A Queda do Mundo Pokémon
8 Um novo companheiro
Assim que chegamos a mansão, fomos recebidos pelo mordomo que nos aguardava logo na entrada da casa, ansioso para reprender Kyla por ter saído comigo durante a noite. Apesar de ainda ser bem cedo, ele já estava arrumado como sempre, a única coisa que realmente chamou minha atenção foram suas profundas olheiras que se destacavam no pálido rosto daquele senhor.
—A senhorita não deve sair por aí tão tarde da noite com um… jovem tão indelicado quanto esse seu amigo! Principalmente quando vocês vão para locais que apresentam um risco ao seu bem-estar!
—Eu não preciso de sermão, Sullivan! — Disse Kyla enquanto fazia um movimento de desdém com a mão — Sei muito bem com quem saio e sei também me virar sozinha, duvido que qualquer pessoa na cidade fosse louca o suficiente para me atacar! — Eu pude perceber o tom de superioridade na voz dela, não que ela estivesse irritada com o mordomo, mas isso me fez perceber que Kyla não é o tipo de garota que aceita ordens muito bem.
—Sim senhorita — Disse o mordomo após respirar fundo — irei preparar o café da manhã então. Sugiro que vão trocar de roupas, pois… — Ele encarou as roupas que eu usava, que eram as velhas de sempre. — Estão pouco convidativas.
—Certo, certo... Gray, vamos nos trocar, depois de comer algo no café tenho uma pequena surpresa para você! — Disse ela antes de disparar de volta a seu quarto, eu apenas concordei com a cabeça e tentei disfarçar minha felicidade em ver que Kyla já falava comigo normalmente mesmo após o que eu fiz.
Eu voltei ao meu quarto rapidamente e encontrei as roupas novas que Kyla havia comprado para mim no dia anterior. Eu ainda não gostava muito daquilo, mas tinha que fazer isso por mim e pelos meus Pokémons. Kuro estava ao meu lado e seu olhar brilhava ao me ver com a roupa nova e Kage… bem, deveria estar aprontando alguma coisa em alguma parte da mansão. Porém após a conversa com Kyla as roupas não pareciam tão pesadas quanto antes, colocar o cachecol em volta de meu pescoço novamente só me deixou mais confortável.
O café foi bem tranquilo… Bem, isso se você pode chamar aquilo de café. Eu nunca havia visto uma mesa de café da manhã tão grande quanto aquela, nem mesmo nos restaurantes da cidade! Tinha uma variedade enorme de coisas para comer, tanto para mim quanto para meus Pokémons. Kuro comeu diversas frutas de variados tipos e formatos enquanto Kage (agora esse safado aparece) comeu um bolo de chocolate inteiro sozinho. Pelo que entendi após Kyla tomar seu café, parte daquela comida seria dada ao resto dos empregados da casa, então a quantidade era compreensível.
—Gray, assim que terminar de comer quero que você me siga até um lugar especial da mansão! E sem perguntas, entendeu? — Ela tinha o olhar brilhante como o de quando alguém quer roubar o doce de uma criança ou de quando alguém ganha uma nota de cinco após passar o dia chorando por esmola.
—Certo… eu acho, mas se eu não fizer perguntas como… — Fui interrompido por um peteleco na minha testa.
—Eu acabei de dizer que não quero perguntas e você já ia fazendo uma! — Disse ela ao se aproximar de mim — Sério Gray, você precisa ser um pouco menos idiota as vezes… Não se pergunta a uma dama sobre seus mistérios e muito menos sua idade. — Ela deu uma risada e começou a me levar para a entrada principal.
—Desculpe por não saber que isso era um dos grandes mistérios de uma grandessíssima dama como você… E é bem obvio que você tem a mesma idade que eu, apesar de ser tão resmungona! — Mal consegui dar ênfase no meu sarcasmo e já recebi outro peteleco na testa.
—Primeiro que não deve se referir a mim como ‘grandessíssima dama’, apenas Kyla já está bom o bastante. A não ser que você queira me chamar de mestra, princesa, talvez até mesmo anja... — Disse ela com um sorriso infantil que logo foi rebatido pelo meu olhar crítico — Segundo, sua voz está me irritando, é bom você ficar quieto ou começará a receber mais que simples petelecos. Vamos logo, não temos tempo a perder!
O caminho até o local misterioso foi bem quieto (para meu bem-estar decidi não continuar com os comentários sarcásticos), saímos da casa e passamos pelo jardim, onde era possível ver algumas Beautiflys e Butterfrees voando entre as flores, vi também um Heracross grudado em uma das árvores sugando sua seiva, ele parecia bem concentrado naquilo. Logo que passamos pela ponte do pequeno lago que se encontra na parte dos fundos do jardim, pude ver um galpão que parecia ser usado para guardar vários tipos de ferramentas.
