A Queda Divina

12 Sangue Inocente


Desistir do meu passado angelical foi como repartir minha alma em pedaços de um quebra-cabeça do qual nunca mais poderei remontar, serei eternamente incompleta. Ignorar toda uma existência que não foi insignificante, muito pelo contrário, moldou a forma como sou atualmente. Será que meu interesse pela cultura e civilização humana foi o que me sentenciou a passar o resto dos meus dias junto a eles? Mas essa hipótese não faz sentido, não é pecado amar demais.

Por mais que desejasse algum dia poder caminhar entre os homens, não esperava ser dessa maneira. Apesar de dizer a Caim que viveria um dia de cada vez, está mais difícil do que imaginei me acostumar com o fato de que meu retorno ao Paraíso já não é mais incerto, e sim improvável.

Minha busca pelo motivo da minha Queda era o que definia o início da minha trajetória na Terra, sem ela me encontro sem propósito, sensação agravada pelo estado do planeta após o Apocalipse. Está claro que este não é o melhor momento para estar aqui embaixo, pelo menos ainda estou viva, ou o mais próximo que isso signifique de um corpo repleto de vida, mas vazio de fé. Caim notou meu desânimo ao passar os dias seguintes tentando me animar com suas inúmeras histórias e objetos que colecionou ao longo dos anos encarnado.

Por mais que seja grata pelas suas ações, a relação que não havia nem começado perdeu seu brilho, e a maior parte do tempo passava sozinha caminhando pela floresta ou no deck anexo ao meu quarto olhando as estrelas. As vezes gastava tempo demais imaginando o que minha família estaria pensando de mim, absorta no julgamento velado que devo estar recebendo pela expulsão repentina e a convivência com o demônio. Mas esse é um buraco negro do qual não pretendo ser engolida, se significasse tanto a eles, não me encontraria nesta situação. Por isso suas opiniões deveriam valer menos que nada para mim, entretanto, a prática é mais complicada que a teoria.

Desperto da recorrente inércia ao escutar, através de meus dons sobrenaturais, estrondos e gritos na casa que Caim cedeu a Nádia e Mark abaixo da colina. Sem pensar duas vezes, pulo o deck no primeiro andar, caindo diretamente no quintal do sobrado. Encontro Caim saindo pela porta dos fundos, questiono preocupada:

— O que está acontecendo? — A postura defensiva destaca minha inquietação.

— Não faço ideia, mas como avisei, são tempos perigosos. Fique aqui, vou checar – avisa concentrado ao correr em direção a residência.

Ele parece irritado por estarem causando desordem em sua propriedade. Mas demônios sempre gostaram de um pouco de confusão, alguns de muita, por isso seu comportamento me intriga. Conforme o barulho de luta se intensifica, vou ao local com rapidez, me detenho ao chegar na porta de entrada aberta e assistir a cena: três homens estão em um embate com Caim, Mark está desacordado no chão aos braços de uma ensanguentada Nádia, a poça carmesim ao seu redor, seu estado parece crítico. Os nômades devem ter invadido a casa em busca de comida, mas suas intenções não eram das melhores, pelo o que pude perceber na bagunça generalizada.

No momento em que um dos homens abandona Caim e segue em direção da governanta, meu cérebro começa a trabalhar mais ágil que o normal, preciso proteger Nádia. Me coloco entre a esposa absorta em seu próprio sofrimento e o andarilho. Ele tenta me acertar um soco, mas consigo desviar com facilidade, as aulas com Caim me prepararam perfeitamente.

Desvio minha atenção para o demônio por alguns instantes, ele abate os dois que lutavam consigo e segue em minha direção, indico que não preciso de ajuda. Em seguida, uso minha essência divina para projetar um chute potente no último homem em pé. Seu corpo é projetado para trás até bater na parede, ouço o barulho de costelas quebrando ao cair desacordado no chão, temo ter exagerado na força usada. Peço para Caim conferir o estado do andarilho e ele me encara compassivo ao balançar a cabeça negativamente, está morto. Eu matei um humano, quebrei uma das mais importantes regras divinas.

Minhas mãos tremem com o crime cometido, agora tenho a certeza de que nunca mais passarei pelos Portões do Paraíso novamente, mesmo depois de morta como humana. Entretanto, não posso me dar ao luxo desabar agora, Nádia e Mark precisam da nossa ajuda.

— Nádia? — Encosto minha mão em seu ombro, tentando chamar sua atenção, a governanta chora incontrolavelmente.

— Tanto sangue... — ela balbucia.

— Deixe-me ver – tento tirá-lo de seus braços, suas mãos o agarram com mais força. — Venha Nádia, só poderemos ajudá-lo se você o soltar.

A esposa balança a cabeça várias vezes, até que finalmente solta o marido e senta ao seu lado, os braços em volta das pernas e a cabeça abaixada. Confiro Mark já suspeitando de sua sina, os olhos sem resquícios de vida indicam que o homem sucumbiu às múltiplas facadas que recebeu. Em um gesto rápido com as mãos, fecho suas pálpebras gélidas. Caim se aproxima e indico para permanecer onde está, me direciono para Nádia e digo estremecida:

— Sinto muito — as lágrimas teimosas caem, ergo minha mão para enxugá-las e no meio do caminho me detenho, os dedos estão manchados com o sangue de Mark. Desabo, acompanhando a esposa – Queria poder ajudá-lo, mas sou muito nova para manifestar os dons de cura nos humanos. Ele se foi, Nádia.

