A RUNA BRANCA DE ODIN
11 CAPÍTULO DEZ: Novos rumos, novos desafios!
Notas iniciais

Os olhos violáceos de Lune enfrentaram o olhar cobiçoso de Aiacos. E, como sempre acontecia, aquele brilho reverente mostrando um desejo explícito fazia o seu coração disparar. Eles voltaram ao estábulo, onde haviam se amado pela primeira vez e, em uma fração de segundos, as bocas se encontravam e provavam com sofreguidão.
Aiacos tomou-o, abruptamente nos braços e colou o corpo ao dele, beijando-o profundamente, enfiando a língua em sua boca de forma urgente e selvagem. As mãos grandes e calejadas percorreram-lhe as costas, as nádegas e Lune sentiu a ereção do moreno, através do tecido grosso da calça de algodão.
Ele o estava controlando, mas Lune nunca era uma presa passiva, também sabia agir como um predador, mordeu-lhe o lábio, com força e Aiacos gemeu, recuando por um segundo. Com os cílios semicerrados e o olhar turvo, ele o encarou e Lune viu mais do que desejo no olhar do guerreiro que conquistara o seu coração.
Interrompendo a conexão de olhares, Lune puxou-o para perto de si, afundando a mão entre os cabelos desalinhados e lambendo os lábios finos, apossando-se, novamente, da língua quente que agora se entrelaçava na sua com volúpia e saudade.
Tocando-se e beijando-se com força e sofreguidão, ambos flutuavam na tênue linha entre a dor e o prazer. Os cheiros se misturavam, havia um gosto de aço, pungente e perigoso. Era a famosa luxúria após a batalha onde o ardor do desejo se transformava em fogo e necessidade. Por um momento, os dois pararam e se encararam e, desta vez, um sorriso se abriu em ambas as bocas.
Lune sentiu seus pés serem erguidos do chão e gemeu quando as suas costas bateram com força na parede. Preso, entre a madeira e o corpo largo e forte, ele se deixou despir da cintura para baixo, enquanto Aiacos abria a calça, revelando uma ereção, extremamente, desperta e túrgida. Enroscando as pernas nos quadris de Aiacos, ele colou o corpo, ainda mais ao dele, fazendo-o sentir que também estava excitado. A cena incendiou o guerreiro que o penetrou com força e tão abrupto e profundo que Lune gritou alto, ignorando a dor para sentir um êxtase inexplicável...
Aiacos arfou, ficando parado por um segundo, antes de mover os quadris e mergulhar novamente, tocando-o no ponto do prazer e Lune gemeu quando bateu, novamente, com as costas na parede, sorrindo e agarrando com força os cabelos escuros do amante. Sentindo-o dentro de si, Lune abraçou-o forte, os dedos afundando na musculatura forte das costas do guerreiro. Um arrepio de prazer lhe percorria a espinha num frenesi que o fazia querer tudo daquele homem. Não havia limites, nem hesitações. Nos braços de Aiacos sentia-se perdido de desejo e amor!
– M-Mais forte... — gemeu no ouvido de Aiacos, fazendo-o investir com mais ímpeto para dentro de si.
O guerreiro gemia e arremetia com vigor, sentindo Lune marcando-o sobre a pele suada, as unhas curtas deixando rastros do desvario da paixão.
Lune sentiu quando Aiacos retesou-se, a expressão no rosto bonito revelando a proximidade do clímax. No entanto, o guerreiro tentava controlar-se, não queria gozar antes de dar-lhe prazer. E era este cuidado que fazia a diferença, que mostrava existir intimidade entre eles e que dava a Lune uma satisfação nunca sentida com outro.
– Goza ... E-Eu vou junto...!- murmurou Lune, arfando e gemendo junto ao rosto de Aiacos.
Totalmente entregue ao calor e prazer de sentir-se engolfado por Lune e por seus sussurros enlouquecidos, Aiacos estocou mais forte e rápido, afundando-se mais e gozando, enchendo-o com o seu prazer tão profunda e desesperadamente quanto podia. De sua garganta saiu um gemido alto e longo e ele se derramou dentro de Lune, ao mesmo tempo em que sentia seu tórax ser molhado pelo gozo dele. Os dois tremeram, convulsos e se agarraram com força, as bocas se encontrando sem fôlego, o coração batendo violentamente por todos os poros.
