A Questão de Delfos
5 Capítulo 4 - A Estúpida Fonte de Água Salgada
Notas iniciais
7 de Agosto – 6 dias até as Idas de Agosto.
O sol mal lançava seus primeiros raios no horizonte quando o Nico acordou, eram quase cinco e meia segundo o relógio. Dentro de meia hora Nico e Will partiriam para a Grécia com o objetivo de libertar Delfos novamente e salvar Rachel Elisabeth Dare, seja lá onde ela esteja. Nico olhou para Will que ainda dormia, a respiração tranquila do semideus fazia o lençol tremular, parte do corpo do semideus estava destampado, deixando a pele lisa e morena de sol a mostra, um dos braços balançava para fora da cama.
–É melhor deixa-lo dormir mais um pouco. – disse Annabeth, fazendo Nico se sobressaltar. – Ele está muito cansado, foi uma semana difícil para ele.
Nico olhou para a semideusa, que estava com um rolo de pergaminho na mão, ele também percebeu que as mochilas dele e de Will estava no chão, entre as camas dos dois. Um trompete soou por todo o Acampamento, era o toque de acordar. Will se mexeu na cama, mas não despertou.
–Trouxe o café da manhã de vocês, Quíron falou que senhor Poseidon já está na praia, mas que é para vocês irem só as seis como o combinado. – falou Lauren, equilibrando duas bandejas, uma em cada mão. Annabeth ajudou-a, trazendo uma das bandejas para Nico.
–Você sabe que pode contar comigo durante a missão, não é? Por favor, não seja orgulhoso e mande uma M.I. se precisar de ajuda.
Nico acenou positivamente enquanto mordia um pedaço do waffles de morango. Ela levantou e foi para perto de Malcolm, seu irmão, que despertava a algumas camas à esquerda. Will também acordou, se espreguiçando olhou para o lado e depois para o outro, levantou e abriu a janela. Olhou para o céu, como se procurasse alguém lá. Ele então se aproximou da cama de Nico, que já terminava o waffles.
–Bom dia! – falou sorrindo. Nico respondeu de volta.
–Nervoso? – perguntou o filho de Apolo.
–Não. – mentiu Nico, que sentia um frio na barriga em relação àquela missão. Não era medo, ele estava apreensivo com todas as circunstâncias.
Annabeth voltou para perto deles. Entregou o pergaminho para Will.
–Bom dia Will. Aqui está aquilo que eu te falei ontem.
Nico olhou curioso enquanto o semideus desenrolava e analisava o que Annabeth havia dado a ele.
–Aqui é o templo principal. – apontou a loira – E aqui é o templo do Oráculo. Outro lugar interessante é o anfiteatro.
–Hazel me falou que encontrou Apolo em um anfiteatro em Delos.
–Ele não vai estar em Delfos. – falou Annabeth – Já que a cidade está sendo controlada pelo arqui-inimigo dele.
O sol já brilhava timidamente no horizonte quando Will sentou na cama para comer o café da manhã. Ele devorou um prato de ovos com bacon em minutos e sumiu no banheiro.
Annabeth e Lauren conversavam em um canto sobre o irmão de Annabeth, que parecia ter perdido parcialmente a memória com o ferimento. Quíron chegou deslizando em sua cadeira de rodas.
–Está quase na hora. – falou o centauro. Will voltou para perto deles, guardou o pergaminho na mochila e chamou Nico.
–Vamos lá. Temos uma cobra para matar.
Os dois foram acompanhados até a varanda por Quíron, Lauren e Annabeth, que ficaram observando os dois heróis seguirem em direção à praia.
–E então Annabeth, o que você acha? – perguntou Quíron.
–É muito estranho só mandar dois. O número certo são três semideuses. Com três se atinge o equilíbrio, se tem um leque de habilidades completo...
–Falta alguma habilidade nos dois? – perguntou Lauren.
–Frieza. – disse, surpreendendo a todos.
–Mas Nico...
–Não. Nico não é uma pessoa fria. Muito pelo contrário, ele tem mais sentimentos do que a maioria de nós. Afinal ele se jogou no Tártaro sozinho para ajudar o...
Ela se calou, tinha falado demais. Annabeth sabia que os sentimentos de Nico poderiam colocar em risco a missão, mas não tinha como explicar isso para eles sem revelar o segredo do garoto. Se não tiver ninguém para controlar de forma fria essa missão... Talvez o reforço que eles encontrem equilibre as coisas. Annabeth desceu a Colina sem falar com Quíron e Lauren, deixando os dois confusos.
