A Quarta Colônia - Vera Cruz

5 Capitulo 5 - Lealdade. Algo que está em falta hoje em dia


Não sabia por quanto tempo havia ficado apagado. Quando minha consciência voltou parecia que fazia um século que dormia. Sentia o corpo meio dormente. Abri os olhos, mas logo tornei a fechar por causa da luminosidade externa. Tornei a abrir, lentamente, deixando que minha visão se acostumasse com a claridade e ela foi entrando em foco. Me deparei com um teto branco, olhei em volta e parecia estar em um quarto. À minha direita uma enorme janela por onde conseguia ver os prédios e casas da colônia se estendendo.

Estava deitado sobre uma capsula de repouso. Painéis e telas nela mostravam algumas informações, provavelmente sobre meu estado físico. Olhei para minha esquerda, outra janela, menor, que dava para o interior do que parecia ser um corredor hospitalar. Abaixo dela havia uma cadeira de recosto de metal e ao lado uma porta. Tentei levantar, mas estava fraco, porém, meu movimento acionou algo na capsula, que emitiu um som de alerta. A porta do quarto se abriu para o lado revelando uma enfermeira. Era alta e usava um jaleco branco sobre a farda do hospital.

— Bom dia. — Ela sorriu simpática.

— Bom... — Minha voz soou rouca, pigarreei. — Bom dia.

Ela se aproximou da casula e verificou os dados apresentados. Então recolheu um aparelho que estava acoplado, era como um bloco digital de anotações.

— Como está se sentindo, querido? — Ela perguntou.

— Cansado. — Falei.

— Não por muito tempo. Logo, logo você se sentirá novinho em folha.

— Onde eu estou?

— No Hospital Geral de Vera Cruz.

— Meus amigos, eles...

— Não se preocupe com isso agora. – Ela me interrompeu. – Primeiro você precisa se preocupar com sua saúde, se recupere primeiro, depois você poderá ver seus amigos.

— Mas eles estão bem?

— Descanse mais um pouco. – Ela tornou a por o aparelho de volta no lugar.- Irei atualizar seus exames.

Ela apertou alguns botões. A cúpula de vidro da capsula se fechou, comecei a sentir sono e apaguei mais uma vez.

Da segunda vez que acordei não estava sozinho no quarto. À minha espera estavam duas pessoas. Dois homens, um era mais baixo, barriguinha saliente e calvo, o outro muito magro, usando óculos e cabelo muito bem penteado, deveria ter passado horas dando um trato nele.

— Vejo que acordou. – Disse o baixinho. – Eu me chamo, Ernesto Godoi e este é meu assistente, Julio Câmara. Somos do SAC, Sistema de Assistência ao Colono.

— Ah não...

— Parece que ainda não está completamente recuperado. – Ele se aproximou. – Mas conhecendo bem os delin...

— Uhrum! – O assistente o interrompeu com um pigarro.

— Os jovens como você... – Completou. – Sei que não podemos vacilar que dão um jeito de se esgueirar por ai e fugir. Mas desta vez não... Não irei permitir que nenhum de vocês fuja, nunca mais.

— É o que veremos. – Desafiei.

— Seu pivetinho... – Ele rosnou e levantou a mão para me dar um tapa, mas seu assistente mais uma vez pigarreou.

— Uhrum!

— Mas que droga! Será que... – Ele se virou para brigar com o assistente, mas não esperava se deparar com visitas.

— Seus serviços aqui não são mais necessários, senhores. – Era um oficial do militar, acompanhando de outros dois. Usavam seu típico traje preto com detalhes em prata, exceto o que havia falado, este tinha detalhes em dourado. Rostos ocultos pelos capacetes.

— Da parte de quem? – O homem detestável perguntou.

O capacete do oficial do meio se contraiu revelando seu rosto. Tinha pele morena, cabelo castanho penteado para trás num corte perfeito. Seus olhos eram de um verde desafiador.

— Do Coronel das Forças Armadas de Vera Cruz. – O pin com o brasão das forças armadas pareceu até brilhar em seu peito diante de tanta imponência. – Fernando Ramos.

— Chefe... – Ouvi o estagiário sussurrar ao ouvido do chefe. – É o Rei dos Cavaleiros.

De repente o maldito do SAC ficou tão branco que não conseguia distinguir onde terminava seu corpo e onde começava a parede atrás dele. Rei dos Cavaleiros... Não sabia o que aquilo significava exatamente, mas serviu para causar uma impressão ainda maior.

— Pe... perdão, Senhor... Oficial... – Ele tentou falar. – Mas os órfãos são responsabilidade do SAC.

— De fato. – Concordou o Coronel. – Porém, temos assuntos a tratar com este em particular.

