A Quarta Colônia - Vera Cruz
2 Capitulo 2 - Cala a boca e admira
Notas iniciais
Precisava ser cauteloso. Me aproximei sorrateiramente da porta dos fundos da casa e espiei por uma janela que havia ao lado. Como já suspeitava, não havia ninguém lá. Entrei no cômodo me esforçando ao máximo para não esbarrar em nada ou fazer qualquer ruído. Por sorte, a experiência que eu tinha invadindo propriedades privadas me ajudava a agir bem naquela situação.
Cheguei ao corredor, olhei de um lado para o outro e não vi nada. Agora todas as portas estavam mesmo fechadas. Segui na direção oposta de onde havia ido antes, a direção onde ficava o quarto do político. Logo me deparei com o que deveria ser a sala de estar. Muito bem arrumada, moveis novos, lustre extravagante, tapetes de pele de animais, eram tão raros e valiosos que eu senti raiva daquele sujeito imaginando a quantidade de suprimentos ele não desviou para poder adquirir tudo aquilo. Agora eu entendia porque só os restos chegavam para quem mora nas extremidades.
Dei meia volta e segui pelo corredor, passei por três portas fechadas até me deparar com uma escada que dava para algum lugar abaixo da casa. Será que havia mesmo um cativeiro? Desci as escadas com o coração querendo sair pela boca. Estava escuro, precisei forçar a visão para poder saber onde estava pisando. Não podia me dar ao luxo de cair e revelar minha presença.
Felizmente consegui chegar ao fim. Pude avistar um brilho fluorescente em uma parede próxima, era um interruptor. Ideia astuta aquela, se tornava mais fácil acha-lo se ele estivesse em destaque na escuridão. Com receio, acendi a luz. Não era um cativeiro. Havia mesas compridas e sobre elas algumas máquinas de processamento e materiais estranhos. Me aproximei e percebi que se tratava de substâncias para a fabricação das pílulas de narcotes. Infelizmente ali não estava o que eu procurava.
— O que você está fazendo aqui? – Alguém tocou meu ombro por trás.
Gelei. Queria correr, gritar, me debater, espernear, enfim, fazer mil coisas ao mesmo tempo, mas não consegui, entrei em choque. Por sorte, logo passou e eu me afastei apressado, me virando para encarar quem havia dado o flagra.
— Desgraçado! – Soltei. – Vou te matar.
— Calma. – Joleno falou assustado. – O que foi que eu fiz?
— Imbecil! – Dei um cascudo forte na cabeça dele. – O que você está fazendo aqui seu retardado? Porque não saiu logo? Sabe o quanto eu fiquei preocupado? Até mandei o Pingo ir chamar o pessoal achando que você estava em apuros.
— Ei! – Ele protestou. – Pra que toda essa violência, irmão? Isso machuca.
— Isso machuca... – Remedei, ainda sem conseguir diluir a raiva.
— Se eu tivesse seguido contigo não conseguiríamos escapar, ele nos pegaria. – Ele falou. – Por isso, ao invés de correr para fora eu entrei na casa. Ele me seguiu e deixou você de lado. Corri em direção ao quarto e entrei debaixo da cama. Ele não me viu, foi procurar em outros cômodos, então eu peguei uma estatueta de metal que havia no criado mudo e o acertei na cabeça por trás quando estava em um dos quartos.
— Mentira... – Falei. Já sabia que o Joleno era astuto e um dos mais corajosos que havia no grupo, mas aquilo tudo era demais até para ele.
— Tô te falando. – Ele riu orgulhoso. – Quando ele caiu eu fechei a porta e tranquei por fora. Estava para sair quando percebi alguém entrando, não sabia se havia mais alguém na casa e voltei a me esconder, quando eu decidi seguir, vi que era você.
— Bom, ainda bem que você está bem. – Falei e o abracei. Ele retribuiu.
Nossa relação uns com os outros é assim, nos desentendemos, brigamos, nos degladiamos as vezes, mas no fundo somos como uma grande família, como irmãos que se preocupam e se cuidam mutuamente.
— Vamos embora. – Chamei.
