A Quinta Exceção
3 Questões de Família
Alvo,
Não posso fingir que não sei dos últimos acontecimentos relevantes. Talvez eu tenha tido conhecimento de sua seleção para a Sonserina antes mesmo de você dormir na noite de segunda, e decidi esperar você entrar em contato para que você não se sentisse pressionado a responder, também não querendo atrapalhar sua primeira semana de aula. Obviamente, você não o fez, então acho que já posso quebrar o silêncio.
Não acredito que você tenha achado que o que eu disse antes de me despedir foi leviano. Fui sincero tanto em relação ao seu nome quanto ao que eu faria se você não fosse para a Grifinória. Eu e sua mãe não poderíamos estar menos preocupados com isso. O que me preocupa é o seu não contato nessa semana, o que me faz deduzir que não está aceitando muito bem sua casa e tem medo de nossa reação.
Como já lhe disse que não ligo, a forma mais criativa que encontrei de provar foi com esse pacote que chegou junto da carta. Peço que o abra apenas quando estiver sozinho, e, se possível, não conte ao seu irmão. Eu o recebi quando estava em meu primeiro ano em Hogwarts, use-o bem.
Harry Potter
Engolindo o último pedaço de ovo, Alvo se levantou com uma mão agarrando o embrulho e a outra levando a taça reluzente com suco de abóbora à boca. Com uma ansiedade agradável pela primeira vez desde que saíra de casa, Alvo seguiu em passos rápidos para fora do Salão, atraindo alguns olhares curiosos.
Chegando no Salão Comunal, correu para o dormitório e agradeceu intimamente por todos já terem saído. Puxou uma das cortinas do dossel de sua cama e se sentou bem próximo da janela, de onde entrava a luz azul-esverdeada, tremeluzindo com calma. Alvo rasgou o papel bege do embrulho e desdobrou um longo tecido de textura sedosa, prateado e brilhante. Era leve como nenhuma outra malha que ele já tivesse segurado, mas firme à menor tentativa de pressão. Alvo o balançou por uns segundos, fazendo a peça refletir feixes de luz do Lago Negro pelas camas e móveis, mas logo ficou entediado e, ele não queria admitir, frustrado com a aparente inutilidade do presente. Era muito bonito, ele não podia negar, mas não entendia o que poderia fazer James ter ciúmes daquilo.
Levantou-se e estava prestes a ir pro Salão quando viu seu reflexo, de relance, no espelho oval num dos trechos sem janela na parede do dormitório. Pensando em alguma forma de usar a suposta herança de família, Alvo puxou o tecido e ficou de frente pro espelho enquanto deixava o cetim pender sobre os ombros, como uma capa.
Foi um momento longo no qual ele apenas se observou, incrédulo, sem os ombros, braços, parte do tronco e das pernas. O espanto foi substituído pela euforia e logo ele despejou o material pela cabeça, ficando satisfeito de constatar que não via mais nada refletido. Aliás, ao olhar para as próprias mãos ou pro corpo, só enxergava o chão e a parte de trás do quarto.
Ele não deixou de ficar surpreso pela confiança de seu pai em presenteá-lo com algo com tantas aplicações transgressoras às regras da escola, mas não pode deixar de concordar com a escolha de não entregar aquilo ao irmão. Imaginou, rindo, as diversas detenções que James não receberia ao pôr seus planos em prática com aquela capa. Talvez fosse mesmo melhor para todos que ela ficasse com Alvo. Mas o novo dono do item começou a pensar em que tipo de uso faria com ele. Não se via andando indetectável pelos corredores do castelo de noite ou bisbilhotando alguém. Na verdade, a primeira coisa que passou pela cabeça do sonserino foi como agora poderia, quando quisesse, ficar sozinho. Absoluta e indiscutivelmente sozinho. Alvo sorriu consigo mesmo, reparando como isso parecia solitário até demais.
