A Promessa do Rouxinol
1 O Conto Tão Esquecido
Notas iniciais
Agradeço de antemão pela atenção e espero que possam aproveitar a leitura como desejam.
Desta vez, os créditos não são inteiramente meus. Na realidade, essa estória foi um pedido da minha irmã. Ela me contou sobre o sonho que ela teve com o personagem Zhongli, mas como ela não tinha muitas lembranças do que houve, ela pediu para que eu tentasse recriar a partir do básico. Espero que esse pequeno conto os agrade da mesma forma que a agradou.
Desejo-lhes uma boa leitura.
Em uma casa vazia, rústica e solitária, vivia uma jovem donzela com dezenove primaveras completas. Seu sorriso trazia orgulho e felicidade por onde passava, iluminando os rostos dos conhecidos de sua pequena vila. Obviamente, não eram todas as pessoas que a viam de forma tão agradável. Afinal, uma moça naquela idade e ainda não tendo um marido para que a honrasse era a pior das desgraças, considerada pelos mais conservadores. Não importava o quanto aquele coração fosse puro ou o quão dedicada ela se mostrasse ser. Solteira era como uma presença indesejada.
O povo daquela pequena aldeia se perguntava o motivo de sua solidão. Apesar de não ter um dote, a jovem tinha uma beleza inigualável, tanto em seu interior quanto em seu exterior. Por muito tempo, comerciantes de outros lugares e viajantes tentaram conseguir sua mão. Traziam-lhe presentes caros e promessas duvidosas... Contudo, não importava a ambição de suas promessas, todas elas chegavam ao mesmo fim. A jovem recusou cada proposta, desde a mais encantadora à mais fantasiosa. Não importava o que lhe prometiam, a donzela não se rendia. Ela não os amava como deveria ser e, certamente, nem eles a amavam como diziam.
Assim, a jovem não tinha mais nada a não ser sua própria solidão.
Sob o teto de uma casa fria, a donzela tentava encontrar sua própria salvação. Estava sozinha no mundo... Sem pai ou mãe, sem irmão ou irmã. Ela não tinha mais um significado em sua vida. Ela não tinha mais um lar para ser feliz.
E pouco em pouco, seu coração imergiu em tristeza.
Por isso, para fugir e saciar de vez a dor da ausência, a jovem tomou a mais altruísta atitude. Com um curvar frágil em seus lábios e um brilho inigualável em seus vívidos olhos, a donzela abriu as portas de sua casa e de seu coração. Radiante, com o sorriso mais puro e caloroso, a jovem acolheu todos aqueles tão semelhantes a si. Os solitários e desamparados como ela. Todas as crianças indesejadas ou sem lugar no mundo encontraram luz em seus braços. E assim, gradativamente, aquela pequena velha casa cheia de escuridão se enchia de alegria mais uma vez. Entre risos e choros infantis, a bela jovem era rodeada pelo amor que tanto buscou.
Certo dia, em um momento vespertino em meio ao verão, a donzela tomou as roupas que necessitavam serem lavadas. Como um rito, ela beijou a cabeça de cada criança aos seus cuidados, deixando os mais novos sob a supervisão da mais velha e a rústica horta para o garoto mais velho. Sozinha para cuidar de tantos tecidos, a jovem não reclamou em nenhum instante seu árduo trabalho. Com maestria pelo costume, ela caminhou de sua casa até à beira do rio mais próximo, não demorando nem um segundo a mais ou a menos. Distante em seus próprios pensamentos, suas mãos calejadas e com pequenas feridas começavam o serviço de limpeza. Apesar de gasta e visivelmente cansada, nada era capaz de diminuir o belo sorriso de sua face satisfeita.
