Notas iniciais
Essa história já foi postada, mas eu decidi reescrevê-la e alterar algumas coisas que não me agradavam. Espero que vocês gostem.

Era uma noite estranhamente fria, o ar gélido entrava pelas janelas abertas e esvoaçava o cabelo da pequena garota que lá estava, olhando apreensiva para o céu. A lua, recoberta por negras nuvens, só fazia piorar seu estado de espírito já atormentado. Inesperadamente, sentiu-se envolta por fortes braços. “Thomas...” sussurrou, reconhecendo-o de imediato.

Ele nada respondeu, apenas continuou abraçando-a. Oriane começou a relaxar um pouco, como sempre a presença de seu irmão a confortava como nenhuma outra. Ela voltou-se para ele, seus olhos buscando-o de imediato. “Diga-me o que lhe aflige” ele disse, a voz suave apesar da preocupação em seu olhar.

“Você sabe muito bem o que é, irmão. Eleanor está dando luz ao novo filho do rei, e logo que essa... criança nascer aquela mulher fará de nossas vidas um inferno!” Ela sussurrou, temendo que alguém os escutasse.

Ele suspirou profundamente, compreendendo a inquietude da irmã. “Sim, eu sei. Mas não se preocupe tanto Oriane, eu lhe prometo que tudo ficará bem. Afinal, sou o filho mais velho e nosso pai nunca mudará isso. Quando eu for coroado rei, nós nos veremos a salvo daquela mulher e de sua prole.” Ele disse enquanto passava gentilmente a mão por seus cabelos dourados, acalmando-a.

“Mas até esse dia chegar Eleanor já terá minha cabeça em uma bandeja de prata!” Thomas riu da irmã, sabendo quanto ela estava sendo exagerada. Entretanto, a verdade era que ele também temia por seu futuro. Todos sabiam que a madrasta deles não aceitava Oriane, uma bastarda vivendo no castelo com as regalias de uma princesa legítima. Ela faria de tudo para acabar com a vida de sua irmã, e agora que estava dando ao rei um filho homem teria controle suficiente sobre seu destino.

“Confie em minhas palavras, Oriane. Nada vai acontecer.” Ele enfatizou com veemência a última parte, segurando firmemente o rosto de sua irmã. Em pensamento, ele fez uma prece a Deus para não estar errado. Não conseguiria suportar algo ruim acontecendo com Oriane. “Eu farei de tudo para protegê-la.”

“Como pode saber disso, meu irmão? Nós não temos controle sobre o destino, e existem coisas que você não pode evitar.” Thomas não aguentava ver a tristeza nos olhos da irmã. Ficou em silêncio por alguns segundos até que uma ideia finalmente lhe veio à mente.

“Já sei como alegrá-la.” Ele colocou a mão sobre seu queixo, forçando-a a olhar para cima. “Que tal se nós fossemos até a floresta amanhã ao nascer do sol? Você precisa de uma distração e sempre se diverte quando estamos lá.”

Oriane estava tão tensa que havia até esquecido as horas que passara com o irmão em uma clareira no meio da floresta. Era um lugar secreto, que pertencia somente a eles, e era onde ambos encontravam um pouco de paz. Os problemas desapareciam quando estavam lá, apenas os dois brincando ao redor da cachoeira. Oriane riu, lembrando-se da vez em que ela o empurrara na água. Thomas ficara furioso, mas logo entrou na brincadeira e eles correram por entre as árvores pelo resto do dia.

Ele a observou atentamente, tentando desvendar o que se passava em sua mente. Na maioria das vezes era fácil, mas ele nunca a vira daquela forma antes, e por um momento quase não reconheceu sua pequena irmã sem o sorriso no rosto. Ele queria ver de novo em seus olhos o brilho que lhe havia sido tirado, substituir o medo por algo promissor. Queria escutar seu riso e a ouvir cantar, e não vê-la presa no quarto consumindo-se em medo e ódio. Oriane era muito nova para nutrir sentimentos tão tóxicos.

“Venha comigo, papai nunca descobrirá. Será apenas você e eu, como nos velhos tempos.” Ela apenas acenou a cabeça, sorrindo um pouco com a persistência do irmão. Era reconfortante saber que ele sempre estaria ali quando ela precisasse.

No dia seguinte, ele a levou até os estábulos onde ordenou que o cavalariço preparasse seus cavalos. No fundo ele sabia o quão perigoso era sair do castelo sem nenhuma proteção. Thomas era o herdeiro ao trono, e muitos queriam usurpá-lo. A forma mais fácil seria extinguindo para sempre a linhagem de seu pai, e certamente começariam por Thomas. Andar sozinho pela floresta era um ato de extrema imprudência, ainda mais se a segurança de sua pequena irmã fosse colocada em risco. Então, sem que ela soubesse, ele ordenou aos guardas que os acompanhassem.

