Em poucos minutos eles chegaram ao local desejado. Thomas ajudou-a a descer de Ártemis e amarrou os dois cavalos em uma árvore próxima para que não escapassem. Concluído o trabalho, entrou na clareira e encontrou Oriane encostada em uma árvore, olhando fixamente para o horizonte. Ele odiava vê-la tão distante, tão perdida. Ajoelhando-se ao seu lado, segurou as mãos dela nas suas. Estavam mais geladas do que o habitual, mas ele procurou não pensar nisso.

“Olhe para mim.” Ela fez o que lhe fora pedido, e Thomas não viu nada além de um imenso vazio em seus grandes olhos azuis. “Diga-me, minha pequena, por acaso lhe falhei alguma vez em minha vida? Houve algum momento em que eu não lhe ajudei, não tentei ao máximo tornar as coisas melhores? Não tenha medo, pois eu sempre estarei aqui. Eleanor pode até tentar nos separar, mas eu nunca deixarei seu lado.” Ele olhou para chão, suspirando profundamente antes de continuar. “Também tenho medo, não negarei. Medo de que, agora que nosso pai tem outro filho, tire de mim o que é meu de direito. Eu temo muito por nosso futuro, mas prometo que sempre estarei por perto, protegendo-a.”

Entendendo os sentimentos do irmão, ela o abraçou fortemente. Ele retribuiu o gesto, e eles permaneceram assim por longos minutos, até que ela afastou-se um pouco para poder olhá-lo nos olhos. “Perdoe-me, Thomas. Fiquei tão perdida em minha própria aflição e nem por um momento pensei que também pudesse estar sofrendo. Não tinha percebido que uma coisa dessas pudesse passar por sua cabeça, papai colocando outro que não fosse você no trono. É impossível, e sabe disso.” Ela levou suas mãos até o rosto dele, que começara a lacrimejar um pouco.

Ele suspirou profundamente contra sua palma, deixando que a suave fragrância misturada ao cheiro das árvores o tranquilizasse. “Não conhece nosso pai, Oriane. Ele sempre a tratou muito bem, afinal você é sua pequena garotinha. Ele te ama, minha irmã. E também amava muito sua mãe.” Ele olhou para baixo, com vergonha de revelar seus sentimentos, mesmo sabendo que estariam seguros com ela. “Mas comigo, foi diferente. Ele sempre exigiu demais de mim, e mesmo que eu atingisse todos os objetivos nada estava bom para ele. Eu estudei e treinei tanto para me tornar o melhor, para provar que eu poderia ser um rei digno, mas ele nunca levou minhas tentativas em consideração.”

Ele tentou se acalmar, já sentindo as lagrimas invadindo seus olhos. Queria ser forte, e não desabar na frente de Oriane, mas ela continuou com as mãos em seu rosto e disse suavemente. “Pode chorar. Confie em mim, ajudará. Não se sinta fraco por isso, Thomas. É normal, honroso até.” Ele deixou que ela o consolasse e deitou em seu colo, as mãos dela acariciando suavemente seus cabelos.

“Mas eu vou continuar tentando, de que adianta desistir agora? Um dia ele verá o quão bom filho sou, e sentirá orgulho de mim.” Ele concluiu, sorrindo triunfante. “E quanto a você, não tema. Ele te ama, e nunca vai permitir que sofra.” Ela simplesmente sorriu, fingindo acreditar em suas palavras.

Oriane sabia que seu pai a amava. Se não o fizesse, ela não estaria aqui. Mesmo sendo uma bastarda ele sempre a protegeu e deu a chance de ter a melhor comida, a melhor roupa, as melhores criadas, e quase todas as noites quando era menor ele vinha até seu quarto lhe dar um beijo de boa noite. O rei sempre ofereceu à sua filha tudo o que ela desejasse, e até mesmo permitiu que ficasse no palácio com ele, um privilégio incomum para filhos bastardos.

Tudo mudou, porém, quando William viu-se obrigado a casar novamente. Sua primeira mulher Jane, mãe de Thomas, morrera a muito tempo, antes mesmo do nascimento de Oriane. Quando o rei começou a se envolver com a mãe dela, uma mulher desconhecida pela corte, Jane já havia falecido há quase um ano, tendo tirado a própria vida no momento em que seu filho mais precisava.

Cinco anos depois do nascimento de Oriane, o rei foi aconselhado a desposar uma nova rainha. Diante de tal situação, ele se casou com uma mulher ligada à família real espanhola. Eleanor era seu nome, e assim que entrou no castelo colocou seus olhos sobre a pequena Oriane. Ela sabia o poder que a menina exercia sobre o pai, o modo como ele se derretia sempre que ela sorria ou lhe fazia algum pedido.