Contudo, de repente, um brilho ofuscante irritou seus olhos. Intrigada com tal acontecimento, a jovem não conseguiu expressar mais do que sua própria confusão. Perto da pequena queda d’água, perigosa para pequenos seres, uma estranha luz dourada se destacava em meio as águas, como uma joia em sua caixa. Sendo de uma natureza curiosa, mesmo que receosa, a donzela deixou seu afazer para se dirigir aquela pequena piscina natural. Cautelosa, seus passos continuavam naquele ritmo vagaroso, apenas para a própria tortura de sua mente. Porém, sua espera pareceu ser recompensada quando seus olhos se retraíram em encanto.
Nadando em extrema graça, o pequeno e único peixe existente naquele local parecia dançar. Dono de uma coloração majestosa, vívido e brilhante, nada mais se destacava que não fosse aquele pequeno corpo alongado. A jovem se encantou com tamanha graciosidade e, ao mesmo tempo, preocupou-se com sua solidão. Assim como ela, aquele pequeno animal estava sozinho e sem nenhum lugar para correr. Se alguma ave o encontrasse, o banquete estaria servido. A donzela se sentiu mal com aquela pequena ideia.
E enquanto contemplava as grandes e chamativas barbatanas, a jovem soube o que fazer.
Apressando-se, a jovem terminou com seu trabalho e recolheu as peças limpas. Com o grande cesto em mãos, a donzela nem se preocupou com a forma com que se dirigiu até sua casa, trazendo em sua face o mais radiante e calmo sorriso. Recebida calorosamente pelas crianças, a jovem mulher teve dificuldade de deixá-los sós mais uma vez, contudo, para salvar uma pequena vida, era uma atitude que deveria tomar. Tomando em mãos o primeiro recipiente ao seu alcance, a jovem retornou à beira do rio e caminhou para perto do pequeno peixe. Surpresa, esta nunca esperou que o peixe atendesse ao seu jeito.
E voltando para casa, a donzela deu tudo de si para cuidar daquela frágil criatura.
Aproveitando-se do pequeno lago artificial que há muito tempo não se era utilizado, a jovem construiu uma nova morada para o seu mais novo convidado. Sua felicidade contagiou as outras crianças que, apaixonadas com a presença do animal, fizeram de tudo para ajudar. No mesmo dia, o pequeno peixe dourado desfrutou de um novo lar, cheio de amor e proteção. E em uma troca de favores, o peixe retribuía as migalhas que lhe davam com sua beleza encantadora.
Dias se passaram desde então e a vida continuou sendo hostil para a jovem. Mesmo com suas dificuldades, ela tinha muito a dar e ajudar, em especial para a família que construíra. Porém, todos os dias, a jovem moça disponibilizava um fragmento curto de tempo para si.
Tempo o bastante para apenas desfrutar um pouco da pequena felicidade de ver o pequeno peixe dourado nadando com graça e maestria.
Durante todas as noites, alguns minutos antes de se retirar para cumprir outros serviços ou mesmo descansar, a donzela se sentava ao lado do pequeno lago. Olhando a densa e estrelada noite, uma canção escapava de seus lábios, revivendo um pequeno hábito que desde que sozinha já não fazia mais. Porém, não era o mesmo tipo de canção que usava com suas doces crianças, infantis e contagiosas para os pequenos.
Quando apenas só, em seu próprio mundo, ela se permitia cantar uma triste, mas bela canção.
No primeiro dia de outono, o destino encontrou uma oportunidade. E naquele instante, os ponteiros para algo inacreditável se moveram. A donzela estranhou quando, ao lado de fora, suas queridas crianças começaram a gritar e a rir. Observando ao seu redor, as mais novas e de colo dormiam tranquilas, mas seria questão de tempo até que aquela paz fosse rompida e, novamente, teria que deixar seus serviços como alfaiate para acudir os choros inocentes. Suspirando em cansaço, a jovem decidiu ver o que tanto entretinha e alimentava aquela atmosfera agitada. Como sempre, seu sorriso se fez presente quando a atenção de algumas delas caíram sobre si.
