A Queda de Evros
1 Prólogo: Silêncio, Sede e Sangue
Notas iniciais
Andava solitário pelas ruas de uma Evros há muito deserta, o vento ululando como um lobo em meus ouvidos, acostumados a ouvirem apenas o silêncio. De fato, qualquer outro som seria preferível a esse último, o mais agoniante, obscuro e intermitente que alguém, seja ele quem for, se daria ao trabalho de processar durante sua existência passageira.
Ah, sem dúvida, era uma coisa célere. Sua antagonista também, por natureza, pois caso contrário, não seria capaz de cumprir o fado de aniquilá-la.
Os corpos caídos, as poças de vida derramadas, as tábuas partidas e as lâminas largadas enrubescidas faziam questão de me recordar isso com constância, não que eu realmente sentisse a necessidade de ser lembrado. Não que eu me desse ao luxo de acreditar sentir qualquer outra coisa.
Extorquiram-me os doces sorrisos e a desesperançosa esperança. Fé nunca houvera de ter, embora tenha certeza de que, se algum dia a tivesse possuído, também a teriam furtado.
Em troca, recebi dor, ódio e sede. Consumi os dois primeiros até enfim me tornar capaz de abnegá-los. A terceira se mantém sempre fiel e indesejada, como a maior parte das coisas das quais visamos nos esquecer. Na necessidade desgostosa de saciá-la, me ajoelho ao lado de um dos cadáveres.
Suspiro pesadamente, como quem expurga os males. Esses, afinal, eu tinha em abundância. Enterro minhas unhas o mais fundo que posso na pele rude de me braço, uma tentativa falha de alto punição. Grito e golpeio meu próprio corpo, mas, como todo Venaar sabe, é impossível conter a sede.
Abro mão de minhas jornadas sem sucesso por humanidade enquanto, com a respiração ruidosa, sinto meu corpo ser tomado por convulsões. A quitina brotava por debaixo de minha pele e a atravessava como lâmina, o exoesqueleto se constituindo em torno de meu corpo. Não era uma armadura agradável aos olhos: cor de ferrugem, manchada com meu próprio sangue e coberta por espinhos toscos e afiados. Entretanto, era sem dúvida funcional.
Meus punhos se adaptavam em grandes pinças cruéis, adequadas para o tipo de assassino frio que minha natureza exigia que me tornasse. Adquiria uma cauda prênsil, que não me forneceria a espécie de equilíbrio da qual eu de fato precisava. E, por fim, viriam as presas. Para saciar a sede.
Urros involuntários preencheram o breu ao longo de minha amarga metamorfose. Senti nesse momento minha racionalidade por completo anestesiada. Tornara-me meu desejo.
As convulsões haviam cessado. Meus olhos, vazios em trevas, fitavam a vida rubra derramada ao lado do cadáver.
Minhas presas perfuraram a carne fria, enquanto a sede perfurava a minha alma.
Sem hesitar, bebi o sangue.
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