A Rainha Bastarda
9 Capítulo 9
“Ah, é claro, como poderia me esquecer.” Oriane virou-se um pouco para trás, o suficiente apenas para chamar uma moça que se encontrava atrás deles. “Venha, Mairead. Vou lhe apresentar à família.”
Não tinha percebido a jovem mulher que ainda estava montada no cavalo. Ela desceu elegantemente, com a ajuda de um criado, e andou até sua irmã com a cabeça respeitosamente abaixada. “Vossa majestade” ela cumprimentou, reverenciando. O rei pediu para que a mesma retornasse à posição inicial e lhe dissesse quem era. “Meu nome, vossa majestade, é Mairead Lamont.” Ela não disse mais uma palavra, e nem precisava. Pela forma como os olhos de William se arregalaram, ele já sabia quem era a moça.
“Co... Como?” nunca em sua vida Thomas vira o rei gaguejando, indicando que ela realmente deveria significar algo para William. Mairead repetiu seu nome, com todo respeito adequado a situação, mas o rei permaneceu cético. “Você... não, não pode ser. Como encontrou Oriane? Diga-me! Sabe ela quem você é? E não ouse mentir, menina. Se estiver tentando me enganar, pagará com sua vida!” o estado exaltado do rei assustou Oriane, que se desvencilhou de seus braços e posicionou-se frente à moça.
“Sei quem ela é, papai, confie em mim. Ela diz a verdade.” os três entreolharam-se intensamente, e Thomas não aguentou mais sua curiosidade. Percebendo seu irmão aproximando-se, ela explicou. “Ela é mesmo minha irmã, filha de Heather Lamont. Mas creio que a mesma possa explicar sua história, não cabe a mim fazê-lo. Mas peço, meu pai, que a escute. Trouxe-a aqui porque prezo por seu futuro. Ela permaneceu ao meu lado durante todos esses anos, sinto como se a conhecesse desde que nasci.” Dito isso, ela afastou-se dos dois e foi para o lado de Thomas, abraçando-o. Não me pergunte nada, meu querido. Ela disse com o olhar, murmurando discretamente um “depois”.
“Percebo que significa muito para minha filha. Pois, então, dar-lhe-ei a chance de explicar sua historia, menina.” Ele cruzou os braços, em sinal de autoridade. Mas antes que ela pudesse abrir sua boca, ele pareceu se lembrar de algo. “Sabe, recordo-me de você. Com um nome tão incomum, surpreende-me não tê-lo feito antes. Heather me contou uma vez que tinha uma filha, fruto do primeiro casamento. Relatou-me que esta morava a avó desde a morte de seu marido. Mas, diga-me, se essa historia for mesmo verdade, o que fazia em um convento?”
“Asseguro-lhe que minha mãe foi verídica ao relatar os fatos, meu senhor. Com a morte de meu pai, fui entregue aos cuidados de minha avó paterna, que tinha melhores condições de me educar e zelar por minha segurança. Enquanto isso, minha querida e amada mãe, Heather...” apenas Oriane percebeu a voz de sua irmã falhando, e o autocontrole que foi preciso para pronunciar aquelas palavras. Enquanto todos tomaram aquela reação como saudades de um ente querido, Oriane entendeu o verdadeiro significado. Raiva contida. “Minha mãe veio á corte para servir como dama de companhia da rainha, que infelizmente morreu jovem. Mas Heather permaneceu aqui, e então minha irmã veio ao mundo. Infelizmente, minha amada mãe acabou falecendo no parto, fato que fui descobrir meses após o ocorrido. Diante tal tragédia, minha avô, já idosa, padeceu de uma doença, que creio eu seja do coração. Com sua morte, um bondoso convento me acolheu. Sempre soube da existência de Oriane, parte viva de minha mãe.”
Após uma breve pausa, ela continuou. “Diferente do que todos pensam, freiras adoram fofocar, e assim acabei descobrindo que o rei pretendia mandar sua filha a um convento. Investiguei para onde a enviaria, e não foi muito difícil descobrir. Afinal, enfatizando o que fora dito, freiras comentam. Enviaram-me, a meu pedido, para o convento onde Oriane se encontrava. Contei-lhe a verdade desde o começo, e logo viramos grandes amigas. Chegado o momento de nossa despedida, Oriane insistiu para que eu a acompanhasse e viesse morar no palácio, lugar em que teria melhores condições de vida, e, principalmente, liberdade. Conventos são muito rígidos em suas regras. Não conseguindo negar um pedido tão cortês feito por uma pessoa querida, vim respeitosamente, caso me seja concedida a permissão de vossa alteza.”