– Por Thor...– disse Lune, ofegante.
Aiacos levantou a cabeça enfiada em seu ombro onde a pousara buscando recuperar o fôlego. Mexeu-se um pouco, sentindo a respiração quente de Lune em seu pescoço.
– Eu o machuquei? – perguntou ele, em meio ao torpor após o orgasmo.
– Não... — falou Lune, com um sorriso abobalhado e ainda agarrado ao corpo forte.
– Eu não fui cuidadoso...
– Eu quis assim.
Os olhos de Aiacos o fitaram de forma intensa e direta. Seus lábios estavam avermelhados e tão beijáveis que Lune tomou-lhe a boca, novamente.
– Espera... – disse Aiacos, entre o beijo. – Eu preciso dizer uma coisa.
– O que foi?
– Eu te amo.
Lune arregalou os olhos e, em seguida, sorriu.
– Você está brincando.
– Nunca.
O olhar de ambos conectou-se de um jeito que tudo o mais deixou de existir. Não havia nada, além daquele momento único. Eram guerreiros, acostumados aos jogos de vida e morte nas batalhas. A escolha de permitir-se amar e ser amado era um desafio novo para os dois.
– Como pode me amar? Eu...
– Eu te amo. – repetiu Aiacos. – E quero você ao meu lado, se me aceitar. Quero que todos saibam que estamos juntos.
– Aiacos...
– Você não sente nada por mim?
– É claro que eu sinto, eu te... Eu te amo! Pronto, falei! Mas... eu não sou fácil de conviver.
O sorriso de Aiacos se alargou.
– E quem disse que eu gosto de facilidade? Vem cá, vamos para um lugar mais apropriado para continuar...
– Aonde?
– O quarto. Certamente, Radamanthys e Minos não irão para lá agora. – disse Aiacos puxando-o pela mão, enquanto contornava uma das baias.
– Lune! Aiacos! Vocês estão aí? – perguntou Radamanthys chegando à janela. – Hades está chamando a todos no pátio.
– É, parece que nem nós iremos. – falou Lune.
Sem perder o bom humor, Aiacos beijou Lune, apaixonadamente, antes de responder ao irmão mais velho.
– Estamos indo!
Radamanthys balançou a cabeça, sentindo uma ponta de inveja daqueles dois. No caminho, encontrou Pandora e o sorriso que ela lhe deu dissipou todos os seus pensamentos. Ele se aproximou, seu corpo exalava calor e suas vestes ainda estavam sujas de sangue, assim como as de Pandora. Nenhum dos dois falou, até ele se aproximar dela e sussurrar:
– O que me disse no navio, ainda está valendo?
– Sim... – respondeu Pandora, sentindo o rosto em fogo.
– Ótimo. Você dirá onde e quando. Esperarei ansioso... – falou Radamanthys num tom que fez a guerreira sentir um arrepio no corpo todo.
Pandora pensava em algo para falar, quando ele a puxou para si e cobriu-lhe os lábios com um beijo apaixonado. Quando ele se afastou, ela ainda levou um tempo para abrir os olhos e, quando o fez, o guerreiro estava sorrindo, não como um conquistador, mas como um homem apaixonado.
– Até mais, minha senhora. – disse ele.
– Até mais. – ela respondeu levando a mão aos lábios, enquanto o guerreiro se afastava.
Hades posicionou-se no centro do pátio da aldeia e todos foram chegando e, logo o ouviam, atentamente. Ele estava ferido e cansado, mas como jarl, devia reorganizar as coisas e só descansar após suas ordens serem cumpridas. Havia muito a fazer e seu exemplo era imprescindível para que tudo voltasse ao seu eixo. Ele inspirou fundo e começou a falar.
– Passamos por momentos difíceis e eu honro a fibra dos homens e das mulheres deste clã. Somos todos vitoriosos e não podemos perder tempo em retomar a nossa rotina. Guthrum encaminhará os ritos fúnebres. Ela terá um tempo, sozinha, para preparar os ritos de morte para o filho. Sim, para quem não sabe, Guilty era filho dela e essa história faz parte de um passado que se revelou e morreu aqui. E, antes que vozes se levantem contra isso, eu permiti que ela o fizesse por ter dado a minha palavra. Devia a ela um favor e estou honrando minha dívida. As cinzas dele não permanecerão em nossas terras. Quanto aos nossos que morreram em batalha, serão honrados e suas famílias cuidadas e abastecidas.
