A luz da manhã filtrava-se fracamente pelas raízes do teto na Câmara Alta, lançando feixes de poeira dourada sobre o posto do Chefe. O silêncio que preenchia os túneis do grande viveiro Canto do Sussurro não era a paz do entardecer, mas o de uma respiração contida, como se o próprio viveiro estivesse prendendo o fôlego diante do inevitável. O cheiro de terra úmida e feno doce fora sufocado por um odor metálico e frio, um rastro que ainda emanava do local onde o Chefe Hollow fora encontrado — seu corpo robusto jazia no topo de um monte de feno, perfeitamente imóvel e em uma pose majestosa, mas com o olhar fixo no vazio. O horror não é o corte, mas o fato de que, mesmo morto, seu olho parecia apontado fixamente para os três coelhos que ali o encontraram.

Hester foi a primeira a chegar, equilibrando mentalmente os problemas do dia — uma infiltração no Túnel Sul e a escassez de trevo jovem. Sua pelagem ruiva e amarronzada brilhava sob a luz, uma cor tão viva que parecia deslocada naquele ambiente carregado. Ela parou a poucos passos do trono de terra, o relatório morrendo em sua garganta.

— Senhor? — ela sussurrou, a voz falhando.

Ceder surgiu das sombras laterais como um vulto de ônix. O coelho preto era uma massa de músculos e cicatrizes, marcas de dentes e garras que contavam histórias de invasões repelidas. Ele não relaxava; seus olhos percorriam o perímetro por instinto, mas sua postura vacilou ao ver o Chefe.

— Ele não se moveu desde a ronda da madrugada — disse Ceder, a voz rouca como cascalho sendo esmagado. — Achei que estivesse em meditação profunda.

— Meditação não gela o sangue, Ceder — a voz de Elder veio de trás deles. O ancião caminhava devagar, sua pelagem cinza tão surrada que parecia prestes a se desfazer, contrastando com a barba branca que tocava o chão. Ele se aproximou do corpo com uma calma perturbadora.

Hester recuouum passo, as orelhas baixas e trêmulas — O que é aquilo no pescoço dele? Não parece... não parece um ataque de raposa. É muito reto. Muito limpo.

Um rosnando baixo veio de Ceder, sentindo o peso do próprio fracasso — Eu estava no corredor. Ninguém passou por mim. Nada entrou no Viveiro, Hester. Pelos deuses, eu teria ouvido um grito! Eu teria sentido o cheiro!

O Ancião inclinou-se, os olhos nublados pela catarata fixos na ferida — Não houve grito porque ele não lutou. Olhem para a posição dele. Ele morreu olhando para baixo, para todos nós, como se ainda estivesse dando ordens.

— Elder, olhe a marca... sob o queixo. É o símbolo do “Sopro da Terra “? Vovó Liry sempre me contava sobre a tão temível profecia. — Disse Hester, preocupada.

— Não, pequena Hester. É o símbolo de nós mesmos. O corte é um espelho. Ele se achava tão alto que a terra precisou abrir uma boca em seu pescoço para que ele finalmente pudesse ouvir o que vem de baixo. — Elder sabia, sabia que a profecia logo chegaria à sua execução.

Ceder então começou a bater a pata traseira com força no chão, um som seco que ecoou pelos túneis — Isso foi um assassinato! Alguém de dentro... alguém que conheça as minhas rondas. Eu vou revistar cada toca. Vou arrancar a pele de quem fez isso.

Elder parecia não se intimidar pelo ocorrido— A raiva não vai encontrar o que a sombra escondeu, Ceder. O Chefe caiu pela sua Soberba. Ele acreditava que suas cicatrizes e sua guarda eram o suficiente para parar a Força Maior.

— E agora? Quem eu entrego este relatório? O viveiro vai entrar em colapso se souberem que o Chefe... que ele foi colhido assim.

O Ancião então girou seu corpo para observar os dois coelhos à sua frente, a barba branca manchada pela poeira do chão — O relatório agora é outro, Hester. Vá até a toca de Vesper. Diga a ela que o ciclo começou. E Ceder... guarde a entrada, mas não para o que está fora. Guarde-a para que o medo não saia daqui antes de terminarmos o que deve ser feito.

O barulho dos três corações batendo descompassados parecia preencher todo aquele local.

Hester não esperou por uma segunda ordem. Ela se virou e correu, sua pelagem ruiva reluzindo como uma brasa moribunda enquanto desaparecia na penumbra do túnel secundário. O som de suas patas batendo no solo compactado foi ficando cada vez mais abafado, até que o silêncio da Câmara Alta voltou a se fechar, denso e sufocante, sobre os dois que ficaram.

