A Rainha Bastarda
16 Capítulo 16
DEATH IS THE ROAD TO AWE
Oriane nunca compreendeu os sentimentos que compartilhava com Thomas. Era seu irmão de sangue, mas ao mesmo tempo o era de alma. Sentia como se fosse ele a extensão de seu próprio corpo. Ninguém nunca compreenderia sua mente como ele fazia, como se fossem partes de um mesmo todo, do mesmo tecido. Thomas era mais que seu irmão, e Oriane o amava com sua vida. Entretanto, a relação de ambos parecia chegar a um impasse.
Não havia fraternidade no beijo compartilhado sobre o chão gélido da capela. Thomas segurava-a como um amante, de forma apaixonada, e os anos passados no convento ensinaram-na a diferenciar o casto da luxuria. Em seu quarto, nem a luz da lua a reconfortava, enquanto seus próprios sentimentos lhe reviravam o estomago. “Não tente compreender o que se passa em nossos corações, Oriane. Nossa ligação ultrapassa tudo o que é conhecido.” Ele sussurrou em seu ouvido momentos antes, ao deixa-la em seu quarto.
Então o que poderia a jovem bastarda fazer? Deixar-se consumir por tal sentimento¿ As lágrimas escorriam pela face, enquanto aceitava o cruel destino. Amava Thomas. Por um momento, lembrou-se de sua figura sob o chão da capela. Os olhos sem esperança, a expressão sombria, as mãos restando sobre os túmulos de seus antepassados. Oriane nunca se importou muito com a morte. Desde pequena sempre soube que seu fatídico dia chegaria, logo não via motivos para temer um momento tão final e certo.
Contudo, ao vê-lo de tal forma, ela finalmente compreendeu algo que, em seu coração, sempre soube. Não era sua morte que a angustiava, nem a de seus parentes mais próximos, ou a dos poucos amigos que conservava perto. O único que merecia sua consideração era Thomas. Pensar na segurança de seu irmão mais velho já fazia disparar-lhe o coração. Sabia o quão perigoso era o trabalho que realizava para seu pai, e amava-o mais do que a qualquer outro, mais do que a si própria.
Suspirando profundamente, levantou-se de sua cama. Necessitava alterar o curso de seus pensamentos, ou temia por sua sanidade. A imagem de Thomas lhe tomava a mente. Sua face, os olhos castanhos, os negros cachos de seu cabelo. Os lábios macios, clamando-a como dele. As mãos firmes segurando-a fortemente, como se temesse sua escapada. O tom de urgência no ar, beirando o desespero, devido a fragilidade daquele momento. Oriane nunca se encontrara mais vulnerável, desamparada. Exposta em sua face estava os mais cruéis desejos que habitavam sua carne.
Deveriam lhe causar repugnância, aversão, pensamentos tão lascivos. Mas não o faziam, e Oriane demonstrou-lhe todos para Thomas em seu olhar. Não havia mais nada a ser feito. Seu irmão a trouxe para seus aposentos, em silêncio, e desde então encontrava-se refletindo sobre o encontro de ambos. Tentando encontrar clareza no caos de sua mente. “Não pode ser...” ela sussurrou para si mesma, apoiando as mãos trêmulas na janela, encontrando no espaço físico um equilíbrio que não o fazia dentro de si. “Não posso amá-lo desta forma, não ele.”
Sentiu sua presença antes de ouvi-lo batendo em sua porta. Assustava-se com a sintonia que compartilhavam, como se realmente fossem um. Seus pensamentos, a perturbação em seu espírito, a forma como neste momento, o nervosismo o fazia morder a ponta de seus dedos, chegando a sangrar. Thomas estava consternado, com o medo da perda de seu afeto. Ele hesitou assim que Oriane tomou um tempo mais longo para permitir sua entrada. Ela conseguia sentir em seu amago a ânsia que o assolava.
Encontrava-se atordoada com as emoções que partilhavam, porém, lutando contra a vertigem que a acometia, abriu-lhe a porta, permitindo que entrasse. O alívio que Thomas sentiu ao vê-la foi imediato, trazendo-na para seus braços. “Temi que nunca mais fosse tê-la em minha companhia.” E naquele momento, todas as palavras que uma vez ousaram querer sair dos lábios de Oriane, foram silenciadas. O conforto de seu corpo era a única explicação que a jovem precisava, tudo mais estava certo, desde que o tivesse sempre próximo.
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