A Quimera da Terra

1 Verdade ou Desafio


Notas iniciais
Como eu disse, a história é original. Posto de tempos em tempos, mas não tenho data fixa pra novos capitulos. A história foca mais na parte da fantasia, mas espero que seja do agrado de todos. Gosto de comentários, então por favor, comente. Nem que seja só um "continua", eu fico muito feliz. Ok? Boa leitura!

Eu não queria nem estar naquela festa, mas estava lá só pela presença dos meus amigos. Sabia que depois que tudo acabasse eu poderia subir o elevador e passar a noite conversando com a minha melhor amiga, de preferência bem longe da minha casa sempre barulhenta. Tudo andava como eu esperava que seria, até que o salão imenso do prédio começou a esvaziar aos poucos e antes que eu notasse, só haviam sobrado meu não tão pequeno assim grupo de amigos mais próximos. Quando levantei o olhar da tela do meu celular, a música foi desligada e ouvi meu nome ser chamado várias vezes para me juntar ao grupo sentado no chão em um círculo com uma garrafa de bebida vazia no centro. Sabia o que era antes mesmo de falarem qualquer coisa. Verdade ou Desafio não era lá minha brincadeira favorita, mas meus amigos estavam claramente bêbados e como a única obviamente sóbria poderia pensar direito o bastante para recusar qualquer besteira maior que pudessem inventar. Dei de ombros e decidi me juntar a eles no chão, me sentando ao lado de Sarah, minha grande amiga e anfitriã e obrigando sua atual quedinha se sentar à sua frente. Ela não entendia muito bem minha estratégia por conta do seu estado embriagado, mas eu estava fazendo um favor a ela.

Quando todos já estão sentados, a garrafa começa a rodar e o jogo começa. Apenas assisto algumas rodadas passarem e filmo em meio a risadas toda vez que algum de nós escolhe o desafio e decidem algo vergonhoso ou estúpido para o corajoso fazer, eles não sabem muito bem o que estão fazendo agora, mas eu vou adorar mostrar todos esses vídeos para eles amanhã. Mal acabo de salvar o último vídeo quando ouço o som da garrafa girando mais uma vez e em seguida todos me olham com expectativa. Não entendo por alguns segundos seus olhares, até que noto que um dos lados da garrafa aponta em minha direção e compreendo. Deixo o celular com a tela bloqueada no chão ao meu lado e espero que façam a pergunta de sempre. Meu desafiante era um dos meus amigos mais próximo, Éric. Normalmente ele era a quem as pessoas procuravam quando precisavam de conselhos ou alguém que as confortasse, mas agora ele me olhava sabendo qual seria minha resposta antes de dizê-la. Assim como eu, Éric não costumava beber e eu sabia que era um dos poucos além de mim que estava em um estado de sobriedade. Ele sabia muito bem o que estava fazendo e iria escolher algo estúpido para me desafiar mesmo que eu escolha uma pergunta. De qualquer forma, eu não me importo. Nada pode ser tão ruim assim.

-Verdade ou Desafio?-ele me pergunta.

Não hesito antes de responder.

-Desafio.

Ele sorri e espero enquanto ele pensa em alguma coisa como desafio. Éric fica em silêncio por alguns instantes até que parece ter tomado uma decisão e passa o olhar por todo o grupo antes de começar a falar o que quer que tenha pensado.

-Algum tempo atrás, li sobre uma lenda urbana em algum lugar.-Ele começa a contar.-E agora que estamos todos aqui, quero que você seja minha cobaia

-Lenda urbana?-indago com um meio sorriso.-Você acredita nessas coisas?

-É claro que não, por que? Você acredita?-balanço a cabeça negando ainda sorrindo um pouco.-Então não vai se importar em tentar, certo? Faz parte da brincadeira.

-Tudo bem, vai em frente.-respondo.-O que eu tenho que fazer? Chamar a Bloody Mary?

-Não, é bem melhor do que isso.-Ele diz.-É fácil, só me escute porque se você não fizer exatamente como eu disser, não conta.

Concordo e me mexo para ficar em uma posição mais confortável.