“Eu a escutei através das portas. Ela jurou que um dia teria meu sangue.” Thomas olhou para sua irmã, e soube que ela não estava mentindo. “Disse que não suportaria seu filho vivendo sobre o mesmo teto que uma bastarda, e muito menos ser desfavorecida por minha causa. Não é possível que ela me inveje, irmão.”

Thomas continuou em seu colo, olhando-a atentamente. Oriane não estava magoada, apenas com medo das ameaças que recebera. “Não se preocupe, ela não fará nada.” Ele acreditava em sua irmã, mas sabia que nada lhe aconteceria. Não enquanto ele estivesse ali. “Depois que essa criança crescer e ganhar atenção suficiente, ou mais do que suficiente, de nosso pai, ela se acalmará. Tenho certeza.”

Era difícil acreditar em suas palavras, mas ela nunca duvidara dele antes. Suspirou lentamente antes de acrescentar. “Talvez esteja certo.” Ele levantou a mão, acariciando a testa dela. Tanta preocupação ainda a deixaria enrugada. Ela sorriu, agradecendo pela atenção que ele sempre lhe dera. “Venha, você me prometeu fazer esquecer aquela mulher. E ficar conversando sobre ela não é exatamente a melhor distração.” Ela levantou e puxou sua mão, fazendo-o ficar em pé.

“O que eu faço com você, 'Ane?” ele riu observando-a correr até a cachoeira. “É melhor não entrar aí, lembra o que aconteceu da última vez? Papai quase me matou por tê-la deixado ficar doente.” Ele disse andando lentamente até ela, que estava sentada olhando para seu próprio reflexo na água cristalina.

“Sim, mas valeu a pena. Aprenda a viver, meu irmão! Um dia ainda se arrependerá por ter passado tantas horas com aqueles livros.” Ela disse, estendendo a mão para ele. “Venha.”

Ele sorriu ainda mais, pegando sua mão. Oriane começou a girá-los e ele segurou firmemente em sua cintura, temendo que ela caísse e acabasse se machucando. Mas Thomas adorava vê-la sorrindo, e acabou entrando na brincadeira. Ambos ficaram girando e girando pela grama, a luz do sol iluminando seus rostos, até que a tontura fez com que Oriane caísse no chão e levasse Thomas junto. Ficaram alguns minutos no chão, rindo por absolutamente nada, e nunca antes ela se sentira tão feliz, tão livre.

“Obrigada.” disse depois de conseguir controlar seu riso, saindo de cima de Thomas para que ele pudesse respirar. “Por ter me trazido aqui. Eu adoro esse lugar, sabia?” Ela virou-se de barriga para cima, olhando distraidamente para o céu. “Lembra-se da primeira vez que achamos esse lugar? Eu queria ficar aqui para sempre, mas infelizmente fomos obrigados a ir. Então, para me alegrar, você prometeu que me traria de volta sempre que eu quisesse.” Ela voltou-se para ele novamente, sorrindo com a lembrança.

“É claro que eu me lembro. Você tinha seis anos, no mínimo, e era a primeira vez que saíamos sem que papai estivesse por perto. Acabamos nos perdendo e achamos esse lugar.” Ele olhou em volta, satisfeito em ver que tudo permanecia igual. “A surra que levamos ao chegar em casa valeu a pena.” Ele se lembrava dessa parte como se fosse ontem. Quando ele finalmente a convenceu a voltar para o castelo e eles chegaram em casa, William estava furioso. Thomas conseguira salvar Oriane, para que sua punição fosse reduzida, e tomou quase tudo para si.

“Não me faça pensar nessa parte.” Ela sussurrou, sabendo como ele tinha sofrido por causa de sua teimosia. “Mas deixemos o passado no passado.” Ela sorriu novamente, tentando dissipar o ar tenso que se formara de repente.

“Claro.” Ambos ficaram deitados, virados um para o outro enquanto conversavam silenciosamente sobre seus medos e preocupações. Eles conseguiam se comunicar facilmente sem que nenhuma palavra fosse dita. Depois de anos de convívio, palavras não eram necessárias e eles usavam apenas seus olhos e a linguagem corporal. Ele sabia que ela estava escondendo algo quando deixava suas mãos para trás e não o olhava nos olhos, para que seu corpo não a traísse. Da mesma forma que ela sabia quando ele não estava sendo sincero. Talvez o fato de terem o mesmo sangue os ajudasse a ficar em sintonia.