A Quinta Exceção

4 Montecchio e Capuleto


Era a última semana de agosto, o que dava motivos mais que suficientes para a anormal quantidade de pessoas abarrotando as ruas e ruelas do Beco Diagonal. Dali a cinco dias, o Expresso de Hogwarts sairia de Londres com boa parte das crianças e adolescentes que agora apinhavam o caminho e se debruçavam sobre os anúncios nas vidraças das lojas, todas previstas para cursar a escola de magia e bruxaria que abarcava toda a Grã-Bretanha.

Com passagens levemente tortas e prédios de alturas desencontradas, o Beco era uma das poucas áreas urbanas na cidade frequentada apenas pela comunidade bruxa (ou quase, devido aos sempre espantados familiares dos estudantes nascidos trouxas). A via principal ia da passagem mágica dos fundos do Caldeirão Furado até o majestoso edifício de Gringotes, o banco dos bruxos, com suas imponentes colunas de mármore branco. Entre os dois pontos, múltiplas lojas dos mais variados artigos mágicos, materiais escolares, serviços e restaurantes, cada estabelecimento com um formato e fachada únicos, gerando uma confusão de gaiolas de cobre com corujas, sapos e outros animais, estantes com livros, mostruários de vassouras e globos com modelos de galáxias em movimento que se intercalavam aos pedestres da multidão.

Alvo Potter, agora com 13 anos, vinha nesse momento acompanhado de James e uma menina ruiva mais baixa, com os olhos nitidamente brilhando de emoção. Era sua irmã, Lílian, que estava pela primeira vez comprando uniformes na Madame Malkin — Roupas para Todas as Ocasiões, os irmãos tendo obtido vestes mais compridas. Ambos tinham crescido bons centímetros nos últimos dois anos, Alvo com as feições menos infantis, embora ainda parecendo uma perfeita versão mais jovem de seu pai. Harry vinha logo atrás, depois de despistar duas mulheres no interior da loja que vieram ao seu encontro enquanto pagava pelos trajes completos.

— Filha, vamos ver a sua varinha... — disse o patriarca dos Potter, já incomodamente consciente dos olhares que atraía no meio da rua, enquanto direcionava a menina para a loja com o letreiro "Olivaras: Artesãos de Varinhas de Qualidade desde 382 a.C" em letras descascadas de ouro, com uma única almofada púrpura na vitrine, onde repousava uma varinha — James, Alvo, continuem suas compras e nos encontramos mais tarde.

— Al, vou encontrar o Fred na Gemialidades Weasley, ok? — James falou já acenando pro ruivo (outro deles) que aguardava na esquina da espalhafatosa fachada laranja cheia de adornos que flutuavam, explodiam e soltavam os mais diversos barulhos. Era a loja de logros e brincadeiras de Jorge Weasley, um dos tios dos meninos — Você quer ir ou ainda tem coisas pra ver?

— Faltam livros, por causa das matérias novas. — se apressou Alvo, tanto porque era verdade quanto por não estar afim de aturar a confusão de pessoas dentro do lugar (ou o tio, que não conseguia ficar pouco mais que 10 minutos sem fazer alguma menção jocosa ao fato do sobrinho ter ido parar na Sonserina) — Vejo vocês depois.

Alvo foi caminhando pelo outro lado da rua, ignorando algumas encaradas e dedos apontados até chegar na fila pra entrar na Floreios e Borrões. Recordava as reuniões familiares dos dois últimos anos e os motivos pra preferir manter uma cordial distância de alguns dos tios. Jorge mencionava de forma constante a questão das casas, mas Alvo sentia como uma implicância amistosa por parte dele (ainda que irritante). Tio Rony, contudo, desde a primeira vez que o vira após a seleção agia como se ele tivesse alguma doença contagiosa porém rude de ser socialmente falada. Ele o cumprimentava sempre com um sorriso que mesclava uma careta, por vezes sendo fuzilado pelos olhos da esposa. Harry parecia sempre um misto entre aborrecido e divertido, e logo buscava trazer algum assunto. Alvo já tinha se acostumado, e praticamente não tinha mais culpa (nesse tema), mas sempre que podia evitar o clima, o fazia.

