Quando eram crianças, Thomas acreditara encontrar em Oriane a alma mais pura que existia. Seus olhos, duas órbitas de um azul vivo, faziam-no crer que existia algo virtuoso na humanidade. Oriane fora seu sol, e ainda o era. Mas agora, quando ele pensava em sua irmã, todas as imagens eram manchadas com o que ambos fizeram. O pecado pesava-lhe o coração, a culpa corroendo-o por dentro. Como pode ter deixado isso acontecer? A única coisa boa em sua vida, corrompida. A vergonha prendia-lhe os pés, impedindo-o de olhá-la nos olhos. Oriane permanecia em sua cama enquanto observava seu irmão, fraca demais para se opor aos sentimentos que lhe queimavam a alma. Mesmo sem compreendê-los, ela não negaria sua existência.

Horas ou segundos se passaram, não sabiam ao certo, até Oriane finalmente levantar, dirigindo-se ao velho baú que se encontrava próximo a janela. Percebendo a movimentação atrás de si, Thomas finalmente voltou o olhar à sua irmã. O sol já estava alto, iluminando todo o quarto, e permitindo-o ver o que fazia a princesa. Nada disse, apenas a observou arrastar o pesado móvel e, retirando a pequena chave que trazia ao redor do pescoço, o abriu. “Nunca deixei de vê-lo como meu irmão. Em todos esses anos, amo-o mais do que fazia quando criança. E sabe por quê? Porque também me amas, Thomas.” Sua voz era calma, traindo a caos que se passava em seu íntimo.

Confuso com as palavras de Oriane, ele se aproximou o suficiente apenas para ver o que o baú continha. Pilhas de papéis acumulavam-se em seu interior, alguns mais velhos do que outros, mas todos eram cartas feitas do mesmo papel. Reconheceu-as de imediato. “Como...” ele sussurrou, incerto sobre a veracidade do que seus olhos viam. “Não pode ser. Não as guardaria por tanto tempo...”. Não havia duvidas em sua mente sobre o que eram aquelas cartas. Ele mesmo as havia escrito, enviando-as à Oriane sem ter a certeza de que a mesma as receberia.

Oriane sempre fora a única pessoa em que Thomas confiava plenamente. Ela era sua confidente, sua fortaleza, e o jovem príncipe nunca passara um dia sem conversar com sua pequena irmã. Com a partida da princesa, a tristeza entranhava-se mais profundamente no coração de Thomas a cada dia. Percebendo a aflição do príncipe, Bertha, uma velha criada do castelo, o aconselhou mandar cartas à sua amada irmã. Ela ofereceu os serviços de seu filho como mensageiro, arriscando sua própria vida ao permitir a comunicação entre os irmãos. As jovens que adentravam no convento eram proibidas de manter qualquer interação com o exterior, a clausura as restringia ao ambiente sagrado do convento.

O filho de Bertha, Aaron, prometeu entregar todas as cartas e encontrar um meio de que as mesmas chegassem às mãos de Oriane em segurança, em troca, é claro, de uma pequena recompensa. Todavia, a princesa não teria como respondê-las, apenas ler. Thomas não tinha alternativa, a não ser aceitar a oferta que lhe fora proposta. Ele escreveria para sua irmã, sem nunca obter uma resposta, ou mesmo ter a certeza de que ela havia recebido suas correspondências. Melhor, entretendo, do que o silêncio que atormentava-lhe a mente. Ao menos havia uma pequena chance de ter suas palavras lidas pela princesa, ajudando-a encontrar consolo.

Durante sua ausência, Thomas lhe escrevera ao menos duas ou três vezes ao ano. Oriane recebera todas as cartas, guardando-as carinhosamente em um baú, que deveria ser utilizado para colocar roupas. “Doía-me não poder respondê-las. O fazia em minha mente, era o máximo que me era permitido. O convento era extremamente rígido, temia ser descoberta e perder esse pequeno contato.” Ela olhava carinhosamente os papéis à sua frente, segurando delicadamente um deles após analisa-lo cuidadosamente. “Lembra-se desse? Um dos primeiros que me escrevera. Encontrava-se poético neste dia, quase me parou o coração.” A doçura em sua voz, o tom de nostalgia, o fez se esquecer dos acontecimentos que se passaram mais cedo.

Ele se aproximou, sentando-se ao lado dela enquanto olhava o baú. Ao ver a carta com a mancha de tinta, imediatamente a reconheceu. Percebendo para onde o olhar de Thomas atentava-se, ela pegou o papel e lhe entregou silenciosamente. Ele segurou com cuidado, como se pudesse queimá-lo com o toque, e leu atenciosamente as linhas, recordando vivamente o momento em que escrevera as palavras que saltavam da folha. A caligrafia trêmula, machas de tinta marcando o papel. “Essa carta...” ele começou a falar, sua voz nada mais que de um sussurro. “A redigi após matar Eleanor. Recordo-me desse dia, de como minhas mãos tremiam, mas o sorriso nunca deixou minha face.” Na carta em suas mãos, Thomas contara a princesa bastarda tudo o que fizera com sua madrasta, com os mais sórdidos detalhes. De como a pele de Eleanor quebrou-se em suas mãos. Do sangue que jorrava com cada corte que ele lhe fazia com o punhal.