— En... entendo. – Ele disse, se encolheu e puxou seu assistente para fora do quarto.

Assim que saíram o Coronel fez um sinal para seus subordinados e estes também deixaram o local para ficar de guarda do lado de fora.

— Acho que está na hora das apresentações formais. – Ele disse ao se aproximar de mim. – Como já disse, sou o oficial Fernando Ramos, Coronel das Forças Armadas da Colônia.

Estendeu a mão para um cumprimento. Diferente dos trastes do SAC, por algum razão, este homem me passava uma sensação de confiança.

— Alex Anori, caçador do grupo de rua do viaduto. – Respondi.

Apertei sua mão. E só então percebi que o bracelete de metal entregue a mim pelo oficial que caiu com o jato havia me entregado ainda estava preso ao meu pulso. Me senti aliviado, significava que ainda não tinha falhado naquela missão.

Ele sorriu. Puxou cadeira de metal que havia no quarto para perto da minha capsula e se sentou.

— Então, Sr. Anori... – Ele começou, mas interrompi.

— Meus amigos. – Falei. – Preciso saber o que aconteceu com eles.

O oficial permaneceu em silencio, me encarando por um instante. Então respirou fundo e disse:

— Serei sincero com você... muitos não sobreviveram. Diferente de você, que dois de seus amigos o trouxeram até aqui. O atendimento demorou para chegar aos demais e os que tinham ferimentos graves não sobreviveram.

— Quantos sobreviveram?

— Quatro.

Aquilo foi como um segundo tiro. Significava que apenas Gato, Lino, eu e mais alguém tínhamos ficado. Felizmente, Pingo e alguns outros ainda estavam no orfanato e não sofreram o atentado. Mas ainda assim, eu supostamente deveria lidar com isso? Como alguém consegue suportar uma noticia como essa? Aqueles meninos eram como meus irmãos, minha família. Como eu conseguiria lidar com a revolta pela demora do atendimento, como se fossemos lixo e não merecêssemos sobreviver, o ódio pelos malditos que arquitetaram o atentado e a dor pela perda daqueles que amo?

— Sinto muito pela sua perda. – O oficial disse.

Senti meu rosto molhado e só então percebi que estava chorando. Enxuguei as lagrimas.

— Os dois que vieram comigo, o que aconteceu com eles?

— Estão bem, não se preocupe. – Respondeu.

Se estão com o SAC duvido que estejam bem. Provavelmente foram mandados para o orfanato e aquilo lá não é sinônimo de segurança.

— Mas minha vinda até aqui é por outra razão. – Ele disse e apontou para meu braço. O bracelete.

— Me desculpe, está preso. – Falei. – Eu não roubei! Eu juro!

Ele riu.

— Nem poderia se quisesse.

Lembrei do que aconteceu com o cara da Otelo que tentou tirá-lo a força.

— Eu quando alguma coisa lá de fora caiu sobre a cúpula da colônia e se espatifou lá pros lados da periferia da zona oeste. – Comecei a contar. Ele me ouvia atentamente. – Corri até o local da queda e era um jato, sempre quis ver um daqueles pessoalmente, mas não daquele jeito, estava todo destruído.

— Entendo. Prossiga.

— Logo avistei o piloto, fui até ele e estava vivo, mas muito ferido. Cuspia sangue e tudo... Ele usava um uniforme igual ao seu, dourado. Me perguntou onde estava e perguntou meu nome... – Só então lembrei que não tinha perguntado o dele. – Depois tirou o bracelete, me entregou e disse para levar direto para o farol e entregar para um oficial superior... Até perguntei se não era melhor esperar o socorro chegar, mas ele disse que assim como eu tinha visto, outras pessoas, pessoas ruins poderiam ter visto também e não podia cair em mãos erradas.

Esperei alguma reação do Coronel, mas ele permaneceu em silencio, porém seu olhar altivo agora estava apagado, como se estivesse preso em pensamentos.

— No caminho uns caras da Otelo, que são gente que se pode chamar de pessoas erradas me pegaram e quiseram levar o bracelete, mas ele ficou preso em meu braço e deu um baita choque em um deles. Só que eu fiquei sabendo que estavam planejando algo contra o pessoal do viaduto e precisava avisar, mas quando cheguei la... O senhor já sabe.

— Você tem alguma ideia do que esses braceletes significam? – Ele me mostrou o dele, que só então havia notado.

— Não, Senhor.

— São dispositivos de tecnologia extremamente avançada. – Explicou. – Muitos chamam de arma, mas são muito mais que isso, são um símbolo de poder e segurança. Uma lembrança para... – Ele se deteve, como se estivesse prestes a contar algo que não deveria. — Bem, para todo mundo de que não somos um inimigo a se considerar.

