A Profecia dos Amantes
17 O Cansaço
A reunião administrativa havia durado tanto que, em algum ponto entre a terceira revisão de logística de abastecimento, a discussão sobre realocação de arquivos e um parecer particularmente inútil sobre rotas de peregrinação supervisionadas, Tarla deixara de ouvir vozes individuais e passara a perceber apenas blocos de exaustão organizados em torno de uma mesa.
Quando enfim saiu da sala, o corredor do Templo lhe pareceu silencioso demais e ainda assim insuficiente. Sua mente parecia cheia de areia, tornando os pensamentos mais lentos. O fim da tarde se derramava pelas janelas altas de Coruscant em luz pálida, e Tarla se dirigia aos próprios aposentos com uma intenção muito simples e, naquele momento, quase sagrada: ficar em silêncio. Sequer faria chá. Não reservaria um único olhar a relatórios. Não abriria quaisquer formulários. Queria apenas a quietude de um quarto fechado, de um manto deixado sobre uma cadeira e de alguns minutos sem palavras de ninguém.
Foi por isso que sentiu o cansaço se tornar ainda mais denso quando, ao dobrar um dos corredores laterais, encontrou cinco Cavaleiras esperando em uma formação casual demais para ser realmente casual.
Não estavam alinhadas como se o tivessem emboscado, o que Tarla reconheceu mesmo que a contragosto, mas a distribuição dos corpos, a interrupção suave do fluxo do corredor e a maneira como todas se voltaram para ele ao mesmo tempo eram claras o bastante. Eram jovens, entre vinte e três e vinte e cinco anos padrão, ainda com aquela vitalidade de Cavaleiras recém-estabelecidas na Ordem, em uma fase em que a competência profissional e a percepção de si mesmas costumavam crescer juntas. Tarla conhecia todas de vista e por nome: duas por relatórios corrigidos, uma por uma missão breve de escolta anos antes, uma por participação em uma aula que ele dera, e outra por simples observação nos círculos de duelos.
Havia Sena Valis, uma theelin verde de cabelos rosa alta e eloquente, com o tipo de sorriso que parecia treinado para parecer espontâneo. Mira Solenne, uma Twi’lek de pele amarela pequena e graciosa, de olhos atentos demais para quem fingia estar ali apenas por acaso. Teyna Caro, uma zygerriana de postura reta e voz sempre ligeiramente mais macia quando falava com ele. Alis Venn, uma mirialana de pele azul e algumas poucas tatuagens geométricas cuja cortesia era tão polida que quase se confundia com distância. E, ao centro do grupo sem assumir oficialmente esse papel, estava a humana Lysa Volth’ar.
Lysa era belíssima para os padrões humanos.
Tarla percebeu isso da mesma forma como percebia a beleza de um templo antigo, de uma ponte bem projetada, de um lago sob neve ou de uma lâmina finamente equilibrada: com clareza, exatidão, e sem qualquer deslocamento interior em direção ao desejo. Havia nela uma beleza muito visível — o rosto harmonioso, a postura luminosa, o cabelo preso de modo elegante, os olhos vivos, a segurança natural de alguém acostumada a ser notada.
— Mestre Kesyk. — Disse Sena primeiro, com a cordialidade adequada. — Que coincidência encontrá-lo aqui.
Tarla olhou para as cinco, depois para o corredor atrás delas, depois de volta para Sena.
— Coincidência é uma palavra generosa.
Mira soltou uma risada breve. Teyna baixou os olhos com um pequeno sorriso. Alis pareceu levemente constrangida por ter sido descoberta com tanta facilidade. Lysa, porém, apenas o observou com aquela calma bonita e muito consciente de si.
Tarla parou diante delas, educado demais para simplesmente contorná-las sem resposta, cansado demais para fingir que não compreendia o movimento.
— Em que posso ajudá-las, Cavaleiras?
A pergunta era correta. A energia da resposta, porém, já dizia claramente que ele esperava alguma objetividade que, para sua exasperação, não veio.
