A Rainha Bastarda
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Thomas encontrava-se estonteado, as palavras perdiam-se antes de alcançar seus lábios. Com um último e profundo suspiro, rendendo-se aos desejos de seu coração, fez a única coisa que lhe parecia plausível naquele momento. Beijou terna e castamente Oriane, indo contra tudo o que acreditava ser certo e moral. Mas o que poderia fazer, quando ela olhava-o tão perdida, tão vulnerável. Tão diferente da mulher que vira no dia anterior. “Encontraremos um jeito, minha irmã.” Queimou-lhe a garganta proferir tal juramento sem ter certeza, entretanto, precisava acalmá-la. “E quanto a estes outros segredos, creio que possam esperar. Temos que descer agora, estou certo de que nosso pai nos espera.”
Oriane olhou-o profundamente, esforçando-se para descobrir o que se passava em sua mente. Ao ver refletido em seus olhos o mesmo amor de outrora, permitiu um sereno sorriso escapar-lhe aos lábios. “É o que espero, Thomas” ela sussurrou, não suportando chamá-lo de irmão. Não depois do que fizeram, não com imagens vívidas de seus beijos ainda lhe atormentando a mente. “Mas é melhor irmos, já permanecemos neste quarto por muito tempo. Daqui a pouco podem começar a desconfiar.”
As palavras mal saíram de sua boca quando ouviram uma comoção do outro lado da maciça porta de madeira. “Tarde demais.” ela mal ouviu Thomas sussurrar, o sangue congelando em suas veias, impedindo-a de perceber o que se passava ao redor. Com a atenção concentrada na porta e a respiração presa na garganta, não puderam fazer nada contra a criada que entrava no quarto. A pobre jovem, ao ver a cena que se passava em sua frente, parou estática. O príncipe e a bastarda juntos na cama, os lábios inchados, o olhar lacrimejante de Oriane, os cabelos desarrumados. Não precisava muita imaginação para perceber o que se passara entre os dois.
“Perdoe-me, senhora.” Com apenas um gesto de Oriane a mulher saiu apressadamente, temendo alguma punição. Thomas e sua irmã entreolharam-se preocupados, entendendo a dimensão do que acontecera e suas prováveis consequências. A criada, nunca antes vista por Oriane, certamente não demoraria a recontar a cena presenciada, e logo toda a corte saberia. O que faremos? ela pensou, o coração restringindo-lhe o peito.
“Acalme-se, minha irmã. Basta que neguemos tudo que saia da boca desta criada. É uma serva, afinal, nosso pai nunca tomará a palavra dela contra a nossa. Quanto à corte, bem, ignoremos. É o máximo que podemos fazer. Ignorar e esperar que outro escândalo lhes chame a atenção.” Thomas a abraçou, confortando-a. Ele sempre a fazia se sentir em paz quando algo lhe atormentava a alma, desde pequenos. Alegrava-se ao perceber que nada mudara.
Desejava permanecer para sempre nesta posição, mas temia aumentar a imaginação da corte sobre o que ocorria por trás das portas de seu quarto. Separaram-se, contra a vontade de ambos, e se dirigiram até o salão para o desjejum. Assim que acabaram, Thomas despediu-se de sua irmã cordialmente, e partiu. Ele não a olhou ou tocou durante todo o tempo que permaneceram na presença de outras pessoas, com receio de que os criados vissem e o escândalo fosse ainda maior.
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Thomas permanecera o resto do dia ausente, longe da companhia de sua irmã. Ela iludia-se, dizendo a si mesma que ele estava ocupado demais com assuntos mais importantes. Mas no fundo, sabia que nada mais seria o mesmo depois da noite anterior. Respirando profundamente, controlando as lágrimas que teimavam em arder-lhe os olhos, Oriane continuara caminhando por entre os jardins do palácio. Sempre confiara nas árvores a árdua tarefa de melhorar seu espírito, mas naquele momento nem mesmo o suave balançar das folhas lhe acalmavam o pulso.
“Paisagem demasiadamente selvagem para um jardim, não? Sempre imaginei os jardins do rei como aqueles na França.” Escutou Mairead comentar, aproximando-se com cautela. Oriane não se voltou para cumprimenta-la, permanecendo sob uma árvore qualquer, de costas para a pessoa que se aproximava. A jovem iria repetir sua fala, acreditando não ter sido ouvida, quando Oriane finalmente se virou.
“E já fora a França, minha irmã?” debochou, rindo da expressão no rosto de Mairead. “Não fique ofendida, era apenas uma brincadeira. Mesmo que, no fundo, saiba da veracidade contida em minhas palavras.” Dito isso, ela voltou a sua posição inicial, olhando fixamente um ponto distante no horizonte. Mairead postou-se ao seu lado, tentando chamar a atenção de sua irmã. Após alguns segundos sem sucesso, já estava começando a temer pela sanidade da princesa.
“Nunca a vira com humor tão vil antes, Oriane. Os ares de Londres não lhe parecem fazer muito bem.” A sinceridade na voz da irmã a comoveu, impedindo-a de proferir qualquer comentário maldoso que, por ventura, lhe viesse aos lábios. Apenas acenou a cabeça, deixando toda a frustação que passara o dia reprimindo finalmente fruir. Mas não choraria. Não, guardava tal vulnerabilidade apenas para os olhos de seu irmão presenciar.
