A Queda Divina
10 Knockin' On Heaven's Door
O clima instantaneamente muda, a esfera acolhedora se torna apreensiva com a incerteza do sucesso da reanimação. Me desprendo de Caim e permaneço ao seu lado enquanto Nádia acompanha Thomas ao nosso encontro, o demônio permanece impassível. Assim que a governanta chega com o convidado, a expressão do médico se ilumina com o que encontra.
— Estou interrompendo algo? — pergunta malicioso.
— Nada que seja do seu interesse – corta, Caim.
— Sendo assim, vamos aos negócios. Você deve ser a Celeste, é um prazer finalmente conhecê-la – o homem de estatura baixa se aproxima e estende a mão em cumprimento, retribuo o gesto.
— Então você é o responsável por me matar – observo suas sobrancelhas grossas arquearem em diversão. — Minha vida está em suas mãos, doutor.
— Literalmente, no caso – destaca Thomas, animado. — Devo dizer, teria me arrumado para a ocasião se Caim tivesse me informado que estaria na presença de uma dama tão deslumbrante como você, Celeste. O apocalipse não me caiu bem, confesso, não estou no meu melhor.
Observo atentamente Thomas, veste roupas gastas, a barba precisa ser aparada, o cabelo ondulado está comprido e mescla os fios grisalhos aos brancos. Seu curioso entusiasmo, junto aos olhos arregalados e atentos com o cenário ao seu redor, lhe concedem um aspecto singular.
— Dada a seriedade da situação, sua maior preocupação é a aparência? — questiono intrigada.
— Certamente, apesar das minhas mãos milagrosas – ele as balança no ar – meu estilo era inquestionável nos holofotes da mídia. Bons tempos...
— Chega de conversa fiada. Thomas, qual o seu plano para reanimar Celeste? — intervém Caim.
— É muito simples, na verdade. Trouxe uma injeção capaz de causar uma parada cardíaca, vamos deixá-la morta por alguns minutos. Em seguida, iniciar o processo de reanimação com massagem cardíaca e adrenalina – responde, como se fosse algo rotineiro.
— E você garante que irá funcionar?
— Deixe-me recordá-la, meus pacientes não morrem. Sou praticamente um Messias – estala a língua em diversão.
— Ele não fez um pacto para conseguir seus dons – destaco o óbvio da comparação indecente.
— E quem se apega aos detalhes desde que funcione? — rebate, motivado.
O frio na barriga se intensifica ao me deitar na cama, Caim se aproxima com a injeção, seguro sua mão próxima ao meu braço e aperto-a tentando aliviar um pouco da tensão. Por alguns segundos, sua expressão se torna empática, mas logo ele retorna para a aura austera. Sinto a picada da seringa e aguardo inquieta seus efeitos, até que meu peito começa a doer e a visão a embaçar. Aos poucos perco os sentidos e me encontro em completa escuridão.
Minha essência se desprende do corpo encarnado e a falta de sensações me causa um incômodo, como se parte de mim estivesse faltando, apesar do sentimento em si não existir nesta forma. Observo de maneira astral Caim e Thomas ao lado do meu corpo, me afasto cada vez mais desse cenário ao me aproximar do Céu, faço minha jogada arriscada ao chegar nos Portões do Paraíso.
— Sua entrada não é permitida, Celeste – anuncia o guarda, Uriel. — Deve retornar à civilização humana ou o Toque de Deus será desfeito e sua essência se repartirá em milhares de pontos de luz desformes e sem consciência.
— Não sairei daqui sem respostas – rebato.
Uriel se torna hostil, está preparado para atacar, mas estou disposta a reagir.
★☆★
Caim
Olhar o corpo sem vida de Celeste desperta sentimentos há muito tempo esquecidos por mim, de eras atrás, quando ainda era um humano. Tento afastar ao máximo essa fragilidade, não posso me distanciar do plano original, depois de tudo que fiz, do quão longe cheguei, não há volta. Mas o médico percebe minha inquietação, seu olhar insistente me incomoda:
— Parece apegado ao anjo, Caim. Devo me preocupar? — A voz de Thomas muda para a do ser que tomou posse do seu corpo, uma entidade tão antiga quanto eu.