Ceder permaneceu estático, os olhos fixos no corpo do Chefe. O coelho preto parecia uma estátua de carvão esculpida pela própria dor. Suas cicatrizes, normalmente símbolos de glória, agora pareciam sulcos de vergonha sob a luz pálida.

— Como? — a voz de Ceder saiu como um rosnado baixo, vibrando em seu peito robusto. — Eu cerquei este lugar com o melhor que o Viveiro tem. Meus guardas são sombras, Elder. Nada respira sem que eu saiba.

— O problema, meu caro Ceder — respondeu Elder, aproximando-se da borda do trono de terra e passando a pata trêmula pela barba branca — é que você estava procurando por dentes e garras. Você esqueceu que a terra não precisa de mãos para colher o que é dela.

Um súbito deslocamento de ar percorreu a câmara. Não era uma brisa vinda da superfície, mas um sopro gélido que parecia brotar das fendas mais profundas das paredes. O Sopro da Terra passou por eles, fazendo os pelos de Ceder se eriçarem e a longa barba de Elder ondular levemente. Por um segundo, o cheiro de decomposição e raízes velhas tornou-se insuportável.

O Sentinela estava lutando contra si mesmo para manter a posição, as narinas tremendo — Você fala como se soubesse que isso aconteceria. Como se o Chefe fosse apenas o primeiro de uma lista que você já leu.

O coelho de barba longa, olhou para o teto, onde as raízes pareciam se contorcer como veias) — Eu não li a lista, Ceder. Eu sou apenas o velho que ouve os sussurros que o solo traz. O Chefe acreditava ser o sol em torno do qual o Viveiro girava. A Soberba é um fruto pesado... e o Sopro da Terra sempre começa derrubando o que está no topo.

— Se Hester trouxer a Vesper... os outros vão exigir sangue. Eles vão querer um culpado. Se eu não der um corpo a eles, eles vão dilacerar uns aos outros. — Disse Ceder, preocupado com a recém chegada no local.

Então dê a eles o que eles precisam: a verdade de que o perigo não está nos túneis, mas no que eles carregam no coração. — Elder sabia do que falava, sabia que algo de errado estava acontecendo. — Vá, Ceder. Tranque as passagens principais. Não permita que nenhum coelho saia do setor de dormitórios. O isolamento será a nossa única chance de conter o pânico… ou de pelo menos garantir que o próximo pecado seja colhido em silêncio.

Ceder assentiu, um movimento rígido e relutante. Ele lançou um último olhar para o Chefe Coelho — outrora o símbolo de ordem, agora apenas uma casca vazia marcada pela inevitabilidade — e mergulhou na escuridão do corredor de guarda.

Elder ficou sozinho com o morto. O ancião suspirou, e o som se misturou ao vento subterrâneo. Ele se sentou sobre as patas traseiras e começou a murmurar, tão baixo que apenas a terra podia ouvir:

"O primeiro suspiro levou a coroa... o segundo busca o olhar que cobiça. Que a terra seja leve para quem não tem culpa, e que o Sopro seja rápido para quem a provoca.

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A corrida de Hester era um borrão de cores quentes contra as paredes frias e úmidas. Seus pulmões ardiam, não apenas pelo esforço, mas pela sensação de que o próprio ar do túnel estava ficando mais ralo, como se o Sopro da Terra estivesse drenando o oxigênio de cada passagem lateral. Ela finalmente chegou à entrada da toca de Vesper, uma fenda estreita protegida por raízes retorcidas, e parou, ofegante.

Dentro da toca, Vesper estava acordada muito antes de ouvir as patas de Hester, muito cansada; não parecia ter dormido a noite inteira. Ela estava encolhida no fundo do cubículo de terra, com os olhos fixos na entrada. O silêncio lá fora era absoluto, mas dentro de seus ouvidos, o som de seu próprio coração parecia uma batida de tambor anunciando uma execução. Quando o vulto de Hester obscureceu a pouca luz que vinha do corredor, Vesper se encolheu ainda mais contra a parede.

— Vesper! — o sussurro de Hester veio carregado de pânico e poeira. — Você está aí? Diga que está aí.

Vesper levou um momento para encontrar a própria voz. Suas cordas vocais pareciam secas como feno velho.

— O que você quer, Hester? Ainda não é hora do relatório. O sol nem sequer tocou as raízes externas.