Saímos por onde entramos, saltando o muro para a liberdade. O problema é que eu havia esquecido uma coisa. Um grupo de cerca de vinte garotos se aproximando com pedaços de madeira, barras de metal e pedras nas mãos, marchando decididos em nossa direção.
— Para ai, não era o Joleno que estava preso na casa do grandão? – Carranca perguntou. Era como o líder do grupo. – E o que ele está fazendo aqui fora? – Ele se voltou para encarar Pingo.
— Ele estava... – Pingo falou baixinho, quase que não ouvimos sua voz. – Eu juro.
— Então... – Eu comecei a tentar explicar. – Ele estava. Achei que o cara tinha sequestrado ele. Mas, quando entrei descobri que esse idiota já havia se livrado do político e só não tinha saído ainda.
— Ahh cara... Qual é. – Um dos meninos do grupo protestou. – Estava achando que finalmente teríamos um pouco de ação por aqui.
— Parece que está tudo bem, então. – Carranca disse. – Vamos embora.
Todo o grupo caminhou junto em direção ao viaduto. Ele ficava a uns oito quarteirões de onde estávamos. Aquele viaduto atravessava duas vias transversalmente. Nos reunimos entre duas das vigas que sustentavam toda a estrutura. Ali dormimos, comemos e passamos quase todos os momentos de nossas vidas. Não tínhamos muito, apenas nossos cobertores, mochilas com poucas trocas de roupa e alguns pequenos objetos pessoais que guardamos de recordação de nossas antigas vidas.
Uma coisa que percebi logo nos primeiros dias vivendo ali é que parecíamos invisíveis. Pessoas passavam em suas bicicletas indo e vindo pelas duas vias e era como se não vissem várias crianças passando fome, frio e por perigos logo ali ao lado. Só nos tornamos visíveis quando começamos a incomodar. Felizmente, ainda existiam algumas pessoas de bom coração que nos traziam doações. Não podiam doar muita comida, mas ao menos nos davam roupas usadas em bom estado, o que já era muito para quem não tem nada.
— Obrigado. – Joleno falou, enquanto caminhava ao meu lado.
— Por? – Perguntei, distraído com meus pensamentos.
— Por ter voltado por mim. – Ele respondeu.
— Ah... – Eu disse sem graça. Não esperava um agradecimento, digo, fiz aquilo porque eu sabia que qualquer outro do grupo também faria por mim. – Não foi nada. Estamos aqui para isso.
— É... estamos. – Ele disse e deu um soco no meu braço.
Quando chegamos ao viaduto paramos para reunir tudo que os grupos de caça haviam conseguido juntar naquele dia e dividir entre todos. Aquilo teria de ser suficiente para o resto do dia e a manhã do dia seguinte, até que os grupos levantassem para a nova caça.
— O que vocês pegaram? – Pingo perguntou ao se aproximar de mim e Joleno, que já estávamos em nossos cantos.
— Consegui um mamão quase completo. – Joleno disse. – Cara, estou resistindo o máximo para não comer ele todo agora. Deve ter no mínimo uns cinco anos que não como nem que seja um pedaço de um.
— Eu só peguei barras de ração nutritivas. – Falei. – Eles demoram mais para deixar voltar a sensação de fome.
— É, mas não são os melhores para a saúde. – Pingo disse.
— Saúde? – Perguntei. – Já não me preocupo com a minha saúde há muito tempo.
— É né. – Ele concordou e se sentou junto a nós. — Será que um dia iremos sair dessa vida de morador de rua e ter uma decente?
— Não sei quanto a vocês... – Joleno disse. – Meu eu pretendo sair daqui e conseguir viver dignamente. Com direito a boas refeições todos os dias.
— E banhos todos os dias. – Eu falei.
— E roupas limpas e sem furos todos os dias. – Pingo completou.
Então começamos a rir. Não havia um motivo para graça, mas acho que naquele momento caiu a ficha que quando a maioria das pessoas sonha em conseguir coisas supérfluas, nós sonhamos em ter apenas o básico. Rimos de nossa própria desgraça.
