A Protetora
8 O Filho de Hermes
Notas iniciais
P.O.V. Jenn
Ainda parada entre a porta, Alex e os garotos encarei minha prima e depois Connor.
–Vocês se conhecem? – perguntei.
O silêncio foi total. Depois de descobrir que Alex conhecia meu meio-irmão, filho de um deus, eu não duvidava de mais nada. E isso explicava como Connor sabia quem era ela, mas não como sabia que estávamos indo pra lá.
–Sim – olhou rapidamente pra ele e depois fixou o olhar em mim. – Entrem. Não temos muito tempo.
Sentamos nos sofás e Alex logo trouxe sanduíches, e só então percebi a quanto tempo estava sem comer.
–E então? – disse Alex olhando para Connor mas disfarçando e pousando o olhar em Nico.
–É... então... – gaguejei – Precisamos da sua ajuda.
–Pra que exatamente? – falou sentando ao meu lado.
Nico explicou a ela nossa conversa com Hades. Alex apenas assentiu durante a história toda e ao fim encarou o chão como se pensando. Ela se levantou e foi até o quarto. Voltou trazendo um volume grosso de um livro antigo com capa dura.
Ela abriu e começou a procurar alguma coisa. Poucos minutos depois parou e mostrou a página.
Olhei mais perto. Era a figura de uma cabra, porém seu pelo era dourado caverna de Psicro. Acho que é ela quem devemos procurar – disse Alex.
–Espera – disse Nico – se você estiver certa, qual a chance de conseguirmos levá-la ao Olimpo? Thalia me disse que ela não é do tipo que para e espera você ir até ela. Aparece quando quer.
–Bom, — me levantei – então é melhor começarmos logo.
–Tem razão – disse Connor pela primeira vez desde que entramos no apartamento – não temos tempo.
Ele e Alex se encararam por alguns segundos.
–Vem Jenn. Temos que pegar umas coisas – disse ela ainda olhando-o sem piscar.
Fomos até o quarto e ela acrescentou algumas roupas na minha mochila e tirou outras, então arrumou a própria. Alex e sua mania de proteção.
–Está aqui... em algum lugar, tenho certeza – ela disse – Jenn, pegue comida na cozinha. Ainda está com a espada?
Apontei meu pescoço. Eu tinha que perguntar.
–Ótimo, ele é seu agora. Tenho que achar – disse vasculhando o armário procurando não sei o que.
–Hum...Alex... de onde você conhece Connor?
Ela congelou e se virou lentamente pra mim.
–Um trabalho... no verão passado. Vai logo, não podemos arriscar esperar sua mãe chegar.
P.O.V. Alexia
Assim que Jenn saiu me joguei na cama. Eu tinha realmente começado a esquecê-lo.
Connor e eu trabalhávamos numa loja. Não foi no verão, como eu disse a Jenn, foi quase um ano, namoramos por boa parte desse tempo.
–Ei eu... tenho que te contar uma coisa — disse Connor de repente.
–Pode falar — eu disse ao me virar em sua direção.
–É que... — ele coçou a cabeça — não sei como dizer isso.
–Fala logo, Connor!
–Ok, na próxima semana começam as férias de verão.
–Eu sei. Mas até onde sei você já terminou a escola — falei colocando uma caixa no lugar.
–Sim, já mas... eu tenho que ir pro acampamento. E eu conversei com meu irmão. Não seria seguro pra você continuar perto de mim.
Naquele segundo meu cérebro parou de funcionar por um instante. Connor estava terminando comigo? Por que o irmão havia dito? Que irmão?
–E... e por que não seria? — gaguejei.
–Anh... Não sei como explicar e se eu dissesse você não acreditaria. É um acampamento pra — pensou um pouco — pessoas diferentes das demais.
Um pensamento me ocorreu mas não poderia ser. Poderia?
–Qual... o nome... do acampamento? — perguntei pausadamente.
Ele me olhou por alguns segundos como se decidisse falar ou não.
–Meio-sangue. Acampamento Meio-sangue.
Minha primeira reação foi ficar paralisada. Connor era um meio-sangue? A segunda foi me virar o mais rápido possível e segurar as lágrimas que insistiam em querer sair.
Connor segurou meu pulso. Nos encaramos por alguns segundos sem dizer nada e então ele se aproximou e me beijou calmante pela última vez.
Não consegui conter as lágrimas. Me separei dele e corri até minha mochila. Corri pra fora da loja e não voltei no dia seguinte. Nem na semana seguinte, nem em nenhum outro dia.
E de repente Connor reaparece das cinzas na minha porta.
O misto de emoções que tomou conta de mim no instante em que levantei o rosto e vi seu rosto foi incontrolável.
Respirei fundo e voltei a minha busca. Peguei algumas peças de roupa no armário, abri o cofre em que guardava o dinheiro e achei o que procurava.