Um murmúrio se formou quando Alna, a mulher que Guilty havia cortado a mão, se apresentou. Ela estava pálida, com olheiras profundas e caminhava com dificuldade.
– A-Aquele maldito fez isso comigo! Não é justo! – vociferou ela.
O olhar de Hades recaiu sobre Alna e as faixas amarradas sobre o coto onde antes havia uma mão.
– Você será ressarcida por este mal. Será cuidada e alimentada até o final dos seus dias. Minha palavra foi dada e será cumprida, tanto com Guthrum, quanto com você.
Minos, Radamanthys e Aiacos sentiam o clima tenso, apesar de ninguém mais questionar a autoridade de Hades. Os três se olharam e o mais velho teve uma ideia.
– Jarl, se me permite, gostaria de falar.
Hades fez um sinal de permissão e Radamanthys se aproximou dele.
– Gostaria de dizer que a sensação que todos vocês têm, nós também compartilhamos. Guilty pode ter nos gerado, mas nunca foi um pai. Ele nos usou e desonrou com sua traição e nós também não o queremos aqui, nestas terras que aprendemos a amar. Então, eu e meus irmãos, nos comprometemos a jogar as cinzas dele em alto mar, bem longe de todos. E que Hela se encarregue da sua alma!
Novamente, houve um murmúrio e foi a vez de Minos falar:
– E eu me comprometo, senhora, a ajudá-la em tudo o que precisar. – disse olhando para Alna. — Creio que posso reorganizar a sua casa para torná-la mais apropriada as suas necessidades.
Alna olhou dentro dos olhos dos três. Havia dor nos seus e firmeza nos deles. Embora sentisse ódio pelo homem que a mutilara, não conseguia ter o mesmo sentimento por aqueles guerreiros que tinham lutado e ajudado a salvar seus filhos.
– E-Eu aceito. – disse ela, amparada por Entti.
– Muito bem, então está resolvido. – disse Hades olhando, rapidamente para Minos. — Agora voltem para suas casas, cuidem dos feridos e dos mortos. Quando tudo estiver voltado ao normal, vamos celebrar.
Ditas as palavras, ele se encaminhou para a casa. No caminho viu os corpos sendo retirados do grande salão e as mulheres carregando baldes de água para lavar o piso ensanguentado. Como jarl , seu papel não era cuidar de si, imediatamente. Antes de lavar-se e descansar, chamou Aldebaran, Rorik e Halfdan, homens-chave para a segurança do clã. Os três conversaram e Hades os instruiu a planejar o cercamento da aldeia, assim como intensificar o treinamento dos jovens aptos a empunhar uma espada.
– Temos que traçar novas estratégias. – disse Hades apertando a parte interna dos olhos.
– Faremos isso, mas o senhor precisa descansar. – falou Aldebaran.
– Sim, e vocês também. – disse ele notando o estado das vestes e dos corpos dos três.
O dia passou rápido, nem parecia que de madrugada ele batalhara contra Guilty e agora transitava por todos os lugares da aldeia sem descanso, até que tudo estivesse sendo reorganizado. Exausto, Hades foi para o seu quarto.
Alone o esperava, de banho tomado e com roupas limpas. O garoto olhou-o e, num impulso correu até ele, abraçando-o.
– Eu preciso confessar uma coisa. Eu... chorei frente ao inimigo. Peço perdão, pai.
Hades o afastou um pouco, o suficiente para olhá-lo nos olhos aflitos.
– Não há vergonha nisso. Agiu como um guerreiro e protegeu seus amigos.
– Mas o senhor... O senhor nunca sente medo.
– Um dia será a sua vez de liderar e então você compreenderá que aprender a controlar e não sentir são coisas diferentes.* Coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que ultrapassa o medo e atinge seus objetivos. Agora me deixe cuidar disso. – falou Hades mostrando o braço inchado.
– Eu ajudo! – disse o menino.
Alone foi até a mesa onde havia panos limpos e um unguento com cheiro horrível que o fez torcer o nariz. Ao lado dela, uma tina com água quente estava preparada para o banho do jarl. Ele pegou os objetos da mesa, deixando-os em cima de um banco baixo ao alcance do pai.