Isso não o incomodou. A conclusão de que gostava de ficar sem ninguém por perto não era algo que o perturbava mais, há um bom tempo ele se sentia diferente. Não como se não pertencesse à família e aos seus grupos, mas como se grande parte da sua essência fosse alheia à sua criação e aos seus próximos. E essa parte era algo, sim, incômodo. Alvo temia um provável dia em que sua singularidade fosse excessiva, tinha receio da solidão deixar de ser uma eventual amiga e passar a ser seu único refúgio. Ir para uma casa oposta a de todos eles era algo que só corroborava esse medo. A carta de Harry e a tranquilização de Rosa e James eram, sim, bons sinais. Ele não podia negar que se sentia melhor. Mas perguntava-se "Até que ponto?".
Às vezes se criticava por alimentar tanta aflição. Como podia um garoto tão jovem manter tantas apreensões sem fundamento? Pra Alvo, contudo, havia fundamentos. Quanto mais velho ficava, mais via certa estranheza na forma como todos se comportavam, e na forma como todos expunham suas expectativas, principalmente sobre ele e os outros mais jovens. Havia uma fina, mas sempre presente, camada de pressões e pressuposições sobre o que iria acontecer na vida deles, Alvo incluído. Uma coisa que parecia mágica (e ele entendia disso), de tão uniforme e constante em tantos momentos e ocasiões. Algo intangível e, ao mesmo tempo, infalível. Mais evidente em uns do que em outros, Alvo reconhecia. Tio Rony era uma fonte mais certa desse tipo de "postura". Perdera a conta de quantas vezes ele fizera piadas com James pelas atitudes inconsequentes do mesmo, insinuando que ele sofreria com o karma quando fosse pai. Quando fosse. Não "se fosse". Não parecia ser uma alternativa.
Na maior parte das vezes ele ignorava sem muitos problemas, até porque não era direcionado a ele. Mas não se esquecia de quando teve uma briga persistente com o irmão, e de quando seu pai interviu. "Você tem que rezar pros seus filhos serem mais calmos...". Alvo imediatamente se calou, pelo resto do dia aliás. Talvez Harry tenha achado que conseguiu manejar a desavença com habilidade, mas a verdade é que o pivô mais jovem da discussão estava ocupado demais tentando entender o que ele queria dizer com aquilo. "É garantido que eu passarei por isso?" ele se indagava, e isso pra não pensar no pré-requisito para a paternidade...
Guardando os temores em si, Alvo guardou também a Capa da Invisibilidade em seu malão, retirou seu exemplar do Guia de Transfiguração para Iniciantes, de Emerico Switch, e sentou-se em uma das mesinhas de mogno do Salão Comunal, ao lado de um dos janelões e com vista privilegiada para as plantas e criaturas nas rochas submersas mais próximas do Lago. Ainda não havia recebido deveres de casa, mas queria ler mais detalhes sobre a transformação objetiva e talvez treinar um pouco.
Estava na metade do capítulo sobre transformação de objetos de dimensões similares e formatos distintos quando um menino sentou-se na cadeira oposta da mesa.
— Já começou? — disse Escórpio Malfoy, enquanto levantava a capa do livro com um dedo para poder ler o título — Achei que fosse perdoável não estudar no primeiro fim de semana — ele continuou, com ar de riso.
Nos dias livres os alunos eram liberados da obrigatoriedade de uso das vestes completas de Hogwarts. A maioria continuava usando o uniforme, deixando de usar apenas a túnica (pesada e quente para aquela época do ano), como o próprio Alvo. Escórpio, contudo, vestia uma camiseta cinza coberta por um cardigan preto (a temperatura nas Masmorras sempre era mais baixa).
— Bem..., no momento eu não tenho muito o que fazer — começou Alvo, cauteloso — e, sendo sincero, eu gosto de Transfiguração — completou, desviando o olhar para um cardume de pequenos peixes prateados que passava pela janela.
— E por que não usar o tempo livre pra obter mais conhecimento! — Escórpio falou de forma pomposa, o que fez Alvo rir — Você parece mais bem humorado do que no início da semana...
Alvo só o olhou e ergueu as sobrancelhas.
— Já se acostumou a fazer parte da casa ruim? — perguntou o louro com a voz tranquila, ao mesmo tempo em que deixava um meio sorriso malicioso estampar o rosto.
— Você parece não ter tido problemas com isso — Alvo devolveu, fingindo prestar atenção na página marcada do livro.
