A Rainha Dourada.
6 Canção.
Notas iniciais
Desde muito cedo Fíli tornou-se um jovem responsável. Quieto, observador, e quase sempre oculto pela sombra do irmão mais novo. Mesmo que fosse herdeiro direto ao trono de Erebor, antecedido por Thorin, pouco lhe restava de atenção, mas não sentia indisposição contra isso.
Na partida de Ered Luin pôde observar Dís entregando a Kíli um amuleto simbólico, runa antiga escrita na língua secreta dos khazad. O irmão sequer mostrou-lhe a pedra, talvez acreditando que pudesse magoá-lo. Ao se despedir, abraçou o corpo trêmulo da mãe enquanto esta lhe acariciava as tranças douradas com cotas nas pontas, que forjara especialmente para a jornada — o símbolo de sua família . Com um beijo na testa, selou seu último pedido ao primogênito:
– Cuide de seu irmão, meu príncipe.
Quando soube que os anões de Erebor se uniriam para reconquistar a montanha, Kíli não obstou em apresentar seu arco em mãos, sem ao menos reconhecer os perigos que viriam a enfrentar. Crescera esperto e forte, mas traços da juventude não podiam ser omitidos de sua fisionomia, tratando de assuntos sérios com pouca maturidade e se deixando envolver facilmente pelo lúdico. Além, é claro, da intensa atração pelas criaturas de Ilúvatar.
De certa forma admiráveis, com seus belos cabelos compridos entre as orelhas pontiagudas, a tez de mármore e os olhos brilhantes, as fêmeas não despertavam interesse maior que curiosidade no jovem anão. Fíli tinha de lidar com a fúria do descaso e abandono através das palavras do tio: ao ter seu pedido de ajuda negado por Thranduil na desolação de Smaug, jurou ódio eterno à raça dos elfos.
Para tal, tornou-se impassível, respeitando, acima de tudo, a opinião de Thorin.
Os anões tinham suas formas peculiares de arranjar-se. Glóin, sendo o único membro casado da comitiva, era considerado o mais experiente para tratar de assuntos conjugais. Porém, raros os anões que se uniam, diante da vontade incessante de obter riquezas através da força do trabalho que se estendia por uma vida. De sentimentos duradouros e inabaláveis, permitir-se-iam viver o amor uma única vez.
Socializar não era um ponto forte do rapaz, o que tentava aos poucos tornar reversível. Por mais que negasse acreditar, em sua inexperiência, sabia que ir até o bar buscar uma caneca de cerveja atrairia a atenção das donzelas do recinto, como se anunciasse que está livre para uma aventura ou, quem sabe, compromisso. Comum até, mas não menos constrangedor.
A bancada reunia mais gente do que seria ideal, ficando impossível se destacar entre os homens de estaturas imensas que muito lhe lembravam o skin-changer Beorn: ombros largos, cabelos escuros e barbas grossas, com tom de pele moreno produzido pelo ofício ao sol. Conversavam alto e alegremente, debruçados e em pé, sempre com a caneca em mãos. Fíli suspirou ao notar que a única maneira de chegar até o servente seria passando entre as pernas dos grandalhões, suas bochechas coradas num misto de raiva e vergonha.
Ligeiro, estreitou-se, acessando com dificuldade uma cepa que servia como assento, muito mais alto que ele. O anão apoiou-se como pôde, tentando subir, sem obter sucesso. Uma... duas... três vezes, a insistência gerando cansaço. De repente, convicto de sua última tentativa, tomou impulso e surpreendeu-se ao sentar, sentindo mãos firmes pressionando-lhe o peito e o empurrando para cima.
Um tanto perplexo, curvou-se abruptamente prestes a cair de costas, enquanto uma garota sorridente tentava segurá-lo. Como estava parecia ser mais alto que ela, em pé a seu lado.
– É melhor que se contenha, meu senhor.
O jovem anão abriu a boca para responder, porém, não conseguiu encontrar a própria voz.
Ao contrário da figura misteriosa de Estérela, o rosto da dama possuía um tom ordinariamente branco, corado perto dos olhos, azuis celestes enlevados por longos cílios. Seus cabelos castanho-acobreados mal chegavam à cintura, impecavelmente lisos, emoldurando-a. Perfeita, como nenhuma outra jamais lhe fora deslumbrada.
Aquele momento permaneceria imutável em sua memória, profunda como rochas.
– Lied! — interrompeu o servente, aproximando-se. — Minha querida, suponho que queira o de sempre...?
– Sim, naturalmente.
– Posso acompanhá-la? — adiantou-se, temendo perder a oportunidade de um diálogo.
– Tem certeza disso? — questionou dissimulada.
Fíli contemplou-a sorridente, virando-se para o homem que aguardava.
– Absoluta. Por favor, o mesmo para mim.
– Está correndo um grande risco, mestre anão! — alertou o outro, adentrando o bar às gargalhadas.
A moça acomodou-se, inversa ao bar, as pernas balançando do lado de fora da bancada. Retirou cuidadosamente a fivela de couro que carregava uma espada e um casco com água, depositando-os sobre a madeira.
– Cada dia mais barulhento e desorganizado! — comentou incrédula, livrando-se do casaco marrom, consideravelmente pesado para a estação atual. — Raro que os camponeses do perímetro não teçam reclamações.
– Sempre vem aqui? — estava realmente interessado.
– É a melhor estalagem da região, — explicou. — e tão logo vai entender o porquê.