-De acordo com a lenda, você deve entrar no elevador completamente sozinha.-ele começa a me detalhar as instruções em ordem.-Quando entrar, aperte os andares 4, 2 e 10, nessa ordem. Se alguém entrar, o ritual será desfeito. Quando você chegar ao 10º, pressione o botão do 5º andar sem sair. Nesse andar uma mulher jovem vai entrar e irá acompanhá-la no elevador. Não fale com ela. Depois que a mulher entrar, pressione o botão do 1º andar.

Depois de o pressionar, o elevador vai levá-lo até o 10º andar, em vez de levá-lo para 1º andar térreo. Se for desistir, pode apertar outros botões, mas essa é sua última chance de parar. Mesmo achando que você não vai fazer isso.

Ele sorri como se eu fosse do tipo medrosa. Eu vou fazer isso porque sei que não é real e é besteira.

-Há apenas uma maneira de verificar se você foi bem sucedido no ritual ou não.-ele conclui.-O mundo onde você chegou deve ter apenas uma pessoa, ou seja, você. Eu não sei o que acontece depois que você chega lá. Mas eu posso te dizer uma coisa — a mulher que entra no elevador no 5º andar não é humana.

-Isso não dá medo.-declaro e noto que algumas das garotas parecem estar assustada sim.

-Eu discordo.-Sarah diz cruzando os braços logo abaixo dos seios.-Mas quero que faça mesmo assim, por favor.

Suspiro enquanto ela ri de forma descontraída.

-Querem me acompanhar até o elevador ou não?-Me levanto e guardo meu celular na mochila e a jogo sobre as costas depois de vestir minha jaqueta.

Sarah e Éric assentem e me acompanham até o elevador, só para se certificar de que eu vá fazer isso mesmo. Não sou do tipo que recusa desafios.

-Lembre-se: 4º andar, depois 2º e por último o 10º.-Eric repete.-Então você...

-5º andar, eu já entendi.-respondo quando as portas se abrem e eu entro no elevador frio e vazio.-Não precisa ser tão repetitivo.

-Boa sorte!-os dois gritam quando as portas do elevador começam a se fechar.

Aceno me despedindo e faço como manda o ritual. Depois que os três andares se iluminam no monitor, me encosto no espelho no canto e espero enquanto o elevador faz o seu percurso. Talvez seja por conta da hora, mas ninguém se dá o trabalho de aparecer em nenhum dos andares e tenho certeza de que isso é besteira. Mesmo. Depois que paro no décimo andar, aperto no 5º e o elevador volta a descer. Ouço o interfone tocar e aceito a ligação do porteiro sem muito interesse.

-O que está fazendo circulando entre os andares desse jeito?-ouço a voz um pouco mecanizada por conta do aparelho e penso que devia ter imaginado isso.

-Longa história.-respondo.-Estou cumprindo um desafio. Não se preocupe, já está acabando.

-Tudo bem, mas cuidado.-ele alerta.-Depois que acabarem, por favor, façam menos barulho. Está tarde.

-Claro.-digo.-Até amanhã.

Ele se despede e desliga o interfone na hora em que as portas se abrem no 5º andar com um solavanco. As luzes do corredor estão ligadas é uma mulher com cerca de 30 anos em roupas formais se junta a mim no elevador, mas não me assusto porque tenho quase certeza de que já a vi antes nesse prédio. Uma das vizinhas de Sarah, provavelmente. Aceno em sua direção com um movimento de cabeça e ela retribui o olhar por alguns poucos segundos, depois se vira e fica olhando fixamente as portas do elevador. O que essa mulher está fazendo acordada no meio da madrugada sendo que não está em, sei lá, uma festa?

Aperto o botão do 1º andar e o elevador faz barulho quando volta a se movimentar. Me encosto na mesma parede do monitor e fico olhando as luzes dos andares se iluminarem e apagarem sem parar. O elevador para de maneira súbita e me assusto por estar distraída demais. Os números começam a brilhar e piscar intensamente e quando a luz do teto começa a vibrar, o elevador parece se sobrecarregar e tudo cai em escuridão total. Sequer consigo ver a silhueta da mulher no meio do elevador. Odeio elevadores que travam desse jeito. Nem sequer estava chovendo essa noite para isso acontecer!

Vou tocando na parede até achar o botão do interfone, mas ele parece não estar funcionando mesmo apertando várias vezes. Que droga! Estou presa em um elevador escuro. Que maravilha!