— Acredito que eu tenha tido uma preparação familiar mais disposta a considerar essa possibilidade, se você me entende...
Alvo mordeu o lábio inferior pra não rir pela segunda vez.
— Suponho que você tenha razão — o moreno se limitou a dizer, virando a página sem conseguir realmente focar nas palavras.
— E você ainda está lendo logo essa matéria! — ressaltou Escórpio, voltando ao assunto anterior — Quer ganhar quantos mais pontos com a Ghazawwi?
— É sempre bom tentar melhorar no que já somos bons, não é? — Alvo propôs com descontração, mas sentindo uma pitada de orgulho pelo reconhecimento.
— Eu acho que só sou acima da média usando vassouras — comentou Escórpio, pensativo — Está ansioso pra primeira aula de voo? Vi no quadro de avisos que é em duas semanas.
— Pra falar a verdade não sou bom piloto...
— Você realmente foge das semelhanças com seu pai né — replicou Malfoy rindo
— É — Alvo respondeu, um pouco mais seco do que pretendia, franzindo a testa.
— Ei! — sobressaltou-se Escórpio, esticando a mão direita sobre a mesa e arregalando levemente os olhos — Eu, ah..., não quis ofender nem nada, não acho que isso seja um problema ou qualquer coisa.
Alvo fechou os olhos e sacudiu a cabeça.
— Não, tudo bem... — ele se lembrou da carta recebida mais cedo e olhou pro menino na frente com a expressão mais suave — Eu estava esperando quando ouviria isso pela primeira vez, acabei ficando na defensiva sem perceber.
— Desculpe, sério.
— Sem querer ser rude, mas você queria dizer alguma coisa? — questionou Alvo, firme de novo — Quando sentou aqui, eu digo.
— Sim, puxar uma conversa sobre o fato de você já ter começado a estudar — respondeu Escórpio como quem mostra algo que deveria ser óbvio — Tinha que ser algo além disso?
— É que... — Alvo recomeçou, a voz mais baixa — Eu só não entendo por que foi simpático e continua sendo, por causa...
— Por causa do meu pai? — interrompeu Escórpio, fitando-o com os olhos azuis bem abertos.
— Eu não disse isso — falou Alvo rápido, discordando.
— Mas pensou — retrucou o outro, mantendo a firmeza. Alvo pensou ter visto um lampejo de diversão nos olhos, mas o constrangimento o levou a abaixar o rosto — Nossa, você se intimidou com muita facilidade!
Escórpio abriu um sorriso faiscante e olhou pro menino de óculos com graça, que o encarou confuso.
— Por que você está com vergonha? — ele indagou, mantendo o rosto alegre e conferindo um tom bondoso à voz — Não é preciso ser um gênio pra sacar qual de nossos pais merece essa reação e qual não merece.
— Eu..., ah, não sei se tenho muito o que reagir estando na Sonser...
— Você realmente pensa assim? — cortou, abruptamente, Escórpio.
— Você mesmo falou agora há pouco! — exclamou Alvo, desnorteado — Perguntando se eu estava me acostumando à casa ruim.
— Olha, Alvo... — o menino estremeceu de forma discreta ao ouvir seu nome — Eu acho que você faria bom uso de um pouco de senso de humor — ele continuou, recuperando a ternura — Eu não teria como acreditar nisso de verdade e agir como se não me afetasse, e acho que as pessoas que se encaixam no estereótipo não pensam que estão do lado errado, então também não faz diferença. Não vou mentir e dizer que nunca me questionei sobre isso,ou meu pai, mas no fim das contas cada pessoa é única, definida pelo que ela decide fazer e como se comportar, e não pelo aparente potencial dela. — concluiu com simplicidade.
Alvo o analisou por uns segundos, muito curioso. Processava tudo o que tinha acabado de ouvir junto de tudo que lembrou enquanto manejava a nova capa da invisibilidade. Por algum motivo, ele sentia que Escórpio o compreenderia, de verdade, caso ele se abrisse sobre tudo.
— Ele disse isso pra você? — perguntou Alvo, de repente mais confortável.