Hester entrou na toca, o cheiro de medo emanando de sua pelagem ruiva. Ela se aproximou o suficiente para que Vesper visse o tremor em suas orelhas.

— O relatório... — Hester soltou uma risada nervosa e curta, que mais pareceu um soluço. — Não há mais relatório, Vesper. O Chefe foi colhido.

Houve um silêncio pesado. Vesper sentiu um calafrio percorrer sua espinha, o mesmo ar gelado que Elder e Ceder haviam sentido na Câmara Alta.

— Colhido? Do que você está falando? Alguma raposa conseguiu entrar? Ceder falhou? — Vesper começou a questionar, muito ansiosa.

— Ninguém falhou, Vesper. Ou talvez todos tenhamos falhado. Ele está morto. Mas não há sangue de predador, não há rastro de luta. Há apenas... uma marca. Uma abertura no pescoço que parece um sorriso feito de silêncio.

Vesper: (Sentindo a claustrofobia da toca apertar seu peito) — Por que você veio até aqui me contar isso? Eu sou apenas uma moradora de túnel lateral, Hester. Por que eu?

Hester: (Engolindo em seco, os olhos fixos nos de Vesper) — Porque o Elder mandou. Ele disse que o ciclo começou. Ele disse que a Soberba caiu e que o Sopro da Terra está procurando o próximo.

Vesper sentiu o peso daquelas palavras. Ela sabia o que Elder queria dizer. Ser a principal suspeita ou a próxima vítima era uma distinção muito tênue naquele Viveiro, principalmente para ela uma recém chegada, acolhida pelo próprio Ancião.

Vesper: — Se o ciclo começou, Hester, ninguém está seguro. Nem eu, nem você com suas cores únicas, nem o Elder com suas lendas. O que mais ele disse?

Hester: — Ele disse para você se preparar. Ceder está trancando as saídas. Está mobilizando todos os guardas. Ninguém sai, Vesper. Estamos todos presos aqui embaixo com o que quer que esteja fazendo isso. E ele perguntou se você ouviu o Sopro. Você ouviu, não foi?

Vesper não respondeu de imediato. Ela olhou para as raízes acima de sua cabeça, que pareciam estar descendo lentamente, milímetro por milímetro, para esmagá-las.

— Eu não ouvi o Sopro, Hester — sussurrou Vesper, a voz carregada de um pressentimento sombrio. — Eu senti o cheiro dele. Tem cheiro de terra que nunca viu o sol.

Hester agora olha para Vesper com uma mistura de pena e desconfiança.

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Ceder emergiu do túnel da Câmara Alta como uma sombra que se desprendia da parede. Ele não correu; sua caminhada era pesada, deliberada, fazendo a terra vibrar sob seus músculos potentes. Ao chegar ao Pátio das Raízes — o nó central onde os principais túneis se cruzavam — ele parou. O ar ali estava mais frio, e o cheiro do Sopro da Terra ainda pairava, invisível e gélido.

Com um movimento brusco, Ceder ergueu a pata traseira e desferiu três batidas violentas contra o solo compactado. O som, o temido thump de alarme, ecoou pelas galerias como trovões subterrâneos.

Segundos depois, vultos começaram a emergir da escuridão. Flint, com seu olhar de pedra; Thorn, eriçado e pronto para o conflito; e Ash, movendo-se tão silenciosamente que parecia feito de fumaça. Mais meia dúzia de coelhos robustos se alinharam, formando um semicírculo de pelos e tensão diante de Ceder.

Ceder: (Sua voz de cascalho cortando o silêncio) — O Chefe caiu. Não pelas garras de cima, mas pelo vazio de baixo. O Sopro da Terra reivindicou a Câmara Alta.

Um murmúrio de terror percorreu os guardas. Thorn deu um passo à frente, os dentes à mostra.

Thorn: — Quem entrou, Ceder? Qual predador passou por você?

Ceder: (Encarando Thorn com um olhar que silenciaria um lobo) — Nenhum. E é por isso que vocês vão selar as entradas. Flint, leve três homens para a Saída do Carvalho. Entulhem o túnel com pedras e raízes mortas. Nada entra, mas, mais importante... nada sai.

Flint: — Mas e o pasto? E a colheita do amanhecer? Se nos trancarmos, o pânico vai nos devorar antes da fome.

Ceder: — Deixe que o pânico tente a sorte contra os meus dentes, Flint. Se algum coelho tentar romper o bloqueio, contenha-o. Se o Sopro está caçando pecados, não permitirei que ele saia deste setor. Ash, você e os outros guardem os túneis de ventilação. Se sentirem o ar esfriar... se o cheiro de terra velha ficar forte demais... batam o alarme e recuem. Não se luta contra o vento.