"Talvez com a Lílian agora eles tenham outro motivo pra fofocar" ele pensou, distraído. Ele sabia que era extremamente provável que ela fosse pra Grifinória também, o que só enalteceria a disparidade entre ele e os outros, mas ele não se sentia mais tão preocupado com isso. Havia, afinal, outras partes dele com maior potencial de gerar atrito. Parou de prestar atenção na fila que chegara ao fim e acabou tropeçando no degrau de entrada da livraria.

— Cuidado, rapaz — disse o gerente impedindo-o de se desequilibrar. A Floreios e Borrões estava cheia, como de costume — Hogwarts?

— Sim, mas estou entrando no terceiro ano — Alvo esclareceu, se aproximando de uma das estantes — Preciso de exemplares de Transfiguração para o Curso Médio, além de Animais Fantásticos e Onde Habitam, de Newt Scamander, e Vida Doméstica e Hábitos Sociais dos Trouxas Britânicos, de Wilhelm Wigworthy.

— Volto logo — o funcionário foi para os fundos da loja.

Alvo ficou olhando a prateleira e pensando se levaria algum outro livro complementar de transfiguração. Estava empolgado por comprar o livro didático para o ano dos N.O.M.s, cujos estudos se iniciavam na terceira série e se concluíam na quinta. Tinha pego alguns emprestados com a tia Hermione nessas últimas férias de verão, mas queria começar a olhar os novos tópicos para chegar adiantado nas aulas. Estava passando a mão na lombada de couro marrom-avermelhado do Manual do Animago quando sentiu uma mão no ombro.

— Sabia que te encontraria na seção da sua matéria favorita — disse uma voz suave, agora mais grave, e Alvo se virou, deparando-se com Escórpio Malfoy.

Escórpio também esbanjava sinais da passagem dos últimos dois anos. Continuava bem pálido, ainda um pouco mais alto que Alvo, mas com os cabelos louros quase brancos mais curtos, ainda divididos pela risca lateral porém com um topete despojado deixando a testa mais aparente. O colega de casa na escola usava uma capa verde-escura, segurava uma sacola com quatro livros em uma das mãos e dava para Alvo um sorriso torto que fez o mais baixo retribuir de imediato.

O filho do meio dos Potter estava agora habituado a ver esse sorriso e ouvir essa voz. Depois de um início suspeito e um tempo de adaptação, Alvo e Escórpio tornaram-se tão próximos quanto duas pessoas podem ser, a despeito da ironia do destino. Eram colegas de casa, de dormitório e de classe. Estudavam juntos, passavam boa parte do tempo livre juntos (Alvo abria janelas na agenda para também estar com Rosa, sua prima e amiga de infância), era como se não houvesse qualquer fator no passado dos familiares dos dois que pudesse tornar a relação digna de estranheza.

Mas havia. Como se não bastasse o filho do bruxo responsável pela queda do Lorde das Trevas ir para a casa do genocida, ainda se tornara amigo do filho de um dos mais reconhecidos Comensais da Morte. Isso já tinha sido brevemente debatido por eles, é claro, mas acabou sendo pouco importante conforme foram se conhecendo. O mesmo não pode ser dito sobre outras pessoas, como James Potter. Alvo procurou entender o lado dele, e na maior parte do tempo o tema era apenas inominável, com exceção das semanas em torno dos jogos de quadribol entre Grifinória e Sonserina. James era apanhador, enquanto Escórpio jogava na posição de batedor pelo time da casa verde-prateada. Isso gerava diversas ocasiões propícias ao estresse, e por uma vez, no ano anterior, James resolveu tirar satisfações com o Malfoy após um jogo acirrado no qual ele contestava um balaço que tinha sido direcionado a ele mais vezes do que deveria. Escórpio não se inflamou, mas alguns alunos da Sonserina que já estavam no campo durante a saída do estádio se intrometeram e a confusão só terminou com 50 pontos retirados de ambas as casas. Alvo amargou alguns dias de frieza com o irmão mais velho até decidir engolir a mágoa.