— Meu pai? Não, ele pouco fala sobre o que aconteceu nos tempos de escola dele — negou Escórpio com cara de quem se lembra de uma boa piada — O que faz sentido. Se ele se arrepende de não ter tido boas decisões, era de se esperar que tivesse vergonha de lembrar quando não as tomou.
— Papai não guarda rancor — soltou Alvo sem pensar — Quero dizer, ele nunca falou sobre ter raiva do seu pai ou qualquer coisa...
— Sério? — falou Escórpio com vago interesse — Bom, ele parece mesmo ser um exemplo de nobreza né, pelo menos com o que aparece no Profeta Diário.
— Ele é — confirmou Alvo com um meio sorriso, mas os olhos verdes ficaram cobertos pelas pálpebras que caíram um pouco, o que não passou despercebido por Escórpio.
— Te incomoda a comparação? — sondou o louro com, pareceu a Alvo, uma mínima nota de preocupação.
Essa era outra questão que permeava a cabeça de Alvo. Não que ele não sentisse orgulho dos comentados feitos de seu pai e seus amigos e tios durante seus tempos em Hogwarts. O problema nunca foi ser parente de pessoas extraordinárias, mas o resto do mundo achar que o mais extraordinário que pudesse emanar dele fosse o parentesco em si.
— Não, não é isso... — disse o menino depois de alguns segundos olhando para o nada — Eu só quero ser alguém, sabe, não necessariamente ter conquistas grandiosas ou me tornar famoso, mas ser algo que não só um "Potter".
Escórpio assimilou as palavras não desviando o olhar.
— Bom, você já é da casa rival e não sabe usar vassouras, se virar o próximo grande bruxo das trevas vai ser bem original — ponderou Escórpio como se estivesse considerando com muita seriedade.
Alvo riu, o que fez Escórpio começar a rir também. Os dois continuaram conversando conforme o Salão se enchia, até perceberem que estavam com fome e seguirem para partes superiores do castelo.
Escórpio o reapresentou a Louis Hall, que se mostrou novamente simpático. Eles conversaram enquanto o Salão Principal se enchia e as travessas douradas começavam a apresentar batatas assadas com ramos de alecrim, coxas de frango refogado e carnes assadas com molho, pudim de Yorkshire e saladas de couve (Alvo não pôde deixar de começar a perceber o quão boa era a comida de Hogwarts, sentindo-se irritado por não ter aproveitado no primeiro dia e ansioso pela próxima data digna de banquete).
Louis mostrava-se claramente instigado por falar com o filho do famoso Harry Potter, mas Alvo conseguiu inverter o rumo do interrogatório. Logo descobriu que Louis era nascido trouxa, residente do distrito de Whitechapel em Londres e até o último mês não entendia como tinha sobrevivido à queda do último lance de uma escada quando tinha 6 anos.
— Minha mãe teve uma crise de risos antes de comecer a aceitar que eu era bruxo — comentou Louis no intervalo entre dois pedaços de batata — Depois começou a falar que simplesmente não acreditava, ele teve que conjurar algumas flores e um vaso pra colocá-las, até ela se sentar e ficar muito assustada por alguns minutos — ele lembrou, rindo — Ela estava nervosa até irmos ao Beco Diagonal, puxou assunto com alguns pais bruxos que estavam na Floreios e Borrões e começou a se animar.
— Então vocês não se conheciam antes? — Alvo perguntou sem pensar, com um garfo segurando um corte de bife no ar.
— Não, por quê? — revidou Escórpio de imediato, mastigando um pedaço de frango em seguida, mas olhando firme para Alvo.
— Ah..., por nada, só fiquei curioso — respondeu o moreno torcendo pra que o calor repentino não significasse que ele estava corando.
Alvo não queria ser sincero, mas ele assumiu que Louis fosse, pelo menos, mestiço, pois algo na sua cabeça pressupunha que um Malfoy, por ser puro-sangue, dificilmente estabeleceria relações com bruxos de origem não mágica, de primeira. No fundo ele tinha gostado de saber disso, embora estivesse irritado por ter sido desatento.
Na saída do Salão, foi ao encontro de Rosa.