Veio antes uma conversa em círculo, cuidadosa, respeitosa, cheia daqueles deslizamentos laterais que em outras espécies, outras culturas e outras vidas poderiam ter parecido até lisonjeiros. Perguntas sobre a reunião recém-encerrada, comentários sobre o aumento de responsabilidades administrativas no Conselho, uma observação sobre o quanto ele parecia “manter serenidade” mesmo depois de longas sessões, outra sobre a próxima escala de missões diplomáticas, um elogio muito bem embrulhado à forma como conduzia negociações, uma lembrança de Lysa sobre tê-lo visto treinar há alguns dias com sabre e venda, seguida da observação de que “nem sempre o verde pertence aos menos perigosos”.
Tudo era discreto. Tudo era respeitoso. Tudo era exaustivo.
Para Tarla, mais ainda por sua biologia keshtari.
Os keshtaret não eram incapazes de ternura, nem de afeto, nem de reconhecer beleza, inteligência ou encanto. Mas o amor romântico, aquele vínculo único que em sua espécie só florescia uma vez, sob as Luzes Dançantes de Keshtara, diante da Metade revelada pelo próprio céu do planeta, não era uma energia difusa à qual se respondesse com curiosidade social. A maioria passava a vida inteira romanticamente só. Alguns poucos encontravam sua Metade. Os demais seguiam com vínculos familiares, amizades, dever, admiração, carinho. O flerte, para Tarla, soava quase como um idioma de delicadas pressuposições que ele compreendia intelectualmente, mas que não ressoava em sua estrutura mais funda.
E, além disso, havia a idade.
Mesmo levando em conta a longevidade e a aparência mais jovem dos keshtari, qualquer pessoa de vinte e cinco anos lhe parecia, em algum ponto íntimo e inevitável, uma criança muito competente vestida com o título de Cavaleiro. Ele sabia que não eram crianças, tampouco as tratava como tal — respeitava suas patentes, suas habilidades, seus caminhos na Ordem — mas a distância de tempo continuava existindo como uma paisagem. Ele havia sido levado de Keshtara ao Templo mais de um século antes. Já enterrara um Padawan. Já servira em missões suficientes para ver tratados nascerem, quebrarem, serem refeitos e quebrarem de novo. A juventude delas não era defeito. Apenas tornava tudo aquilo mais cansativo.
Lysa deu um passo quase imperceptível à frente do grupo.
— Estávamos pensando — Disse ela, na voz que também era bela, clara e calorosa sem afetação excessiva. — se o senhor aceitaria compartilhar algum conselho sobre negociações complexas. Talvez no refeitório, ou nos jardins, quando lhe fosse conveniente.
Era a oferta mais honesta até ali, ainda embalada em formalidade suficiente para preservar a todos. Tarla sentiu a resposta polida já se formando.
Foi então que Rum’ea surgiu no vínculo com maior nitidez.
A presença dela veio correndo, cheia de movimento, estática e pensamento em excesso. Havia ali o tropeço costumeiro de ideias acumuladas, pedaços de frases, conexões linguísticas, hipóteses diplomáticas, uma nota de irritação consigo mesma por quase perder um termo cerimonial antigo, e por baixo de tudo o traço muito familiar de alguém caminhando e lendo ao mesmo tempo como se corredores fossem conceitos negociáveis. Ele a percebeu vindo através dos jardins internos, com um holopad aberto diante dos olhos e outros três desligados apertados nos braços.
A exaustão em Tarla mudou de forma.
Não desapareceu, porque era uma exaustão densa, mas encontrou direção. Ele olhou para Lysa e para as outras quatro com mais firmeza do que até então.
— Agradeço a consideração. — Disse, e o tom permanecia cortês, mas não convidava qualquer forma de continuidade. — Porém, não vou acompanhá-las ao refeitório, nem aos jardins, nem estender esta conversa hoje. Se houver uma questão diplomática concreta, enviem-na por escrito. Se não houver, desejo-lhes uma boa tarde.
A frase foi tão limpa quanto uma porta fechando.
Sena tentou sorrir como se nada ali tivesse sido recusado. Mira baixou os olhos. Teyna pareceu levemente ruborizada. Alis assumiu a quietude elegante dos que preferem recolher-se antes do constrangimento crescer. Lysa sustentou o olhar de Tarla por um segundo a mais, talvez para medir se havia qualquer possibilidade residual de curva, suavização ou exceção.