Entrando dentro da tina, Hades fechou os olhos ao sentir a água quente envolver seu corpo. Lavou o rosto e o corpo com o sabão feito de ervas, principalmente o braço ferido, pois a limpeza de um ferimento era essencial para a sua cura. Ele examinou a região ao redor da ferida que estava avermelhada e doía. Praguejou e espalhou o unguento malcheiroso. Alone o ajudou a envolver o braço com os panos limpos.
– Pronto.
– Obrigado, filho. – disse Hades deixando a tina e secando-se em um pano de algodão.
– Pai?
– Sim?
– O senhor gosta do Minos?
– Que pergunta é essa? – disse Hades franzindo o cenho.
– Eu gosto muito dele. Ele me ensina e foi ele quem me tirou daquela jaula fedorenta. Eu ficaria muito feliz se o senhor e ele... Bem, se vocês dois ficassem juntos. – falou o menino com os olhos cravados nos de seu pai.
– O que você sabe sobre esse assunto? – questionou Hades.
– Eu sei que dois homens podem se amar e... o senhor ficou muito melhor depois que deixou Minos se unir ao nosso clã.
– Eu fiquei melhor...?
– Sim, o senhor até fala comigo e parece gostar de mim, agora. Antes eu achava que era um estorvo na sua vida.
– Venha cá. – disse Hades com o cenho franzido.
O menino se aproximou um tanto tenso por achar que falara demais. Hades segurou-o pelos ombros, depois o abraçou dizendo:
– Você é meu filho e eu o amo. Agora, vá comer alguma coisa e descansar. Amanhã cedo, retomamos a rotina normal de treinos.
Alone sorriu largo e saiu depressa do quarto, deixando Hades pensativo sobre a percepção de seu filho. O menino verbalizara o que ele já sabia e, no entanto, buscava ocultar de si mesmo.
Assim que terminara seu discurso no pátio, ele não se dirigira mais a Minos. Tê-lo visto em perigo, mais de uma vez, desencadeara uma reação incômoda de medo.
Medo de perdê-lo.
Medo de nunca mais tê-lo em seus braços.
Medo, sentimento que ele sempre soubera deixar em seu devido lugar e que agora o visitava de tempos em tempos, fazendo-o agir impulsivamente... Ele precisava ser combatido ou se transformaria em fraqueza.
Deixar-se levar pelas emoções ficava evidente quando estava com Minos. Era algo quase natural e, portanto, perigoso. Mesmo quando falava com sua gente, distribuindo tarefas e ordens, seus pensamentos e desejos se voltavam para ele.
Quando deixara o pátio para ir direto conversar com seus homens, visualizara a expectativa no olhar de Minos esperando por um sinal seu, mas passara sem dizer nada. Ignorou-o e, também, a si mesmo. O ato foi mais difícil que lutar, matar e enfrentar a morte, porque viu a decepção, naqueles olhos que sempre o fitaram com destemor. Mesmo que Minos tivesse afirmado, constantemente, que não era uma boa ideia receber atenção na frente dos outros, ele não esperava uma atitude de indiferença.
– Posso entrar?
A voz suave de Pandora penetrou no aposento, mas ela não.
– Entre. – respondeu Hades elevando uma sobrancelha.
– Como está o braço?
– Acredito que está curando.
– Deixe-me ver.
– Acabei de enfaixar. Está tudo bem.
– Está mesmo?
Hades suspirou.
– O que quer Pandora?
Ela entrou no aposento recém-limpo dos vestígios da invasão e foi até a janela, onde a luz dourada do entardecer se projetava no assoalho, exibindo pequenos pontos dançarinos de poeira luminosa. Voltou-se para o irmão gêmeo com um olhar profundo e terno.
– Eu resolvi aceitar seu conselho, então... creio que te devo um, também. Amar não significa ser fraco e, eu arrisco dizer que pode ser a maior benção que podemos receber nessa vida de batalhas e morte. Não espere perder, para aceitar que possui um coração. Não retroceda agora.
Sem esperar resposta, Pandora deixou o aposento.
O tempo havia passado muito rápido e o sol começava a se por. Não haveria jantar com todos no salão, nem conversas altas e risos. Cada família estaria reunida, resgatando a convivência, sanando as dores...
Hades deitou-se na cama e fechou os olhos, mas não conseguiu dormir, apesar do cansaço. Primeiro Alone e agora Pandora. Seu corpo ansiava por Minos, mas sua mente o alertava para resistir.
