A Queda Divina
8 Jogada arriscada
Caim permanece me encarando em silêncio, as sobrancelhas arqueadas, os vincos da testa mais aparentes que nunca, como se estivesse me esperando revelar que não estou falando sério.
— Pode repetir? — Pede, incrédulo.
— Preciso que me mate – pronuncio cada palavra pausadamente. — Não acho que dê para ser mais clara que isso.
Ele bufa ao se jogar no sofá, passa as mãos sobre o rosto e estica os braços atrás de si no encosto do móvel, se acomodando.
— Acho que a Queda pode ter lhe afetado mais do que imaginei. Deve ter batido a cabeça com muita força — responde.
— Nunca estive tão sã — rebato, me sentando na ponta da mesa de centro, assim posso ficar cara a cara com o demônio. — Deixe-me explicar e irá entender.
— Como diriam os humanos, “sou todo ouvidos” — ele cruza os braços e se inclina, ficando mais próximo de mim e oferecendo sua total atenção.
— Se meu corpo encarnado morrer, minha essência angelical será liberada, assim posso vagar livremente até o Céu. Dessa forma, consigo chegar até os portões do Paraíso e conversar com os guardas — esclareço. — Por isso preciso que me mate, mas depois reviva meu corpo de alguma forma. Não pode ser uma morte, digamos que... Permanente.
Caim não parece satisfeito com o meu plano, demora alguns segundos para finalmente me responder:
— Vejo o seu ponto, mas é arriscado. O que fará se não conseguir revivê-la?
— Não há muito o que fazer, honestamente. Como estou proibida de entrar no Céu, ficaria vagando pela Terra até minha essência se esgotar por completo, como um fantasma — não havia pensado nessa alternativa ainda, estou tão certa de que serei capaz de retornar, que imaginar um cenário no qual me encontre completamente sozinha é apavorante.
— Não esperava que me aparecesse com um plano desses, me surpreende a cada dia, Celeste – ele me encara pensativo, não sei se o convenci completamente.
— Está comigo ou não? Sabe que consigo muito bem seguir sozinha – digo com firmeza, posso não saber como, ainda, mas sinto que sou capaz.
— Não conhece ninguém aqui embaixo, és tola, anjo. Talvez essa não seja a palavra correta, mas inocente.
— Não sou inocente – digo contrariada, Caim ri.
— Deixou um demônio a acolher, quer mais inocência que isso? — permaneço calada. — Vou lhe ajudar, entretanto, devemos ser cuidadosos. Se a sua reanimação não ocorrer como planejada, terei gasto todo esse tempo em um mistério sem solução.
— Sou apenas isso para você? — Sei que não deveria esperar nenhum tipo de consideração por Caim, afinal, já repeti várias vezes que nossa união não passa de uma troca mútua de interesses. Mas, confesso que no fundo fiquei ofendida por significar tão pouco, um segundo golpe após o dado pela minha família.
Caim quebra nossa troca de olhares ao se levantar em silêncio e me deixar sem reposta, caminha de um lado ao outro enquanto arquiteta mentalmente seu plano. Quando se dá por satisfeito, explica que conhece alguém que pode nos ajudar, um médico.
— Esse doutor, como o conheceu? — questiono.
— Não é da minha natureza, mas fiz uns pactos aqui e ali ao longo dos anos. Geralmente, quando estou entediado. Ficaria chocada pelas coisas que aceitam em troca de um bem tão valioso quanto suas almas – responde a contragosto.
— E o que ele recebeu ao selar o pacto?
— Um dos pedidos mais peculiares – ele faz uma pausa em suspense, arqueio a sobrancelha curiosa. — Que nenhum paciente morresse em suas mãos.
— Um humano querendo brincar de Deus... — sussurro.
— É mais que isso, anjo. O que todos os desejos tem em comum além, de alguma forma, afagar seus egos? Com a taxa nula de mortes, acabou se tornando alguém de renome, um dos médicos mais requisitados do país, conquistou uma legião de fãs e um montante generoso na conta bancária.
— Um dom nobre para um propósito tão egoísta — falo entredentes, minha aversão aos seus atos é perceptível na expressão de desgosto que carrego.
— Finalmente está entendendo como funcionam as coisas aqui embaixo.
Passamos os próximos minutos definindo os detalhes da nossa nova missão, Caim informa que Thomas residia em Los Angeles antes do apocalipse, mas que não tem certeza do paradeiro do médico. Apenas que não está morto, pois sentiria o pacto sendo cobrado e a alma coletada para si, e que essa ligação poderia ser benéfica ao tentar entrar em contato com ele. Como os humanos ainda não conseguiram restabelecer as linhas telefônicas, muito menos a internet, tentaria falar com o médico de maneira psíquica.
Caim precisa entrar em estado de transe, o que exige sua completa concentração na tarefa. Ele senta em frente a lareira, cruza as pernas e observa o fogo crepitar, foca no balanço irregular das chamas, respira profundamente e solta as lufadas de ar ritmicamente. Observo todo o processo com atenção, é quase hipnótico. Caim fecha os olhos e em questão de minutos abre-os novamente, mostrando um lado do homem mais próximo ao do demônio. Além dos já conhecidos olhos completamente escuros, veias negras saem do mesmo e percorrem parte de seu rosto.
— Thomas Morgan – pronuncia, a voz remodelada ao aflorar seu lado demoníaco, está mais grossa e ríspida, como se mais de uma pessoa falasse. — Atenda meu chamado.
Após alguns segundos quieto, ele prossegue:
— Seu dom é necessário, deve me encontrar para concluir uma tarefa ou terá sua alma tomada antes do previsto... – ele é interrompido, mas completa: — Humano tolo, eu faço as regras. Se quisesse poderia matá-lo agora, entre um único suspiro seu.