— Você parece mais animado — a ruiva reparou, enquanto eles seguiam pela Grande Escadaria.
— Estou mesmo — Alvo confirmou, com serenidade, e logo explicou sobre a carta que tinha recebido de seu pai mais cedo. Acabou confidenciando, também, sobre a posse da capa da invisibilidade.
— Eu sabia que não tinha ficado maluca! — exultou-se Rosa — Uma vez eu ouvi meus pais conversando e dando a entender que o tio Harry tinha uma capa dessas, mas quando eu perguntei mamãe olhou de cara feia pro meu pai e ele deu uma desculpa qualquer...
— É bem real na verdade, e é muito gostosa de passar a mão — ele destacou.
— E esse é o único motivo pra estar mais contente? — inquiriu a prima, com os olhos caindo sobre Alvo, que se fez de desentendido — Eu bem vi você e o filho dos Malfoy rindo de alguma coisa na mesa da Sonserina — ela esclareceu.
— Ele é legal, e eu espero que vocês não achem que eu tenha que ignorar todos da minha casa — disse Alvo logo na defensiva.
— Não acho que você tenha que fazer isso, só fiquei... intrigada com o contato de vocês.
Alvo não teve que pensar muito no que dizer, pois logo ele chegou na porta para o primeiro andar, onde seguiria até as Masmorras por um caminho alternativo. Ela se despediu, continuando nas escadas em direção ao Salão Comunal da Grifinória, e ele estava prestes a andar quando foi chamado.
— Al! — disse James, subindo rápido os degraus para não perdê-lo de vista.
— Oi James — se virou Alvo, levemente preocupado com a chance dele tê-lo visto falando com Escórpio.
— Papai me mandou uma carta hoje também, ele me avisou que falou contigo — o mais velho disparou — Como você está?
— Melhor, juro — Alvo respondeu com um pequeno sorriso, que foi retribuído pelo irmão.
Alvo mudou de trajeto e o acompanhou pelo castelo, passando pela Torre do Relógio, pela ponte e caminhando nos terrenos até o Corujal, com uma belíssima vista da escola e seu entorno. Ambos escreveram para seus pais e despacharam as aves ao céu, voltando lentamente para o castelo.
— Como foi a primeira semana?
— Bem boa, as aulas são ótimas, com exceção de História da Magia... — James revirou os olhos e bufou em resposta, como quem se lembra de algo particularmente irritante — ... e Defesa Contra As Artes das T...
— Sério?! — cortou o mais velho — o Binns eu até entendo, é um saco mesmo, mas eu gosto do Prof. Daugherty.
— Talvez seja só por não termos tido nada prático ainda, mas de qualquer forma não tive a impressão dele ser muito didático. Você gosta dele ou da disciplina em si? — perguntou Alvo.
— Talvez seja pela matéria mesmo — considerou James, pensativo — Ele não passa a segurança do Flitwick e da Ghazawwi, eu concordo, mas é uma aula mais dinâmica. Transfiguração é muito complicada.
— É a minha favorita até agora — Alvo disse, rindo — E Poções? Como o Slughorn age contigo?
— Provavelmente da mesma forma que te trata — falou James com um tom soturno — Se ele começar a te convidar pros jantares do clube dele, faça um favor a si mesmo e arrume desculpas, é só uma bajulação sem fim. Papai já tinha me avisado que ele gosta de reunir pessoas consideradas "ilustres", é insuportável.
— Ele já me olha de um jeito estranho mesmo — confirmou Alvo, achando graça.
— Mas fora isso — James mudou de tópico — O que você tem feito? Arranjou colegas? Além da Rosa, claro...
— Bom..., eu não sabia onde eram todas as aulas essa semana então não tive tanto tempo livre — iniciou Alvo, tentando ganhar tempo pra pensar — Mas já falei com alguns sim, Louis Hall e, ah, Escórpio.
James parou de andar. Eles estavam na metade da Ponte de Madeira, indo pro Pátio da Torre do Relógio. Ele se virou pra Alvo com uma expressão indefinível.
— Escórpio... Malfoy, você diz? — falou o irmão grifinório, por fim.
— Tá, você não confia nele...