Uma batida na porta o fez parar com aqueles pensamentos.
– Com licença, meu senhor. Trouxe o seu jantar. – disse Entti trazendo uma bandeja com frutas, pão, carne e uma jarra com hidromel.
Estava tudo arrumado com cuidado e, assim que ela colocou tudo sobre a mesa, arrumou-a e sorriu, timidamente.
– Com a sua licença.
– Obrigado, Entti.
A mulher saiu e logo outra batida se fez ouvir. Hades só queria ficar sozinho, então serviu um copo de hidromel antes de permitir a entrada de quem quer que fosse. Pensou antes de falar:
– Entre!
– Mandou me chamar. Então... Estou aqui. – disse Minos, entrando.
Surpreso, Hades olhou-o sem disfarçar.
– Eu não man... Bem, já que está aqui eu quero agradecer por tudo o que fez.
O jovem franziu o cenho, percebendo que havia algo de estranho. Hades se surpreendera com a sua presença. Quando Alone viera dizer que seu pai queria falar-lhe, não hesitara em responder achando que ele desejava a sua presença tanto quanto ele. Mas, agora, via que não era bem assim...
– Talvez não seja momento para isso. Deve estar cansado. – disse, fazendo menção de sair.
– Você também e, no entanto, está aqui. Por favor, fique. – rebateu Hades, sendo rápido o suficiente para pegar o braço de Minos, impedindo-o de sair.
– É, mas eu não sou o jarl cuja responsabilidade está acima do próprio bem-estar.
A resposta o desconcertou, mas só confirmava a postura de Minos. Ele podia ter se decepcionado com o tratamento recebido no pátio, mas jamais se considerava vítima e compreendia o funcionamento das coisas com uma lucidez admirável.
Hades se aproximou ainda mais, sem soltá-lo e Minos sentiu o corpo reagir, porém se controlou.
– Tem razão, sou responsável pelo bem-estar de cada membro deste clã. – disse Hades muito próximo do ouvido do jovem, ao ponto de ele sentir-lhe o hálito quente na pele.
Minos olhou a mesa posta e tornou a fitar o jarl.
– Não quero atrapalhar o seu jantar. Deve estar com fome, depois de tudo.
– Eu não estou com fome, ainda. Não de comida. – os olhos do jarl brilhavam cheios de desejo. – Mas, se você quiser comer alguma coisa, sinta-se à vontade.
Lentamente, Minos se aproximou da mesa e serviu-se de um copo de hidromel. Podia sair dali e encerrar o assunto, mas não era isso que desejava. Bebeu tudo de um só gole e tornou a encarar Hades.
– Também não sinto fome de comida. – devolveu o jovem com um olhar malicioso.
– Então, que tal ficarmos mais à vontade para saciar essa fome, em particular?
Minos passou a língua nos lábios, cruzando os braços.
– Primeiro você. – disse ele num tom de desafio.
Hades começou a despir-se de suas roupas e Minos admirou, mais uma vez, o corpo musculoso e rijo, as pequenas e grandes cicatrizes que o faziam parecer uma entidade eroticamente selvagem e a ereção que despontava junto com aquele brilho intenso que só os olhos dele sabiam expressar...
Como se fosse um felino Hades deitou-se na cama, estendendo as mãos num chamado mudo. Minos sentiu a boca secar e o coração acelerar. Então, apressou-se em tirar a roupa e foi até a cama.
Fechando as pernas, Hades o convidou para sentar-se sobre elas e, quando Minos aceitou, ele o abraçou, acariciando-o e beijando-o, sentindo-o fazer o mesmo com os dedos longos que deslizavam possessivamente por suas costas, o arranhando de leve, enquanto os dois inspiravam meio sôfregos com as bocas unidas num beijo apaixonado.
Hades o aconchegava em seus braços e invadia a boca entreaberta com a língua insaciável. Adorava o gosto daquela boca e a urgência com que as línguas se buscavam, deixando-os arfantes e sem ar.
Com sofreguidão, ele enterrou o rosto no vão do pescoço de Minos, lambendo, mordiscando e pedindo com a voz profunda, permeada de desejo:
– Seja meu amante, esta noite e todas que ainda estão por vir...