Caim ri em escárnio, sua voz alterada junto ao reflexo das chamas em seus olhos apenas intensifica minha inquietação. A conversa prossegue com o demônio combinando os detalhes, até que, ao seu fim, recupera a aparência de antes.
— Ele está longe, vai levar alguns dias para chegar – anuncia.
— O que faremos então?
— Sabe se defender? — pergunta curioso ao se levantar, passar a mão sobre as roupas para desamassá-las e ficar ao meu lado.
— Sei o suficiente – respondo, mas é um equívoco. Estava no início das minhas aulas de defesa pessoal, apenas na teoria. Ele permanece firme, então completo: — Não tive a oportunidade de realmente aprender, me jogaram antes.
— Lhe ensinarei o básico, não pode contar apenas com seus dons angelicais.
O demônio está correto, não posso abusar dos meus poderes, meu corpo encarnado é como uma bateria. Tem seus limites e precisa ser recarregado, seja dormindo ou absorvendo a energia de tudo que é vivo.
— Vamos treinar – ele me guia até o exterior da casa.
— Agora? — Questiono confusa.
— Sim, não há nada que possamos fazer até Thomas chegar. Se, por ventura, um combate corpo a corpo for necessário em nossa jornada, pelo menos poderá aliar o básico aos seus poderes. Todo cuidado é pouco – Caim se aproxima e contorna meu rosto com os dedos. — Eu lhe avisei, anjo, são tempos perigosos.
★☆★
Os próximos dias são agitados, pensei que seria acometida pela ociosidade, mas Caim estava se esforçando para me ensinar o máximo que podia, e eu retribuía disposta a aprender. Já conseguia me manter em um combate o suficiente para causar danos ao oponente. Além de seus momentos como professor, Caim sempre me contava histórias da sua trajetória entre os humanos, ouvia avidamente suas interações, como uma lembrança da minha rotina no Céu acompanhando os humanos.
— Notícias de Thomas? — Indago, enquanto desvio de sua investida. O demônio sorri ao constatar que minhas habilidades progrediram.
— Entrei em contato na noite anterior, devemos esperar sua chegada para no máximo amanhã – ele se aproxima mais uma vez, me derrubando no chão. Pego sua mão entendida e me preparo para outro embate, como se nada tivesse acontecido. — Preste atenção na posição dos seus pés, em como distribui seu peso, se desiquilibrou, por isso consegui derrubá-la.
Somos interrompidos por Mark, que está se preparando para mais uma de suas excursões em busca de mantimentos. Pelo que Nádia me contou, a maioria da comida que temos é graças ao seu marido, que se arrisca pela região em mercados e mercearias abandonadas. Conseguimos alguns vegetais da horta que Nádia fez questão de cultivar, mas são poucas opções, não há muita coisa que cresça no solo afetado pelas pragas. Apesar dos gafanhotos terem cessado, a chuva ácida ainda aparecia com frequência, sendo absorvida pela terra. E a pouca carne que consumimos é pela caça na região.
Mark acena me cumprimentando, mais uma vez faz um sinal para Caim o encontrar próximo a caminhonete abandonada que achou em uma de suas viagens e tomou para si. O ruivo de olhos castanhos, apesar de alto, continua um pouco abaixo do demônio. A barba carregada lhe envelhecia, fazendo com que aparentasse bem mais que trinta e dois anos, além de esconder parte das sardas aparentes em seu rosto. Assim que terminam de acertar os detalhes, Caim se afasta e deixa Nádia se despedir do marido.
A governanta me confidenciou que sempre ficava aflita durante as excursões de Mark, apesar de Caim ser influente nas redondezas, muitos viajantes passavam pela região, peregrinos do apocalipse. E nem todos conheciam a reputação do Primeiro Assassino. Observo os dois se abraçarem, Nádia se afasta o suficiente para poder conversar cara a cara com Mark, mas mantém as mãos em volta da sua cintura. Ele, por sua vez, segura seu rosto com as mãos como se fosse algo precioso, delicado. Mark se inclina e encosta os lábios nos da esposa, eles permanecem nessa posição por alguns segundos, o beijo demorado e singelo é interrompido por um último abraço de adeus.
Me sinto uma intrusa nesse momento tão íntimo, viro em outra direção por conta do desconforto. Ao mesmo tempo, outro sentimento aflora, mas não me orgulho dele. Uma pontada de inveja pelo momento de cumplicidade compartilhado pelo casal, ter alguém para lhe ajudar em um momento difícil, e dividir sua rotina, é algo que nunca passou pela minha cabeça. Fecho os olhos imaginando como seria essa experiência, contorno os lábios com as pontas dos dedos, sentindo o tecido fino e sensível. Qual será a sensação de ser beijada? Amada? Ou desejada?
Entretanto, estes são sentimentos carnais, não posso me dar ao luxo de senti-los. Espero que minha trajetória em meio aos humanos seja breve, tenho meus deveres e minha vida no Céu. Mas a cada dia que passo na Terra, mais apegada me sinto as sensações humanas. Caim retorna e chama minha atenção:
— Nosso treino já deu por hoje, pode descansar, tenho algo planejado para mais tarde. Espero que goste do presente que deixei em sua cama – informa sorrindo.
— O que você aprontou? — questiono séria, mas minha animação é notada pelo demônio, que apenas estende ainda mais o sorriso pelo rosto.
— Temos um encontro marcado esta noite, às oito horas, não se atrase, anjo — sem mais explicações, some dentro da casa.
Retorno para o meu quarto mais apressada que o usual, assim que abro a porta, noto a caixa de presente em cima da cama. Desenrolo a fita prateada a sua volta desajeitadamente, curiosa para saber o que guarda. Quando finalmente está livre do laço, fico admirada pelo que encontro.
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