A Promessa que Quebra o Tempo

1 Prólogo - Promessas de um Amanhã que Nunca Chegará


PRÓLOGO

Promessas de um Amanhã que Nunca Chegará

Aquela noite parecia mais fria do que o comum, não havia estrelas, não havia lua, as luzes dos postes daquelas ruas estreitas se ofuscavam, pareciam querer apagarem gradativamente, a cada passo que dava, meu coração acelerava, eu não sabia para onde estava indo, nem se queria ir, mas continuava andando, a rua estava livre e deserta, não havia carros ou se quer alguém perambulando, devia ser mais ou menos umas quatro da manhã, eu estava sem celular e relógio, não sabia dizer exatamente, a torre da igreja da matriz podia ser vista de onde eu estava, tentei me focar nos ponteiros do relógio de lá, mas tudo era embaçado como uma densa neblina que cobria minha retina, assim como os números das casas cujas quais eu passava, tudo parecia deserto, calmo demais para ser real, aquele frio aumentava conforme eu descia aquela viela que ficava mais estreita, parecia que logo eu seria amassado pelas paredes de concreto arenoso daqueles muros altos que me cercavam, eu andava em um ritmo rápido, quase correndo, eu tinha medo de alguma coisa? O som de um grilo me acompanhava, não importa para onde eu ia, aquilo poderia ser minha imaginação, coloquei ambas as mãos nos bolsos de minha calça moletom azul escuro, trajava uma camiseta de frio fina na cor preta, eu comecei, repentinamente a me sentir com sono e muito cansado, como se minha pressão estivesse caindo, mas ainda assim, eu caminhava, olhei para o céu e vi um enorme buraco no meio da escuridão que cobria aquela vastidão, parecia um túnel, devia ser algum fenômeno climático que desconheço, olhei novamente para frente, e quando percebi, havia uma praça pequena, as casas haviam desaparecido, eu finalmente interrompi meus passos e analisei aquele lugarejo simpático e quente, ao contrário do trajeto por onde vim, aquela praça era bem iluminada e até mesmo vívida, as únicas árvores e vegetação que haviam por lá eram pequenas paineiras e arbustos bem podados, além de grama que cobria os canteiros com pequenas flores que nasciam aleatoriamente nas cores azul e rosa, haviam vários bancos muito bem cuidados para uma praça pública, todos brancos, pareciam pintados naquele mesmo dia, bancos de madeira compridos, e no centro, uma fonte pequena mas desligada, não havia água, apenas sujeira e grama que crescia por ali, como eu não conhecia um lugar como esse em minha própria cidade? Foi então que me toquei... aquela não era minha cidade. Andei até o meio da praça, fiquei sem saber qual ação tomar à partir daquele ponto, foi quando vi aquela figura sentada em um banco comendo pipoca em um saquinho plástico cinza, era uma garota de cabelos louros dourados bem longos e ondulados nas pontas, ela era branca ao leite, estava mais para uma quase albina, não pude ver seus olhos de longe mas pareciam ser bem grandes e vivos, ela colocava as pipocas em sua boca como se estivesse apreciando o melhor alimento que o mundo poderia lhe proporcionar, eu não sei porque mas fiquei admirando aquela cena, ela era magra mas não ao ponto de ser esquelética, seus seios duros me chamaram atenção por ela ter uma estatura baixa – não devia ter nem 1,60 de altura – mas mesmo assim a formação do seu corpo me dizia que ela devia ter mais de 20 anos, quando ela me notou olhando-a sem piscar, senti a maior vergonha do mundo, não conseguia olhar para baixo nem para o lado, isso soaria suspeito, então sorrindo, eu me aproximei, não sabia o que dizer, apenas inventaria uma desculpa qualquer.

— Não está tarde pra alguém ficar em uma praça abandonada assim comendo pipoca? Não quero ser chato mas é que tudo anda muito perigoso ultimamente. – Eu havia sido um idiota intrometido! Eu me aproximo de uma garota bonita e tudo que consigo dizer é uma besteira dessas, me senti nervoso naquele momento, ela já devia pensar que eu era um depravado querendo sua atenção, aposto que me ignoraria, se levantaria e iria embora, mas quebrando todas as minhas expectativas negativas, a garota me olhou com simpatia enquanto sorria e estendia o saquinho de pipoca em minha direção.

— Nunca se é tarde pra apreciarmos as coisas que gostamos. – Não sei porquê mas seu sorriso fez meu coração pulsar violentamente, ele quase saiu pela boca, meu corpo se encheu de calor, como se eu estivesse entrando em uma sauna, fiquei alguns segundos sem resposta, mas peguei algumas pipocas, mesmo não gostando.

— É, acho que você tem razão... sabe, eu acho que estou perdido, é meio deprimente dizer isso para alguém de 22 anos, mas, posso me sentar? Não percebi mas acabei andando demais. – Eu disse isso enquanto olhava de canto rapidamente aos arredores daquela praça, as luzes iluminavam o local, mas as sombras tomavam conta de tudo que havia fora da praça, mesmo o lugar por onde entrei, parecia que uma cortina negra havia sido jogada por cima daquilo, como se eu e ela estivéssemos agora em uma bolha.

