A Questão de Delfos
13 Capítulo 12
Notas iniciais
9 de Agosto – 4 dias até as Idas de Agosto.
Will havia ficado com o último turno de vigia. Reyna tinha achado melhor eles fazerem a vigilância mesmo estando dentro de uma casa. Ele tinha ficado sentado nas últimas três horas no sofá que tinha sido empurrado para perto da janela da sala, que tinha vista para o lado de fora da porta. O sol devia estar nascendo nesse momento, mas a ruela estreita permitia ao semideus somente ver um pequeno pedaço do céu, que ainda estava bem escuro. Reyna e Nico estavam dormindo no meio do ambiente em dois sacos de dormir.
Ele ainda estava se sentindo fraco após o veneno de Sísifo e por ter ajudado Nico transferindo um pouco de sua energia. Nico... Por que seus pensamentos teimavam em voltar para o filho de Hades? Seu coração começou a bater mais rápido quando Nico mudou de posição no saco de dormir e ficou de frente para ele. Era um rosto muito bonito, com feições leves e bem delineadas. Ele se sentia atordoado ao pensar sobre o que sentia pelo filho de Hades. Lembrou-se do cheiro leve de canela que sentiu ao se posicionar atrás de Nico para ensiná-lo a atirar com o arco. Todo o contato que tiveram, a vontade quase irresistível de... Will balançou a cabeça, tentando espantar seus pensamentos como se fossem mosquitos irritantes.
Nico era uma pessoa muito especial e Will ficava abatido ao perceber o quanto ele se subvalorizava, achando que ninguém gostava da presença dele, que não era importante para ninguém, que não ia fazer falta... Ah, se ele soubesse o quanto era importante para Will! O filho de Apolo queria fazer com que Nico percebesse o contrário.
Will tentava imaginar a reação do outro garoto se descobrisse os sentimentos do outro. Mas o que Will sentia por Nico? Will sabia muito bem por que tinha obrigado Nico a ficar na enfermaria, o filho de Hades poderia muito bem ser tratado em seu próprio chalé, como estava acontecendo com semideuses em estado menos grave. Mas Will o queria perto dele, o mais próximo possível.
No entanto, o próprio filho de Apolo se questionava recorrentemente sobre isso. Não estava confuso em relação a Nico ser um garoto, ele já havia se apaixonado – e até mesmo ficado com outros garotos – e já tinha conseguido superar em parte seus conflitos com sua sexualidade. A confusão girava em torno do próprio Nico.
Will gostava da presença do filho de Hades, mas ao mesmo tempo sabia que era inútil nutrir algum tipo de sentimento por ele. Nico era um garoto arredio, que está procurando seu lugar no mundo e acha que não se encaixa em nenhum. Por que tudo tinha que ser tão difícil? Às vezes Will tinha vontade de desistir, mas era só ouvir a voz irritada do moreno gritando “Solace!”, e o coração acelerava, pulando alguns batimentos.
O filho de Apolo levantou do sofá e caminhou até os dois semideuses que ainda dormiam. Will se agachou ao lado de Nico e prendeu o cabelo preto, que estava caído sobre o rosto do filho de Hades, atrás da orelha, acariciando levemente a lateral da face.
– Ma che cazzo, Solace?! – gritou Nico acordando assustado. Will foi pego de surpresa com o grito e se desequilibrou para trás. Reyna levantou com um salto, já com a lança na mão.
–O que foi? – perguntou ela alarmada, procurando algum monstro, mas só encontrando Will estirado no chão ao lado do saco de dormir onde Nico estava meio levantado, com o rosto completamente vermelho.
–Nada. – disse Nico automaticamente, sentando-se ainda mais no colchonete e cruzando os braços sobre o ventre. Will levantou e foi olhar a janela, o céu já estava mais claro. Eles deveriam partir nas próximas horas.
Nico olhava fixamente para Will, tentando entender o que tinha acontecido.