Fora uma morte extremamente lenta e dolorosa, assim como Oriane o havia pedido quando partira. Ele não sentia remorso algum pelo o que fizera. “Por quê?” ela perguntou, notando a expressão no rosto do irmão. Surpreendeu-se ao perceber que a princesa não parecia censurá-lo, aparentava estar apenas curiosa dos motivos por trás de seus atos. Thomas voltou-se totalmente para ela pela primeira vez, a garganta fechando-se ao perceber a ternura com a qual Oriane o olhava. A gratidão que sua irmã parecia sentir diante ação tão violenta deixou-o aturdido. “Thomas, peço-lhe que me responda.” Ela sussurrou após segundos de silêncio.

“O fiz por você, Oriane. Faria qualquer coisa por você.” Nunca antes Thomas tivera tanta certeza sobre aquela afirmação. Muitas vezes ele já a dissera tais palavras, mas agora sentia como se realmente fosse verdade. E ela genuinamente acreditava nele. Os escuros olhos de Thomas sempre foram transparentes para Oriane, sua alma exposta dentro do castanho escuro, quase negro, de sua íris. Mesmo com todas as mudanças físicas, seus olhos permaneciam os mesmos. O calor familiar que sentia toda vez que se afundava neles, entretanto, não era mais o mesmo. Era diferente, mais intenso, mas Oriane não se assustou com os novos sentimentos.

Diferente de Thomas, Oriane tinha dezenas de cartas para provar o quanto conhecia o irmão. Através delas, ele lhe contara detalhes de sua vida privada, o que fazia, como se sentia, seus pensamentos, suas preocupações, seus desejos. Thomas não lhe escondeu nada, expondo todos os seus segredos para sua irmã, não importando o quão obscuros fossem. Ela conhecia mais do que ninguém o que se passava em sua mente, então Thomas não lhe era estranho. Oriane acompanhou todas as mudanças sofridas pelo jovem durante a puberdade e o ingresso na vida adulta. Agora, olhando-o nos olhos, ela sabia quem ele era, e continuava amando-o. Mas Thomas não. Ele não teve a oportunidade de fazer parte de sua vida, acompanhar as mudanças e os eventos que pertenceram a sua realidade, e fazem parte de quem ela é hoje. Ele ainda a imaginava como a criança ingênua que fora um dia, e ela entende o choque que foi deparar-se com a mulher que se tornara. Esperava que, mesmo que não fosse a mesma Oriane que fora anos atrás, ele ainda conseguisse amá-la. Ao ouvir as palavras de Thomas, teve de pergunta-lo algo que não saia de sua mente desde o momento que leu a carta. “Inclusive matar alguém? Por quê?”

“Porque a amo, minha irmã.” Ele respondeu simplesmente, o fantasma de um sorriso nos lábios. “Não me arrependo do que fiz, pois foi por amor a você.” Ele finalmente tocou-lhe a face, descansando a mão suavemente contra sua bochecha. Oriane buscou desesperadamente em seu olhar a sinceridade de suas palavras, e relaxou visivelmente ao encontrar o que buscava. A determinação cintilava nos olhos de Thomas, trazendo ao peito de Oriane um calor que nada tinha a ver com o desejo que sentira mais cedo. Era um sentimento diferente, confortante. Amor. Um amor puro e altruísta, que lhe trazia a mais acolhedora das sensações. Como quando era criança e tinha um pesadelo, corria para o quarto de Thomas sabendo que nele encontraria consolo.

Todos os segredos que guardava constringiam-se contra seu coração, machucando-a. Ela precisava livrar-se deles, do sentimento de culpa que lhe atormentava a alma. Precisava contar a Thomas tudo o que se passara nesses doze anos, devia isso a ele. Disposta e enfrentar a reação de seu irmão, ela respirou fundo. “Está disposto a me perdoar pelos pecados passados, Thomas?” Sua voz soou trêmula, mas intensa. Ela segurou-lhe o braço, forçando-o a olhar em seus olhos. “Preciso que prometa, meu irmão, que irá me escutar e tentará, com todo o seu coração, me perdoar pelo o que fiz. E pelo o que tentei fazer. Conheço-te como nenhum outro, mas a recíproca não é verdadeira. Não me conhece, Thomas, não sabe quem sou. Não sei se conseguirá aceitar meu passado, mas independente do que acontecer, amo-te. Saiba disso, amo-te com todo o meu coração, toda minha alma. Sempre o fiz, sempre o farei.”