— Acho que eu vou tirar um cochilo. – Pingo disse. – Foi muita emoção por um dia.
— Muita emoção? – Perguntei. – Você nem entrou na casa.
— É, mas vocês entraram e eu fiquei preocupado. – Ele disse.
— Tá bom, Pingo. Vai lá.
Ele se levantou e foi em direção ao seu espaço no viaduto, na pilastra oposta à nossa.
— Eu acho que vou dar uma volta por ai. – Joleno disse.
— Vou ficar por aqui mesmo.
Joleno também se levantou e saiu em direção a uma das vias que cercam nossa área no viaduto. Eu fiquei sentado por um tempo pensando, observando o tráfego, a maioria das pessoas usando bicicletas. Apesar de estarmos décadas à frente com tecnologias impressionantes, elas não estão disponíveis à toda população, apenas os órgãos do governo e os mais ricos as utilizam. Então, nada de computadores, celulares, automóveis, principalmente esses, que causavam poluição, não podíamos nos dar o direito de emitir gases nocivos dentro da bolha em que vivemos.
Os únicos que utilizam automóveis são pessoas que precisam de proteção extra. Como altos políticos e diretores de grandes organizações. Além deles, apenas as forças militares possuem esse tipo de meio de transporte. Porém, são à base de baterias recarregáveis, por isso não são muito velozes, não como os veículos do passado, mas permitem um transporte muito mais rápido e seguro.
Logo levantei e escalei uma escada feita com grampos de ferro que havia ao lado de uma das pilastras do viaduto. Ela chegava até o topo, mas como a colônia era uma antiga cidade que foi reformada, algumas coisas não foram consertadas, por isso faltava alguns degraus enferrujados. Subi até o máximo que podia e me sentei lá, com as costas apoiadas na parede. Dali tinha uma vista ampla da colônia, os grandes prédios haviam sido derrubados e deram lugar a inúmeras casas, todas iguais em estrutura. Apenas nas extremidades da colônia, onde novas reformas foram feitas para abrigar o contingente populacional que crescia durante os anos, que se faz possível ver prédios, porém muito mais baixos que os do passado.
— Pensando na morte da bezerra, Gato? – Ouvi alguém falar, olhei para baixo e descobri de quem se tratava. Era o Rico, no degrau logo abaixo.
— Mais ou menos isso. – Falei.
— Tem um espaço para mim ai? – Ele perguntou e subiu mais um degrau. Por sorte os grampos eram bem largos e resistentes, podiam caber e suportar duas pessoas.
O Rico era o único que destoava dos demais meninos do grupo. Cabelo loiro e liso, olhos claros – digo claros porque não da para saber se são verdes ou azuis, sempre estão mudando – e é de longe um dos mais inteligentes e bem informados. Enfim, ele tem cara de rico, por isso o apelido. Também era um dos mais misteriosos, ele nunca fala sobre de onde veio ou como acabou se tornando um menino de rua.
— Cadê o resto do trio? – Ele perguntou, se referindo ao Joleno, o Pingo e a mim.
— O Pingo está dormindo e o Joleno foi dar uma volta. – Falei.
— Joleno e suas voltas. – Rico brincou. – Um dia ainda vou seguir ele e descobrir aonde ele vai quando dá essas saídas.
— Ele me disse que costuma ir à Praça dos Salvadores. – Era uma praça que foi construída para abrigar os bustos dos figuraças que permitiram que o sonho da construção das colônias fosse possível.
— Vai ver é ele quem está depredando as estátuas. – Rico disse e nós rimos.
— Não duvido. – Falei.
— Vim aqui te agradecer pelo esforço hoje. – Ele disse. – Graças a vocês três conseguimos bons alimentos de qualidade.
— Ah, qual é cara. – O Rico também fazia parte de uma das equipes de caça e a dele era uma das que mais conseguia recolher alimentos, em parte porque era ele quem ia pedir, juntando a beleza e a sua lábia, era fácil conseguir que as pessoas se sentissem tocadas. – Se for assim, todos os dias eu vou ter que vir te agradecer por conseguir a mesma coisa.