–Precisamos nos mexer... Olímpia não é tão perto quanto Corinto era de Athenas. Acho que levaremos umas quatro horas até lá. – disse Reyna, quebrando o silêncio da sala.
–Vou chamar Jules-Albert. – anunciou o filho de Hades antes de levantar e deixar a casa.
Solace percebeu que estava sendo observado por Reyna.
–O que foi? – perguntou ele.
–O que aconteceu aqui?
–Eu não sei. Nico estava com uma aparência febril e eu fui medir a temperatura dele. Acho que ele se assustou quando eu o toquei no rosto. Só isso...
Reyna não ficou convencida, mas arrumou as coisas, colocando tudo dentro das mochilas rapidamente.
–Vou ver se está tudo bem lá fora e chamar Nico para comer alguma coisa antes de sairmos – avisou ela.
–Vou preparar alguma coisa então.
Reyna saiu da casa e viu Nico conversando com um garoto muito parecido com ele, tinha a pele pálida, cabelos negros e parecia magro. Reyna riu ao perceber que ele vestia uma jaqueta de aviador igual a que Nico tinha. Eles conversavam seriamente sobre algo. Ela se aproximou e, ao perceber a aproximação de Reyna, o garoto misterioso se despediu de Nico e saiu correndo.
–Quem era? – perguntou curiosa.
–Um amigo. – respondeu Nico. Por algum motivo ela percebeu que tinha feito uma pergunta muito perigosa e que Nico não iria revelar o nome do garoto de forma alguma. Entretanto ela não podia perder a oportunidade para testar algo.
–Solace tem algum motivo para ficar com ciúmes?
Nico arregalou os olhos e seu rosto ficou novamente vermelho e visivelmente transtornado respondeu, gaguejando:
–Não sei do que você está falando Reyna.
Ele virou e entrou na casa novamente. Reyna observou a viela, a rua estava deserta, com exceção de Jules-Albert, que já esperava ao lado do carro na saída da viela e de um cachorro preto e enorme sentado na esquina.
Ao entrar na casa viu Will e Nico comendo o que pareciam ser panquecas, mas sem trocar uma palavra. Os dois estavam completamente distraídos, perdidos em seus próprios pensamentos. Reyna se aproximou sem ser percebida pelos semideuses.
–Precisamos de um plano B, caso a flecha não esteja em Olímpia. – falou Reyna, fazendo os dois garotos se sobressaltarem – Faltam apenas quatro dias para o prazo e só conseguimos recuperar uma flecha.
–Pelo menos sabemos que a última flecha está na própria Delfos. – lembrou Will, tentando ressaltar o lado positivo.
–Que só conseguiremos encontrar com a ajuda do Arquiteto, que ainda não sabemos onde está. – advertiu a Pretora.
–Mas segundo Ilítia, a segunda flecha está próxima do Arquiteto. Se a flecha estiver em Olímpia, ele estará nas proximidades. – rebateu o filho de Apolo.
–Sim, claro. Mas e se ela não estiver em Olímpia? O que faremos? Não temos tempo para visitar todas as grandes cidades do Peloponeso.
–A viagem até Olímpia é longa – interrompeu Nico – Podemos ir discutindo um plano B durante o caminho. Vamos logo, que Jules-Albert já está esperando.
Reyna comeu rapidamente as panquecas de Will, que estavam muito saborosas. Ela se perguntou como ele havia conseguido prepará-las tão rapidamente e aonde tinha achado os ingredientes. Will olhava Nico de esguelha, parecendo um pouco apreensivo.
Os semideuses saíram da casa e caminharam até o carro, o chofer-zumbi já estava no interior do veículo e com o motor ligado.
–Jules, para Olímpia, por favor. – ordenou Nico, já emendando uma pergunta:
–É uma viagem longa, não é?
O morto-vivo estalou a mandíbula várias vezes.