Infelizmente a conexão dos meninos era comentada por outras pessoas. Alvo se lembrava do Natal no primeiro ano, quando voltara pra casa e James soltou no meio da noite, quando estavam se sentando à longa mesa prestes a cear, que Alvo andava com o filho de Draco Malfoy. Os tios Weasley tiveram múltiplas reações. Gui, Fleur e Percy pareceram educadamente curiosos. Jorge e Angelina não conseguiram não fitar Alvo com perplexidade, e Rony engasgou-se com o Whisky de fogo, gerando muxoxos da esposa que puxava a varinha pra limpar as vestes do marido incrédulo enquanto olhava para Harry como quem se desculpa. Seu pai o olhou confuso e apenas perguntou "sério?" como se o filho mais velho tivesse dito que Alvo era fã da banda bruxa As Esquisitonas. Ele respondeu o pai, corando e disposto a não encarar os olhos das outras pessoas na ocasião, e Harry resolveu fingir que não havia absolutamente nada demais (naquele momento), puxando uma conversa vivaz sobre as mudanças do Quartel-General dos Aurores. Nessa hora, Gina soltou um suspiro quase imperceptível e voltou os olhos para Alvo, dando uma piscadela. Ele já tinha escrito a ela sobre a amizade com o (outro) sonserino, ficando feliz por ela não ter contado para seu pai até que ele se sentisse confortável pra contar (ou, no caso, até que James desse com a língua nos dentes como fez). Sua mãe apenas agradecia pela confiança e falava palavras de tranquilidade, não expondo a mínima gota de repreensão. Poucos dias depois, quando Harry conseguiu ficar sozinho com o filho, perguntara-lhe sobre Escórpio. Não pareceu irritado ou qualquer coisa, mas dava a impressão de ter medo que Alvo estivesse em perigo ou algo do tipo. Alvo questionou se ele ainda tinha algum problema com o pai do amigo, ao que Harry negou e ficou sem graça, dizendo que estava tudo bem e encerrando o papo.

Alvo sabia que era mais um dos pontos que o tornavam alheio ao seio familiar, mas naquele momento, na Floreios e Borrões, a ansiedade era mínima, pois ele estava do lado de um Escórpio sorridente, e a presença do menino o fazia bem. Ele até o avisara por correio-coruja o dia que faria as compras no Beco, embora não tivesse certeza se o amigo estaria disponível.

— Estou quase levando um desses mesmo, pra não precisar ir tanto na Biblioteca esse ano — confirmou o moreno, fazendo o louro revirar os olhos.

— Não tem como ter uma nota acima da máxima, sabia?

Alvo riu e foi interceptado pelo gerente, que voltara para a parte da frente da loja com os três livros. O menino fez uma careta, se lembrando de que faltava um exemplar.

— Perdão, esqueci que também preciso de O Livro Padrão de Feitiços 3ª série, de Miranda Goshawk — falou Alvo com cara de culpa. O gerente semicerrou as vistas e voltou aos fundos resmungando.

— Achei que você fosse estar mais animado para as novas aulas — comentou Escórpio, desconsiderando a grosseria do homem.

No final da segunda série eles tiveram de decidir em quais das disciplinas além das principais eles se matriculariam. Alvo escolheu Trato das Criaturas Mágicas (Hagrid, e seu pai, não o deixariam ficar sem essa), Escórpio escolheu Adivinhação, e ambos fariam juntos Estudo dos Trouxas.

— Estou, mas estou mais curioso pra saber o que você vai fazer em Estudo dos Trouxas — respondeu Alvo, com voz de riso.

— Prestar atenção, o que mais? — retrucou Escórpio — Eu tenho mais motivos pra cursá-la que você, cujo pai é mestiço.

— Eu sei, mas ele não passa o tempo falando sobre a infância dele com os tios — contrapôs Alvo — E eu fico feliz por você querer saber mais sobre a população não bruxa, a despeito dos seus antecedentes... — provocou, dando ênfase à última palavra.

— Eu não faço ideia do que você está falando — Escórpio soltou num tom exageradamente ofendido, começando a rir em seguida. O desgosto das famílias puro-sangue(Malfoy incluída) pelos nascidos trouxas, antes um tabu, virara motivo de piada entre os dois.

— Aqui está — disse o gerente, estendendo o livro de Feitiços para Alvo e já dando as costas para atender outro cliente.