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Will e Nico desceram a colina, indo em direção à praia. Não falavam um com o outro, estavam tensos. Porém Nico não pode resistir, ele tinha ficado muito curioso em relação ao pergaminho de Annabeth.
–Você conversou com Annabeth ontem? – perguntou.
–Sim, sim. Naquela hora na arena. Ela me deu algumas dicas, falou para nós ficarmos atentos quando encontrarmos nosso “reforço”, para não sermos enganados por monstros disfarçados.
Nico já tinha pensado nisso. Ele estava receoso, quem será que eles encontrariam na Grécia?
–Aquele pergaminho que ela me deu é um mapa das ruínas de Delfos, pode ser importante. – continuou Will.
–É melhor você cuidar muito bem daquele mapa. Se ele estragar ou você perder... Annabeth vai ficar furiosa.
–Se isso acontecer, eu e ela ficaremos quites. – respondeu o filho de Apolo, se referindo a Biga Voadora quebrada por Annabeth no final do ano anterior.
Atravessaram a trilha que levava a praia e ficaram surpresos quando chegaram lá. Poseidon estava sentado em uma pedra na beira do mar com suas características bermudas cáqui e camisa florida, uma vara de pescar estava em suas mãos. Mas o deus não estava sozinho, Percy estava com ele. Os dois conversavam, mas pararam quando perceberam a aproximação dos dois semideuses.
–Bom dia. – falou o deus do mar. Os garotos responderam e cumprimentaram Percy.
–Bom, acho que está tudo pronto. Estão preparados?
–Sim. – falou Will com um olhar sério, os olhos azuis estavam escuros e a testa franzida de preocupação.
–Como o senhor vai nos levar até a Grécia? – perguntou Nico.
–Essa é a pergunta de um milhão de dracmas. – disse uma voz atrás deles. Lady Atena caminhava rapidamente na beira d’água, indo em direção ao grupo. Poseidon lutou contra a vontade de derrubar a deusa com uma onda, mas ficou com medo dela culpar Percy.
– Me quedei do Olimpo até aqui para ver como meu querido amigo vai realizar essa proeza. – completou com um tom sarcástico. Poseidon já tinha se arrependido desde a visita às Parcas em ter aceitado ajudar Atena. Somente continuava nessa confusão por causa de Apolo.
–Assista de camarote então. – falou o deus, com um sorriso maldoso. Em um movimento muito rápido ele ergueu a vara de pescar como se fosse jogar a linha novamente. A vara se transformou em um enorme tridente que ele jogou no chão. O tridente ficou cravado e abriu um fissura na areia. Água salgada brotou do chão, formando um pequeno chafariz de um metro de altura. Atena soltou uma risada.
–A estúpida fonte de água salgada de novo Poseidon? – disse entre as risadas. – Não consegue fazer outra coisa com esse tridente? Como isso vai ajuda-los a chegar até a Grécia?
–Atena querida. Se há cinco mil anos atrás você tivesse me dado tempo para explicar aos atenienses para o que servia a minha fonte de água salgada, eu teria vencido aquela disputa. As fontes que eu crio com o meu tridente são portais. A minha ideia era fazer uma fonte daquele tipo em cada cidade da Grécia, mas somente os atenienses saberiam utilizar, dando uma vantagem incrível para a cidade.
O sorriso da deusa sumiu.
–Suas fontes são o quê?
–Portais. – repetiu. – Eu teria vencido fácil, fácil a nossa disputa. Mas você me ridicularizou assim que eu criei a fonte e não me deu tempo para explicar. Se eu tivesse falado com aquelas pessoas, Atenas hoje seria conhecida como Poseidonlândia e seus nobres moradores seriam os poseidonpolitanos.
Os semideuses soltaram uma risada abafada. Atena olhava espantada para Poseidon, pela primeira vez ela se sentia derrotada em relação ao deus dos Mares, Poseidon finalmente tinha vencido Atena. Ela sumiu, humilhada, preenchendo a praia com cheiro de livros novos. Percy murmurou para Will que precisava contar aquilo para Annabeth, ou melhor, para todo o Chalé 6. Os dois riram.
–Podem ir agora garotos. – disse o deus, com um sorriso de satisfação no rosto. Nico olhou atentamente para a fenda, era pequena demais, nem ele passava pelo buraco, quanto mais o Will.
