A Quarta Colônia - Vera Cruz
6 Capitulo 6 - Então, este é o garoto que foi capaz de usar o Mjolnir?
Notas iniciais
Eu já sabia que o farol que iluminava toda Vera Cruz servia como base de operações politicas e das forças armadas da colônia, mas só quando recebi alta do Hospital Geral e fui transferido para o Centro Médico Militar eu tive noção do que aquilo significava. Sim, toda estrutura do farol abrigava as alas administrativas, no topo fica o gabinete do presidente e os andares logo abaixo a cede dos outros poderes, o tribunal da suprema corte, a câmara do conselho legislativo e o escritório de operações militares.
Os demais andares são divididos entre os centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológico e alguns outros órgãos públicos. Porém, a verdadeira surpresa ficava não na superfície, mas no subsolo. Todo o espaço abaixo da colônia é uma grande instalação militar, cheia de prédios e construções, quase que como uma segunda colônia. Ali também fica o presídio e a ACFA, Academia de Cadetes das Forças Armadas. Meu novo lar.
Meu período no Centro Médico Militar não foi muito breve. Fizeram diversos exames e tive que passar por um processo de reestruturação física, psicológica, nutricional e educativa. Várias sessões de psicanalise, dieta rigorosa e balanceada, horas e horas de exercícios físicos e aulas de linguagens, ciências naturais, humanas, matemática e outras coisas mais. Neste momento estou me preparando para ser transferido definitivamente para a Academia.
— Se eu o tivesse conhecido como esta agora poderia dizer que nunca fora aquele garoto mirrado que encontrei em um leito de hospital.
Alguém disse da porta do meu quarto. Me virei já sabendo quem iria encontrar.
— Eu mesmo mal me reconheço. – Falei me aproximando de um espelho. Ainda era o mesmo garoto de olhos castanhos, cabelo cacheado e pele num tom bronzeado de antes, mas meu corpo estava duas vezes maior, desenvolvi músculos em lugares que nem imaginava que existiam.
— Pronto para encarar o verdadeiro desafio? – O Coronel Fenando Ramos perguntou.
— Mais do que pronto. – Falei.
Então ele me entregou uma mochila.
— Ai dentro tem seu uniforme da academia e outros assessórios que vai precisar. – Ele disse. – Vista-se e me encontre na entrada do Centro Médico, irei acompanha-lo em seu primeiro dia.
— Não é necessário, Senhor. Não quero tomar seu tempo. Já basta as vezes que vinha me visitar e acompanhar meu desenvolvimento. Sempre me deu apoio e esteve comigo, isso já é mais do que suficiente para mim.
— Faço questão. – Insistiu. – Como eu já havia lhe dito, eu o trouxe para essa vida militar e agora você é minha responsabilidade. Quero que a partir de agora você me veja como um padrinho ou mentor.
— Obrigado, Senhor.
— Vá logo se trocar. Estarei esperando.
Foi o que fiz. O uniforme nada mais era que um macacão verde escuro com o brasão da colônia bordado no peito e um par de coturnos pretos. Me despedi do pessoal do Centro Médico que por todo aquele tempo esteve comigo e me acompanhou nesse processo de recuperação. Então me encontrei com o Coronel na entrada. Ele me levou até uma viatura militar, um oficial era seu motorista.
Saímos da área do Centro Médico e durante o caminho aproveitei para dar uma olhada atenta nas instalações. Passamos por um centro aeronáutico com uma enorme garagem de jatos militares. Também pela frente do presidio, que parecia uma verdadeira fortaleza. Vi um supermercado, uma farmácia e alguns apartamentos residenciais. O prédio da Academia era cercado por um alto muro. O Coronel Ramos me informou que os cadetes são proibidos de sair da Academia, apenas oficiais formados podem circular pelas instalações externas.
— Identificação, por favor. – Uma voz soou dentro do automóvel quando este se aproximou dos portões da Academia.
— Coronel Fernando Ramos, CRM 02.
— Leitura de voz confirmada. – Desse a voz mecânica. – Seja bem vindo à Academia de Cadetes das Forças Armadas, Coronel.
Os portões se abriram revelando um enorme edifício retangular mais á frente, repleto de janelas. O espaço entre o muro e o prédio era composto por campos de treinamento e outras instalações. Dois oficiais aguardaram a passagem do automóvel e o portão se fechou. Quando chegamos ao prédio uma pessoa estava a nossa espera na entrada.
— Fernando. – Uma mulher de cabelo loiro, cortado na altura do ombro e ondulados se aproximou do Coronel e o abraçou. Ela era alta e passava uma impressão de imponência.
Quando o abraçou pude ver seus braços se fecharem às costas do Coronel e meus olhos se fixaram em um assessório familiar em seu pulso direito.
— Isso são modos de cumprimentar o seu superior, Major? – Ele disse retribuindo o abraço.