— Não tem porque se envergonhar por isso, eu tenho 24 anos mas mesmo assim ainda não consigo dormir no escuro, eu tenho que deixar uma luz acessa no corredor, não é medo, mas me sinto sufocada. Eu gosto dessa praça, sempre é tão iluminada e calma, eu posso ler e comer tranquilamente, esquecendo de tudo lá fora. – Eu me senti ao lado da menina, não tão perto, não queria parecer intrusivo, mas fiquei olhando para a mesma sem inclinar meu corpo, parecia despreocupado, mesmo estando nervoso e suando frio, como um colegial que nunca havia chegado perto de uma garota, eu percebi que ao lado dela havia um livro, mas eu não conseguia ler o título do mesmo, tudo, novamente, ficou embaçado, ao olhar de mais perto, vi que os olhos da menina eram azuis, nenhuma novidade até ali, branca e loura natural como era, só podia imaginar que ela tinha alguma descendência europeia.

— Bom, todos temos nossos medos e manias, eu conheci um cara da sua idade que tinha medo de gatos, sabe, eu nunca vi alguém ter medo de gatos, ele sempre que via um ficava branco como você, não que sua cor seja um problema, eu particularmente acho lindo pessoas assim. – Eu estava sendo impulsivo e me deixei levar pelo momento! Havia dando uma cantada quase direta pra garota, não tinha como ela não pensar que eu era um tarado que queria alguma coisa, acho que minha chance de aproximação já era, mas eu ao menos tinha sido sincero, odiava ter que guardar as coisas para mim, desde pequeno fui assim, por mais solitário que essa atitude me tornou, me sentia feliz comigo mesmo, e me surpreendendo novamente, a garota sorriu com o que eu disse, nunca havia visto um sorriso tão puro e sincero como aquele em meus 22 anos — ela ser mais velha do que eu não havia me incomodado por mais que, antigamente, isso fosse me deixar um tanto encanado -.

— Eu me chamo Karina, eu sou branca assim porque raramente tomo sol, mas queria pelo menos ter uma corzinha sabe! E você, como se chama? – Eu não sabia onde estava, não sabia se aquilo tudo era real, mas de uma coisa eu sabia: Queria que aquele momento se prolongasse um pouco mais, a voz de Karina era tão doce que meu coração se amolecia ao ouvi-la, mas de alguma forma, ela me parecia muito familiar, eu tinha certeza que havia ouvido antes.

— Meu nome é meio estranho, Wallacy, com Y e dois L’s, minha mãe é daquelas pessoas com gostos peculiares e que gostam de se destacar, mas não queria que ela usasse seu único filho como ferramenta pra isso haha. Prazer Karina, nunca imaginei conversar com uma pessoa no meio de uma praça deserta no meio da madrugada. – Foi falando isso, que percebi que aquela praça, antes iluminada, começasse a ficar mais escura, olhei para trás e vi que algumas luzes haviam se apagado.

— Wallacy... eu vou me lembrar disso, prometo. – Aquele sorriso simpático e singelo de antes, naquele momento, se transformou em um sorriso melancólico, e o calor que sentia em meu peito, se tornou um aperto tão forte que eu mal conseguia respirar, os olhos de Karina brilhavam e demonstravam uma profunda dor que só ela podia entender, no fundo do meu coração, ao encarar a garota por mais alguns segundos, sentia que já havia visto ela em algum lugar, algum dia...

— Será que estão apagando as luzes aqui? Acho que deveríamos ir, sabe, fora dessa praça é bem escuro... – Eu tentei me levantar, mas de algum modo estava com uma sensação de morte, a angústia tomou conta do meu ser, parecia que havia perdido algo importante, Karina havia deixado seu saquinho de pipoca em cima do banco e se levantado, ela ficou de costas para mim.

— Wallacy, esse livro que estou lendo, se chama O Fim da Eternidade, recomendo ele pra você, espero que ao abrir os olhos, possa se lembrar, se lembrar de tudo. – Karina se virou para mim e sorriu enquanto lágrimas escorriam de seus olhos, eu me espantei, tentei novamente me levantar mas parecia que algo me prendia naquele banco, eu fui vendo ela desaparecer enquanto a escuridão engolia tudo por ali, no final, só restou eu e aquele banco, como se estivesse vagando no espaço sideral, fechei meus olhos e quando abri, tudo que podia ver era o teto do meu quarto, minha mente parecia confusa, mas quando finalmente coloquei os pés no chão e olhei par ao espelho sujo que ficara do lado da minha cama, percebi tudo. Sem nem me trocar, liguei meu computador e fui direto nas minhas imagens, havia uma pasta com o nome ‘Por toda Eternidade’, dei dois cliques e a abri, nela haviam fotos da excursão que eu havia feito para Campos do Jordão com a faculdade a 3 anos atrás, no primeiro ano, eu fui rolando para baixo, e eis que consegui encontrar o que queria. Meu corpo todo se arrepiou, eu engoli seco e meus olhos se encheram de lágrimas. Era uma foto minha com uma garota loura, uma garota loura e branca como algodão, ela tinha o sorriso mais lindo do mundo e uma voz inesquecível... como eu pude me esquecer? Aquela foto era de Karina, a única pessoa pela qual me apaixonei em toda minha vida, a única pessoa que me fez pensar em um sentido a mais, e também, a única pessoa que deixa um vazio sufocador em meu peito toda vez que me lembro. Karina Dutra morreu em dezembro daquele ano, vítima de um assassino que nunca fora pego. Ao voltar para minha cama, sem reação, olhei para o lado do meu travesseiro, e lá, havia uma pipoca, algo que eu não havia nunca comido em meu quarto, e aquilo me fez pensar que, definitivamente, eu não estava sonhando.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.