Minos olhou-o nos olhos e lambeu os lábios, apertando-os um tanto... ansioso. O coração bateu descompassado e ele sentiu um ardor fluir de suas entranhas, como se estivesse diante de um portal decisivo e precisasse transpô-lo, para vivenciar a plenitude das mudanças que se apresentavam diante de si.
– Ser seu amante fará de mim um fraco, alguém dependente da atenção da pessoa que ama. Eu não desejo isso, então, serei seu esta noite, porque quero muito estar com você. Mas, o que eu disse antes, continua valendo. Prefiro que tudo permaneça como está.
Hades franziu o cenho.
"Alguém dependente da atenção da pessoa que ama." O fragmento da frase dita olhando em seus olhos reverberou dentro do peito, provocando um misto de satisfação e surpresa.
– Não o quero, apenas, por esta noite. Quero você ao meu lado. – respondeu o jarl.
– Eu estou com você. Sempre estive... Por favor, não estrague isso propondo algo que nós dois sabemos que não vai durar.
A mão forte de Hades tocou o queixo de Minos. Ele sabia que esta decisão possuía um significado que estava além da questão física. Era algo profundo, que transcendia o sexo e atingia a alma de ambos. O jovem perdera coisas importantes, conservara apenas o orgulho, a honra, a consciência de si mesmo e o amor que acabara de confessar, mesmo que de modo indireto.
Bastava que ele também admitisse que também o amava e refizesse o pedido. Que quebrasse o estigma de ser considerado sem coração e aceitasse ser capaz de sentir amor.
Amor. Ele chegara tão inesperadamente como as tempestades provocadas pelo martelo de Thor ou como as ondas gigantescas de um mar em fúria.
Sua mente sempre trabalhava rápido, instruindo-o no que fazer e agora estava no meio de uma guerra entre ela e o coração que nunca entrara no jogo, mas resolvera exigir sua posição. Era uma luta acirrada e as palavras não saíam, porque com o amor vinha o risco e a perda. E ele acostumara-se a não ter o que perder ou lamentar.
– Minos, eu...
O jovem tocou-lhe os lábios num gesto de contenção e o beijou impedindo as palavras e aceitando a sedução. Levantando um pouco do colo do jarl, ele permitiu ser acariciado internamente. Introduzindo os dedos devagar, Hades os movia de forma circular, preparando-o, fazendo-o antever o que viria...
Enquanto o beijava e usava a língua para brincar com os mamilos túrgidos, Hades ia se encaixando na entrada estreita, gemendo deliciado com os movimentos sensuais que Minos fazia com os quadris e os sons que emitia, buscando-o, aceitando-o em seu interior...
Roçando os lábios na pele alva, Hades o fazia descer pela sua ereção, penetrando-o devagar, fazendo-o sentar em seu colo e sentindo a cavidade estreita abrir-se aos poucos à penetração.
À medida que Minos, vencia a dor inicial e baixava seu corpo sobre o membro, gemendo e agarrando-se com força aos seus ombros, Hades enfiava a língua dentro da boca arfante até que estivessem em um beijo tão forte que ambos não podiam respirar direito.
Minos começou a se mover sobre ele... Empurrava o corpo para frente e para trás num ritmo que permitia ter o seu falo bem próximo do corpo de Hades. Aos poucos, ia intensificando o movimento, atingindo um ponto dentro de si que o fazia gemer mais alto e extasiar-se com a sensação prazerosa de sentir o membro de Hades totalmente mergulhado em seu interior.
Aumentou o ritmo e sua respiração tornou-se mais rápida. Sentiu a mão de Hades segurá-lo, começando a parar os movimentos até que eles se tornassem lentos e profundos, sem pressa alguma...
O jovem grunhiu um protesto contra a interrupção do jarl que o segurava forte pelos quadris, limitando os seus movimentos. Um prazer angustiante tomou conta de todo o seu corpo e ele gemeu num ritmo entrecortado, desejoso de mover-se mais rápido, deixar o gozo abraçar o seu corpo com toda a sua intensidade.
–H-Hades... Eu... n-não quero p-parar...
– Eu sei... Mas não quero que seja rápido... — sussurrou o jarl, enquanto beijava o lóbulo da orelha e o pescoço do jovem, dando leves mordidas e chupões que deixavam marcas avermelhadas, fazendo-o se arrepiar e apertá-lo, trazendo-o para junto de si.