–Levaremos quatro horas até Olímpia, sem trânsito. – traduziu o filho de Hades, colocando o cinto de segurança. Reyna e Will estavam no banco de trás. O carro partiu rapidamente e os semideuses nem perceberam que a casa, onde passaram a noite, desapareceu.
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Annabeth sentia muito frio. O caos tinha sido instaurado na Flórida, era início de madrugada em Miami e enormes morros de neve se acumulavam pelas ruas da cidade. Os meteorologistas mortais tentavam explicar porque nevava em pleno verão na Flórida, lugar onde não é comum nevar nem no inverno.
Ela não se lembrava de muita coisa, somente de Percy caindo da carruagem e depois ela fazendo um pouso forçado em um campo de Golf. Com a queda brusca, a filha de Athena bateu a cabeça na borda da carruagem e ficou inconsciente. Acordou somente horas depois, no início da noite, praticamente encoberta pela neve que se acumulou na parte interna da biga. A filha de Athena deixou a carruagem sob os cuidados de Blackjack e começou a rondar a cidade, para procurar por Percy. Mas não estava sendo bem sucedida, horas haviam se passado e nenhum sinal do seu Cabeça de Alga.
–Percy! Percy! – gritou ela. Sentiu a rua começar a girar e sentou na calçada. Tocou o ferimento na cabeça e olhou sua mão.
–Pelo menos o sangramento parou. – comentou Annabeth, em voz alta. As semideusa, então, percebeu que sua mão tremia, ela estava muito nervosa. Tinham acabado de derrotar Gaia, as lembranças dos horrores do Tártaro continuavam vivas e ainda aterrorizavam as noites da filha de Athena, a ausência de Percy... Era a primeira vez que se separavam desde o reencontro em Nova Roma, o sentimento de angústia era terrível.
–Annabeth, Annabeth, se acalme... – disse, tentando ficar tranquila – Eu cruzei o país para encontrar o Percy. Eu vou conseguir encontrá-lo de novo, afinal ele está aqui em Miami.
Annabeth sabia que seu namorado havia sobrevivido a queda, pois também se lembrava que após a queda, ela olhou para ver onde Percy tinha caído, e ficou aliviada ao ver que ele havia atingido a água (e não o solo).
O primeiro lugar que ela procurou foi no lago, onde a semideusa o viu caindo. Os rastros deixados pelo filho de Poseidon eram bem visíveis na margem de onde ele saiu. Ele não podia ter ido muito longe, essa era a esperança de Annabeth.
Um barulho chamou a atenção da garota que correu para se esconder atrás de um arbusto, assim que se agachou um sopro de ar quente derreteu um pouco da neve que encobria a planta. Annabeth olhou para os lados, tentando ver se alguém se aproximava e logo ouviu duas vozes conversando.
–Já falei com Euro e com Zéfiro, eles estão mobilizando os ventos menores para resgatarmos nosso mestre. Não sabemos o que aconteceu com Bóreas, ele também estava na Fortaleza de Éolo.
–Despina ainda está na Fortaleza, senhor? – perguntou uma voz feminina.
–Provavelmente. A notícia que temos é que o senhor Éolo foi feito prisioneiro, mas não sabemos se Quione e Bóreas estão na mesma situação, ou se passaram para o lado de Despina. Um mundo completamente gelado sempre foi o sonho em conjunto dos três.
–E quanto a minha irmã?
–Uma coisa de cada vez Theros. Não podemos fazer nada por Phthinoporon se o senhor Éolo estiver preso. Precisamos resgatá-lo antes.
Annabeth então viu as duas figuras, se tratavam de Notus, o deus do Vento Sul e do Verão e de Theros, a horae do Verão e irmã de Phthinoporon. Elas eram iguais, a diferença era que ao invés da túnica cinza-gelo da horae do Inverno, Theros usava um leve vestido de seda amarelo e azul claro, lembrando o céu de verão. Por onde os dois passavam, a neve no chão derretia.