William suspirou profundamente, a aparência abatida. “Claro que lhe concederei esta permissão, é o mínimo que posso fazer para a filha da mulher que amei. E que teria se tornado minha esposa caso circunstâncias tão infelizes não tivessem tomado curso.” Ficou em silêncio por um instante, recordando-se de tempos passados. “Pois bem, servirá Oriane, já que assim o deseja. Pode permanecer o tempo que for preciso, mas será uma criada, lembre-se disso. Agora, já ficamos tempo suficiente aqui fora, entremos.”
Thomas segurou firmemente a mão de Oriane, e ambos entraram juntos no castelo. Assim que tocou os pés no chão frio, recordações de sua infância aos poucos lhe viam à mente. Uma após a outra, a princesa ia se lembrando das tardes que passara brincando nesses corredores, subindo as escadas. Percebendo a comoção da irmã, Thomas apenas a abraçou. “Fará novas memórias, minha querida. Não se deixe abalar pelo passado.” a verdade por trás daquelas palavras era inegável, então a jovem simplesmente recuperou o domínio de suas emoções, como se toda a perturbação não tivesse sido mais do que uma ilusão.
“Como sempre, tens razão.” Com um amável sorriso, ela prosseguiu sua caminhada até o salão de jantar. Claro que o rei não esperaria sua querida filha tomar um banho depois de tão exaustiva viagem. Óbvio que não, afinal, aquele homem só pensava em si mesmo. Informou Mairead de onde estavam indo, a irritação finalmente aparente em sua voz, tomando cuidando para que seu pai não a escutasse. Calou-se logo depois, sem energias.
“Caso desejar, posso pedir para cancelarem o jantar. Ele se enfurecerá, como sempre, mas não será a primeira vez. Vamos, está muito cansada, Oriane. Não precisa se esforçar tanto nesse jogo, está fazendo bem sua parte.” Quando a princesa não esboçou reação diante seu pedido, ele continuou insistindo. “Por favor, Oriane, ouça a voz da razão. Acabará desmaiando. Quanto tempo faz que não dorme? Se ainda lhe conheço bem, desde antes de viajar.”
“Conhece-me mesmo, então.” ela finalmente sorriu, virando-se para ele enquanto andava “Faz dias. Mas não me importo, preciso convencê-lo, e usarei cada oportunidade possível para fazê-lo. Já perdi anos de minha vida, Thomas. Perder mais algumas horas de sono não fará tão mal assim.” Ela estava decidida, e não havia nada que ele pudesse fazer. Mesmo contrariado, o príncipe acabou cedendo e não disse mais nada. Apenas segurou-lhe pela cintura, oferecendo algum suporte.
Não que Oriane estivesse cambaleante, na realidade seu andar permanecia imperturbável. Mas Thomas sempre soube que a verdade, o que de fato sentia, mostrava-se em seus olhos, e esses revelavam os efeitos do estresse que sentia. Física e emocionalmente, Oriane chegava ao seu limite. Já que ela desejava tanto assim prosseguir com seu plano, ele pelo menos a faria comer o bastante. “Duvido que dormiria agora, de qualquer forma.” Ela murmurou, deixando um pouco de sua vulnerabilidade trespassar em sua voz.
Ele nada respondeu, apenas continuou andando até alcançarem seu destino. Tanto seu pai quanto Mairead, que se encontravam mais a frente, não testemunharam a interação entre ambos. Assim que adentraram o salão, cada um se dirigiu aos seus respectivos lugares. Quando todos os procedimentos formais já haviam se realizado e a comida vinha à mesa, Oriane dirigiu uma pergunta a seu pai. “Meu rei, não pude deixar de notar a ausência de sua querida esposa e rainha, Eleanor. Encontra-se ela bem de saúde?”
Thomas não conseguiu conter o sorriso cruel e discreto que lhe veio aos lábios. Oriane sabia muito bem o fim que levara sua madrasta. Ele havia contado tudo em uma carta que lhe enviara alguns anos atrás, e pela inocência excessiva presente nas feições da irmã, ela lera cada palavra. O rei mostrou-se verdadeiramente abalado, como se transmitir tal notícia à Oriane fosse lhe partir o coração. A cena era cômica. Tanto que Oriane teve de usar todo seu autocontrole para não acabar rindo do rei, e pondo a perder toda sua interpretação. “Eleanor, Oh, minha querida Eleanor. Sua rainha morreu, Oriane. O céu alegra-se com mais uma alma adorada.”
Diante as palavras do rei, Thomas não conseguiu mais conter seu divertimento e disfarçou o riso com uma tosse intensa. Oriane apenas bateu de leve nas costas do irmão, como que para ajudá-lo. “Oh! Mas que horror, meu pai. Uma mulher boa como a rainha, não merecia ter partido deste mundo tão jovem.” a princesa mostrou-se tão sentida que Thomas quase acreditou em seu discurso. Naquele momento, percebeu que não conhecia sua irmã tão bem quanto pensava. Na realidade, não a conhecia por completo.
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