Tarla não ficou o suficiente. Ele apenas inclinou a cabeça, educado, e se afastou em uma direção específica.
A atenção das Cavaleiras o seguiu, e então todas perceberam para onde ele ia — ou melhor, para quem.
Rum’ea acabava de atravessar a arcada que ligava o corredor ao jardim interno. Baixinha em comparação com quase todos ao redor, os cabelos negros longos soltos às costas sem qualquer domesticação, o holopad aceso diante do rosto e outros três presos contra o corpo, ela caminhava com aquela concentração agressiva que lhe permitia ler, pensar e existir no espaço ao mesmo tempo sem jamais parecer totalmente levar em consideração o fato de que o espaço continha outras pessoas. As vestes do Templo, com seus discretos detalhes em azul, marcavam inevitavelmente a forma cheia e curvilínea de seu corpo quando se movia, e o balanço natural de seus quadris — que para Tarla era um dado neutro como o modo de alguém distribuir o peso ao andar — foi percebido imediatamente, atrás dele, de outro modo.
Ele não precisou olhar para as Caleiras para sentir a mudança nelas.
Houve irritação. Ciúme. Um tipo de análise rápida e instintiva, afiada pela comparação. Tarla sentiu a atenção delas cair sobre Rum’ea, sobre a juventude dela, sobre o contraste entre o corpo pequeno e as curvas, sobre o caminhar que as próprias Cavaleiras, em graus variados, leram como alguma forma de feminilidade perigosa ou calculada, embora ele soubesse, com a neutralidade tranquila de quem conhecia o vínculo, que em Rum’ea aquilo era apenas hábito de sobrevivência inscrito em músculos antigos, não performance. Sentiu também a pergunta muda, amarga: é para ela que ele vai? Aquela Padawan? Aquela?
Ignorou tudo, porque os sentimentos privados delas não lhe diziam respeito de fato, e porque, se fosse sincero, admitiria que não se importava.
Rum’ea sequer percebeu as Cavaleiras ou, se percebeu, classificou-as como parte irrelevante da paisagem no mesmo instante em que se sentou na borda de pedra da fonte do jardim, ainda lendo. A água corria ao centro em fios finos, e a luz do entardecer fazia a superfície brilhar. Tarla atravessou o espaço até ela com a serenidade de sempre, embora por dentro já sentisse o alívio chegando antes do corpo alcançá-lo.
Ela só o notou quando ele parou diante dela.
Rum’ea ergueu os olhos do holopad, sem susto. Apenas confusão.
— Tarla? — Disse ela em voz alta, franzindo o cenho em confusão. – Já liberaram você? Pensei que o prenderiam naquela sala por mais tempo.
Tarla sentou-se ao lado dela na borda da fonte.
Foi quase imediato o modo como a fadiga mental se reorganizou. Não desapareceu, já que reuniões administrativas não se anulavam por milagre, nas a presença de Rum’ea, o vínculo aberto, o ruído familiar da mente dela e a honestidade total daquele encontro desmancharam algo rígido em sua cabeça. Nenhuma intenção lateral. Nenhuma suavidade com segundas camadas. Nenhuma expectativa mascarada de pergunta profissional. Apenas Rum’ea, quatro holopads, água correndo e um problema real.
O que você está lendo? perguntou ele pelo vínculo.
Rum’ea virou de novo o holopad para si, a mente já correndo.
Eu estava vendo a missão para Kherat-Vel daqui a uma semana. A intenção era só verificar uma coisa e talvez mandar uma nota para a delegação que vai ser enviada, porque achei um termo estranho, mas então encontrei outro, e depois um problema cerimonial inteiro, e depois mais dois, e agora acho que vão ofender metade do planeta sem nem perceber.
Tarla estendeu a mão. Ela lhe entregou o holopad sem hesitação.
Ele leu.
Primeiro a linha central do documento. Depois as anotações laterais de Rum’ea. Depois os trechos destacados em duas línguas, com equivalências propostas e notas sobre contexto ritual. A missão parecia, à primeira vista, simples: mediação final de um acordo de redistribuição hídrica e reconhecimento protocolar entre duas castas locais. O problema, porém, estava exatamente onde Rum’ea apontara. O Basic padrão usado pela equipe do Templo achatava distinções que, na língua local, separavam reverência de submissão, parceria de tutela, concessão de obrigação e honra de reparação. Pior ainda, a ordem cerimonial prevista para a entrada da delegação invertia uma prática de precedência que, naquele planeta, faria parecer que a Ordem Jedi estava se colocando como instância de julgamento acima dos anfitriões.