–Olha o que essa maluca fez! – analisava desesperada Theros – Neve na Flórida no meio do Verão!
–Teremos muito trabalho pra arrumar tudo isso, como se já não bastasse o que Gaia bagunçou. Está nevando em quase todo o mundo! Tudo bem, no Hemisfério Sul é Inverno, mas di immortales! Neve na Flórida é exagero dela... – reclamou o vento Sul.
Mesmo sabendo que eles eram aliados, Annabeth não queria ser atrapalhada em sua busca por Percy, ela temia que os dois imortais pedissem ajuda para resgatar Éolo, Quione e Bóreas. Claro que seria esse o segundo objetivo de Annabeth depois de achar Percy.
–Tempos difíceis virão, Theros... – previu o Notus – Lady Athena pareceu preocupadíssima na reunião emergencial do Conselho, hoje. O burburinho entre os deuses menores é que ela fez uma visita a Hades, ela deve ter comentado alguma coisa somente entre os Olimpianos. Não sei se você se lembra, mas Hades vinha reclamando de tensões nas prisões do Tártaro.
–Quem está preso por lá? – perguntou a horae preocupada.
–Vários deuses primordiais. Além do próprio Tártaro, os inimigos mais perigosos que estão por lá são Nix e Erebus, que são irmãos da própria Gaia e estão furiosos com a derrota da irmã.
Annabeth sentiu um arrepio. Nix era velha conhecida, Annabeth a conheceu em suas férias pelo Tártaro. Erebus... Erebus era muito mais perigoso do que Cronos e Gaia juntos. Senhor da própria escuridão, era o pior inimigo de Zeus e do Olimpo. Na última vez que ele tentou destruir o Olimpo, só foi controlado pela própria irmã Nix.
Os dois foram embora, deixando Annabeth sozinha, sentada e tentando raciocinar, mas o ferimento na cabeça ainda incomodava. Ela levantou, precisava voltar a procurar Percy.
A semideusa tentou seguir os rastros deixados por Percy, mas logo eles desapareceram. Precisava de um plano, ela não podia perder tempo, precisavam juntar mais informações e tentar resgatar Éolo. Annabeth imaginava Nico, Will e Reyna na Grécia, sem entender a neve que provavelmente caia por lá ou pior, que compreendessem e ficassem preocupados com o que tinha acontecido.
Annabeth se embrenhou pela cidade e saiu procurando por Percy
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Percy sentia muito frio. O filho de Poseidon vagava desorientado pelas ruas desertas de algum bairro da cidade. Depois da explosão na Fortaleza de Éolo, ele e Annabeth tinham subido novamente na carruagem e tentaram chegar até a Fortaleza. Porém, no meio do caminho, foram atingidos por uma turbulência muito forte e Percy for lançado para fora do carro. Por sorte, caiu em um dos inúmeros lagos salobres da cidade.
Desde então não tinha mais visto Annabeth. Ele estava preocupado. Não sabia se a namorada estava bem, nem se a carruagem tinha conseguido pousar em segurança ou não. E o pior de tudo: ele estava se sentindo enfraquecido, não conseguia raciocinar direito, parecia que seu cérebro tinha congelado. Nem a água salgada (e um pouco congelada) do mar tinha conseguido reavivar os sentidos de Percy.
Ele olhou por cima do ombro, parecia que estava sendo seguido. O semideus apressou o passo, precisava ir para um local que oferecesse alguma vantagem defensiva, como uma esquina ou um beco. Seu perseguidor estava próximo, Percy estava somente a alguns metros da esquina, ele virou e se deparou com o seu medo mais profundo, o pior de seus pesadelos. Annabeth estava estirada no chão, imóvel, com um terrível ferimento na barriga.
–Annabeth! – gritou Percy, correndo. Ele se ajoelhou e colocou o corpo sem vida de sua namorada no colo.
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