— Calado! – Ela brincou. – Faz séculos que não te vejo e você quase nunca vem aqui. Vive enfurnado naquele escritório lá em cima.
— O que eu posso fazer se o General me trata como um escravo?
Aquela foi uma surpresa agradável. Seja onde for que estive com o Fernando as pessoas sempre o tratavam como se fosse um monumento, cheios de decoro. Mas aquela mulher o tratava como um velho conhecido e por um momento eu percebi que ele era um humano como qualquer outro.
— Então, este é o famoso garoto que foi capaz de usar o Mjolnir? – Ela perguntou ao me vez.
— Ele mesmo, Alex Anori. – O Coronel respondeu.
Tive a impressão de que ao escutar meu nome a Major esboçou uma reação estranha, mas se ele de fato causara alguma impressão ela soube disfarçar bem.
— Olá, Alex. – Ela estendeu a mão. – Eu me chamo Mercedes Sperb e como já deve imaginar, sou Major das Forças Armadas. Mas o que não sabe é que também sou a diretora da Academia.
Eu a cumprimentei.
— Perdão, Senhora. Mas quando disse Mjolnir, se referia ao bracelete que encontrei?
Ela olhou para Fernando com um olhar de acusação.
— Será possível que você não disse nada ao menino?
— Não tive tempo. – Ele respondeu com as mãos para o alto.
— Mas não há problema, ele está no lugar certo para aprender tudo que precisa saber sobre isso. – Disse a Major.
— E essa é a minha deixa. – O Fernando falou. – Você estará em boas mãos a partir de agora Alex. Confio a Mercedes minha vida e por isso sei que ela fará um ótimo trabalho com você.
— Mal chegou e já está de saída, como sempre. – Mercedes disse.
— Cuide bem do meu afilhado, Mercy. – Ele a beijou no rosto. – A gente se vê. Alex.
— Até mais, Coronel. – Falei. Quis chama-lo de padrinho, mas me detive, não sei se por timidez ou vergonha.
— Venha, Alex. – Ela pôs a mão sobre meu ombro e me conduziu para dentro do prédio.
Por dentro a Academia era um prédio bem simples. Os corredores eram revestidos de metal e com faixas de luz nas laterais do chão e do teto.
— Existem apenas 15 braceletes como aquele que você usou. – Ela disse. – Cada um deles oferece aos usuários habilidades únicas. As habilidades são baseadas em mitos de antigas sociedades da terra. Aquele que pertencia ao piloto que você encontrou tem poderes elétricos, gera poderosas descargas, permite manipulação da eletricidade e consegue conjurar raios, a ele foi dado o nome de Mjolnir, pois foi baseado no martelo que pertencia ao deus do povo nórdico chamado Thor, deus do trovão.
— Incrível. – Falei. Não imaginava que tive tamanha arma e poder em minhas mãos.
— O bracelete do Fernando aqui é chamado de Excalibur. – Ela falou. – Sabe de onde vem esse nome?
— Sei sim, durante as aulas de história aprendi muito sobre mitologia. – Respondi. – Excalibur era a espada empunhada pelo Rei Arthur de Camelot, a lida dizia que ela foi cravada em uma pedra e apenas um líder legitimo poderia retirá-la e o Arthur consegue, por isso é coroado rei.
Naquele momento a conversa que ocorreu no meu leito no Hospital Geral entre o Coronel e os agentes do SAC me veio à mente. O assistente havia chamado o Fernando de Rei dos Cavaleiros, só agora aquilo fazia sentido.
— O que você precisa saber agora, Alex. – A Major Mercedes disse. – É que nós, usuários dos braceletes funcionamos meio como os Cavaleiros da Távola Redonda da história de Camelot. Aqueles que usam os braceletes recebem automaticamente o titulo de Capitão e apenas estes possuem esse titulo, dentre estes, aquele que porta o Excalibur assume automaticamente o titulo de Coronel e líder tático de toda a organização, sua influencia fica abaixo apenas a do General, que é mais um líder politico que militar.
— Mas a senhora tem o titulo de Major.
— Ah sim, é verdade. Assim que o Coronel é selecionado este designa um dos capitães para ser seu braço direito e este oficial recebe o titulo de Major. O Fernando me escolheu.
— Que legal. – Era tudo muito interessante. Eu mal havia chegado na academia, mas mal podia esperar para me tornar um capitão e poder conhecer mais daquele universo. – E qual é a relíquia que a senhora carrega no pulso?
— Em breve você vai descobrir. – Ela sorriu. – Por hora precisa conhecer seus companheiros de academia.
Ela pariu diante de uma porta de metal e ela se abriu para o lado, entrando na parede. O seu interior era um dormitório. Cinco beliches estavam organizadas em fileira em um dos lados, do outro havia uma série de armários, um para cada cama. Porém, o que mais havia de interessante ali era que o local não estava vazio, havia jovens espalhados distraídos com as mais diversas coisas. Assim que perceberam a presença da diretora um deles gritou.
