenas atendeu ao pedido. Ele então aproximou-se da garota ali em pé, de braços cruzados a levar sua espada, empunhando-a.

– Vamos dançar?

Ela riu.

– Ora, já que é assim. – Ela largou o próprio bastão. – Sem armas, não quero brinquedos essa noite.

Ele sorriu a ela, ponderando sobre o pedido e guardou a própria espada na bainha.

– Certo.

A garota aproximou-se, com um sorriso radiante estampado nos lábios e estendeu uma das mãos a ele, que segurou-a a lhe retribuir o sorriso. De fato, ela não esperava que a dança fosse muito diferente da última que teve com um rapaz, mas dessa vez, o queria morto e não atrapalhando os próprios negócios.

Ela levou a mão sobre o ombro dele num gesto sutil e despreocupado, seguindo a música de inicio lento enquanto observava de perto seus olhos castanhos tão bonitos. Ah com certeza, era uma pena ter que matá-lo. O rapaz a observava, sentindo seu inebriante perfume de rosas tão de perto, e quando mais o sentia, mais sentia vontade de terminar aquela dança de outro modo se não com alguns ossos quebrados.

Aos poucos, a música de ritmo lento se tornou rápida e a garota se afastou dele, porém ainda manteve-se próxima. Em passos rápidos ela virou-se a lhe lançar um chute que alcançaria sua face, se não fosse pela reação do outro a se abaixar antes que pudesse receber o golpe, ela era muito espertinha, ele pensou. O movimento dele foi igualmente rápido, mesmo ainda entre a sutil dança e movimentos dos corpos, ele tentou desferir um golpe contra a face da garota, que esquivou-se para a direita a observá-lo, incrédula e negativou utilizando um dos dedos.

– Isso são modos? Não se ataca o rosto de uma dama.

– Nunca ouviu dizer que na guerra e no amor vale tudo, minha querida?

Ela sorriu, porém sentiu o calafrio lhe percorrer o corpo, fazia muito tempo que não ouvia aqueles tipos de apelido, típicos de seu amante desaparecido a dias. Retomou a postura, sem transparecer o real incômodo, como todas as expressões dela, jamais reproduzia realmente alguma emoção em sua face marcada pelo tempo, pelo pouco tempo de vida, mas anos de dor e sofrimento nas mãos de estranhos.

– Você é estranha, Angelique, parece estar sentindo dor, mas não demonstra, sua face parece tão calma e ao mesmo tempo tão angustiada.

Ele disse, e murmurou próximo ao seu ouvido, nem se dera conta de quando ele chegou tão perto, abraçando-a ao redor da cintura a retomar a dança bizarra de ambos.

– E lhe interessa os meus sentimentos? Sou apenas uma vilã que provavelmente vai arrancar a sua cabeça se tiver a chance.

Ele riu, divertido, de fato, ela era apenas uma vilã, mas para si, parecia significar tão mais. Queria descobrir o segredo por trás daqueles belos olhos angustiados e solitários. E era tão linda, como alguém poderia fazê-la sofrer desse modo?

De repente, o rapaz sentiu uma enorme dor ao ter o corpo empurrado contra a parede, quando foi que ambos haviam se aproximado dela? A garota não estava brincando, porque o empurrão foi realmente forte, ele gemeu e voltou a segurá-la pela cintura e a mão, virando-se dessa vez a empurrar a outra contra a parede com a mesma força, ela gemeu do mesmo modo e abriu um sorriso, estendendo a mão a segurar a dele novamente e a apertou entre os dedos, como se fosse capaz de esmagar os ossos, virou-se de costas a levar ambos os braços dele ao redor do próprio corpo e o acertou uma cotovelada no abdômen, fazendo-o cair ao chão, enquanto levava a mão sobre o local atingido, unindo as sobrancelhas na expressão de dor.

– Ora, vamos. Está fraquinho hoje.

Ele se levantou com dificuldade e a observou, estreitando os olhos para a garota que sorriu, com a expressão inocente na face, mas ele já sabia que ela era mortal. O rapaz num movimento rápido puxou-a pela mão, fazendo-a se aproximar do próprio corpo e a segurou junto a si pela cintura, observando-a de perto em passos lentos da música que o DJ já mudara.

– Me diga, senhorita L’croix, o que acharia se eu a chamasse para jantar qualquer dia desses?

Ela riu.

– Parece que não entende a real situação, meu caro.

– Ah, claro que entendo, mas não gostaria de me matar realmente. Sei muito bem que tem conhecimento de golpes melhores do que essa brincadeira.

Ela arqueou uma das sobrancelhas.

– O que quer dizer?

– Quero dizer que também gosta de mim, ao menos um pouco.

Ambos pararam de rodar pelo salão e a garota o observou em silencio, como de costume não tinha nenhuma expressão na face, ela observou-o nos olhos pela segunda vez, os olhos castanho-dourados do rapaz, assim como os cabelos que combinavam perfeitamente com o tom claro e sua face tão branca, e era tão bonito, mas não poderia dizer que gostava dele, tinha outra pessoa em mente, quer dizer, só o teve em mente quando pensou na possibilidade dada pelo outro. Não o vira se aproximar, mas quando deu-se conta, estava em seus braços, prestes a sentir os lábios dele a tocar os próprios e então retornou a realidade. Ela se afastou, num movimento súbito e rápido, porém ainda delicada, soltando-se de seus braços e o observou com a expressão tão confusa na face, mas também estava confusa, e perdida, estava se deixando levar por um galanteador, e isso não poderia permitir. A música cessou, assim como a troca de qualquer olhar, quando a outra se virou após pequenos passos e afastou-se, seguindo em direção a porta ao fundo, e dera passagem ao outro .

Não demorou para que ele retirasse os bandidos, era uma gangue pequena e realizava crimes ridículos e mal feitos, um ladrão de lojas faria um trabalho melhor do que eles. Agora os três estavam desacordados, jogados no banco de trás de uma viatura de policia, mas e a garota? O que havia acontecido com ela? Ele voltou a olhar a boate, tinha vontade de entrar, descer as escadas o mais rápido possível e vê-la novamente, mas sabia que talvez ela não quisesse ver a si do mesmo modo. Talvez ela até amasse outra pessoa. Suspirou por fim e desistiu de qualquer atitude que poderia tomar, seja ela qual fosse, deixaria para uma próxima vez, um próximo dia, se retornasse ali por algum motivo do destino. Mas sabia que se incomodaria por um longo tempo, ou pelo menos até que o aroma de rosas que pertencia a ela, o deixasse.