Eles seguiram para o caixa, deram alguns galeões de ouro e saíram da livraria com as compras em sacolas penduradas no ombro. Foram andando para o outro lado, passaram pela Artigos de Qualidade para Quadribol (Escórpio parou para dar uma olhada na Firebolt Supreme, enquanto Alvo esperava entediado) e logo chegaram à Sorveteria Florean Fortescue.

A loja tinha uma limpa fachada branca, com duas mesas redondas na calçada para clientes e alguns lugares do lado de dentro. Eles se sentaram do lado de fora e Alvo mal tinha se levantado pra ver os sabores quando o dono, Florean II, chegou pedindo que eles se acomodassem e que já traria dois grandes sorvetes de chocolate e framboesa com nozes picadas, por cortesia da casa. No interior, Alvo conseguia ver um quadro emoldurado de Florean sênior, o proprietário original da sorveteria, sorrindo simpático para a câmera conforme ajeitava o avental e o chapeuzinho em formato de barco de papel. Florean fora sequestrado e presumidamente morto por Comensais da Morte na Segunda Guerra Bruxa, e agora seu filho, honrando a memória do pai, fazia questão de não permitir que os filhos de Harry Potter e seus amigos gastassem um único nuque em seu comércio.

— Ansioso pro ano letivo? — perguntou Escórpio enquanto lambia uma lateral da enorme casquinha.

— Sempre fico, mas há alguma razão específica dessa vez pra ficar mais?

— Hogsmeade, óbvio!

— Ah... — Alvo compreendeu sem muita euforia. Hogsmeade era a aldeia inteiramente bruxa onde ficava a plataforma de chegada do trem que leva os estudantes a Hogwarts. Os alunos da terceira série para frente têm o direito, caso concedido pelos guardiões legais, de visitar o vilarejo alguns dias do ano — São só umas três vezes, e a primeira acho que é só no final de outubro.

— Que desânimo — disse Escórpio franzindo a testa — Tem lugares ainda mais legais pra conhecer que aqui no Beco Diagonal, e estaremos sem adultos, e sem coisas pra resolver. É uma oportunidade bem legal.

— Não precisa ficar preocupado, eu irei — certificou Alvo, achando a expressão do outro engraçada — Só não vejo nada demais. Acho que o fato do castelo ficar quase vazio nessas datas muito mais atraente.

— Pra fazer o quê? — desdenhou o louro.

— Não precisa ter nenhuma atividade em particular pra aproveitar a calmaria.

— Pois você vai, então acostume-se com a ideia de ter atividades e não ter a calmaria quando formos — decretou Escórpio, fazendo Alvo rir e se descontrair.

— Podemos ficar juntos da Rosa? — investigou o menino enquanto o outro terminava de mastigar a casquinha — Ela disse que queria ir comigo, um dia nas férias.

— Sem problemas — consentiu Escórpio com a expressão serena. Rosa era uma das poucas pessoas do núcleo Potter-Weasley que, se tinha algum problema com a amizade do Malfoy com Alvo, não explicitava de forma alguma. Os três atraíam olhares muito curiosos quando andavam juntos no castelo, o contraste entre os distintivos com leão e serpentes fazendo a maior parte do trabalho — Quer chamar o James também?

— Olha, eu já disse que não queria que ele tivesse puxado br...

— Calma Al — interpelou Escórpio abafando um riso, ao ver como o outro já se exaltava e ficava vermelho ao mesmo tempo — Você sabe que eu não guardei rancor nem nada, eu só menciono pra te irritar — ele completou, o rosto cínico.

— Eu sei, e você sempre consegue — bufou Alvo, jogando um canudo do pote em cima da mesa sobre o louro — Mas eu realmente queria que isso não fosse uma "coisa"

— Eu também, mas no final do dia eu meio que não ligo. Enquanto você não mudar de opinião e continuar querendo falar comigo, estou satisfeito —encerrou Escórpio olhando diretamente os olhos verdes do garoto.

Alvo não conseguiu frear um pequeno sorriso. Não estava racionalizando esses pensamentos na hora, mas as palavras do outro tinham feito algo dentro dele se aquecer, junto do rosto, que ele sentia estar traindo-o com o aumento do fluxo sanguíneo.