Segurando-o forte e continuando com a deliciosa tortura, Hades moveu seus quadris lentamente descendo uma das mãos para a coxa de Minos parte de trás, enquanto com a outra, acariciava o falo dele, preso entre os corpos, agarrando firme e masturbando-o na mesma lentidão delirante que o fazia rebolar sobre si.
Minos gemia, arfava e perdia o controle, os olhos fechados ansiando pelo clímax, os braços em volta do pescoço de Hades, apertando-o, tremendo convulso sem conseguir mais aguentar...
–Hades... Eu... — disse ele invadido por um tremor intenso e frenético que o fez sua mente esvaziar-se e o consumiu por completo, fazendo-o vivenciar um orgasmo avassalador.
O jarl puxou-o para si, gemendo rouco ao sentir o sêmen quente projetar-se entre os corpos e investiu numa última estocada, sentindo a cavidade estreita contrair-se ao redor do seu falo, fazendo-o gozar, quase no mesmo instante. Derramou-se dentro de Minos, acolhido na paixão ardente que ambos comungavam em meio aos suores, gemidos e sêmen.
Tremendo, os dois permaneceram abraçados, inertes e saciados. Os dois sentiam a respiração alterada, o coração retumbando no peito, na pele, em todo o corpo...
Minos mal conseguia raciocinar e Hades sentia a nudez e a languidez dele em seu corpo como o mais precioso dos presentes... “Eu o quero comigo. Para sempre.” Pensou o jarl, enquanto acariciava as costas do amante e pensava em um modo de demonstrar esse sentimento que não conseguia expressar em palavras.
Fora do quarto, perto do grande salão, Pandora olhou para Alone, ambos sentados no último degrau da escada. Como cúmplices de um crime perfeito os dois sorriram um para o outro e uniram as mãos num gesto de vitória. Ela havia ordenado que levassem a refeição especial ao quarto do irmão e Alone chamara Minos, dizendo que Hades queria falar com ele.
– Você acha que eles vão ficar juntos? – perguntou o menino.
– Tenho certeza que sim. – respondeu Pandora. – E você, não sentirá ciúmes?
– Não, de Minos, não. Ele é diferente dos outros, ele é meu amigo.
– Bem, vamos nos recolher, então. – disse ela sorrindo.
– Posso ficar um pouco no seu quarto?
O pedido pegou Pandora desprevenida, assim como o olhar do sobrinho. Não era medo ou angústia e sim uma vontade de manter o vínculo. Um vínculo que começava a ser construído e os tornava, finalmente, uma família.
– Claro, venha. Vamos conversar mais um pouco.
– Podemos contar histórias de batalhas com os bonecos que Minos fez para mim. – disse o menino entusiasmado.
Pandora concordou, surpreendendo-se com o afeto profundo que sentiu em relação ao sobrinho. Parecia que estava redescobrindo os laços adormecidos em meio às transformações que tanto ela, quanto Hades estavam sofrendo.
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O amanhecer surgiu em tons carregados de cinza. Uma tempestade estava se formando no horizonte, quando os corpos dos guerreiros mortos foram cremados em várias piras funerárias. Como combinado, o corpo de Guilty foi levado para longe da aldeia e a cerimônia foi presidida por Guthrum e os três netos. Ela murmurou sons que nenhum deles entendeu direito e, quando tudo acabou, ela recolheu as cinzas colocando-as em uma urna de cerâmica.
– Está acabado. – disse ela.
Como filho mais velho, Radamanthys tomou a urna nas mãos com uma expressão fechada. Nem ele, Minos ou Aiacos haviam se pronunciado durante a cerimônia. Guilty lhes parecia um estranho, sua perversidade impedira o estreitamento de laços e a morte dele, apenas representava o fim de traições e dores antigas.
– Nós levaremos a urna até o mar e lá despejaremos as cinzas.
– Quando retornarem, eu gostaria de dar uma palavrinha com cada um, afinal, vocês são meus netos. – falou a vidente.
– Sim, senhora. – disse Radamanthys.
Minos e Aiacos assentiram com a cabeça e ela sorriu exibindo seus dentes amarelados.