Ash: (Sussurrando, quase invisível na penumbra) — E se o assassino já estiver entre nós, Ceder? Se estivermos trancando o lobo dentro do galinheiro?

Ceder olhou para as próprias cicatrizes, sentindo o peso de cada batalha que venceu contra inimigos que ele podia ver.

Ceder: — Então morreremos como soldados, e não como presas em fuga. Movam-se! O sol está subindo, e a escuridão precisa ser contida.

Os guardas se dispersaram com uma eficiência mecânica. O som de terra sendo cavada e pedras sendo arrastadas começou a preencher o viveiro, transformando, aos poucos, o que era um lar em uma fortaleza. Ou, como Ceder temia secretamente, em uma tumba perfeitamente selada.

Em poucos minutos, a Saída do Carvalho se tornou um caos de terra sendo movida e pedras arrastadas quando o estrondo de patas em fuga interrompeu o trabalho de Flint. Antes que os guardas pudessem reagir, um vulto cinza e robusto irrompeu pela abertura, movendo-se com uma agilidade que desafiava seu porte. Logo atrás dela, três coelhos ofegantes tentavam, sem sucesso, cercá-la.

Ceder atravessou o pátio com um rosnado, colocando-se como uma barreira de músculos entre o recém-chegado e o coração do Viveiro.

— Parem! — a voz de Ceder ecoou, paralisando os perseguidores.

A coelha cinza parou bruscamente a poucos passos dele. Sua pelagem era manchada de branco em padrões que lembravam nuvens de tempestade, e seus olhos eram profundos, carregando um brilho que não vinha da luz da superfície, mas de uma clareza interna perturbadora. Ela não parecia intimidada pelas cicatrizes de Ceder ou pelo cerco dos guardas.

Cobye: (Recuperando o fôlego, mas mantendo a voz firme e autoritária) — Eu não sou uma invasora, Sentinela. E esses três — ela apontou com a orelha para os guardas exaustos atrás dela — deveriam gastar sua energia selando as fendas, não correndo atrás de quem traz o aviso.

Ceder: — Quem é você? Nenhum estranho entra no meu setor enquanto o sangue do Chefe ainda está quente. De onde você veio?

Cobye: — Venho do Viveiro das Brumas, do outro lado da Grande Raiz. Mas meu nome não importa tanto quanto o que me trouxe. Eu sou Cobye. E não vim por política ou por feno.

Ela deu um passo à frente, e Flint rosnou, mas Ceder levantou uma pata, pedindo silêncio.

Cobye: — Eu senti o tremor antes dele chegar. O Viveiro de onde venho conhece os sinais. Quando o ar para de circular e a terra começa a suspirar, não é um predador comum que vocês enfrentam. Eu sigo o Sopro da Terra, Ceder. Ele me chamou através do solo como um grito que só os que servem ao espírito podem ouvir.

Ceder: (Estreitando os olhos, desconfiado) — Um chamado espiritual? O Elder fala de lendas, mas eu lido com a realidade. O que uma investigadora de outro viveiro pode fazer contra o que nem eu consigo ver?

Cobye: — Você vê cicatrizes e inimigos de carne, Ceder. Eu vejo os fios que ligam o pecado ao silêncio. O Sopro da Terra não mata por fome; ele mata por balanço. Se ele começou o ciclo aqui, este Viveiro está em dívida com o Solo. Eu vim para descobrir quem contraiu essa dívida antes que a terra decida cobrar de todos vocês.

Os três coelhos que a seguiam finalmente pararam de tentar cercá-la, olhando para Ceder em busca de direção. O clima de desconfiança era palpável. Para os guardas, ela era uma estrangeira maluca; para Ceder, ela era uma variável que ele não podia controlar.

Ceder: — Se o Sopro a chamou, Cobye, espero que ele também a proteja. Porque, a partir de agora, ninguém entra e ninguém sai. Se você quer investigar, comece pela Câmara Alta. Mas saiba de uma coisa: se eu descobrir que o seu "chamado" é apenas uma desculpa para esconder o rastro do assassino, as suas feridas serão bem mais reais do que as do espírito.

Cobye: (Com um sorriso pálido e enigmático) — Justo. Mas apresse seus homens, Sentinela. O Sopro não espera pelo selamento das portas. Ele já está dentro. Ele sempre esteve.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.