Sim, julgando pelo tamanho do galpão era possível alguém morar lá tranquilamente, aliás, umas duas famílias morariam tranquilamente em um local como aquele. Porém, sendo uma propriedade de Kyla julguei ser apenas mais um lugar para guardar tralhas.
Logo que entramos ela acendeu as luzes e pude notar que nesta primeira sala existiam diversas caixas de diversos tamanhos e tipos! A sala era comprida e tinha caixas distribuídas por quase toda ela, exceto na frente das três portas existentes e de um vão estreito feito estrategicamente para as pessoas passarem. Eu estava doido para perguntar para Kyla o que havia dentro das caixas, mas considerei que seria uma boa não comentar nada. A única coisa que me tranquilizava era saber que Kuro e Kage estavam na mansão dando bastante trabalho para aquele mordomo chato. Sempre que eu estou em alguma posição complicada, me foco em lembrar do sofrimento daquele mordomo, só isso já é o bastante para me alegrar.
Após andarmos por alguns minutos em linha reta, subimos por uma escada circular que nos levou até o segundo andar do galpão, aos poucos pude ouvir o barulho de algo que pareciam Pokémons.
—Olha Gray, aqui é meu lugar secreto de treino. Costumo pegar Pokémons abandonados e trazer para este lugar em segredo, se Sullivan soubesse sobre isso iria meter seu nariz onde não é chamado mais uma vez. Então mantenha segredo sobre esse lugar, estamos entendidos?
Algo naquilo fez meu coração acelerar, ver como ela era gentil, não só comigo, mas também com qualquer criatura abandonada realmente fazia eu me alegrar por ter a conhecido.
Tentei esconder meu sorriso e apenas acenei positivamente com a cabeça já que não queria levar mais nenhum peteleco. Quando ela abriu a porta do segundo andar, que inclusive era protegida por uma senha, tive o ar roubado de meus pulmões ao notar um cenário de outro mundo.
A sala secreta da Kyla ocupava o segundo andar todo. Havia um campo de batalhas Pokémons no lado direito da sala, uma piscina inflável onde os Pokémons se divertiam. O chão da sala era praticamente todo de grama sintética com algumas arvores a arbustos espalhados por ela, dando um ambiente natural para o local. O Wartortle de Kyla foi o primeiro a nos recepcionar, aparentemente seus pokémons ficavam naquela área quando não dormiam com ela.
Ele nos guiou até um local da sala onde tinham diversos brinquedos e doces espalhados pelo chão, ao seu redor, dois Eevees brincavam sobre a supervisão de sua Delcatty. Eu realmente não fazia ideia de que Kyla tinha dois Eevees. Ao olhar mais de perto pude perceber que um deles tinha sua coloração diferente por se tratar de um Pokémon “Shiny”!
O que é um Shiny? Basicamente um Pokémon com cor diferente, nada além disso. Mas Pokémons assim sofrem com a tendência de serem incrivelmente raros, algo que os deixa em uma desvantagem constante tanto no mundo selvagem (já que seu brilho natural atrai mais predadores) quanto no mundo dos humanos (Pokémons Shiny podem ser encontrados em mercados ilegais por preços absurdos). E como eu sei de tudo isso? Quando sua única fonte de educação vem das pessoas que moram na rua, você acaba aprendendo coisas assim automaticamente.
Agora, qual o motivo de Pokémons assim existirem em primeiro lugar? Não faço ideia. Talvez o Deus desse nosso mundo goste de escolher aleatoriamente quem deve ter vida fácil e quem deve sofrer, ele parece ser o tipo de cara com um senso de humor distorcido como esse.
—Desde quando você tem doi… — Antes de conseguir completar minha frase, acabei tropeçando em um dos brinquedos e caí de boca no chão. Eu sei o que você está pensando agora. Calado.
Kyla explodiu em gargalhadas obviamente, os outros Pokémons também pareciam achar minha queda divertida. Apenas o Eevee Shiny se assustou com aquilo e correu para trás de um arbusto enquanto tremia. Enquanto me levantava a Delcatty e o outro eevee tentavam traze-lo para fora, porém ele estava realmente assustado com aquilo. Quando Kyla se aproximou ele saiu do arbusto aos poucos e logo pulou no colo dela.
—Eu trouxe um amigo para você conhecer e bem… na verdade acredito que vocês dois têm muito em comum. — Ela se aproximou de mim e pude notar ele se encolher em seu colo — Hey, idiota! Fale alguma coisa com ele, não acha que esse coitadinho vai simplesmente ir com a sua cara assim do nada, não é? Sem falar que esse cachecol assusta ele!