Ele riu e estendeu a mão e eu bati em um cumprimento.
— O que vocês estão fazendo ai? – Alguém gritou lá de baixo. Era o Luca, que logo começou a subir os degraus.
— Nada. – Falei. – Só admirando a vista.
— Que vista? – Luca falou ao alcançar o degrau abaixo do nosso e se sentar nele. – E desde quando isso é vista?
O Luca era o mais velho, deveria ter por volta dos dezoito anos. Também é o único que nasceu e viveu nas ruas. Seus pais não tinham um lar quando ele nasceu, viviam assim como a gente, onde encontravam um local seco e não muito sujo para ficar. Ele ficou sozinho no mundo quando seus pais morreram por causa do Flagelo e foi quem começou a reunir a galera em um grupo para conseguir sobreviver nas ruas.
— Luca! – Carranca gritou do chão, já subindo os degraus. – Onde foi que você colocou o canivete?
O Carranca recebeu esse apelido porque, segundo o pessoal, sua cara lembra uma carranca. Boca enorme com caninos sobressalentes, narinas muito abertas e um olhar mal encarado. Antes, o Luca era o líder do grupo, mas ele decidiu deixar essa função para o Carranca, que tinha um espírito de liderança mais forte que o dele e a sua “carranca” assustava os mais teimosos que pensassem em desobedecer as normas. Os dois eram os únicos que podiam portar o canivete que tínhamos. Nossa única defesa contra os outros grupos.
— Está onde sempre fica quando não estamos usando. – Luca disse, tentando não revelar o local do esconderijo.
— Ahhh... – Carranca disse parecendo lembrar do que falavam. – O que vocês estão fazendo aqui?
— Admirando a vista. – Luca disse.
— Que vista? – Carranca perguntou olhando para trás. – Essa?
— É! – Luca falou. – Cala a boca e admira.
— Ta bem. – Ele se sentou ao lado de Luca e ficou lá olhando para o além.
— Acho que seu momento de isolamento acabou oficialmente, Gato. – Rico disse.
Alguns dos meninos do grupo me chamavam assim, talvez a maioria. Esse era o meu apelido. Segundo eles eu era ágil e saltava bem, era bem flexível e sabia ser silencioso quando precisava. Características que associavam às de um felino, como os gatos. Dos poucos animais que ainda existiam, os demóticos eram os principais. Não existiam muitos por ai e apenas quem tinha de sobra podia criar um, ou seja, os poderosos. Mas por vezes um cachorro ou um gato fugia dessas casas ou eram abandonados e ficavam pelas ruas. Eram nossos companheiros de vida.
— Carranca! – Jackson gritou do chão abaixo de nós. – O Jão pegou a camisa que ganhei da Tia Graça e tá dizendo que é dele.
— Mentiroso! – Jão gritou ao ouvir o relato de Jackson e veio contestar. – Você sabe muito bem que ela deu para mim.
— Mentirosa é a sua mãe. – Jackson disse colocando o dedo na cara de Jão.
— É a sua, aquela vaca. – Jão retrucou.
Logo os dois se atracaram e começaram a rolar pelo chão, se xingando e batendo. Carranca observava tudo sem mover uma palha. Luca olhava para ele, claramente incomodado com a situação, percebi que ele tinha vontade de descer e ir resolver o problema, mas não era mais sua função.
— Carranca? – Rico chamou sem saber se o amigo realmente estava atento ao que estava acontecendo.
Carranca nada respondeu, deixou que os dois continuassem brigando, até que pararam, se sentaram no chão e ficaram lá quietos, olhando para baixo. Conversaram alguma coisa, então Jão se levantou e deu a mão para Jackson ficar de pé. Os dois voltaram para seus lugares debaixo do viaduto. As vezes nos esquecíamos de um detalhe, algo que o Carranca parecia não ter se esquecido. Apesar de pequenos desentendimentos, somos todos amigos, na verdade, somos como irmãos e dificilmente dois irmãos brigam para ficar sem se falar por muito tempo.
— Até que a vista não é ruim. – Carranca disse.
— Não é. – Concordei.
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