Quando os três tomaram a pequena embarcação, ela gesticulou uma benção e uma proteção. Minos olhou para trás, no exato momento, e estranhas visões sobrevieram-lhe à mente. Viu-se junto de Hades, as mãos unidas por uma tira de couro, vozes e gritos que pareciam ecoar, vivamente, dentro de sua cabeça. Piscou duas vezes e tudo sumiu, assim como a silhueta da mulher que o curara quando chegara naquele lugar e que agora descobria ser sua vó.
O dia passou e já era noite escura quando a tempestade se dissipou, deixando cair, apenas, uma chuva fina que logo cessou. Os raios pálidos da lua crescente se infiltraram por entre as nuvens escuras que teimavam em permanecer no firmamento.
O grande salão já estava, novamente, cheio de homens e mulheres rindo e conversando. Após o enterro dos mortos, havia a festa para homenageá-los e lembrar-se de seus feitos. O aroma da carne assada de um javali, envolto em folhas, e dos pães recém-feitos, inundava o ar deixando todos com água na boca. Barris de hidromel e cerveja escura eram esvaziados junto com a comida farta e as lareiras acessas, assim como as tochas, contribuíam para iluminar o ambiente, deixando-o acolhedor e um pouco abafado.
Hades entrou, junto com Pandora e Alone. Os três estavam bem vestidos e elegantes. O jarl usava uma túnica escura e cinto largo. A calça justa evidenciava coxas fortes, assim como o cabelo preso em um rabo de cavalo baixo destacava seu belo rosto. Pandora também havia prendido os cabelos em uma trança embutida e usava um vestido negro, arrancando olhares surpresos e extasiados de todos ali, principalmente de Radamanthys que nunca a tinha visto com trajes femininos. Alone estava com os cabelos curtos penteados e usava uma túnica azul claro, tendo sua adaga presa ao cinto.
Minos ainda não chegara e Hades continuou disfarçando sua ansiedade quanto à presença dele ali. Os dois tinham dormido juntos, mas antes do nascer do sol, Minos deixara o aposento para reunir-se com os irmãos e Guthrum. O restante do dia, ambos se mantiveram ocupados, porém havia planejado tudo nos mínimos detalhes. Passara a madrugada pensando e elaborando e queria que o resultado fosse favorável, porque era a sua única chance e sabia disso.
Assim que o jovem entrou no salão, Hades inspirou profundamente e Pandora colocou a mão, suavemente sobre a dele. Ela sabia do plano e estava feliz em ver que o irmão levara em consideração as suas palavras.
– Fique tranquilo, ele aceitará. – murmurou ela com um sorrisinho.
O jarl fingiu não ser atingido pela observação da irmã e elevou a mão. No mesmo instante, as conversas foram cessando até ficar um silêncio total.
– Hoje honramos nossos guerreiros mortos em batalha e, assim como eles, vamos nos banquetear e festejar. Mas, essa festa também inaugura novos rumos e novos desafios para o nosso clã.
Um forte bramido tomou conta do salão. Houve gritos e palmas, risos de contentamento, apesar de dias atrás vivenciarem a violência e a morte. A vida de um guerreiro viking era pautada nestas questões.
Então, quando todos pensaram que o jarl encerrara sua fala, ele continuou:
– Aproveitando esse momento sagrado para nós, eu gostaria de fazer um pedido. Minos de Griffon pode vir até aqui, por favor?
O jovem franziu o cenho, mas levantou-se e foi até ele. Seus pensamentos dançavam, vertiginosamente, a cada passo em direção ao tablado. Primeiro, a vidente o havia chamado e lhe dado aquelas vestes de presente. Era uma túnica em tons de roxo, feita de algodão trançado. “Eu confeccionei esta roupa para você, um presente para o meu neto mais novo. Simboliza uma nova vida.” dissera ela e ele ficara desconfiado, mas apenas agradecera a gentileza. Agora, Hades o chamava em público e ele não sabia a razão do tal pedido ser feito na frente de todos O que será que ele quer?
Quando chegou bem perto e subiu o degrau, Hades o fitou intensamente, antes de dizer bem alto:
– Eu, Hades Ragnarsson pergunto a você, Minos de Griffon se deseja unir-se a mim, não como amante, mas como meu companheiro em corpo, mente e alma. Não por uma noite, dia, mês ou ano. Desejo desfrutar da sua companhia até o momento em que Odin me receberá em sua mesa no Valhala. Se me aceitar, Guthrum nos abençoará e a qualquer outro que decidir fazer seus votos, aqui e agora. Então, você me aceita?
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