Me sento em um canto com a mochila servindo de apoio e espero enquanto o elevador continua parado e escuro. Não há nada que eu possa fazer, de qualquer forma. Não sei quanto tempo passa, poderiam ser minutos, horas ou apenas segundos, mas tão de repente como na hora em que travou, o elevador começa a sacudir de forma que me faz achar que se mexer mais um pouco, estou a um passo muito próximo da minha morte, porque isso aqui vai despencar. As luzes começam a piscar, mas não consigo focar em nada quando o elevador começa a se mover, embora eu não consiga descobrir se é para cima ou para baixo. Me agarro o máximo possível no apoio de ferro na parede do elevador e me apoio nos joelhos para me equilibrar melhor. O cubículo balança cada vez mais e me sinto enjoada como se estivesse em um avião subindo em direção às nuvens mais altas no céu. Me agarro mais ao metal fixo na parede como se minha vida dependesse disso e então o elevador dá um solavanco forte que me desequilibra e voo em direção ao chão, caindo de bruços e por pouco não batendo meu rosto. Antes de fechar meus olhos, vejo mais uma vez a mulher de mais cedo, mas dessa vez ela está completamente diferente. As roupas agora estão completamente sujas e rasgadas e seus olhos amarelos tem fendas como de gatos. Ela rosna para mim e juro que vejo garras despontarem em suas mãos antes que as portas sejam abertas com um estrondo e ela saia a toda velocidade para algum lugar que não consigo enxergar. Tudo ainda está tão escuro...

Me sinto cada vez mais fraca até que apago ali mesmo naquele lugar.

Não sei quanto tempo passa, mas acordo cheio de dores em um chão gelado e perco todas as minhas esperanças do que o que aconteceu não passasse de um sonho louco meu como costumam ser tão comuns em minha mente criativa. Me levanto com um pouco de dificuldade por uma dor na minha panturrilha, mas ao que me parece não passa de uma batida da noite anterior, então não me preocupo muito com isso. Levanto o olhar e noto que já não está mais escuro, muito pelo contrário. Não sei como vim parar aqui, mas definitivamente isso não é o corredor da casa da minha melhor amiga. Não me lembro de já ter estado em uma floresta sem nenhum sinal de civilização, pelo menos.

Pelo visto, a lenda urbana de Eric era real mesmo. Pensar em meu amigo me faz imaginar duas situações que podem estar passando agora: ou estão preocupados com meu sumiço repentino, ou estão passando por uma ressaca forte demais para se lembrarem que eu desapareci. Não sei qual soa melhor entre as opções.

Decido que a melhor coisa a fazer agora é sair e procurar uma maneira de voltar, porque sei que ficar aqui esperando alguma coisa acontecer não vai adiantar nada e provavelmente eu iria morrer de fome. O elevador parece ter aterrissado de mal jeito e preciso pular um monte deformado de metal e cabos de sustenção fumegantes bem na frente das portas escancaradas do aparelho em si. Olhando um pouco a parte de trás, noto um rastro longo mostrando a trajetória exata do elevador no solo dessa floresta digna de filme de ficção científica sobre planetas alienígenas. Não sou nenhuma especialista em botânica, mas até o cheiro desse lugar não é o mesmo a que estou acostumada a sentir quando visito a fazenda da minha família em um fim de mundo sem nada em quilômetros quadrados. Lá tinha sempre cheiro de plantas misturado ao que identifico como o cheiro de oxigênio, limpo e fresco. Aqui é só...agridoce. Nada poderia descrever melhor essa sensação do que o cheiro agridoce de alguma planta que nunca vi antes e não posso discernir qual delas é. Não vejo sinais de outras formas de vida inteligente até onde minha vista alcança e não faço ideia de para onde aquela maluca de onde a noite foi, se é que ela foi real também. A bagunça se espalhou por um raio de quase cinco metros ao redor do elevador destruído e não sei como não me machuquei mais do que apenas alguns arranhões e hematomas espalhados pelo corpo depois dessa queda. Na verdade, não ando sabendo muita coisa desde que as portas daquele elevador se fecharam na minha frente.

Dou uma volta pela clareira iluminada onde me encontro e decido que estou realmente perdida.

Que lugar é esse? Onde eu fui parar?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.