A Rainha Curvada

1 Desenhos no Chão


Notas iniciais
Olá mais uma vez!!!!
Trouxe uma história bem diferente de Escandalosamente Secreto, e na minha opinião mil vezes mais encantadora!
Embora tenham diferenças gritantes, tudo gira em torno de segredos, traições e injustiças...

Espero que gostem!!!!

Abraços distantes!
E se cuidem!

A mãe de Ella gritava desafinadamente para chamar a atenção da filha. A jovem estava distraída com seus desenhos e não a escutou chamar até que uma furiosa Lucienne apareceu na sua vista.

—Arabella Durmièn, quantas vezes já lhe disse para parar com esses desenhos idiotas e me responder quando chamo? – ela tirou as folhas das mãos calejadas da filha e os jogou no chão. Os lindos e firmes traços desapareceram em meio às folhas e à lama formada pela chuva da noite anterior. – Francamente, garota, não deve ter nenhum cérebro aí! – Lucienne a puxou pelos cabelos e chacoalhou até que ela ficasse de pé.

—Para, mãe, está doendo! – Arabella tentava se desvencilhar da mãe, mas ela era muito forte e quando estava furiosa ficava completamente cega.

—É para doer mesmo! A vida vai te puxar dessa mesma forma! Agora, venha! – ela puxou Arabella para a cozinha nos fundos da casa simples na qual moravam. Soltou a filha subitamente e se virou para a jovem, apoiando-se no lavatório. Alguns pratos se acumulavam ali, cheios de crostas de comidas velhas e emboloradas. – Temos um assunto muito urgente para conversar. E não adianta reclamar! – ela exclamou quando viu que Arabella abria a boca para contestar. – Recebi uma carta do castelo.

—Uma carta? O que eles queriam? – Arabella estranhou. Não era frequente receberem cartas de ninguém, quem diria do castelo. Na verdade, as pessoas não se aproximavam da família Durmièn. Lucienne era temperamental demais, e mesmo o pai de Arabella não tinha como fazer amizade com ninguém por causa de seu trabalho como construtor de carruagens. O ofício lhe consumia tempo e quando Alexander Durmièn chegava em casa só queria passar um tempo com a filha e ter um pouco de paz. É claro que Lucienne não permitia nenhuma das duas coisas.

—Parece que o rei Maximilian dará uma festa como homenagem ao príncipe.

—O príncipe está aqui? – Ella perguntou, tentando soar interessada. Sinceramente ela não se importava com nada que dizia respeito à família real. Apesar de todos em Sussaud viverem financeiramente confortáveis, a futilidade e total incapacidade de se interessarem genuinamente pelo povo irritavam Arabella. Sua mãe os idolatrava, mas Ella e Alexander não davam a mínima.

—Cadê sua empolgação? Sua Alteza é um homem honrado e de princípios, e além do mais...

—Além do mais o que, mãe? Seja direta. – imediatamente se arrependeu por se dirigir à mãe dessa maneira.

Mas Lucienne estava tão animada com a notícia, fosse ela qual fosse, que não ligou para o jeito atrevido da filha.

—A Sua Alteza, o príncipe Antoine, convenceu o pai a dar uma festa e convidar todas as jovens solteiras do reino. E hoje de manhã recebemos isto. – ela abanou a mão no ar, mostrando um pedaço de papel com o timbre real.

—O que seria isto? – Ella perguntou, desdenhosa.

—Isto, minha jovem e tola filha, é a nossa oportunidade de ascender na vida. Quer que eu leia para você ou finalmente aprendeu a ler?

—Eu já sei ler faz tempo, mãe. Não sou como você que se preocupa só com joias e em como desperdiçar o tempo com coisas idiotas feito esse baile.

Foi tudo muito rápido. Ella sentiu a bochecha arder e sabia estar ficando vermelha. Lucienne a olhava com a mão espalmada no ar, os olhos verdes abrasadores e uma expressão de colocar medo até no mais valente dos homens.

—Escuta aqui, garota: — ela se aproximou, cuspindo na filha. – Você vai nesse baile nem que eu tenha de leva-la por uma coleira. Vai ser a moça mais delicada e graciosa, conquistar o príncipe e se tornar a próxima princesa. Nem que para isso precise ir para a cama com ele.

Ella tentou controlar as lágrimas e respondeu: — Mas eu nem o conheço.

—E qual a melhor forma de conhecer um homem ser sem por meio da cama? Às vezes você é tão boba, minha querida. Não me importo se ele terá de força-la e ir para a cama com ele, desde que assim o conquiste de vez.

—Como vou saber se o amo?

