Hikaru sentou-se no banco, atordoado. A sensação prazerosa nunca antes experimentada ainda espalhava-se pelo seu ser, embriagando a sua mente e causando um bem-estar surreal. Parecia estar mal acostumado com o peso do próprio corpo, e foi inclinando-se lentamente para a esquerda.

– Nunca fez isso antes? – Yuno perguntou. Passeava de um lado para o outro, passando os dedos pelos armários embutidos nas paredes e produzindo um ruído metálico quando sua unha raspava a dobradiça, e parecia bastante entretida com a reação do ruivo.

– Nunca.

– Mesmo? É que, você sabe, com tantas garotas querendo a sua carne, no mínimo você já teria...

– Nunca, Yuno. – Assegurou, mesmo que fosse estranho chamá-la por um nome que sabia não ser o seu. E por pura distração, acrescentou. – Eu e Kaoru já fizemos coisas parecidas, mas nunca... – Estancou, constrangido.

Yuno riu brevemente, e parou em frente a um armário. Girou a rodinha da tranca interna e abriu a porta cinzenta, tirando de dentro uma trouxa de roupas na cor do uniforme feminino da escola. Sentou-se com as roupas no outro banco, tirou a camisa e a jogou de volta para o ruivo.

– Obrigada.

Ele a vestiu novamente sentindo que o tecido ainda estava molhado e com um cheiro desagradável de peixe.

– Se você tinha um uniforme aqui, porque pediu o meu emprestado?

– Porque ele tem o seu cheiro, e o seu calor. Usá-lo é como ser abraçada por alguém que não quer me soltar porque teme me perder se o fizer. E nós dois sabemos que esse alguém não seria você, então me deixe criar ilusões – Abriu um sorriso verdadeiro consigo mesma, sem o ar melancólico de antes. O ruivo pareceu constrangido com sua resposta, mas ela continuou. — Basicamente, foi porque eu quis. E esse uniforme não é meu. É da Hatsuhara Keiko. Ela é boa em esportes e tem a mesma estatura que eu. Não se preocupe, prometo que devolverei assim que puder. Ah, seria ótimo se ela também guardasse sapatos.

Hikaru a assistiu vestir o uniforme, ajeitar o laço pomposo da blusa abaixo do pescoço e passar a saia pregueada pelos quadris. Estava quase se acostumando à nudez dela, o que o fez pensar que aquela poderia ser uma cena erótica desejada por muitos outros garotos daquela idade, mas para ele estava se tornando algo normal. Livrou-se do pensamento com a conclusão de que nas fantasias alheias provavelmente a garota em questão seria uma loira de seios enormes, muito diferente da baixinha que tinha ali. Não que ela não fosse atraente, é claro. Tinha uma forma sensual de olhá-lo entre os beijos, um olhar cálido, ligeiramente inocente mas ainda assim lascivo, que o fazia estremecer. E seu corpo pequeno, esguio, tão agradável para se passear com as mãos. Sua boca tenra, quente, que o libertava de qualquer pensamento terreno. O que há de mais na loira, afinal de contas? Yuno podia muito bem excitá-lo, somente sendo como era. Hikaru percebeu que ainda a encarava como se fosse um animal, e desviou o olhar e a linha de pensamentos.

– Se você quiser ir embora agora, pode ir. – Yuno falou, sem olhá-lo, enquanto colocava as meias mesmo sabendo que não havia nada para acompanhá-las. – Eu vou esperar mais algum tempo aqui, então não terá como aquelas hienas de vestido fazerem alguma ligação entre você e eu. Pode dizer que resolveu passar um tempo pela biblioteca, se alguém pergun-...

– Quer sair comigo?

A garota congelou seus movimentos e olhou para o ruivo, confusa. Ele ainda a observava, com toda a simplicidade de quem não via que teria dito grandes coisas.

– Você sabe, sair. Pra... andar, tomar sorvete, essas coisas que as pessoas fazem. Acho que também chamam de encontro.

Um pequeno sorriso tímido começou a surgir nos lábios da garota, mas logo se converteu em uma careta desconfiada.

– Não se importa com o que podem pensar se nos virem juntos?

Hikaru deu de ombros. E sorriu.

Yuno pareceu se convencer de que não havia porquê deixar suas barreiras armadas e deixou-se derreter em um enorme sorriso.

– Claro. Eu adoraria – Falou, enquanto se levantava. – Me encontre aqui amanhã depois das aulas, tudo bem?

– Aqui? – Ele a acompanhou até a saída.

– É. Vamos fazer desse o nosso lugar especial – falou, o sorriso ainda não saira de seu rosto, e apontou para baixo – A propósito, seu zíper ainda está aberto.

Hikaru curvou-se para olhar, constrangido, e sentiu um beijo carinhoso em sua bochecha. A garota agora corria, seus pés em meias parecendo ser capazes de escorregar e causar uma queda dolorosa a qualquer momento. Percorreu todo o caminho que haviam feito até ali, e logo sumiu em um dos corredores, deixando Hikaru com um sorriso bobo — que ele jurou para si mesmo que nunca faria novamente — para trás.

O sinal de fim de aulas tocou, e Kaoru deu um último olhar para a carteira vazia ao seu lado. Era estranho, quase podia sentir a presença do irmão ali. E seu calor. Pareciam tão próximos, mas ao mesmo tempo provocavam uma falta dolorosa. Começou a arrumar suas coisas, sentindo um desconforto que era visível em sua cara emburrada. Era a primeira vez que passava tanto tempo sozinho.

Pediu para que o motorista esperasse, seria péssimo se deixasse Hikaru a pé. Quase já podia ouvi-lo reclamando em seus ouvidos. Xingando-o de nomes superficiais e contando com drama o quanto tivera que andar até conseguir um táxi que não cheirasse a naftalina.

Kaoru abaixou a cabeça, constrangido por ter de admitir para si mesmo, mas sentia falta até mesmo da voz do irmão.

Esperou por vinte minutos. Meia hora. Uma hora. A demora o deixou preocupado tanto quanto deixaria Hikaru aborrecido. Acontecera alguma coisa? Ele poderia ter se machucado? E se a garota o machucou por vingança e ele agora estava agonizando de dor, incapacitado de se mover e chamando pelo seu nome com lágrimas nos olhos?

Meneou a cabeça, não estava raciocinando direito. Se Hikaru precisasse dele, já teria o chamado, nem que fosse por telepatia. Deveria deixá-lo em paz, para que pudesse viver sua própria vida, criar experiências próprias, e crescer. Sozinho. Isso aconteceria mais cedo ou mais tarde, somente o cabeça-de-vento de seu irmão que provavelmente nunca havia percebido.

Kaoru entrou no carro, e pediu para que o motorista partisse. Seu desconforto agora era amenizado pela sensação de que estava fazendo a coisa certa para o irmão. Mas não podia deixar de pensar que banco de trás nunca pareceu tão espaçoso. E que era a primeira vez que iria para casa sozinho.

Notas finais
"OMG, O QUE ELES FIZERAM NO VESTIÁRIO?"Bem... Eu não vou contar, OHOHOHOHO. Deixem a imaginação correr, mas não sejam muito cruéis, afinal, a Yuno é moça de familia. u-uTalvez o próximo demore um pouco mais, não sei, eu só tinha até esse ponto da história digitado... .-.