A Promessa.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
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O fato que relatarei aconteceu verdadeiramente, posso jurar pela minha morte que aconteceu. Tudo acorreu na primeira semana em que me mudei para o atual lugar em que resido há pouco mais de vinte e cinco anos. Naquela época eu tinha dezesseis anos, mas minha mentalidade era de uma criancinha de apenas seis, acreditem ou não naquele tempo eu ainda brincava como uma criança. O que mais gostava de fazer era passear pela fazenda com meu cavalo.
Foi depois de uma dessas andanças com meu cavalo que encontrei um velho senhor que se identificou como o dono da chácara que ficava perto de minha casa, ele morava na cidade que não ficava muito longe da li. Eu estava andando por suas terras quando ele me parou, estava sentado em uma pedra grande perto de umas bananeiras.
Eu querendo parecer gentil me apresentei e me pus a conversar com o senhor, a conversa estava agradável, mas realmente não gostava muito de falar então tratei de me despedir dele logo. Até por que já estava quase escurecendo e meu cavalo estava cansado, já que andamos muito naquele dia.
Mas antes que eu pudesse sair, o velho me encarou profundamente como se estivesse tentando alcançar minha alma através de meus olhar. Proferiu as seguintes palavras, com uma expressão seria que chegou a me desestabilizar por um momento.
— Não saia à noite menino, ou o fantasma do homem enforcado pode te pegar. — Permaneceu com a expressão seria, percebendo minha cara de preocupação soltou uma gargalhada que me fez dar um pulo em cima de meu cavalo. Devo admitir que por mais que não acreditasse não pude impedir que minhas mãos suassem frio, com certeza a coragem não era uma das minhas maiores qualidades.
Acalmei-me com o riso do velho e soltei um pequeno sorriso, fingindo ter entendido sua piada. Despedi-me e fui para casa, chegando amarrei meu cavalo próximo ao estábulo. Dei a ele água e um pouco de pasto para que comesse. Enquanto acariciava seu pelo comecei a refletir sobre o que o que ouvira instantes atrás, mas tal hipótese me parecia tão improvável.
Com certeza ele estava gozando com a minha cara, deveria mesmo ser isso. Ri de minha própria desconfiança, era algo tão sem sentido e relevância, mas que eu com minha desconfiança conseguia torna ló a coisa mais lógica e relevante do mundo.
— Precisa se concentrar em coisas mais importantes, menino. — Aconselhei a mim mesmo, dei um tapa de leve em meu cavalo e ao ouvir o chamado de minha mãe fui para dentro de casa.
Depois de um banho relaxante e do jantar, fui deitar ainda não era tão tarde, mas estava cansado afinal o dia foi muito cansativo. A noite prosseguiu calma, o silêncio do local era algo que sempre me surpreendia. Mas, acordei com o relincho do meu cavalo, levantei-me apressadamente já que devia ter algo o perturbando, se fosse algum animal perigoso ele não teria chances, pois estava amarrado.
Ainda de pijama sai em disparada em direção ao estábulo. Antes mesmo de chegar lá vi meu cavalo correndo pela estrada devia ter se soltado, fui procurar uma corda, mas não encontrei. Corri para onde estava o animal e vi um homem parado do outro lado da estrada, com uma corda na mão.
Fiquei o observando por um momento, a noite estava clara pelo brilho da lua, mas eu não conseguia ver com clareza seu rosto. Fiz menção de chamá-lo, mas o homem virou-se e ignorando minha presença começou a subir em direção à plantação de soja do vizinho.
— Ei espere! — Gritei tentando o parar, mas ele prosseguiu seu caminho ignorando meus apelos, resolvi o seguir.
Passou pelo local em que encontrei meu vizinho anteriormente, passou por uma cerca de arames farpados e adentrou em uma pequena mata. O segui um pouco receoso, olhei para todos os lados, mas o homem parecia ter sumido, andei mais um pouco até encontrar a dez metros de mim um vulto.
Ele estava à frente de uma grande árvore, começou a subir nela. Parou em um galho alto, amarrou uma extremidade da corda a um galho acima de sua cabeça e a outra em volta de seu pescoço. Ficou estático por alguns segundos aparentava estar de olhos fechados, talvez rezando em busca de seu perdão.
Abaixou a cabeça e se jogou, fiquei perplexo com a imagem que vi a minha frente. Meus olhos se esbugalharam e o terror tomou conta de meu corpo. O homem estava a menos de um metro do chão, eu estava muito confuso. Minha primeira reação foi sair correndo, tentando pular a cerca de arames farpados enrosquei minha perna e causei um corte profundo em toda a extensão de minha canela.