—O amor não é o maior dos problemas. Para um casamento dar certo não precisamos amar a pessoa com quem estamos. O baile é daqui duas semanas. Espero que até lá esteja devidamente pronta para assumir uma postura mais adequada para uma moça na sua idade. Quando eu tinha dezessete anos, querida, os homens morriam por mim! – Lucienne ergueu os olhos em uma expressão sonhadora. – Eu, lógico, só tinha olhos para um.

—O papai?

Lucienne franziu o rosto: — Eu nem ligava para seu pai. Ele era um garoto gordinho, vivia com a cara enfiada nos livros... mas Jacques Maloir era meu objetivo de vida. Loiro, cabelos compridos até os ombros, olhos tão verdes quanto os meus, peito rijo e uma bunda... aahh, eu babava por ele.

A mãe de Ella tinha a incrível capacidade de falar o que pensava. Ela nem ligava se iria magoar alguém ou constranger meio mundo, desde que deixasse claro suas pretensões envolvendo homens grandes e de bolsos cheios. Todos em Sussaud conheciam Lucienne, e não existia um habitante sequer que discordasse na seguinte opinião: Lucienne era uma oportunista e interesseira que não amava ninguém, nem a própria filha.

A mãe de Ella parou de sorrir e encarou a filha: — Você tem a chance de mudar tudo, de fazer as coisas que eu não fiz. Arrependo-me amargamente do dia em que seu pai me encantou e resolvi casar com ele. Mas arrependo-me ainda mais do dia em que a concebi. Se eu tivesse feito tudo diferente hoje teria propriedades, dinheiro e joias. Não estaria morando nessa casa no fim da rua mais isolada da cidade, com um marido imprestável que conserta carruagens, mas não tem nenhuma, e uma filha que só se importa em rabiscar. – sua boca virou para baixo, com uma decepção que Ella estava acostumada a presenciar. – Por isso, você vai seguir minhas instruções e garantir que o príncipe só tenha olhos para Arabella Durmièn. Estamos entendidas?

—Estamos sim, mamãe. – Ella abaixou a cabeça, resignada.

—Agora, leia! – Lucienne esticou a carta timbrada e Arabella a pegou, abrindo com cuidado, hesitante.

Cara Mademoiselle Durmièn,

O Palácio Real de Sussaud a convida com muita honra para o Baile Anual em comemoração ao retorno de Sua Alteza Real, o Príncipe Antoine Filaud III.

No dia 26, uma carruagem oficial terá o prazer de busca-la em sua residência quando o relógio bater as vinte horas. Esteja devidamente vestida para a ocasião e, caso deseje, leve um acompanhante.

Esperamos com ansiedade seu comparecimento.

Att.

Vossa Majestade Máxima, o Rei Maximilian Filaud.

—Eu irei com você! – Lucienne avisou, com empolgação nos olhos verdes e as bochechas coradas pela excitação. – Afinal, duas semanas não podem transformá-la em uma dama. Sei como me portar em uma conversa e conheço as pessoas certas, que podem nos levar ao topo da escala social!

—Não sei, mãe. Não estou a fim de ir.

—Já disse que você vai! Vamos agora mesmo lá na Madame Toussaud tirar as medidas do vestido. Depois precisamos passar no sapateiro, estava pensando em um belo par de sandálias prateadas, brilhantes como cristal... e as joias, não podemos esquecer das joias. – Lucienne pareceu se transformar em outra pessoa, não tinha nada da raiva habitual e nem do arrependimento costumeiro pela vida que escolhera para si. – Acho que um belo vestido em um tom vivo de esmeralda ressaltaria seus cabelos negros, ou talvez um vestido azul. – ela disse, examinando Arabella.

—Preferia algo mais discreto, um creme, talvez.

—Ninguém vive para ficar apagado, Arabella. Se não for para chamar a atenção nem saio de casa. Você precisa conquistar o príncipe de imediato, e não há maneira melhor de fazer isso que com um belo vestido e um decote generoso!

—Decote? – Ella inquiriu, preocupada com os planos da mãe.

—Um decote nas costas ficaria estupendo! – Lucienne tremia de empolgação, e Ella teria rido se não soubesse porque a mãe estava tão feliz. Não era por dar um futuro melhor para a filha, era para dar um bolso mais cheio para ela mesma.

—Se é o que você diz... – Ella sussurrou, colocando a carta em cima da mesa da cozinha e cruzando os braços, envergonhada por algo que nem acontecera ainda.

—Pode acreditar em mim! Sei o que é melhor para minha filha. Pode ir agora, mais tarde lhe ensinarei a andar com sapatos de salto. Precisa estar perfeitamente equilibrada. Uma verdadeira dama sabe andar de saltos agulha em cima de uma corda bamba sem virar o pé. – Lucienne fez sinal para enxotar Arabella da cozinha. – Vá! Prefiro ver essa sua cara pálida o mínimo possível. Falando nisso, de hoje em diante vai começar a usar maquiagem.