–Senhor Poseidon, nós não cabemos no buraco. – disse Will, quando percebeu o mesmo que Nico.
Poseidon bufou e revirou os olhos.
–Poupe-me Solace! – disse ele – É um portal mágico, vocês não precisam “caber” nele. Coloque o pé lá e boa viagem.
Will entrou na fonte, pensava que ia ser projetado para cima, junto com a água que continuava jorrando da fonte, mas não, ele sentiu uma força de sucção muito forte e foi puxado para baixo. O garoto sumiu na fenda com um barulho parecido com um blop.
–Sua vez! – disse o deus do mar animado para Nico. Ele entrou na fonte e também sumiu. Blop.
Poseidon pegou o seu tridente e puxou. Usou-o para fechar o portal-fonte.
–Para onde eles vão? – perguntou o semideus.
–Eu falei que minhas fontes são portais Percy. Eu só fiz duas. Essa daqui que eu acabei de lacrar e a original onde eu fui humilhado por Atena.
Um silêncio tomou conta da praia. Percy observava o mar.
–É estranho. – falou Percy para o pai. – Não ir à missão e ficar aqui no Acampamento, esperando notícias e deixando os outros salvarem o dia. Parece bobo, eu sei, mas eu gosto de ser o herói.
–Você não vai deixar de ser o maior herói dessa era por causa dessa missão Percy. Você merece descansar, ter uma vida tranquila. Como disse sua sogra, “você já fez demais pelo Olimpo”. – falou, imitando a voz autoritária da deusa da Sabedoria. Os dois riram da imitação. Poseidon se despediu e caminhou em direção ao mar.
Percy olhou para o pai enquanto ele ia embora, submergindo na água levando junto a sua vara de pescar.
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Will foi o primeiro a chegar. Ele surgiu de uma fenda, foi lançado a um metro de altura pela água e caiu no chão, de bruços, com um baque seco. Antes que ele pudesse levantar, Nico também foi lançado aterrissando em cima de Will, que gemeu de dor quando o filho de Hades caiu sentado em suas costas.
–Você está bem? – perguntou Nico, ajudando Will a se levantar.
–Vai ficar tudo bem quando você fizer uma massagem em mim mais tarde. – falou, apertando as costas. Nico corou com a sugestão do filho de Apolo. – Onde nós estamos?
Os dois observaram a sala onde haviam brotado do chão. Era ampla, feita de pedra, no lado direito a parede estava coberta por uma planta com bolotinhas verdes.
–É a oliveira sagrada de Atena. – disse Nico, com os olhos brilhantes. Ele adorava azeitona, resistiu ao desejo de colher algumas por temer alguma represália da deusa.
Por sua vez, no lado esquerdo onde eles estavam somente havia uma fissura no chão, com um pouco de água saindo dela. A água foi diminuindo, até que sumiu. A fissura fechou deixando apenas uma ranhura no formato de tridente.
Tinha sido ali o início da famosa inimizade entre os dois deuses, que agora tinham que lidar com a união de seus dois filhos. Os dois semideuses se olharam, os dois estavam perfeitamente secos, nem parecia que acabado de ser cuspidos por uma fonte de água que afinal não era tão estúpida assim.
–Temos que ir para a cidade. – falou Nico, arrumando a mochila nas costas. Ele percebeu que a mochila de Will era um pouco diferente, tinha embutida uma aljava com flechas. O filho de Apolo estava visivelmente nervoso, olhava para todos os lados e ficava tamborilando os dedos em cima da bainha de sua espada. Nico ficou surpreso por ele ter trazido a espada, normalmente os membros do Chalé 7 só utilizavam o arco e a flecha.
Assim que saíram do Erecteion, Will, em um só movimento, pegou o arco e lançou uma flecha.
–Solace! Ma che cazzo? Perché hai fatto questo? – gritou com o garoto em italiano, por causa do susto que tinha levado. Will tremia com o arco ainda na mão. Nico olhou onde a flecha tinha parado, ela tinha atravessado um lagarto e ficado presa em uma árvore.
–Era só um lagarto. – disse Nico. Ele agarrou o semideus pelos braços e o sentou em uma pedra. – Olha para mim. Você precisa colocar a cabeça no lugar, aqui a gente não pode errar, aqui você não pode se desequilibrar e cair em cima do monstro. Pelo que eu vi sua pontaria continua perfeita, mas você não pode sair atirando em tudo que vê pela frente.
