A Rainha Bastarda
10 Capítulo 10
O jantar prosseguiu sem maiores acontecimentos, e, para alívio de ambos os irmãos, logo chegou ao seu fim. Oriane manteve uma conversa leve com todos os presentes, e Eleanor não fora mais mencionada. Assim que terminaram a refeição, o rei liberou-os para que pudessem descansar. Thomas fora o primeiro a se levantar, puxando elegantemente a cadeira de sua irmã. “Minha querida filha, seu quarto permanece o mesmo. Chamarei um criado para guiar Mairead ao cômodo que lhe pertencerá. Tenha bons sonhos, e saiba que nada me alegra mais do que seu retorno” ele a abraçou ternamente, sendo correspondido com a mesma aparente afeição. Entretanto, assim que os braços do rei a envolveram e o rosto de Oriane saíra de sua linha de visão, o sorriso da princesa caiu e suas feições tornaram-se sérias e desprovidas de qualquer emoção. O único indício de que sentia algo era o leve tremor de suas mãos, devido principalmente ao ódio que se controlava para reprimir.
Assim que ele se afastou, os olhos de Oriane voltaram a brilhar com uma falsa alegria. O rei pareceu contente com o comportamento de sua filha, e após despedir-se friamente de Thomas, os dois irmãos encaminharam-se, lado a lado, aos seus quartos. Quando já estavam longe do salão e de olhos curiosos, Thomas segurou a mão de sua irmã. “Precisamos conversar.” Ele disse simplesmente, sem lança-la um olhar sequer. Não obteve resposta, exceto por um quase imperceptível movimento que Oriane realizara com a cabeça, concordando.
Os quartos de Oriane e Thomas encontravam-se no mesmo corredor, não muito distantes um do outro. Assim que chegaram ao seu destino, após uma caminhada silenciosa e tensa, cada um se dirigiu ao seu respectivo aposento. Oriane parou frente a sua porta e olhou para trás, observando as costas de seu irmão. Abriu os lábios, como se para falar algo, mas nenhuma palavra saiu. Não sabia o que dizer, como explicar o comportamento estranho que estava apresentando. Ela só queria afirmar que nunca mentiria para Thomas. Mesmo depois de tantos anos, nunca deixara de ama-lo. Mas não fora capaz de pronunciar o que se passava em sua mente, de assegurá-lo do quanto o amava e que nunca seria capaz de trair sua confiança.
Entrou em seu quarto, outra onda de nostalgia atingindo-lhe em cheio o peito. Permaneceu alguns minutos em sua porta, olhando para os móveis que um dia lhe foram tão familiares. Lembranças vinham-lhe à mente, turvando seus pensamentos. Ela tentou recuperar novamente o controle sobre suas emoções e entrou, fechando a porta logo em seguida. Suspirou profundamente e sentou em sua cama, colocando a cabeça entre as mãos. Não choraria. Há anos aprendera que chorar não resolve problema algum, apenas a torna fraca e vulnerável perante olhos que possam a encontrar em tão frágil estado. Não, ela era mais forte, recusava-se a derramar uma lágrima sequer.
E não o fez. Depois de se acalmar um pouco, chamou a criada para que lhe preparasse um banho. Precisava se livrar de tanta tensão, e nada melhor do que uma água quente para fazê-lo. Não dispunha de tal conforto no convento, e muito menos na propriedade que pertencia à sua mãe. Só de pensar naquela mulher seu corpo já se arrepiou, uma sensação desagradável invadindo-a. Ela precisava conversar com Thomas, confidenciar-lhe tudo o que se passara nos anos de sua ausência. Ele era a pessoa que mais confiava no mundo, mas não sabia se ele ainda sentia o mesmo. Sua reação à forma como tratara o rei confirmava que estava desconfiado. Mas, mesmo que isso a machucasse, não poderia culpá-lo.