– Aqui está, usufruam com sabedoria! — disse o servente num tom brincalhão, já atarefado em limpar estilhaços de vidro.
Fíli ousou dar uma olhada dentro do copo de ferro, balançando-o. A bebida não continha nenhuma viscosidade, e nem de longe parecia alcoólica.
– Saúde! — seu sorriso apenas aumentou, ao notar a expressão perturbada do anão.
– Isso é leite?
– Não me olhe assim, você foi avisado. — interpôs suavemente.
O loiro tomou o copo entre as duas mãos virando-o de uma única vez, sem deixar uma gota sequer.
– Acho que isso deve honrar sua gentileza.
– Minha gentileza?
– Oras, se não tivesse me segurado, provavelmente eu teria ido chão abaixo e seria motivo de zombaria pelo resto de meus dias.
– Ah, sendo assim... — abandonou o copo, oferecendo a mão direita em cumprimento. — Lied, de Windmill Plains.
– Fíli, de Erebor. — imediatamente tomo-lhe a mão num beijo. — Windmill- o quê?
Lied bebericou um pouco antes de continuar:
– A fortaleza de Dragon Forest, o reino onde estamos agora. – esclareceu. — Não estou surpresa que não conheça, afinal, planícies agrícolas não são atrativas para anões, menos ainda moendas de grãos. A propósito, está sozinho?
– Sim, er, quer dizer, não. — Fíli engoliu seco. — Estamos numa longa jornada para retornar ao nosso lar. — aplicou-se para ser o mais discreto possível em suas informações.
– Estamos...?
– Eu e meus companheiros. Ou meus companheiros e eu, para ser mais exato. — corrigiu.
– E eles estão aqui? Anões costumam dar passagem para cá, mas nunca em bando. — falou pensativa. — Vocês devem ter vindo de bem longe mesmo.
– Muito, muito longe.
– Desculpe a brincadeira, espero não tê-lo ofendido. — disse sincera.
– Fazendo-me acompanhá-la com leite?– ele riu. — Oh, nunca fui tão maltratado em toda minha vida.
– Não seja por isso. — ela assoviou alto, um som bem distinguido entre a algazarra de música e conversas. — Jhnór, traga uma caneca generosa de cerveja, de preferência a que tem guardada escondida pra degustação pessoal. — ordenou, dirigindo-se ao servente com ar divertido.
Em recebimento, o outro bufou de incredulidade diante da constatação dela. Ao que parecia, era realmente verdade.
– Aliás, o sabor do leite é diferenciado... — Fíli tentava saborear seus próprios lábios envoltos pelo bigode trançado, um tanto molhado com a bebida.
– Se tenho de passar por essas trilhas, pouso aqui. A filha do dono da estalagem é uma grande amiga minha.
– Estérela?
– Sim, Ester! — Lied ficou ereta diante da demonstração de conhecimento do anão. — Já se conheceram?
– Ela encontrou a mim e a meus companheiros quando nos perdemos perto da fronteira, eu acho. — ele tentava em sua mente reorganizar o espaço para saber exatamente por onde tinham andado. — Eu me lembro de uma mata fechada, muito bela aliás, circundando nosso caminho.
– Greenwood Forest.– explicou a moça. — Outro de nossos reinos. Faz divisa com Dragon Forest, mas as nossas terras são planas e as deles são extremamente montanhosas. Apenas a encosta não significa nada, é um matagal vasto e repleto de criaturas mágicas.
– Você fala como se já o conhecesse... — seus olhos ostentando fascínio.
– Oh sim! — ela parecia animada com o interesse repentino do jovem anão. — Existem muitos eldariens vivendo por lá, alguns até mesmo puros e eternas fontes de conhecim...
– Espere, eldariens?
Lied sustentou sua expressão igualmente confusa.
– Eldariens, os grandes senhores que consolaram essas terras, criados da mesma luz que fez refletir os elfos. Mas de formas peculiarmente distintas, devo acrescentar.
– Perdoe-me, senhora, mas eu não entendi.
– Não é o jeito que você olha que importa, mas sim a maneira como você vê.
Fíli estava prestes a questionar novamente quando um homem, desorientado em demasia, escorregou para o lado deles, derrubando Lied em seus ombros e sobre ela um tanto relevante de hidromel. Estava tão encantado com a beleza física da jovem que não tinha experimentado explorar suas vestimentas. Entreabriu os lábios, exaltado, sem reprimir um longo suspiro. Uma túnica delicada, rica em detalhes de renda e costurada com fios de ouro lhe caia dos ombros até abaixo dos joelhos, acentuando o corpo esbelto. A bota, de mesma cor do conjunto, era de um couro tão aparentemente leve que mal tocava o chão.
– Está tudo bem? — perguntou, recompondo-se. — Ele te machucou?
– Não, não. — arfou em resposta. — Preciso limpar-me, e aproveito a deixa para pedir a Midgard que reserve um quarto para mim.
Ela se pôs de pé num instante, com um certo incomodo em ter que deixá-lo. Sorrindo gentilmente, afastou-se, mas Fíli segurou seu braço, descendo do topo. Teve de erguer o pescoço meio palmo para poder vê-la: não era muito alta aos padrões humanos, sua testa batendo pouco abaixo de seu colo.
– Vou retornar para meus amigos. — declarou. — Tenho esperança de partilhar de sua companhia novamente?
Os olhos azuis de Lied brilharam em resposta, tão afetados quanto os dele.
– Apenas se prometer acompanhar-me na bebida, mestre anão.
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