“Sim, Mairead. Os ares de Londres são mais eficientes em sufocar-me que o mais forte dos venenos.” Ela finalmente falou, elevando os olhos para a vasta imensidão do céu, cobertas por nuvens espessas. “Mas temo que não mais letal.” Sem compreender as palavras enigmáticas de sua irmã, Mairead permaneceu observando-a minuciosamente, esperando algum esclarecimento. “Matar-me-ão. Ou a mim, ou a Thomas. Sinto no mais profundo de meus ossos, minha irmã. Algo terrível está para acontecer.”
Um forte tremor percorreu o corpo de Mairead diante o tom profético na voz de Oriane. “Pensei que eu fosse a bruxa aqui, minha irmã.” Ela tentou disfarçar sua apreensão zombando de Oriane. “Não me diga que se tornara uma profetiza, um oráculo? Deus nos proteja, já basta de aberrações nesta família.” esperava que a bastarda fosse reagir de alguma forma, mas Oriane permaneceu olhando o céu, a mesma expressão grave em seu rosto. O sorriso desapareceu do semblante de Maired, trazendo à superfície a inquietude que sentia. “Oriane. Oriane! Vossa Majestade!”
A jovem finalmente conseguiu atrair a atenção da princesa invocando seu título. “Não se preocupe muito, minha querida, ou acabará com mais rugas do que conseguirá contar. Agora venha, vamos caminhar um pouco pelo jardim, tirar de sua mente o que quer que tenha causado tamanha agitação. Venha.” Mairead puxou delicadamente sua irmã, conduzindo-a em um tranquilo passeio, apenas o som das aves as acompanhando. No castelo, uma figura observava as duas jovens silenciosamente, um sorriso cruel em suas feições vultosas.
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“Já contou a sua irmã o que será de seu destino” Thomas escutou uma voz ressoar em seu quarto. Não precisava virar-se para saber a quem pertencia. Ele sempre estava lá quando mais precisou, sentado confortavelmente em uma cadeira ao lado de sua cama, uma taça de vinho em uma das mãos, enquanto a outra se entretinha com um anel. Um sorriso veio-lhe aos lábios ao saudar seu grande amigo, indo em sua direção e abraçando-o fortemente.
“Richard! Há quanto tempo não o vejo, meu caro amigo, parecem-me anos. Pensei que havia se esquecido de retornar a vossa amada Inglaterra.” Exceto por sua irmã, Richard era o único em quem confiava. Era mais que seu conselheiro, era um fiel amigo. “Imagino que as belezas parisienses devem ter-lhe tomado todo o tempo que tinha reservado para me escrever.” Thomas afastou-se, enchendo-lhe uma taça do vinho que se encontrava em seu quarto. Pelo teor das palavras que Richard pronunciara antes mesmo de lhe cumprimentar, a conversa não seria agradável.
“Ah Thomas, sinto por não ter-lhe escrito ao menos uma carta. Mas sabe como Paris sempre me fascina os olhos e o coração.” Richard brincou, rindo um pouco com seu velho amigo, antes de sua expressão retornar à seriedade que previamente se encontrava. “Mas não vim gabar-me de minhas conquistas. Longe disso, não vim falar de mim.” Richard sentou-se novamente na cadeira, degustando seu vinho enquanto refletia sobre a melhor forma de abordar o assunto. Como sempre, escolheu ser o mais direto possível. Afastou a taça dos lábios e observou Thomas recostar-se contra a tapeçaria que adornava a parede, olhando-o atentamente.
“Thomas, Thomas. Assim que soube sobre o retorno da princesa, apressei imediatamente minha própria viagem de volta. Não havia ainda chego a Londres quando veio aos meus ouvidos rumores, soprados por ventos confiáveis, disso tenho certeza, de que vossa irmã já estaria de casamento marcado. E com aquele homem, entre todas as pessoas! Pergunto-me, primeiro, como deixou isto acontecer. Não a ama, Thomas? Todos esses anos lamentando sua ausência, e agora permite que a casem com aquele...” Richard não terminou sua frase, refreando as blasfêmias que lhe vieram aos lábios.
“E pensas que não sei disto? Pensas que não me importo com o futuro de Oriane? Mas que escolha tinha eu, Richard, diga-me?! O rei nutre nada mais que ódio por mim, por acaso crê que escutaria meu protesto? Era capaz de encontrar um pior pretendente, com o único objetivo de me ferir.” Thomas vociferou, a raiva consumindo-lhe. A máscara que conservava sempre tão impecavelmente intacta finalmente rompera-se, e, com ela, se fora seu autocontrole.
“Não imaginas a angustia que sinto ao pensar na minha pobre irmã ao lado daquele homem, mas não tenho voz neste reino.” Ele se sentou na cama, as mãos lhe suportando a cabeça. O peso em seus ombros, porém, parecia conter todo o mundo. “Não sei o que fazer quanto a isso, como impedir. Parece-me impossível.” Richard observou silenciosamente o tormento pelo qual passava seu grande amigo. Suspirou profundamente antes de juntar-se a ele na cama, colocando a mão em seu ombro para demonstrar que o apoiava.
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