Porém, aquela expressão desapareceu quando seus olhos se prenderam a imagem do lago.
— Não é engraçado? Ele surgiu de repente.
Ignorando aquelas palavras que se repetiam por diversas vezes, a donzela continuava paralisada em seu lugar. Admirando o corpo forte, porém, completamente nu, suas bochechas se incharam em vergonha. Intensa, uma cor avermelhada dominou sua face, desde a ponta de suas orelhas até seus ombros. Trêmulos, seus lábios se moviam lentos, mas constantes, tentando encontrar as palavras que sua cabeça já não era capaz de formular. Lentamente, o desconhecido voltou seu rosto para a jovem moça e com aquele simples gesto, palavras não foram necessárias por muito tempo.
Acuada com aquele intenso olhar, a donzela se viu, pela primeira vez, incapaz de realizar algo. Em outra situação, sua fúria se revelaria e, mesmo que educada, expulsaria o estranho. Contudo, alvo daquelas belas íris âmbares como as mais belas pedras Cor Lapis, ela não tinha a audácia ou autoridade de ir contra aquele homem. No calor daquele olhar, seu peito pulsou diferente, tímido e sem forças. Imaginou que não mais teria controle de seu corpo, porém, sua mente logo encontrou a razão desejada e ao abraçá-la, a jovem pediu para que as crianças adentrassem a morada.
Deixados sozinhos, a mulher, enfim, desviou seus olhos, buscando proteção nas barras de suas mangas.
— O que faz aqui e dessa forma?
— Perdão, minha bela dama. Mas não lembro nem mesmo meu próprio nome.
Diante daquelas palavras, a jovem abandonou sua vergonha e o encarou mais uma vez. Só que desta vez, havia algo em diferente em seu olhar. Nas expressões entristecidas e confusas, a donzela percebia que não havia mentira por trás daquela confissão. Isso bastou para que seus medos se esvaíssem e sua compaixão tomasse voz por direito.
— Não tem lugar para ir?
— A senhorita foi a única que me deu este conforto. – com um precioso e singelo sorriso, as palavras cheias de ternura daquele homem encheram o espírito ameaçado da jovem com gentileza e segurança.
— Mas porque se escondeu dessa forma, tomando a figura de um pequeno peixe?
— Não me lembro o motivo. Contudo, sei que não tinha forças para voltar.
Transparente como a superfície de uma pedra perfeitamente polida, a jovem não teve dúvidas quanto a tristeza e sinceridade. Dentro daquele tom firme, existia algo que apenas ela conseguia perceber.
Envergonhada com seus próprios receios e a incômoda atmosfera que os cercava, a donzela se pôs rapidamente a ativa.
— Mil perdões. – nervosa por suas conclusões e sentindo o peso de duvidar daquela criatura, tudo o que a jovem moça encontrou como solução fora recompensar o homem de sua descrença. – Trarei roupas para que possa vestir.
E com um trabalho de seus serviços, a donzela trouxe dignidade ao ser. Grato pela gentileza, um generoso sorriso surgiu nos lábios alheios e, como um raio de sol, aqueceu o peito daquela jovem mulher.
Mesmo não sendo humano, muito menos algo que pudesse ser da compreensão daquela dama, em nenhum momento esta o desprezou ou tratou diferente. Assim como havia adotado as crianças desabrigadas, aquele homem, aos seus olhos, nada mais era do que mais um indivíduo perdido no mundo, buscando encontrar seu lugar. A vida estava sendo boa consigo. A jovem estava feliz por ter tantas alegrias e por ser capaz de ajudar mais uma alma.
E como aquele homem se tornou sua força...