Não liguei para a dor, me desprendi da cerca o mais rápido que pude, voltei a correr em disparada para casa. Quando a avistei cai de joelhos no chão arranhando ainda mais meu machucado. Precisava limpá-lo, me levantei com certa dificuldade e quando estava quase alcançando a área da minha casa senti algo muito pesado bater em minha cabeça. Cai no chão e antes de perder totalmente a consciência pude ver o rosto do meu vizinho, depois tudo ficou escuro.
Acordei no dia seguinte, com uma forte dor de cabeça, olhei para minha perna estava enfaixada. Fui até a cozinha minha mãe fazia o almoço.
— Filho você esta bem? — Assenti positivamente com a cabeça, sentando em uma cadeira a frente da mesa enquanto minha mãe me entregava uma xícara de café.
— Você nos deixou preocupado, nunca mais saia assim. — Eu apenas assentia com a cabeça tomando meu café. — Seu cavalo esta no estábulo, ele voltou hoje pela manha. — Mal ela tinha terminado de falar e eu já estava montando no animal e indo em direção à mata da noite anterior.
Cheguei ao mesmo local da noite anterior, mas não encontrei nada, procurei em todos os galhos. Mas nem sinal, nem corpo, nem cordas, nada nem sequer pegadas. Voltei atônito, sentei na pedra enorme queria pedir algumas coisas a meu vizinho, esperei quase o dia todo, mas ele não apareceu.
Perto da hora do almoço meu pai saiu a minha procura, eu estava deitado sobre a pedra segurando as rédeas de meu cavalo. Levantei ao ouvir seu chamado, estava acompanhado de um homem. Perguntou o que eu fazia ali, expliquei que precisava conversar com o vizinho. O homem que acompanhava meu pai, afirmou que ele era o dono da chácara, mas no dia anterior teve de levar sua filha ao médico e não pode vir até ali. O olhei confuso.
— Como era o homem que você viu? — Perguntou-me olhando atentamente, descrevi da forma mais detalhada que consegui o velho que havia visto. Ele me observou por uns instantes, coçou o queixo, deu um leve sorriso que demonstrava um pouco de desespero e pude ver seus olhos se encherem de lágrimas.
Depois de alguns segundo ele se recompôs, levou a mão ao bolso e tirou da carteira uma foto, me mostrou e pediu se era o mesmo homem que eu vira. Fique surpreso era idêntico, apesar de parecer alguns anos mais novo a semelhança era enorme.
Ele me explicou que aquele era seu pai, o ex-proprietário daquela terra. Ele aparentava ser um homem feliz, cuidava de sua família como ninguém, desonrar uma de suas responsabilidades era quase a morte a ele. Seu único defeito era a bebida e o jogo, acumulou uma divida muito grande com pessoas perigosas.
Sua vida e de sua família estavam em risco, foi assim que perderá seu filho mais velho. Resolveu que acabaria com aquilo logo, seus familiares não mereciam pagar por um erro que ele cometeu. Sua dívida só seria quitada com dinheiro ou sua morte, a quantia por ser muito grande precisaria de uma vida de trabalho para pagar uma de diversão.
A única opção que lhe restava era a morte, naquela noite jantou e antes de colocar seus filhos dormir deu um beijo na testa de cada um e um abraço apertado dizendo que os amava. Saiu com o pretexto de ter-se esquecido de trazer um bezerro para o pasto perto de casa.
Apanhou uma corda e subiu em direção à floresta, com a intenção de se enforcar, mas antes mesmo que pudesse colocar o pé do outro lado da estrada fora alvejado a tiros, de um dos empregados do homem ao qual ele devia.
Todos os pelos de meu corpo se eriçaram, um arrepio percorreu meu corpo todo ao ouvir o que o homem me falava, minhas mãos ficaram geladas e um mal-estar se apossou de meu corpo instantaneamente.
A divida foi quitada, porém nem tudo fora resolvido com aquilo. Todas as noites eles escutavam barulhos estranhos, passos pela casa, a porta se abrindo lentamente e se fechando logo em seguida e toda dia sem exceção quando iam checar uma corda sumia.
Acreditavam que era seu pai tentando cumprir a promessa que fez de se matar para quitar a divida, uma vez que quando realizaria isso em vida fora interrompido. A única coisa que podia fazer era disponibilizar cordas a alma conturbada que buscava sua paz e cumprir o objetivo que tinha em vida.
Vinte e cinco anos depois é isso que continuo fazendo. Moro agora com minha esposa e meus filhos, sempre me encarrego de colocar uma corda nova perto da estrada ao final de todo entardecer. Desde aquele dia não sai mais a noite, nem aconselho que se faça isso por aqui, muitos riem do que faço e até questionam do porque de eu ainda continuar aqui.
Mas eu não vejo problema algum, é apenas um homem tentando cumprir suas promessas, o mais gozado de tudo é que a honestidade e compromisso que falta a muitos vivos é a coisa mais importante e prezada por um morto.
Notas finais
Agradeço a todos que leram.
Beijos, tenham uma boa noite de sono minhas crianças.
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