Terminado seu banho, que não fez muito para relaxar os músculos doloridos, ela secou-se e deixou a criada vesti-la. Esperaria até o cair da noite para conversar com Thomas, assim eles teriam privacidade suficiente para tratar de assuntos tão delicados. Não me odeie. Ela suplicou silenciosamente, como se ele pudesse ouvir seus pensamentos. Quando tudo já estava preparado, ela se deitou e esperou, inquietamente, o momento certo para se dirigir ao quarto de Thomas. Mas as horas pareciam se arrastar cada vez mais lentamente, até que não conseguiu aguentar a aflição que tomava-lhe o peito, e saiu em direção ao quarto do príncipe.
Havia andado dois passos quando percebeu o vulto a sua frente. Estava muito escuro para poder distinguir sua forma, mas assim que o cheiro a invadiu, soube imediatamente quem era. “Thomas” sussurrou na penumbra na noite, um misto de alívio e apreensão em sua voz. Ele nada disse, apenas passou por ela e entrou no quarto da princesa. Oriane o seguiu, trancando a porta em seguida. Mas não conseguiu se virar para olhá-lo, não quando sua mera presença já lhe era sufocante. O que falaria? Como ela lhe contaria tudo o que aconteceu? Será que ele a compreenderia? Será que a perdoaria? Ou nunca mais a veria da mesma maneira? Deixaria de amá-la?
Com tantos questionamentos e dúvidas dentro de sua mente, por um instante ela pensou que desmaiaria. Somente Thomas para despertar-lhe todas as emoções a tanto adormecidas. “Permanecerá olhando a porta por quanto tempo, Oriane?” sua voz soou fria e quase agressiva, alarmando a jovem princesa e piorando seu estado emocional já debilitado. Ela começou a tremer violentamente, surpreendendo Thomas que foi ao seu encontro. “O que está acontecendo? Conte-me, ou não poderei ajuda-la!” ele parecia beirar o desespero, segurando-a em seus braços quando as pernas de Oriane falharam-na, fazendo com que caísse no chão frio.
“Gostaria tanto de confessar-lhe o que aflige meu coração, Thomas. Contar-lhe tudo o que passei durante esses anos que estive no convento. Mas temo sua represália, temo que não me compreenda e acabe me odiando. Fui tola, meu irmão, mas como pode alguém condenar-me? Era uma simples criança, uma ingênua e ignorante criança! Foi pedido muito de mim, mais do que eu poderia dar, muito mais. Eu não estava preparada, eu...” e então ela fez algo que há anos não fazia, tanto que lhe pareceu estranho, desconhecido. Ela chorou.
Os dois permaneciam no chão, Thomas sustentando a maior parte do peso de Oriane em cima de si, para que ela não tivesse contato com o chão excessivamente frio. Ela lhe agarrava as vestes, como se estivesse lutando contra um temporal em alto mar e ele fosse sua única esperança de sobrevivência. Chorava descontroladamente, muito mais do que havia feito na última noite que passaram juntos antes de sua partida. As lágrimas escorriam por sua face, em maior intensidade a cada minuto, e os sons que saíam de sua boca revelavam anos de profunda agonia.
Thomas estava em choque, extremamente confuso e atormentado diante tal reação de sua irmã. Podia afirmar, com toda certeza, que nunca antes ficara tão preocupado como o fazia agora, balançando Oriane suavemente em seus braços e tentando, em vão, reconforta-la. Mas nada parecia adiantar, ele era impotente contra tamanha tristeza e agonia que consumiam o coração da princesa. A cada choro, a cada gemido de profunda dor emitido por Oriane, ele sentia uma parte de sua alma ser impiedosamente dilacerada.
O príncipe continuou a segura-la até os primeiros raios de sol despertarem no horizonte. Quando a princesa já parecia estar mais controlada, ela a levantou cuidadosamente do chão e os deitou na cama. Oriane descansou sua face contra o peito de Thomas, ainda agarrando-lhe a camisa. “Não me deixe.” Ela sussurrou fracamente, adormecendo logo em seguida. Nunca. Ele pensou, beijando suavemente a fronte de sua irmã. Perguntava-se que horrores teria ela sofrido para causar tamanha reação. Thomas não conseguiu acalmar sua mente o suficiente para dormir, então tentou se concentrar na sensação do corpo de Oriane contra o seu, segura entre seus braços.
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