Apesar de pouco convívio com humanos, aquela criatura tinha um conhecimento tão vasto que encantava aos mais novos com suas histórias, ensinava aos mais velhos importantes lições e, para a donzela, novos horizontes. Ambos passavam horas conversando todas as noites, com o homem a instruindo e lhe dando conselhos preciosos. Porém, quando cansados daquele ritual diário, nos tópicos surgiam. Não era estranho para nenhum dos dois a forma como saciavam suas naturezas curiosidades, fosse por uma simples conversa trivial ou menos o apreciar de uma encantadora canção. O homem gostava de ver o brilho esperançoso e grato da moça, de sua voz melodiosa e a força daquela mulher. Em contra partida, a donzela se perdia no timbre de cada palavra proferida, admirava a sabedoria demonstrada e, principalmente, do calor daquele olhar.
Pouco a pouco, as diferenças desapareciam. E ao fim dela, felicidade e harmonia residiam em seus corações.
Com o passar das estações, o homem se viu desarmado. O que deveria ser algo passageiro se tornou um hábito tão efêmero quanto agradável. Conforme os dias se seguiam, mais um estranho sentimento queimava sua alma. Entre felicidade e conforto, o homem se sentia abençoado por ver todos os dias os diversos sorrisos daquela mulher, de ser alvo de sua gentileza e contemplar seu esforço. A donzela, mesmo sozinha, era forte o suficiente para cuidar de todas aquelas pobres crianças. E mesmo com o árduo trabalho, a dificuldade de manter aquela família e a alegria dos pequeninos, nada abalava sua determinação admirável. Sempre que a via e a paz que reinava com sua presença, os olhos do homem refletiam muito mais do que ele tinha ciente... Mais sinceros do que as próprias batidas de seu coração.
Contudo, um sabor amargo sempre vinha em sua boca. O homem sabia o motivo, porém, desesperado, tentava não acreditar em seus instintos. Ele queria acreditar que o óbvio não aconteceria.
Mas um dia, as suas memórias retornaram.
A donzela percebeu imediatamente quando isso ocorreu. Afinal, assim como a criatura, seus olhos ansiavam pelo outro como uma necessidade. E conhecendo todos os seus hábitos e costumes, nunca que esta não notaria algo tão insignificante como uma mudança de olhar. Não importava o quanto o ser mentisse ou omitisse com suas pomposas palavras, ela o conhecia muito mais do que o necessário.
E isso era um grande erro.
Entretanto, mesmo que ambos soubessem daquele acontecimento, nada havia mudado. De fato, a mulher nunca negaria abrigo ao homem. Enquanto a criatura também não queria deixá-la. Ele queria viver mais ao lado da donzela, apreciar mais daquelas expressões puras e assistir seus passos. Era tudo o que ele almejava. E por esse motivo, ele procurou permanecer por mais um tempo.
Assim, chegou o inverno. Seu frio não era severo como poderia ser, porém, seu pequeno poder bastou para que abalasse o corpo fraco e gasto. Tendo acumulado tantas cargas, a donzela caiu assim que a primeira neve se fez presente. Os dias foram duros com a jovem. À medida que a doença lhe mantinha presa a cama, mais de suas forças desapareciam, sendo uma preocupação para suas crianças. Contudo, não mais do que para o homem sentado ao seu lado.
Firme como rocha, o tronco da criatura não se moveu mais do que o necessário. Duro como pedra, a sombra de segurança agia para manter ordem. E afiados como cristal, os olhos Cor Lapis transmitiam sua ira e descrença.
Mas, lentamente, a doença pelo desgaste se curava com a ajuda do homem. Usando seu vasto conhecimento, ele trazia à tona todo o seu potencial. Contudo, a jovem era humana, não se curando da mesma forma que seres imortais. E devido a lentidão, era quase impossível conter sua frustração.
Quando o dinheiro se tornou escasso, a vida pareceu cobrar por tantas benções. Mesmo com as crianças maiores dando tudo de si, no fim, o dinheiro que conquistavam somente pagavam pelo pão de cada dia. O homem não suportou ver aquela situação e se manter imóvel. E, pela primeira vez, ele deixou a casa.