Rum’ea estava certa.
Muito certa.
Tarla releu um dos trechos, sentindo o pensamento dela ao lado do seu: rápido, nervoso, satisfeito por ele acompanhar, inquieto porque talvez houvesse ainda mais erros escondidos ali.
Você mapeou isso sozinha?
Mais ou menos. A Força ficou empurrando termos na minha cabeça, então fui atrás para ver se eu estava inventando coisas. Acho que eu não estava inventando coisas.
Não estava.
Ela soltou ar pelo nariz, ainda meio desconfiada da própria descoberta.
Se mandarem alguém sem corrigir isso, a missão vai começar torta.
Vai.
Então eu ia só mandar uma nota. Talvez um aviso. Talvez seis avisos.
Tarla continuou lendo com atenção.
Ao fundo, muito distante, as cinco Cavaleiras já se afastavam pelo corredor, mas ele nem precisava vê-las para saber que ainda carregavam consigo alguma irritação mal resolvida. E foi aí, com o holopad de Rum’ea entre as mãos e a mente dela batendo hipóteses na dele como pequenas ondas rápidas, que um pensamento lhe veio com nitidez quase seca.
Rum’ea era mais jovem do que todas as Cavaleiras que o haviam interceptado.
Muito mais jovem em certas coisas. Mais áspera. Mais imprevisível. Mais ferida. Mais tardia no Templo e em tudo o que o Templo supunha ensinar cedo.
E, ainda assim, não o cansava.
Não o fazia pensar imediatamente na juventude dela como distância incômoda, nem o colocava em alerta fatigado diante de insinuações que não lhe diziam nada. Não flertava. Não performava interesse. Não o abordava como símbolo. Não convertia cada aproximação em jogo social. Sentava-se ao lado dele com quatro holopads, uma teoria linguística e a expectativa silenciosa de que ele lesse com seriedade. Era jovem, sim, mas a juventude dela não se apresentava a ele como teatro. Vinha como presença inteira, trabalho, vínculo, ruído, honestidade e inteligência.
Tarla devolveu o holopad a ela.
Rum’ea o recebeu de volta, imediatamente procurando no rosto dele algum sinal da avaliação.
Você está certa, disse ele pelo vínculo. E isto não pode ser deixado para uma simples nota marginal.
Ela piscou.
Não?
Não.
Tarla se levantou.
Rum’ea ergueu o rosto para ele, confusa.
Venha comigo, disse ele, e havia uma decisão muito clara já formada por baixo da calmaria.
Para onde?
Setor administrativo de designação de missões do Conselho da Reconciliação. Eu mesmo vou solicitar ser enviado para essa missão. E você vai comigo.
Por um segundo, a mente dela ficou em branco.
Depois veio uma explosão contida de surpresa, satisfação, urgência e a reorganização instantânea de mais quinze ideias.
— Agora?! — Perguntou ela em voz alta, já recolhendo os três holopads desligados com mais firmeza.
— Agora. — Respondeu Tarla.
Ela se levantou de um pulo controlado, quase deselegante de tão rápida, e se alinhou ao lado dele como se não tivesse feito outra coisa a vida toda. O vínculo entre ambos permaneceu aberto, limpo, confortável.
Enquanto se afastavam da fonte e tomavam o corredor na direção das salas administrativas, Tarla percebeu que a exaustão da reunião anterior continuava existindo, mas já não pesava do mesmo modo.
Ao seu lado, Rum’ea já estava tentando organizar em ordem lógica todas as falhas linguísticas e cerimoniais que teria de explicar. A mente dela corria à frente do próprio passo, e ele a acompanhava com a atenção tranquila de quem, mais uma vez, descobria que o silêncio que desejara encontrar no próprio quarto podia esperar.
Havia coisas mais úteis a fazer.
E, ao contrário do que acontecera minutos antes, essa companhia não lhe custava nada. Pelo contrário – oferecia.
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