Assim, em segurança, eles partiram. Era extremamente fácil sair pelos portões da cidade com toda a agitação causada com nascimento do novo príncipe, e após alguns minutos chegaram à floresta. “Eu duvido que você seja mais rápida do que eu.” Ele a olhou maliciosamente e Oriane sorriu de volta, aceitando o desafio.

“Veremos, meu irmão.” Ela saiu correndo na frente, e Thomas esperou um pouco antes de segui-la. Oriane sabia cavalgar muito bem, graças ao tempo que ele dedicara ensinando-a, e ela amava ficar em cima do cavalo. Sentir as patas no animal batendo violentamente contra o chão e impulsionando-os para frente, o som dos pássaros, o vento contra o seu rosto e o cheiro forte de terra molhada faziam-na sentir-se livre. Como se nada mais importasse.

Ela ria abertamente, aproveitando ao máximo a sensação, e logo percebeu Thomas ao seu lado. “Irmão!” gritou indignada. Mas logo um sorriso espalhou-se por seu rosto. “Podia ao menos fingir que sou mais rápida, não?” ela tentou fazer o animal andar mais depressa, mas seu cavalo já atingira o limite. Temendo prejudicar sua bela égua negra, começaram a desacelerar, deixando-a descansar um pouco. “Ela está exausta. A corrida exigiu demais de minha pequena Ártemis.”

Ele reduziu a velocidade de seu cavalo, fazendo com que ambos estivessem andando juntos. “Tem razão, é melhor deixa-los descansar. Faz apenas alguns dias que o inverno acabou, então essa deve ser a primeira corrida deles em meses.” Ele acariciou o pescoço de seu cavalo, receoso de o ter ferido ou algo parecido. Mas ele parecia estar bem, e até mais disposto.

Oriane sorriu, vendo-o amansar seu cavalo, e se lembrou de quando ganhara Ártemis de seu irmão. Há dois anos Thomas veio com uma pequena égua e a entregou de presente em seu aniversário. Quando ela pedira um cavalo nunca poderia imaginar que realmente ganharia um, mas seu irmão sempre cumpria as promessas que fazia. Mesmo agora ela ainda sentava-se diariamente ao lado da égua e a alimentava, enquanto penteava delicadamente sua crina. É claro que o serviço mais pesado, como treinamento e a lavagem, era serviço dos criados. Seu pai nunca permitiu que ela o fizesse.

“No que tanto pensa? Nunca a vi tão quieta antes.” Ela ficou confusa com a preocupação nos olhos de Thomas. Por mais inacreditável que pudesse ser, ela estava bem. Tranquila. Até mesmo esquecera-se um pouco de todas as complicações que a esperavam quando regressassem para casa. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele acrescentou. “É muito nova para enfrentar tantos problemas. Tem apenas oito anos, Oriane, deveria se preocupar com suas bonecas. Ou, no máximo, em escolher o vestido ideal para usar no baile.”

“Talvez, se eu tivesse nascido na casa de um nobre qualquer, minha vida poderia ter sido exatamente assim. Na realidade, se o tivesse sido estaria me preocupando com o homem com quem seria obrigada a casar.” Ele ficou em silêncio, reconhecendo que ela tinha razão. “E também, não poderia esperar menos sendo uma bastarda. Todos sempre me culparão pelo sangue que carrego. Meu pai pode até ser o Rei, mas minha mãe continua sendo uma qualquer. Alguns até dizem que ela era uma bruxa e enfeitiçou papai.”

“Você sabe que ele te ama, não precisa se preocupar tanto”. Ele podia até estar certo, mas isso não a acalmava. Pelo contrário, servia apenas para partir ainda mais seu frágil coração, como se estivesse sendo traída por seu próprio pai.

“Nada é mais forte do que a influência de uma mulher, ainda mais quando ela dá ao homem o que ele mais deseja: um herdeiro homem. Mesmo que ele já tenha um, nunca é suficiente. Acredite em mim, irmão, eles matariam por isso.” Thomas virou-se para ela surpreso. “E eu a escutei conversando com suas damas de companhia. O modo como meu nome saía de sua boca, com tanta aversão e repulsa. O que eu fiz para ela, afinal?” Sua voz soava trêmula, mas ela se recusou a chorar. Eles continuaram caminhando lentamente por entre as árvores, Oriane absorta em seus pensamentos enquanto Thomas a observava silenciosamente.