— Sabe muito bem meu objetivo, é o mesmo que o seu, Lilith – rebato.
— E mesmo assim quase colocou tudo a perder com o plano envolvendo a morte do anjo – me afasto do demônio, ela se aproxima e prende sua mão em meu pescoço, as garras arranham minha pele. — Pela forma como se olham, consigo perceber que a atração é mútua. Não vejo problemas em brincar com Celeste, sei que a carne exige certos estímulos para se satisfazer, mas para o sucesso do nosso plano, ela deve se apaixonar por você. Não o contrário...
— E ela vai, Celeste tem sentimentos por mim, mesmo que esteja no começo, só é teimosa o suficiente para admitir. Precisa entender que sua adaptação está longe do usual, no entanto, estou fazendo tudo ao meu alcance para que o impacto seja o menor possível – digo ao retirar sua mão de mim, a ameaça velada de que falhar não é uma opção. — Quanto aos meus sentimentos, posso garantir que não existem.
Lilith pensa que é minha superiora, contudo, está enganada. Nós somos iguais quando se trata da parceria que realizamos há décadas. Se for para medir nossas capacidades em um embate, ganharei facilmente do demônio que nem um corpo encarnado foi capaz de gerar novamente. Para sobreviver na civilização, tem que pular de corpo em corpo assim que o receptáculo começa a definhar sob sua possessão.
— Muito bem, criança. Pelo menos foi esperto o suficiente para me incluir nessa empreitada, assim que Celeste voltar, vou embora para não atrapalhar o casal – sorri em malícia. — Mas não se engane, ficarei perto dessa vez.
— Tenho certeza disso – sussurro em escárnio.
— Se Celeste não sucumbir aos seus encantos, podemos muito bem livrar-nos dela e esperar o próximo anjo encarnado cair na Terra. Ficarei encantada em arrancar seu coração com as próprias mãos e ergue-lo aos céus para que sua família veja com clareza a morte de um dos seus – Lilith morde o lábio como se saboreasse a cena em sua cabeça.
Fúria toma conta de mim, me lanço em direção ao corpo possuído com a intenção de machucá-lo, Lilith é pega desprevenida no meio de seu devaneio macabro. Agarro seu pescoço e ergo todo seu corpo com minha força sobrenatural, em seguida, lanço seu receptáculo para fora do deck de madeira. Sinto minha expressão demoníaca ganhar vida ao olhar para Lilith, minha mão em seu pescoço é a única coisa que a impede de cair do declive.
— O que pensa que está fazendo? Prejudicar este corpo não me impede de voltar para pegá-la, Caim – suas mãos se debatem debilmente, sua força não se iguala a de um demônio encarnado.
— Mas me dará tempo, pelo menos até você achar um novo. Olha bem para mim, Lilith – meus olhos e minha voz atingem o auge da minha transformação. — Não tocará num único fio de cabelo de Celeste sem o meu consentimento.
— É pior do que imaginava...
— Não é nada do que você imagina, é apenas estúpida o suficiente para não enxergar todo o contexto da nossa situação. Anjos encarnados naturalmente são raros o suficiente, depois que abri a Caixa de Pandora, nunca mais desceram para a Terra. Celeste ter sido expulsa foi um evento excepcional, não sabemos se outro anjo aparecerá tão cedo – aperto meus dedos em torno de si, ela arfa com dor. — Não quero fazer o papel de bonzinho por muito mais tempo, Celeste precisa se apaixonar por mim para poder matá-la e liberar o último male da Caixa.
Lilith bate em meu braço sinalizando sua desistência, jogo seu corpo para a segurança do deck de madeira novamente.
