Se alguém dissesse que a vida de Beatriz mudaria completamente depois de uma soneca, ela riria. E ainda faria piada sobre o cansaço crônico dos professores da rede pública estadual. Afinal, ela era uma dessas — professora de biologia, 23 anos, filha única, sobrevivente de conselhos de classe e de salas com ventiladores que faziam mais barulho do que vento.


Naquela tarde, tudo parecia normal. A aula tinha sido puxada, com uma turma do primeiro ano perguntando se clone de planta tinha sentimentos. Ela saiu da escola cansada, pensando em tomar um banho, brincar com suas cachorras e, quem sabe, assistir de novo aos Cavaleiros do Zodíaco, sua paixão nostálgica. Onde Afrodite de Peixes sempre fora seu crush irreal. Interessante, misterioso, letal… e lindíssimo. Quase um pecado em forma de pixels.


Chegou em casa, fez um carinho rápido nas cachorras, alimentou os passarinhos, comeu uma fatia de bolo de fubá e, vencida pelo cansaço, deitou no sofá com a TV ligada. E então… dormiu.


De uma forma misteriosa, esse não seria o lugar que acordaria na próxima manhã.



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Quando abriu os olhos, Bea se viu deitada em um chão de mármore frio. Piscou uma, duas, três vezes. Acima dela, um teto abobadado coberto por constelações douradas. O ar tinha cheiro de incenso e pedra antiga. Ela se sentou com um estalo na coluna — “O sofá nunca foi tão duro assim…”.


— Quem ousa invadir a Casa de Gêmeos?


A voz ecoou, grave e majestosa. Beatriz virou-se para trás e seu coração quase parou. Um homem de cabelos longos e azul-escuros, olhos gêmeos — um calmo e outro tempestuoso — estava parado a poucos metros, usando uma armadura dourada que ela conhecia bem demais.


— S-Saga?


Ela sentiu o mundo girar. Literalmente.


— Como conhece meu nome?


“Ok, calma, Bea”, pensou. “Você está sonhando. Isso é um delírio. Você bateu a cabeça. Isso é uma fanfic mental.”


— Eu… sou Beatriz. Professora de biologia. Do Brasil. Da Terra. Do… século XXI?


O homem estreitou os olhos. Ele parecia dividido entre explodi-la com um golpe cósmico ou deixá-la explicar melhor.


— Sinto seu cosmo. Ele é… estranho. Mas não é hostil.


Bea ergueu uma sobrancelha.


— Cosmo? Eu mau tomo vitamina D e vivo movida a café.


— Hm. Venha comigo. Antes que a outra face de Gêmeos tome o controle.


Ela engoliu em seco e o seguiu, tropeçando na própria sandália (em algum momento, sua calça jeans e camiseta haviam virado um vestido branco esvoaçante. Clássico universo anime).



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Dias passaram — ou seriam semanas? O tempo ali não fazia sentido. Bea vivia agora entre os salões dourados da Casa de Gêmeos, treinando com Saga. Ele a ensinava a controlar seu cosmo, canalizar energia, respirar como uma guerreira. Ela, por outro lado, o ensinava o que era um meme e o conceito de “mutação genética”.


— Você diz que existe um animal… chamado ornitorrinco? — ele perguntou, franzindo a testa, após um treino.


— E ele bota ovo. E tem veneno. Não faz sentido nenhum. Como você — Bea respondeu, com um sorrisinho.


Saga não respondeu. Mas sorriu — aquele sorriso raro que dizia que ele a via como algo mais do que uma humana perdida. Era um irmão de armas agora.


Mas a tranquilidade durou pouco. Certa tarde, durante um passeio pelo Santuário, Bea viu alguém saindo da Casa de Peixes. Seus olhos se arregalaram.


— Não. Não. NÃO ACREDITO.


Afrodite de Peixes era ainda mais lindo ao vivo. A pele pálida, cabelos azulados perfeitos, olhos frios e encantadores. Um personagem de pôster... até abrir a boca.


— O que é isso que Saga recolheu da sarjeta? Um novo tipo de cavaleira? Deixa eu adivinhar… Cavaleira do Desleixo?


Bea piscou. E riu. Mas de nervoso.


— E você é o quê? Cavaleiro da autoestima inflada?


Ele sorriu, debochado.


— Ah, então sabe quem sou. Natural, ninguém esquece uma beleza divina como a minha.


Bea cruzou os braços.


— Não se preocupe. A decepção vai ajudar a memória a apagar mais rápido.


E foi assim que o encanto infantil morreu. E nasceu algo novo: a implicância mútua.



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Nos dias seguintes, Bea explorou o Santuário. Foi recebida com gentileza por Mu de Áries, que a ajudava a entender a estrutura dos cosmos. Shun era um doce, elogiando seus conhecimentos científicos com olhos brilhantes. Aldebaran se tornava um parceiro de treino firme e afetuoso, com quem ela ria sem parar. E Milo… bom, Milo era um perigo.


— Então… você realmente veio de outro mundo? — ele perguntou, certo dia, inclinando-se com aquele olhar que dizia: “estou flertando”.


— Sim. E nele, o escorpião geralmente pica antes de seduzir.


— E se eu fizer os dois?


Bea riu, sem saber se estava caindo no charme ou só se divertindo. Mas não passou despercebido que, ao longe, Afrodite os observava com olhos estreitos. E mais: Camus, ao lado dele, parecia menos impassível do que o normal.


Drama. Flertes. Ciúmes. Bem-vinda ao Santuário.


Mas nem tudo era brilho de armadura e suspiros. À noite, Bea olhava as estrelas e pensava em casa. Nas cachorras que talvez estivessem uivando sua ausência. Nos passarinhos, nos pais. No sofá. No cheiro do quarto. Uma saudade espessa, difícil de domar.


Saga, vendo-a assim certa vez, sentou-se ao seu lado.


— Sentir falta de onde viemos não nos torna fracos. Só humanos.


Bea deu um sorriso desanimado.


— Obrigada, Saga.


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E assim, naquele Santuário onde o impossível era regra, Beatriz começava a encontrar seu lugar. Um passo de cada vez. Com farpas trocadas, amizades sinceras e corações batendo fora de ritmo.


A guerra do cosmo estava só começando. Mas talvez… o verdadeiro desafio fosse sobreviver à intensidade dos sentimentos.