Ele não conseguia sequer cogitar parar de falar com o amigo. Não depois dele ter se imposto a alguns sonserinos mais velhos que tripudiaram do fato de Alvo estar na casa. Se lembrava dele ter dito que as pessoas deveriam sentir orgulho por Potter estar naquele Salão Comunal, e ironizado os críticos, perguntando-os se queriam que ele falasse com o Prof. Slughorn sobre o incômodo.

Ou outra vez, no segundo ano, quando Alvo foi zombado por Henry Corner por não conseguir executar um feitiço defensivo na aula de Defesa Contra as Artes das Trevas, aluno esse que acabou com o rosto deformado e ardendo por algumas horas na Ala Hospitalar após ser atingido por uma Azaração Ferreteante. Alvo não entendeu quando Escórpio chegou, mais tarde, com o rosto mais inocente possível avisando que tinha pego uma detenção com o Prof. Flitwick. Ele só ligou os pontos na aula seguinte, observando a raiva com que o aluno da Corvinal encarava Escórpio, sentado do lado de Alvo com o semblante mais brando que ele já vira.

Não que Alvo acreditasse que o outro precisava defendê-lo, nem de longe, mas isso não mudava o fato de que ele o fazia mesmo assim. E essa sensação de que ele era suficientemente importante pra que Escórpio se colocasse em situações de risco por ele, no fundo, o encantava. O fazia esquecer, por várias vezes, os empecilhos proporcionados por aquela amizade.

— Como foram as férias? — inquiriu Alvo, tamborilando os dedos sobre a mesa.

— Tediosas, como as últimas — falou Escórpio, enfadado — Não tem nada pra fazer em Wiltshire...

— Você mora na vila de Marlborough, não mora? — ao que Malfoy confirmou com um aceno de cabeça — Então, deve ser mais interessante que Godric's Hollow. Só tem bruxos, a maioria velhos.

— Tem turistas lá, mas a propriedade fica afastada dos trouxas — disse Escórpio, virando o rosto pro lado como quem não quer atrair o foco para sua casa (que, no caso, era uma mansão).

— Eu queria ir pra um lugar cheio deles — constatou Alvo — Não necessariamente Londres, mas alguma das metrópoles com população majoritária trouxa. Pelo pouco que eu sei, eles tem uma vida muito interessante, espero que as aulas falem disso.

— Acha possível preferir viver como eles? — Escórpio questionou, olhando-o como quem esconde uma grande vontade de saber a resposta, não reparada por Alvo.

— Bem..., acho que eu sentiria falta de poder usar a magia sem me preocupar com a exposição — pontuou o moreno, passando a mão nos cabelos e despenteando-os — Fora a perda de várias praticidades. Como você ficaria sem elfos domésticos?

— Nós não temos elfos domésticos — replicou Escórpio com certo desafio na voz.

— Ah, desculpe — começou Alvo, constrangido — Eu não presumi por mal...

— Nunca perde a graça fazer isso contigo — declarou o mais alto rindo de leve, enquanto Alvo murmurava "francamente" e dava um chutinho por baixo da mesa.

— Alvo, até que enfim te achei! — exclamou uma voz adulta que se aproximara repentinamente à entrada da sorveteria — Passei pela rua principal duas vezes, não te achei na Floreios e Borrões e você não avis...

Harry Potter estacou antes do degrau da calçada e ficou alguns segundos sem reação. Alvo tinha se esquecido de que ele nunca encontrara Escórpio, que nesse momento o olhava como quem diz "Vai me apresentar ou não?"

— Ah..., pai, esse é o Escórpio, já te falei dele, da escola — Alvo estendeu o braço em direção ao amigo, atrapalhado, que se aproximou de Harry com um sorriso simpático e ergue a mão espalmada para cima, com naturalidade.

— Muito prazer em conhecê-lo, Sr. Potter — Escórpio o cumprimentou, solene, até que o homem pareceu acordar de um pequeno transe e sacudiu a mão junto.

— Igualmente — respondeu suavizando as linhas da face.