— Nunca mais faça isso. Eu sei da sua fama, Caim, mas sabe muito bem do que sou capaz.
A primeira mulher de Adão tem razão, foi uma jogada perigosa, entretanto, Lilith precisa entender que não recebo ordens de ninguém. Suas ameaças vazias não contribuem em nada para nosso objetivo.
— Você se perde muito fácil, Lilith. Nem tudo precisa resultar em um assassinato sangrento, já disse que tenho a situação sob controle. Se ameaçar o plano mais uma vez, nossa parceria irá se encerrar.
— Ameaçar o plano ou Celeste? — questiona entredentes.
— Celeste é o plano – respondo entediado, sua insistência no assunto me aborrece. — Já perdemos muito tempo aqui fora, traga o anjo de volta à vida.
— Ainda estou considerando essa possibilidade... — sussurra ao se levantar do chão, as mãos passam pelo pescoço dolorido.
— Não me tente, Lilith. Não criei toda essa farsa para você se recusar a interpretar seu papel – com a voz calma, realizo minha ameaça: — Nas últimas semanas tenho me aprofundado no personagem de formas que minha natureza demoníaca está se sentindo menosprezada, até humanos abriguei sob o meu teto. Será um alívio descarregar toda essa tensão em você.
O demônio sorri e se aproxima, me segurando pela cintura:
— Antigamente, quando possuía meu corpo encarnado, costumávamos descarregar a tensão de maneiras mais divertidas – a afasto, ela sorri divertida.
— E logo você será capaz o suficiente de encarnar seu corpo, assim poderemos nos divertir novamente em um mundo moldado por nós — digo.
Escondo o nojo, meu envolvimento com Lilith não passou de desejo carnal, guardo essa fase na memória como atos de alguém desesperado. E de fato, minha readaptação entre os homens depois de centenas de anos no Inferno foi um período confuso. Me entreguei a vários anseios duvidosos até finalmente ganhar controle sob meu corpo e sentimentos. E, principalmente, para não chamar a atenção dos anjos enquanto planejava uma maneira de revidar tudo que suportei após matar meu irmão. Queria que Deus sofresse da pior maneira possível, e atacar sua criação foi a forma como encontrei para realizar minha vingança, Lilith apenas se tornou uma aliada pois compartilhava o mesmo desejo.
A primeira mulher de meu pai não quis se submeter aos caprichos de Adão, fugiu do Éden em um ato de rebeldia em busca da sua independência. Como castigo, Deus a transformou em um demônio, por muitos anos Lilith caminhou sob a Terra em seu corpo encarnado, causando caos e desgraça aos homens. Mas um anjo foi responsável por matá-la e enviar sua essência demoníaca ao Inferno, agora ela aguarda ter forças novamente para encarnar.
Diferente dos anjos, não seguimos as regras divinas. O corpo pode morrer, mas dependendo do nosso poder e influência, conseguimos recuperá-lo em um determinado espaço de tempo. Aproveitarei essa janela o máximo que pudesse até encontrar uma forma de aprisionar a essência demoníaca de Lilith no Inferno. O demônio foi útil, mas sua ajuda expirou o prazo de validade, governarei o novo mundo sozinho. Por isso preciso aproveitar o momento em que se encontra sem sua capacidade total.
— Mais alguns minutos e seu anjo pode não ter um corpo para retornar. Caso tenha esquecido, não tenho o talento que “Thomas” gaba, não sou capaz de trazer alguém de volta à vida.
Lilith me relembra mais uma vez da farsa criada, começamos o processo de reanimação de Celeste apenas com a massagem cardíaca. Essa foi a maneira mais controlada que conseguimos elaborar para administrar a situação, conceder vida não faz parte dos dons demoníacos, algo tão precioso está a cargo somente do divino. Aplico a injeção de adrenalina em seu peito, mas o corpo continua estático, sem vida.
— Me garantiu que iria funcionar. Porque ela continua morta? — grito para Lilith.
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