—Acredite quando digo que se eu tirasse o cachecol ele iria se assustar ainda mais. E você mesma disse para mim não dizer nada, será que a senhorita pode se decidir? — Ela ignorou meus comentários e aproximou-se de mim devagar, trazendo o Eevee ainda mais perto de mim — Bom... Eu sou o Gray e... Não vou te machucar… Ok? Não me importaria de sermos amigos. — Disse tentando ser gentil com ele. Eu ainda não entendia bem o porquê de Kyla querer nos aproximar assim, mas algo no olhar daquele Pokémon era familiar, me lembrava um pouco... Bem, a mim.
O Eevee ainda me olhava assustado, mas pude notar ele encarando fixamente minhas mãos. Ele parecia curioso então decidi tirar minhas luvas e passar a mão na cabeça dele gentilmente, ele começou a lamber meus dedos como se soubesse como aquelas cicatrizes ainda me machucavam sempre que eu olhava para elas. Ele pulou em meu colo sem aviso nenhum, me deixando um pouco vermelho e sem jeito.
—Olha só, parece que ele sentiu pena de você! Já é um ótimo começo, a partir de agora eu espero que cuide muito bem dele. — Ela falou como se ela dissesse isso todos os dias e se virou para cuidar de seus Pokémons, deixando o Eevee comigo.
—Pera, o que? Mas ele não é seu? Eu… não posso aceitar isso do nada...
—Pare de ficar assustado por tão pouco, já disse que ele é seu agora. Sabe, Pokémon são mais sensíveis do que as pessoas imaginam, eles podem sentir nossas emoções sem que nós tenhamos que explicar nada, por isso que achei uma boa ideia deixar ele com você. Eu achei esse coitadinho machucado pouco tempo antes de te encontrar, ele também é sozinho no mundo e não tem ninguém para cuidar dele… Ipi ipi urra, parece que ele acabou de encontrar alguém para cuidar dele. — Disse ela olhando para mim com um sorriso infantil — Só peço que você dê bastante carinho para ele, assim como dá para Kuro e Kage, pode ser? — O olhar dela passou a ser sério deixando claro que aquilo era uma ordem, pude perceber que ela não aceitaria um não como resposta.
—Sinceramente, eu acho que consigo ver isso dando certo... — Comentei enquanto passava a mão em sua cabeça. Fui até a janela do galpão e gritei para um dos jardineiros, pedindo para que ele chamasse meus companheiros.
Após alguns minutos Kuro e Kage estavam conosco, eles ficaram bem curiosos ao ver aquele local no segundo andar. Me aproximei deles e deixei o Eevee ao lado de Kuro e Kage, eles me olharam como se pensassem “Quem é o branquelo? ”
— Esse é nosso novo companheiro, espero que vocês se deem bem. — Disse passando a mão na cabeça deles dois e virei as costas indo até Kyla novamente. — Agora, é estranho você falar que ele foi abandonado... Achava que um Pokémon shiny como esse fosse mais valioso do que os demais — Admito que ver seu pelo brilhante de perto me fez pensar em quanto dinheiro ele deveria valer. Se eu tivesse encontrado esse Eevee há algum tempo atrás, com toda certeza eu teria faturado uma boa grana! Mas felizmente (ou infelizmente) essa fase da minha vida já se passou.
— Ele é muito chamativo. No mundo pokémon ser chamativo assim pode ser a diferença entre viver ou morrer, então os pais dele provavelmente escolheram não colocar toda a família em perigo por conta de um filhote e apenas o abandonaram perto de onde eu estudo. Ele teve sorte de que fui eu quem o encontrei! Se ele tivesse passado mais tempo sozinho... Bom, é realmente triste que algo assim aconteça, mas esse camaradinha foi bem forte e agora já está quase totalmente curado.
— De fato, e se ele vai ficar no meu time é bom que ele seja bem forte mesmo. Ele também precisará de um nome, com toda certeza! Que tal… Thunderbird? — Assim que ouviu minha sugestão, Kyla começou a estralar os dedos enquanto me lançava um olhar do tipo “Se você não pensar em algo melhor vai perder todos os dentes” — Ér... Gargamel também seria um bom nome… ou… — Olhei bem para seus olhos, os olhos de um Pokémon repleto de inocência — Você... me lembra com um floco de neve raro que ainda não derreteu, certo? Irei te chamar de snowflake! E então, é um nome bom? — Comentei ao me aproximar dele novamente. Ele pulou em meu colo e passou a me olhar com um pequeno sorriso no rosto, parecia que ele havia gostado do nome. Kyla também não reclamou nem me bateu, se fosse para apostar eu diria que ela estava feliz em ver que nós estávamos nos dando bem.
— Ótimo! Agora você não tem desculpa para fugir de mim novamente, enquanto esse Pokémon for seu você é obrigado a seguir minhas ordens! — Disse ela como se aquilo fizesse o menor sentido. — Agora vamos voltar, você tem uma insígnia para ganhar! Não pense que vai continuar sendo um treinador medíocre agora que é meu servo, você vai ganhar aquela insígnia, pode apostar! — Disse Kyla me puxando pelo braço de volta para sua mansão.
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