— Você confia? — rebateu James, calmo.
— Eu não tinha certeza no início — admitiu Alvo, com os braços cruzados em proteção e coçando o cotovelo — Mas acho que não tenho motivo pra ter problemas com "ele" em si, tenho?
— Não quero que você me entenda mal, não é por ele ser da Sonserina, por motivos óbvios — James se apressou em esclarecer quando Alvo o olhou, irônico — Mas você sabe os motivos para a minha inquietação...
— Sei e compartilho deles — disse Alvo, apoiando os braços por uma das aberturas da cobertura da ponte, por onde tinha uma paisagem que se abria ao vale entre os terrenos, o penhasco do Corujal à esquerda e o castelo à direita — Ele me pareceu genuíno quando o questionei sobre isso — Alvo continuou, também dizendo a verdade.
— Sei lá, continua sendo estranho... — James se debruçou no parapeito, ao lado dele — Você pretende falar disso com papai?
— Não nego que é, no mínimo, engraçado... — começou Alvo, ignorando o ruído estrangulado que saiu da garganta de James, como quem acha "engraçado" um grande eufemismo — Mas o próprio papai não parece ter mais problemas com a família dele. Eles foram anistiados depois do final da guerra, e eu não sei até que ponto eles realmente eram do lado de Você-Sabe-Quem...
— O avô dele era um comensal da morte, Alvo — lembrou James, amargo — E pelo pouco que sei o pai foi inimigo declarado do nosso.
— E você concorda comigo que é injusto julgar as pessoas pelo parentesco delas com quem quer que seja? O dono do seu segundo nome era de uma família de notórios puro-sangues discriminadores, e nem por isso o nosso avô deixou de se aproximar dele.
— Sim, porque ele era da Grifinória, a mesma casa deles — escapuliu James sem pensar.
Alvo se virou pra ele e o encarou, os olhos esmeralda de repente mais frios. Fez-se um desconfortável silêncio por alguns segundos, enquanto uma brisa mais fria, própria do fim do verão, passava pela ponte e despenteava os cabelos negros tão iguais em seus desalinhos dos dois. O terceiranista, embora mais alto, acabou por desviar do olhar do mais novo, esfregando a mão no braço oposto enquanto ficava envergonhado.
— Sim, e Escórpio é, também, da minha casa, por mais que não seja a de vocês — pronunciou, por fim, Alvo, com um jeito categórico na voz.
— Desculpe Al, sério. Eu não quis dizer isso, muito menos te magoar — James se retratou com um quê de súplica.
Alvo continuou mirando-o por um momento, até a expressão se suavizar.
— Eu entendo que você não esteja falando nada por mal, mas eu não quero que ache que eu não pensei nisso tudo antes. Boa parte das outras pessoas me vê como se eu fosse um experimento que deu errado na Sonserina, ou pior. Ele não parece ser assim, e eu não vou arrumar confusão sem um bom motivo, eu preciso de amigos tanto quanto vocês.
— E eu não duvidei disso nunca, eu que perguntei se estava falando com outras pessoas — ressaltou James, aliviado pelo fim do clima tenso — Eu só quero que você tenha cuidado...
— Eu vou ter — Alvo se manteve firme.
Desistindo de tentar fingir que não tiveram uma quase discussão, James alegou precisar ir na Biblioteca pra começar deveres que já tinham passado para a série dele e se despediu. Alvo seguiu caminhando e sentou-se num dos bancos do Pátio da Torre do Relógio, olhando o Chafariz no centro do espaço, com sua estrutura de pedra e estátuas de grandes pássaros em ruínas, onde havia poucos alunos.
Alvo ficou observando as engrenagens do grande relógio visíveis pelo vitral e se perdeu em pensamentos sobre as conversas do dia, não registrando as pesadas e cinzentas nuvens que cobriam o céu. Queixava-se sobre poder ter reagido mal à preocupação do irmão, ao mesmo tempo em que conjecturava o que haveria de ruim em se relacionar com Escórpio. Não tinha visto sequer uma sombra de malícia nos olhos azul claros naquela manhã. Estaria sendo ingênuo?
A chuva começou a cair.
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