— Uau.

— Acontece, Alex... Posso chama-lo assim?

— Claro.

— Acontece que esses braceletes são especiais, existem pouquíssimos dele e não é qualquer um que consegue usá-los. É como se eles fossem feitos sob medida.

— Como assim?

— Quer dizer que se eu quiser usar o bracelete que está em seu braço ele não irá me aceitar... deixe-me te mostrar.

Ele mexeu em seu bracelete e o que estava em meu braço apitou, se abriu e caiu sobre meu colo.

— Posso? – Entreguei para ele. O colocou em seu pulso livre e pressionou um botão, o bracelete emitiu dois bips e permaneceu estável. – Viu, ele não me reconhece como usuário. Apenas o oficial que o entregou a você conseguiria usar, além de você.

— Mas eu não entendo. Se eles são feitos sob medida ou sei lá o que, como é que ele funcionou comigo?

— É esse o motivo de eu estar aqui. – Ele disse. – Encontrar usuários aptos a herdar os braceletes é um desafio que sempre tivemos. Eles são bastante exigentes, como pode ver e corremos o risco de em algum momento acabar que a maioria deles se tornem inutilizáveis com o tempo, por falta de oficiais compatíveis.

— Entendo.

— Por isso venho te fazer um convite. – Ele disse. – Para que entre para a academia de cadetes das forças armadas e sirva à sua colônia como um oficial.

Por aquela eu não esperava. Era muita informação para processar.

— Eu não posso.

— Você está pensando em voltar a viver nas ruas com os demais garotos de seu grupo não é?

Assenti. De fato aquela era a minha intenção, reunir os poucos que sobraram e recomeçar.

— Mas pense bem. Esta é uma oportunidade única, poderá ter uma vida tranquila, nunca mais precisará passar fome, noites bem dormidas em uma cama macia, banhos quentes todos os dias, roupas sempre limpas e passadas. Enfim, só precisaria se preocupar com o treinamento.

Naquele momento eu só consegui rir, porque imaginei o Joleno em meu lugar ouvindo tudo aquilo.

— E o Senhor acha que isso é o suficiente para eu abandonar meus amigos e viver bem, enquanto eles sofrem os abusos que vocês fingem não ver naquele maldito orfanato e vivem nas ruas abandonados como se não fossem nada, tratados como lixo?

Precisei me calar para conter a raiva, estava quase mandando ele enfiar a academia e os banhos quentes onde não deveria. Imaginei que aquilo seria suficiente para ele mandar me prender por desacato, mas para minha surpresa ele ostentava um sorriso no rosto.

— Lealdade. – Ele disse.- Algo que está muito em falta hoje em dia.

— O que?

— Então irei modificar a oferta. – Ele disse.- Entre para a academia, treine e se prepare, ganhe espaço dentro da instituição e então alcance o espaço que permita a você transformar aquilo que não está certo. Transformar essa realidade.

Mais uma surpresa. Não entendia bem o que ele queria dizer com aquilo, nem como eu poderia ser capaz de fazer essas mudanças, mas ainda assim não me parecia um motivo que valesse a pena abandonar meus amigos.

— Mas para ajuda-lo em sua decisão tenho mais uma noticia. – Ele parecia confiante, seria sua carta na manga? – Uma denúncia feita por certo oficial de alta posição das forças armadas sobre o orfanato precisou ser ouvida e um inquérito foi aberto para investigar a atual gestão e como esperado as denuncias se confirmaram e uma proposta feita por este mesmo oficial foi aprovada pelo governo e agora o orfanato masculino e o feminino ficará sob administração das forças armadas.

— Isso é verdade?

— Claro que sim. – Respondeu. – Assumir o controle dos orfanatos é uma decisão obvia se levar em conta que é onde boa parte dos jovens com potencial para se tornar oficiais se encontra. Apenas facilitaria nosso processo de procura.

Eu não sabia o que dizer, parecia ser um sonho. As forças militares da colônia é de longe o órgão que possui mais investimento, eles teriam como transformar aquele lugar terrível em um espaço de esperança para os órfãos como e eu. Pela primeira vez eu começava a ter esperança.

— E agora? Qual sua resposta? Pronto para entrar para a academia? – Ele perguntou. – É possível que daqui para frente algum de seus amigos acabe se juntando a você.

— Eu... – Não tinha mais desculpas para recusar. – Aceito.

Esse foi o inicio de uma nova jornada em minha vida. Assim que me recuperei completamente o Coronel Fernando Ramos pediu minha transferência para o Centro Médico da Academia Militar. Lá passaria por um processo de recuperação física, preparação psicológica e educacional. Para então entrar efetivamente para a Academia.