Nesse meio tempo, os irmãos estavam atrás do pai, aguardando alguma deixa para irem embora. James esfregava as mãos dentro dos bolsos do robe e parecia ter desenvolvido um tique nervoso na sobrancelha esquerda, enquanto Lílian não prestava atenção, brincando de passar a nova varinha de uma mão para outra. Alvo não tinha certeza se começava a gargalhar por nervosismo ou se ficava analisando os próprios sapatos na esperança de que uma fenda se abrisse no chão e o poupasse de ter que conduzir aquela interação. Para o seu desagrado, ele não teve muito mais tempo pra raciocinar.

— Acabei de voltar do Gringotes, Escórpio, você precisa trocar um caldeirão ou outra co...

O homem alto quase espelhou a postura inicial do pai de Alvo. Draco Malfoy era, como Harry era para ele, uma versão madura de seu filho. Elevado, com cabelos loiros (esses mais pomposamente penteados) e traços finos, sendo o queixo mais estreito e proeminente e os olhos menos amendoados que os do filho. Usava vestes cinza-chumbo elegantes e seria uma presença imponente, se não tivesse encurvado a coluna e encolhido um pouco os braços ao notar seu antigo colega de escola.

— Bom dia, Potter — ele falou com a voz mais baixa, sendo retribuído com um aceno de cabeça de Harry, que não parecia inquieto. O silêncio foi novamente aparado por Escórpio.

— Papai, esse é o Alvo — ele disse, animado, virando a cabeça pro amigo e repetindo o gesto com o braço aberto.

Alvo se perguntava se ele já tinha mencionado à família que era amigo do filho de Harry Potter, e, a julgar pela expressão de Draco, não tinha certeza nem de uma possibilidade nem de outra. O homem se inclinou e o cumprimentou com mãos fracas, temendo parecer hostil no contato físico. Alvo estrangulou um "É um prazer" e olhou discretamente pra Escórpio, que parecia prestes a caçoar. Ele pensou ter visto uma rápida piscada de olho do menino para ele, mas não teve coragem de se pronunciar.

— Bem, vamos indo então, Alvo? — chamou Harry.

— Sim, sim..., também temos que ir, pegue a sacola Escórpio — se aprumou Draco, subitamente devotado à abotoadura na manga direita do robe.

— Então, a gente se vê na escol... — começou Alvo se afastando da mesa, mas foi interrompido.

Escórpio se adiantou e, colocando os braços nas costas do outro, o envolveu em um abraço. Poderia ter sido como qualquer outro cumprimento, não fosse o fato de Alvo estar plenamente consciente de que era o primeiro abraço dos dois. Não que ele tivesse negado antes ou coisa assim, mas mesmo nos outros retornos de férias de fim de ano ou de verão eles tinham apenas apertado as mãos, ou só começado a conversar como se tivessem se visto quinze minutos antes. Ele não pensava muito sobre, talvez Escórpio não gostasse muito de contato corporal, e talvez a percepção fosse recíproca, já que ele também nunca tomara a iniciativa. De um jeito ou de outro, ele não estava esperando que a primeira vez fosse ser ali, naquela hora.

Mas foi. E foi bom. Escórpio era um pouco mais alto, o que fazia com que a cabeça de Alvo se encaixasse no pescoço dele. No instante em que o abraço começou, o mais baixo ficou petrificado, mas por reflexo começou a erguer os braços e o apertou também. Ele não imaginava que fosse ficar tão contente com isso. Talvez fosse o aroma de maçã-verde que desprendia do corpo do louro o inebriando, mas ele quase se esqueceu de que tinha plateia.

Quase, pois subindo os olhos ele viu o pai do amigo com cara de quem estava tentando entender um idioma desconhecido. Pensando na provável reação da própria família atrás, ele conseguiu se desvencilhar, pedindo a Merlin que não estivesse ficando com as bochechas rosadas.

Os Potter se viraram e foram caminhando para o fim da rua principal, onde chegariam ao Caldeirão Furado e poderiam usar a Rede de Flu para voltar para casa. Alvo, entretanto, andava no piloto automático, a visão desfocada da paisagem de quem está perdido em pensamentos. De repente adquirira uma enorme vontade de ir pra Hogwarts, e até de visitar a aldeia de Hogsmeade. Ele só não suspeitava que isso não tivesse a ver com a parte acadêmica da instituição.