— É claro que ele está, eu certifiquei muito bem disso – responde orgulhosa.

— O quê...

— Se afaste, Celeste – exclama Caim.

Me levanto assustada e desatenta com a poça de sangue ao redor de Mark, acabo escorregando e caindo no chão, ensopando minhas roupas com o líquido viscoso e vibrante. Caim me levanta e coloca atrás de si, é a primeira vez que vejo sua postura tão protetora. A sequência de eventos trágicos me atinge mais uma vez ao encarar meu corpo coberto de sangue no espelho próximo a mim. Sem demora minha atenção retorna para a governanta ensandecida, ela levanta a cabeça e começa a contar:

— Uma, duas, três, quatro...

— Não entendo – divago.

— Rude! Não aprendeu no Céu que não se deve interromper os outros? — Sua expressão se ilumina, como se lembrasse de um detalhe. — Estou exigindo demais, esqueci que lhe enxotaram lá de cima, deve ter caído antes de aprender o básico — ri em zombaria.

— O que está fazendo? — Vocifera Caim.

— Bom, antes do seu brinquedinho me cortar, estava contando quantas facadas Mark recebeu – o sorriso se alarga, está desfrutando do momento. — Uma pena terem perdido a cara do amável marido quando a esposa o atacou, ficou estarrecido pelas punhaladas.

— Nádia... — sussurro atônita.

— Este não é o meu nome – ela corta, a voz não é humana.

A governante se levanta, suas unhas se transformam em garras, os olhos se tornam verdes, como se fossem tóxicos; as pupilas verticais lhe dão um aspecto peçonhento, intensificado pela pele que se assemelha com escamas, dependendo da luz e sua intensidade, o tom furta-cor se destaca.

— Quem é você? — Questiono sem rodeios.

— Pergunte para Caim – diz simplesmente, dando de ombros.

— Caim? — Ele não me responde, insisto: — Caim? Quem ou o que é isso?

— Lilith – o nome é cuspido carregado de desgosto.

— Avisei que teria notícias minhas, querido.

Minha cabeça gira, Caim e Lilith mantinham contato? Eu achei que a demônio ainda estivesse no Inferno depois que seu corpo encarnado foi destruído por um arcanjo, pelo visto teve forças o suficiente para voltar entre os humanos apenas pela possessão. Seu envolvimento com Caim coloca um sinal de alerta em minha cabeça, estive tão cega de suas intenções? Meus irmãos devem estar rindo de mim.

— Alguém vai me contar o que está acontecendo? — Me desestabilizo, a voz treme.

— Diga ao anjo – ela ordena, Caim permanece calado, os punhos cerrados. — Pois bem, este é um lembrete de quem é que manda aqui. Mensagem recebida, Caim?

— Caim? — Me aproximo e encosto em sua mão, ele desvia do meu toque como se algo me repelisse de si.

Se conheço Caim o suficiente, se é que posso fazer essa afirmação, diria que o demônio está por um triz de pular em Lilith. Mas há algo ainda mais profundo pela forma como sua cabeça está abaixada, a postura retraída, como se comportou quando o questionei... Quase como se estivesse com vergonha de me responder.

— Sempre achei que o Todo Poderoso falhou com os anjos quando lhe concedeu o mínimo de inteligência, mas você, Celeste, excedeu as expectativas – Lilith prende seu olhar ao meu e completa com escárnio: — Você realmente achou que Caim, o Primeiro Assassino, seria capaz de ter sentimentos por você?

— E-eu não sei – gaguejo, Caim continua em silêncio.

— Pobre criança, tão nova e inocente. Ou apenas estúpida...

— O que Nádia e Mark tinham haver com isso? — Pergunto, tentando mudar o foco do assunto.

— Efeito colateral, estavam no lugar certo e na hora certa, para mim é claro. Sabe, não foi muito difícil convencer esses homens a invadirem a propriedade, um sussurro aqui, outro ali. Promessas de roupas novas e um teto decente sob suas cabeças — ela se delicia ao contar os detalhes de seu plano nefasto. — Assim que arrombaram a casa, possuí o corpo da mulher e tirei a vida do seu marido, quando o coitado percebeu o que estava acontecendo era tarde demais.

Petrificada, finalmente faço a temida pergunta:

— Uma ameaça para Caim, assim como disse antes... Por quê?

— Por sua causa, Celeste. O que aconteceu hoje foi culpa sua, anjo. Todo esse sangue derramado está em suas mãos.

— Do que ela está falando, Caim? — Insisto, pegando em seu braço, ele reage.

— Corra – anuncia, quebrando o torpor, a posição agressiva.

— Caim?

— Eu disse corra – sua mão aperta em torno do meu pescoço ao ordenar em voz alta: — Assim terei o prazer de caçá-la antes de lhe matar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.