— Agrupar! – Todos correram e formaram uma fila ombro a ombro de costa para os armários. – Sentido!
Assumiram uma posição ereta com os braços rentes ao corpo, cabeça erguida e olhar para frente.
— Descansar. – Disse a Major e todos relaxaram o corpo, mas mantiveram a formação.
Eram cinco ao total. Das mais diferentes aparências, tamanhos e idades. A Major entrou no dormitório e eu a seguir.
— Meus caros Cadetes, venho apresentar a vocês seu novo colega de treinamento. – Ela me fez dar um passo à frente. – Este é Alex Anori.
— Bem vindo, Cadete Anori! – Disseram ao mesmo tempo.
— Obrigado. – Respondi.
— Cadete Negromonte. – Ela disse se referindo ao mais alto dentre eles, também parecia ser o mais velho, deveria ter pelo menos 17. Tinha pele negra, cabelo bem aparado com três riscos na lateral direita.
— Sim, Senhora! – Ele deu um passo à frente ao responder.
— Ajude o Anori a se instalar e explique as normas da Academia.
— Sim, Senhora. – Ele disse.
A Major se retirou e assim que a porta tornou a fechar os cadetes se dispersaram.
— Sou o Dan. – O cadete Negromonte se aproximou e me cumprimentou. – Todas as beliches já estão ocupadas, exceto a ultima beliche e a cama de cima da penúltima. Fique à vontade para escolher.
Fui até lá e coloquei minha mochila sobre a cama de baixo da ultima beliche.
— Acho que ficarei com esta.
— Então o seu armário é aquele, o número 7. – Ele apontou para o sétimo armário contado da porta até à outra extremidade da parede.
— Ei, novato. – Um outros cadete chamou. Estava sentado na cama de baixo da terceira beliche. Deveria ter a minha idade. Cabelo preto, olhos puxados, provavelmente de ascendência asiática. – Qual a sua compatibilidade?
— A minha o que? – Perguntei.
— Compatibilidade. – Ele respondeu.
— Ele quer saber para qual relíquia você está fazendo testes? – Dan explicou.
— Mjolnir, eu acho. – Respondi.
— Não é possível. – Outro cadete ficou de pé ao ouvir minha resposta. Este tinha cabelo ruivo, cortado em um moicano. As maças do rosto salpicadas de sardas. Também aparentava ter a mesma faixa de idade que a minha. – Eu estou fazendo testes de compatibilidade com o Mjolnir.
— Mas eu não tenho certeza... Ninguém me falou nada a respeito, só que como o Mojolnir me reconheceu e funcionou comigo quando o coloquei no pulso, imaginei que devesse ser para ele.
— Você já teve contado direito com uma relíquia? – Dan perguntou surpreso.
— Já ué. Antes de vir para cá o usuário do Mjolnir me entregou o bracelete e acabei travando ele em meu pulso sem querer. Se bem que se não fosse por ele não estaria aqui, pois foi graças ao poder de conjurar raios que ele possui que eu consegui sobreviver.
O quarto ficou em silencio total, nenhum dos cadetes dizia uma só palavra. O ruivo foi o primeiro.
— Mentira. – Ele se aproximou me encarando como se fosse me agredir. – Não tem como acreditar em uma historia ridícula dessas.
— Por que eu mentiria. – O encarei, sem medo. Ele não eram nem de longe uma ameaça para mim, nada comparado ao que tive que lidar nas ruas. – E por qual outro motivo estaria aqui. Imagino que todos vocês tenham tido contado com o bracelete pelo qual tem compatibilidade e por isso estão aqui.
— Cara, você tá louco? – Dessa vez foi o mais baixo dentre eles e talvez o mais novo, tinha cara de estar com uns 13 ou 14 anos. Cabelo castanho e liso. – Nós mal chegamos a ver as relíquias que somos compatíveis, imagina usar uma.
— Eu não sabia... Eu juro que não estou mentindo. – Falei.
— De qualquer forma amanhã quando formos para a sessão de treinamento iremos acabar descobrindo. – Dan disse na tentativa evitar conflito, mas apesar disso o clima não havia amenizado. Aquele garoto ruivo continuava a me encarar o tempo todo. – à proposito, estes são Age, Gael, Lucas... – Ele apontou para o garoto asiático, o ruivo e depois o mais novo e por fim apontou para o único que parecia não estar se importando muito com toda aquela conversa. – E Elias... Então, este é o dormitório masculino, fica na ala oeste do prédio, o feminino fica na leste, somos proibidos de ir até lá, então, se não quiser se envolver em encrenca...
Enquanto Dan explicava as coisas eu começava a pensar se teria sido uma boa escolha ter ido para aquele lugar.
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