Will acenou, mostrando que tinha entendido o recado.
–Vamos, se acalma. Toma água rápido, temos que descer logo a Acrópole. Por causa do fuso horário perdemos sete horas, aqui já são 13h. – Nico olhou para o céu. O forte sol castigava Atenas, devia estar mais de trinta graus. – Seu pai podia dar uma força, não? Pelo menos diminuir a intensidade do sol. – reclamou o filho de Hades, sentindo a pele branca arder por causa dos raios solares. Segundos depois uma nuvem surgiu e tapou o sol. Nico arregalou os olhos quando percebeu que a nuvem tinha a forma de uma Lira, o símbolo de Apolo.
–Obrigado pai. – agradeceu Will e olhou para Nico, claramente dizendo que era para ele agradecer também.
–Obrigado senhor Apolo.
Os dois voltaram a descer em direção à cidade. No meio do caminho cruzaram com um grupo de turistas chineses que escutavam atentamente o guia e tiravam fotos de tudo. Um pouco depois Will perguntou:
–Você fala Italiano?
–Eu nasci na Itália, Solace. – respondeu impaciente.
–Ah, é verdade! Eu tinha me esquecido. Mas por que você falou Italiano comigo?
–Quando eu fico nervoso eu acabo falando Italiano.
–E o que você falou para mim? – perguntou curioso.
Nico corou, balbuciou algumas palavras.
–Eu não entendi...
–Eu prefiro não traduzir.
–Você me xingou! – concluiu Will, fingindo falsa indignação. Nico ficou satisfeito, porque parecia que Will já estava mais tranquilo.
Chegando na base da Acrópole se depararam com uma enorme feira. Feirantes gritavam a plenos pulmões as suas ofertas, tentando atrair a clientela. O grego de Nico estava um pouco enferrujado, mas ele conseguia entender a maioria dos anúncios. Alguns feirantes faziam as ofertas em inglês com um pesado sotaque.
–Venham, venham. Souvenirs, postcards, lembranças de viagem ! Não percam nossas ofertas. Essa réplica da Athena Parthenos, a lendária estátua, somente por 20 euros. Eu disse v-i-n-t-e euros! A concorrência vende por 30! – o vendedor mostrava uma pequena estátua de 30cm que não fazia jus a estátua verdadeira que Nico tinha arrastado por meio mundo. Ao lembrar-se da aventura suas pernas bambearam, como se a energia de Nico tivesse pensado que ele iria repetir o feito. Will olhou para ele preocupado. Ele ia perguntar para Nico se estava se sentindo bem, mas foram interrompidos por uma vendedora, que enfiou dois copinhos nas mãos dos garotos.
–Não deixem de provar essa iguaria grega. Temos mais de quinze variações de azeite de oliva, em três tamanhos de garrafa. Fazemos pacotes para viagem. – disse ela, incentivando ele a provarem. Eles agradeceram, mas devolveram o azeite sem provar.
Continuaram caminhando, tentando encontrar o fim da feira, mas ela parecia se espalhar por toda a cidade. Ao virar a esquina eles pararam ao ouvir o seguinte anúncio:
–Vendemos néctar e ambrosia! Adagas e flechas especiais! Não deixe de conferir também nossos mapas mágicos! Fazemos conversão de Dracmas para Euros, a cotação de hoje subiu: 1 Dracma de Ouro por 30 Euros.
Eles olharam o vendedor. Ele tinha uma cara toda coberta por uma espessa barba preta, dois olhos maldosos e pequenos como duas amoras olhavam diretamente para os dois semideuses. Nico percebeu uma faca na bainha do homem, ele saiu detrás da barraca, indo em direção aos dois.
–Vamos Solace! – falou alarmado. O garoto o seguiu, caminharam rapidamente até chegar a uma parte da feira que parecia a praça de alimentação. Estava lotada por causa da proximidade com a hora do almoço. Nico olhou para trás, o homem continuava a segui-los. Eles se misturaram a multidão.
Os dois procuravam uma saída, algum lugar para parar e pensar no que fazer depois com tranquilidade e, principalmente, em segurança. Porém, para isso, precisavam despistar o homem. Aquela parte da feira estava lotada, eles tentavam correr, desviando das pessoas. Por um momento de descuido acabaram se separando. Nico olhou para os lados, procurando alguém de cabelo loiro e alto, começou a girar, procurar, ele não estava conseguindo achar Will.