—Maquiagem? – resmungou, pensando nas horas que gastaria tentando colocar um ruge sem parecer ter levado um tapa na cara. Se bem que, com as bofetadas frequentes da mãe, não precisaria mesmo de maquiagem.

—Sim, senhorita. Maquiagem. Ruge, batom, pinceladas nas pestanas para deixa-las maiores e um brilho suave nos olhos. Se bem que, com esse tom moreno de pele herdado de seu pai fica difícil encontrar cores que te favoreçam. Agora, em mim, com essa pele alva e macia – ela passou as mãos no rosto. – qualquer cor fica boa, ao contrário de você nunca precisei me esforçar para ficar perfeita. – Lucienne a olhou de cima a baixo, desdenhosa. – Por que ainda está aqui? Já lhe disse para sair. – ela apontou com o dedo para fora da cozinha.

—Eu não ia te deixar falando sozinha, mãe. – Arabella falou, confusa.

—Antes me deixar falando sozinha que ficar aqui perto de mim, apagando meu brilho com sua timidez. Trabalharemos isso também. Até mais tarde, Arabella. Cuidarei de minhas unhas. Depois, venha lavar esta louça. Não tenho tempo para afazeres domésticos.

Arabella saiu da cozinha, perdida em pensamentos e inseguranças. Ela preferia ficar em casa, procurando inspirações para seus desenhos na natureza. Não gostava de luxos, de pessoas a olhando nem de jogos de conquista. Era apaixonada pelos livros e pela arte, da mesma forma que o pai. Herdara isso dele. Desde criança sempre gostou de frequentar a biblioteca pública e visitar os museus nos arredores. Lucienne nunca a levava, mas Alexander tinha o maior prazer. Ele era o único que enfrentava a mulher sem sofrer graves consequências. Ella dava pulos de alegria quando ele tinha folgas na semana, pois isso significava longas horas de conversas sobre arte e recitais no Teatro Municipal.

Ella pegou seus desenhos rasgados da grama. Observou cada um da mesma forma como uma mãe observa seu filho. Todos eles eram especiais. Desde pequena tinha o sonho de montar um grande ateliê. Fabricaria roupas sob medida para pessoas de todos os cantos do mundo. Nunca compartilhara o sonho com Lucienne, ela nunca entenderia. Mas o pai a ajudava com pequenos trocados no mês. Às vezes nem esses poucos trocados ele podia dar, pois a esposa gastava com joias e luxos próprios para pessoas abastadas, mas impróprios para eles, considerando a única renda proveniente de Alexander. Ele incentivava Arabella a seguir seu sonho, não importavam as dificuldades, e era esse impulso que a fazia sentir esperança.

Duas semanas se passaram com uma rapidez aflitiva para Arabella. Suas manhãs, tardes e noite eram tomadas com lições de etiqueta. Aprendera a se sentar à mesa e qual talher usar; conseguia andar com qualquer altura de salto e, não estou brincando, Lucienne a fez ficar em cima de uma corda bamba. Ella ralou os joelhos tantas vezes que nem sentia mais dor, até finalmente aprender a andar sem desequilíbrio. O vestido na Madame Tussaud chegaria hoje, e Lucienne estava mais empolgada que Arabella. Haviam escolhido um tom vivo e forte de esmeralda que ressaltara seus cabelos negros e volumosos, no estilo ombro a ombro e com uma cintura marcante delineando seus contornos que ainda floresciam sob a sombra da adolescência.

Os sapatos tinham uma beleza sutil. A sandália de amarrar no tornozelo deixara suas pernas mais torneadas e eram surpreendentemente fáceis de usar. Na tira da frente havia uma pequena abelha, com as asinhas pequenas dobradas como se fosse voar, e pedras minúsculas rodeavam a sola, proporcionando reflexos conforme Arabella andava na sala de estar, mostrando para uma Lucienne não cabendo em si de tanta empolgação. Alexander lia um jornal, mas Ella percebeu que ele lhe dava discretas olhadelas por cima do papel pardo aberto.

—Nunca pensei que diria isso, Arabella, mas está fabulosa! Dê mais uma voltinha. – pediu, avaliando-a. Lucienne também estava bonita. O vestido vermelho de mangas até o meio do antebraço ressaltava seus cabelos quase loiros presos em um meio rabo e deixavam à mostra o colo mais do que seria permitido. Nos pés calçava um sapato fechado da mesma cor do vestido, repleto de minúsculas contas brilhantes. – Incrível! O decote nas costas ficou menor do que eu gostaria, mas está bom!

—Se fosse maior que isso era melhor ela ir sem roupa, Lucienne. – Alexander comentou, não desgrudando de seu jornal.