Uma caixa de madeira completamente negra com alguns detalhes prateados.
Eu a havia conseguido há alguns meses numa noite de chuva. Jenn estava fazendo um trabalho da escola na casa de uma colega de classe. Eu tinha prometido ir buscá-la, e de fato, lá estava eu. Estava prestes a bater na porta quando uma empousa saiu das sombras com o olhar fixo na casa. Revirei os olhos pensando em quantas vezes já havia feito isso.
Caminhei sorrateiramente até ela e puxei o colar do pescoço. Depois de vários cortes pela minha pele ela se desintegrou em pó. Exausta me deixei cair na grama.
–Particularmente bom pra uma garota mortal — disse uma voz de garota vinda das árvores.
A voz pertencia a uma garota ruiva com uns doze ou treze anos. Outras garotas a acompanhavam, várias delas, todas usando jeans e blusa prateada. As caçadoras de Ártemis. Como estudante de história e tendo conhecido um deus grego as reconheci facilmente. Encarei a garota ruiva, as outras pareciam esperar suas ordens.
–Lady Ártemis? — falei levantando.
Naquela noite Ártemis me ofereceu um lugar na caçada. Tendo acabado de terminar um namoro a proposta pareceu muito tentadora. Mas havia Jenn, havia a escola, havia muitas coisas que eu ainda tinha que fazer, um futuro todo planejado na minha cabeça.
Hades se materializou ali e me parabenizou pelo feito, o que estranhei visto que já havia matado dezenas de monstros e Hades nunca havia aparecido.
Ártemis continuou a me olhar com interesse e algumas das caçadoras continuaram tentando me convencer a me juntar a elas, ignorando Hades a poucos metros.
–Basta — disse ele.
Estendeu a mão e uma caixa apareceu ali, como se estivesse lá desde o início. Ele a abriu revelando um arco de madeira e uma aljava com flechas.
Hades me ofereceu como um presente de agradecimento por proteger a filha. Achei estranho, pois já tinha a espada.
Ártemis interviu e encarou o deus como se soubesse de algo que ninguém mais sabia, tanto que até as caçadoras pareciam curiosas.
–Pois bem, então dou minha bênção a arma. A aljava jamais se esgotará e cada flecha jamais errará em caso de perigo mortal — disse a deusa.
Ao fim das palavras o arco e as flechas ganharam um tom prata semelhante ao dos arcos das caçadoras, porém mais singelo.
–E se um dia mudar de ideia... — Ártemis me olhou e sorriu. Então se retirou e as caçadoras a seguiram floresta a dentro.
–O que foi isso? — perguntei ao pegar a caixa que Hades me estendia.
Hades deu um sorriso falso.
–Essa caixa só poderá ser aberta quando passar a espada a Jennifer. É encantada.
Perguntei o motivo. Hades apenas mencionou o gêmeo de Ártemis, Apolo e sorriu brevemente antes de soltar a caixa a caixa preta, então com detalhes em prata, em minhas mãos e sumir, deixando apenas uma leve fumaça negra.
Olhei a caixa e fui finalmente até a porta.
De fato, nunca consegui abrir a caixa. Porém, desta vez, ela abriu facilmente, revelando o arco.
Ainda me pergunto porque o deus dos mortos escolheu tal arma.
Jenn entrou no quarto novamente com a mochila nas costas e um meio sorriso.
–Alex... acha que estamos fazendo o certo? — perguntou ela.
–Bom, isso eu não sei. Mas se quisermos sobreviver é melhor nos apressarmos.
Terminei a mochila, coloquei o arco e a aljava nas costas e fomos até a sala, onde os garotos nos esperavam com suas próprias mochilas nas costas.
–Onde arrumou isso? — perguntou Jenn apontando a mochila de Nico.
Ele sorriu pra ela. E ele realmente sorria, nunca tinha visto Nico sorrir realmente nas poucas vezes que nos encontramos.
–Vamos ou não? — perguntou Connor.
Evitei olhá-lo e rabisquei um bilhete com uma desculpa pra nossa ausência.
–Vamos — falei.
Descemos e fomos andando até o carro.
–Vocês roubaram um carro? — gritei.
–Fala baixo, quer que a polícia nos pegue? — Connor respondeu. Tocou a porta e ela se abriu na hora — Sou conselheiro do chalé de Hermes, não é como se eu pudesse evitar.
Ele abriu a porta de trás de apontou com uma reverência pra que eu entrasse.
Nos encaramos por alguns segundos até que puxei minha prima comigo e entrei.
–Senhoritas, apertem os cintos – disse Connor antes de ligar o motor. – Pra onde?
E, em alta velocidade, partimos na busca à uma cabra sagrada que não sabíamos onde procurar.
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