Uma sensação de angustia preencheu o peito de Nico, a visão dele começou a embaçar e ficar escura. Ele estava prestes a desmaiar. Andou mais alguns metros, ele tentava puxar o ar, mas não conseguia o suficiente. Alguém segurou o seu braço, por instinto o filho de Hades desembainhou a espada e se virou. Para o alívio dele era Will. O semideus também parecia estar preocupado e sua preocupação aumentou mais ainda ao ver Nico.
–Nico, segura a minha mão. – falou ele, Nico relutou, mas segurou. As mãos de Will estavam quentes, o filho de Apolo guiou Nico até um canto, e pediu em grego, com sotaque da Califórnia, para a feirante que deixasse Nico sentar nas cadeiras atrás da barraca, pois ele não estava se sentindo bem.
–Você está suando frio. Está tonto? – perguntou Will, segurando a cabeça do semideus com as duas mãos.
–Um pouco. Acho que foi de pânico, eu não gosto de lugares com muita gente. Já vou ficar melhor.
–Não, não. – disse o filho de Apolo, ele tirou um frasco de dentro da mochila. – Tome isso, não se preocupe, não é néctar. É uma poção que vai te deixar melhor.
Nico estava quase encostando o frasco na boca, quando uma flecha atravessou Will na barriga. Nico sentiu a dor junto com o garoto. O filho de Apolo caiu sobre os joelhos e depois desabou no chão.
–Will! – gritou Nico, se jogando em cima do semideus. Mas assim que tocou no garoto ele virou o homem barbado, que agora tinha somente um olho, e em seguida se desmanchou em poeira. O verdadeiro Will apareceu com o arco em punho e abraçou Nico. O filho de Hades o afastou, desconfortável.
–Demorei a te encontrar. – falou Will preocupado. – Achei que não fosse conseguir.
Ele olhou para Nico, que ainda estava pálido.
– Você está bem?
–Um pouco tonto. Mas já estou melhor.
O filho de Apolo não pareceu acreditar, porém se afastou do semideus e se abaixou para pegar o frasco. Cheirou a garrafinha e fez um careta.
–Veneno de Mantícora. Mortal. Você ia morrer em segundos. Precisamos tomar mais cuidado. Venha, se segure em mim até a gente sair do meio da multidão.
Nico segurou no braço de Will até eles encontrarem uma praça que estava relativamente vazia. Eles se aproximaram da fonte para se refrescar do calor infernal, que não tinha diminuído apesar das nuvens.
–Vem aqui, senta um pouco. Já está melhor death boy? – Will indicou a beirada da fonte.
–Já falei para não me chamar assim garoto. – disse um pouco irritado.
–Tá bom. Não chamo você mais assim, Sunshine.
Nico suspirou, revirando os olhos. Will sorriu e colocou a mão, sempre quente, no pescoço do filho de Hades.
–O que você está fazendo? – disse Nico, se levantando. Will olhou para ele confuso.
–Eu estava medindo a sua frequência cardíaca. – falou o semideus. – Você está tonto, com a respiração acelerada. Pode ter tido um ataque de pânico.
Nico não precisava daquele diagnóstico. Ele sabia que tinha tido um ataque de pânico, que há muito tempo não acontecia. O semideus tinha medo de se perder em grandes multidões. Tudo por causa de um trauma de infância.
Sua mãe, Maria Di Angelo, ajudada por Hades, estava tentando escapar da Itália, dominada por Mussolini. O deus havia conseguido passagens de um navio que partiria em direção a Portugal e de lá ela poderia seguir para os Estados Unidos. No porto de Roma, ele e Bianca estava de mãos dadas, enquanto Maria puxava duas pesadas malas. Para não se separar dos filhos, ela tinha pedido à Bianca que segurasse em uma dessas malas. Na confusão do embarque, Nico, muito criança ainda, esbarrou em um marinheiro e, com a força do impacto, soltou a mão de Bianca. Ele ficou andando pelo Cais, chorando e chamando pela mãe por quase meia hora, até ser encontrado pelo próprio Hades, que o levou para o navio. Desde aquele dia Nico não se sentia bem em grandes aglomerações.
Ele olhou para Will, que ainda não tinha entendido a reação do garoto. Ele ia pedir desculpas e se sentar de novo, mas algo chamou a atenção dele do outro lado da fonte. Sentada em um banco, analisando atentamente um mapa enquanto bebia uma garrafa de água bem gelada estava o reforço que as Parcas tinham previsto para a missão.
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