Seus passos sabiam exatamente onde chegar. Diferente da concepção humana e sua determinação de longas distância, o caminho trilhado pelo homem não era nada para si. Em questão de minutos em sua percepção, a criatura olhou intimidador para a construção à sua frente. Diante da grande Casa Dourada, lar do dinheiro do mundo e onde era cunhado aos montes, o homem deixou para trás qualquer traço de paciência. Seus passos seguiam em frente, ignorando as ameaças e avisos que se seguiam uma atrás da outra. “Tomar posse desse dinheiro limpo é uma afronta à Rex Lapis. Serás amaldiçoado”, era o que ouvia a cada instante.
“Tolice”, pensou o homem em feições duras. Dentre todos os seres, ele era quem mais tinha ciência daquela verdade.
A criatura derrotou muitas pessoas em seu caminho e, no fim, o que ele tanto buscava não mais reluzia como antes. Seu significado havia, por um instante, se perdido, restando apenas sua visão mais ordinária do valor ao seu alcance. Humilde, a criatura apenas pegou o necessário. A quantia era o suficiente para encher o pequeno saco que trazia consigo, mas mesmo que parecesse pouco, era mais do que a donzela e suas crianças poderiam sonhar conquistar um dia.
E sem qualquer arrependimento, a criatura retornou para seu querido lar.
Com enormes sorrisos e calorosos abraços, cada membro daquela distinta família correu ao seu encontro. As ações sinceras, mesmo que comuns, nunca tiveram um significado tão forte quanto naquele momento. Pela primeira vez em milênios, o homem sentia em sua pele o que era ter uma família. Ser rodeado de indivíduos que se importavam consigo e desejavam sua felicidade. Aquele calor foi perigoso, quase destruindo a muralha espessa que o constituía.
Mais uma vez, a criatura teve medo.
Seu retorno trouxe vida para aquela casa. Não apenas para as crianças como para a própria donzela, que ansiava por sua presença mais do que tudo. Mesmo fraca, ela se esforçou para recepcioná-lo com o mais sincero abraço. E em meio daquele afeto, as mãos do homem tremeram. Vestindo sua melhor mentira, o homem contou sua viagem e as aventuras que vivera. Cada conto rendia uma nova expressão em cada rosto, desde a mais pura admiração até o genuíno espanto. Os mais velhos sabiam que grande parte contada nada mais era do que ideias fantasiosas de uma mente criativa, porém, se era apenas para alimentar os sonhos infantis, nunca que eles iriam se opor.
Mas tendo uma concepção diferente, a jovem moça sabia que algo não se encaixava.
Enfim, quando sós, o homem abriu seu coração e contou tudo o que havia feito. Incrédula, a mulher ficou horrorizada ao olhar para a pequena bolsa que era estendida para si com tanta naturalidade. Lentamente, seus olhos se encheram de lágrimas ambíguas.
E educadamente, ela recusou.
— Oh, meu querido amigo. Admiro tua força, tua coragem e teu ato nobre. Porém, não sabe o grande erro que cometeu. Esse dinheiro não deveria estar aqui. Ele pertence à RexLapis. Isso que tem em mãos é o símbolo e legado de nosso deus. Ele representa a confiança e a importância da justiça. Mostra como a vida mortal necessita de ordem, da mesma forma que a natureza rege a sua. Eu não posso aceitar, meu querido. Mesmo sabendo de todos os seus esforços.
Sem nenhuma reação, mais uma vez, o homem se portou como se tivesse parado no tempo. Sua atitude somente surgiu quando seu rosto foi tocado de forma tão tímida que perdia seu calor. Com um singelo sorriso, a jovem buscou alcançar o coração daquele homem. Delicados, os dedos transitaram pelo belo rosto da criatura, causando um rastro invisível ardente. O homem fechou seus olhos e se inclinou para mais contato. Era difícil para ele aceitar.
Pela primeira vez, suas próprias palavras pareciam vazias aos seus ouvidos.