—Não seria má ideia. O príncipe ficaria chocado! – ela parecia estar falando sério, e Alexander levantou a cabeça, assustado.

—Não só ele. – falou, seco. Suspirou, levantou da poltrona e deixou o jornal onde estivera sentado, andando até Arabella. – Sua mãe tem razão em uma coisa, Ella: está fabulosa. – ele esticou os braços para a filha, e ela segurou. – Não terá nenhuma moça tão linda quanto você, disso tenho certeza.

—Tenho certas dúvidas, Alexander, Ella é apagada demais, tímida demais... se fosse como eu facilmente conquistaria o príncipe, mas temo que ela precisará se esforçar muito mais que as outras garotas.

—Se é tão inteligente e preparada para a realeza quanto diz, Lucienne, como me explica não ter conquistado o príncipe quando teve a chance? – Alexander disse, zombeteiro, mas Ella pressentiu um certo tom de verdade escondido.

Lucienne ficou quieta, engolindo a raiva que lhe subia pela garganta.

Arabella não deixou passar um detalhe, e falou: — O que o pai quis dizer com ‘não ter conquistado o príncipe quando teve a chance’, mãe? Você já foi ao baile?

Lucienne não era de se sentir embaraçada, mas naquele momento abaixou os olhos e encarou o chão enquanto dizia: — Há muitos anos atrás, Arabella. Eu fui o Baile Anual, conheci o príncipe, que agora é o rei, mas ele aparentemente não se encantou comigo. Escolheu uma garota insossa, ruiva e cheia de sardas.

—A rainha Ivny. – Ella falou.

—Sim. – havia ressentimento na voz de Lucienne. – Sinceramente, não sei o que ele viu nela. Um reino não precisa de rainhas boazinhas, e sim de rainhas firmes, que sabem o que querem e correm atrás. Eu estava disposta a tudo, mas depois daquela rejeição fiquei sem chão, por isso resolvi casar com seu pai.

Se Alexander se incomodava com a forma como ela o tratava não demonstrou. Devia estar acostumado, ou também foi de certa forma forçado a casar com Lucienne, não tendo outras opções.

—E sua mãe a apoiava a casar com o príncipe? – Ella perguntou.

—Se a sua avó queria que eu casasse com ele? Pff. – fez um gesto de desdém com a mão. – Ela era uma velha turrona, ah se era, mas tinha convicções. E uma delas era que casar com príncipes dava azar. A coroa é cheia de espinhos, minha tola e jovem filha, não é qualquer uma que está preparada para usar. ‘Não dá para colher uma rosa sem se furar, e também não é possível usar uma coroa sem se machucar com as pontas afiadas’, era o que ela sempre dizia. Claro que, como pode ver, eu não pensava assim.

—Aquela era uma velha teimosa. Você puxou isso dela, querida. – Alexander aproximou da esposa e plantou um beijo em sua bochecha. Lucienne limpou, reclamando:

—Vai acabar tirando minha maquiagem desse jeito! A carruagem já deve estar a caminho. Vamos! – ela empurrou a filha para fora, sendo seguida por Alexander.

—Arabella. – o pai a chamou, parado na soleira da porta. Na esquina da rua ouviram o barulho de rodas contra o cascalho. A carruagem estava chegando.

Ella olhou para a mãe antes de correr para a porta, querendo ouvir o que o pai lhe diria:

—Não importa o que sua mãe pense, filha, você está linda e sei que será a mais espetacular nesse baile hoje. Espero que não siga nenhum dos conselhos de Lucienne, ela às vezes não sabe o que diz. – Alexander colocou os braços nos ombros da filha. Sua pele estava quente contra a pele fria e enregelada pelo nervosismo da garota. – Seja você mesma, e, acima de tudo, pense em sua felicidade. Ninguém é feliz sendo outra pessoa. – ele beijou sua testa. – Eu te amo.

—Também te amo, pai. – Ella quis chorar, mas segurou pelo bem de sua saúde mental. Caso a mãe a visse chorando teria muito mais com que se preocupar que somente o baile.

—Depois me conte tudo.

—Arabella! – Lucienne gritou, observando a carruagem encostar de frente para a casa.

Alexander piscou para Ella, emocionado por ver a filha se tornando uma mulher. – Vá! Senão sua mãe terá um ataque. – ele riu e Arabella se afastou, olhando para trás antes de subir na carruagem, naquela que seria a noite mais importante de sua vida.

Notas finais
Esse foi apenas o primeiro capítulo e ainda tem muito reservado para Arabella!

O que acham que vai acontecer no baile? Ella conhecerá o príncipe? E como Lucienne vai se comportar? Só acompanhando para saber...