— A vida necessita de ordem, não é mesmo?... Está tudo bem. Pela manhã, tudo retornará ao seu devido lugar.
No mesmo instante, a jovem sentiu sua alma se encher de amargura, à beira do desespero. Olhando firme para o homem à sua frente, ela nem mais o reconheceu quando seu olhar enfrentou o seu. Em meio as íris Cor Lapis, havia um sentimento que a donzela desconhecia. Um poder único que lhe fez temer verdadeiramente aquele olhar. Porém, isso não era nada em comparação a dor em seu peito.
A dor de saber que ele partiria.
Ela não podia contê-lo. O fato era que todos tinham seu lugar e deveres. Ela tinha escolhido sua vida e o homem à sua frente também. Ainda assim, o peso daquela realidade caía contra seu corpo penalizado como não deveria, trazendo a maré de lágrimas ao seu rosto e o silêncio frio à sua boca. Era horrível ver que diante do destino, ela era impotente.
Da mesma forma que ele a havia agraciado, agora reivindicava seu preço.
— Esperarei o seu retorno... – simples, porém, triste realidade, as palavras convictas mancharam o coração do homem mais uma vez. – Para sempre te estarei aqui. E mesmo que não volte, rezarei todos os dias para que eu possa estar com você, mais uma vez.
Ah, como o destino poderia ser tão cruel... Como a vida dos mortais era tão efêmera...
Como dito naquele dia, pela manhã não havia mais nada que estivesse fora de seu posto. Nem as moras roubadas, muito menos a presença segura do homem. A donzela se encolheu sob os cobertores pesados, comprimindo seus lábios secos na esperança de impedir seu pranto. Contudo, ela era incapaz de lutar contra sua própria solidão.
E se havia algo que não se encontrava em seu devido lugar era somente seu próprio coração.
Desde aquela despedida, numa noite gélida de inverno, a jovem camponesa viveu seus dias em sorrisos quebrados. Apesar de amar suas crianças, sua alma estava cercada de tristeza. Seu belo rosto poderia exibir o maior dos sorrisos, mas para todos que a conheciam, sabiam que seu significado era vazio. Durante longas estações, ano após ano, a donzela se perdia mais e mais. Sentada à beira de sua janela, seu olhar vidrado permanecia a imagem de seu lago, esperando alguém que sabia que nunca mais voltaria. Para acompanhá-la naqueles momentos de profunda amargura, frequentemente pássaros pousavam ao seu lado, cantando suas belas canções. Mesmo que pouco, suas vozes acalentavam o coração frágil. E entre sorrisos melancólicos, a jovem se via na obrigação de acompanhá-los. Cantando a canção que apenas ela e seu amado conheciam, a donzela suplicava para que sua voz lhe alcançasse.
E levasse consigo a promessa de sua vida...
Soltando um desanimado suspiro, os olhos âmbares se prenderam na última frase escrita na folha daquele livro. A palavra “promessa” pareceu brilhar a seu ver, trazendo consigo uma pequena dor em seu peito. Pesados, seus olhos se fecharam calmos, pacientes como sempre. Seus dedos deslizaram pelas bordas do livro antes que o fechassem. E tornando a respirar fundo mais uma vez, o peso nos ombros daquele belo homem diminuíram minimamente.
Os raios de sol daquela tarde estavam mais fortes do que de costume, queimando sua face e exigindo sua atenção. Assim que o homem abriu seus olhos, a mesma passividade e tranquilidade transbordavam de suas íris. O rapaz deixou a antiguidade em mãos sobre a mesa ao seu lado, junto de uma xícara de chá mal tocada. Novamente, aquele velho e bem preservado livro chamou sua atenção, desde a cor desbotada de sua capa até as folhas amareladas. O homem notou que já era hora de dar os devidos cuidados ao seu pequeno tesouro. Ele sabia exatamente a quem recorrer, mas agora, teria que se lembrar de levar seu próprio dinheiro. Seu “amigo” não se encontrava na cidade e, dessa forma, ninguém poderia o socorrer.
De repente, um pequeno sorriso foi percebido em seus delicados lábios. Reler aquele conto fez tão bem ao seu espírito que seu corpo acabava sendo mais sincero do que o normal. Grato por aquela leveza em seu espírito, o homem se levantou de onde estava, caminhando tranquilamente até a janela. Folhas douradas e avermelhadas brincavam com o vento salgado e úmido. Dançavam belas pelos céus, mostrando que Liyue estava, mais uma vez, em sua paz. O homem apreciou aquele momento e seu olhar amansou com a visão da vida alheia. A felicidade no rosto de seu povo, o comércio sempre vívido... Isso era um sinal claro de que os mortais estavam prontos para seguirem em frente, não necessitando mais depender de seus deuses.
— Gostaria que você vivesse este momento comigo...
Suas doces palavras se foram com a brisa, abraçada com gentileza e levada para longe. Porém, não havia necessidade do vento levar seu desejo.
Afinal, ela estava ao seu lado.
Cantando uma tranquila e melodiosa canção, um pequeno rouxinol demonstrava seu talento. Empoleirada em um galho muito próximo, ao alcance daquele homem, a ave não mostrou qualquer insegurança com sua presença, muito menos medo. O rapaz, por sua vez, estava mais do que satisfeito. Com graciosidade, ele estendeu sua mão ao animal e este lhe correspondeu. Abandonando sua canção, um tempo silencioso se fez entre ambos. Nada mais ou a menos, nem indesejado ou forçado. Os olhos âmbares se iluminaram com a figura do rouxinol e o breve canto que este fez ao encará-lo.
Mais uma vez, seu rosto se iluminou com um belo e sincero sorriso.
— Senhor Zhongli? – retirado de seu momento privado, o homem somente direcionou um pouco de sua cabeça para o recém-chegado, porém, não dando-lhe a devida atenção. – A mestra Hu Tao está lhe chamando.
— Oh, tudo bem. Eu já estou indo. – com a educação de sempre, o homem assentiu lentamente, esperando pacientemente o outro funcionário se retirar. Após só novamente, um curto e grave riso escapou de sua garganta, juntamente com o canto do rouxinol. – Gostaria de me acompanhar amanhã em meus serviços pela cidade?
Animada, a pequena ave deu um pequeno salto e cantou em graça. Zhongli piscou mais lentamente, grato pela aceitação de seu convite. Por um curto momento, os olhos das duas criaturas se encontraram e inexplicavelmente, aquele singelo ato trouxe muito mais do que desejavam para seus corações. Com toda a sua passividade, o animal rebaixou sua cabeça em grande sinal de respeito e no instante seguinte, seu corpo se jogou contra a brisa mansa, retirando-se da presença do homem com a mesma sutileza que havia se aproximado. Alcançando o vasto céu, houve um ponto em que a vista de Zhongli já não acompanhava a figura amada, como se o rouxinol tivesse desaparecido no horizonte belo.
Parado a olhar a imensidão daquele azul forte do entardecer, o homem encheu seu peito com o ar fresco e salgado. Seu coração, novamente, ameaçou pulsar em tristeza, mas apenas por um segundo. Afinal, não havia mais motivos para se sentir impotente quanto a despedida. Diferente daquela época, não havia mais razão para se sentir só.
Pelo resto dos seus dias, o homem e seu belo rouxinol estariam para sempre juntos. Enquanto sua eternidade perdurasse, a alma da donzela o encontraria para cumprir um de seus mais antigos contratos.
A promessa que jamais se esqueceria...
Notas finais
Caros leitores de todas as idades. Gostaria que, humildemente, deixassem uma palavra a esta escritora que aqui vos escreve. Não é pedir muito um simplório comentário para dar a luz que um escritor necessita.
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