A Profecia de Alaundo
1 Ser Como Ele
Assim como em todas as primaveras, as flores brotavam nos galhos das robustas árvores de Candlekeep sem nenhuma timidez. Era manhã de Mirtul e o monastério ainda dormia. Os monges, os tecelões, os serviçais e os cozinheiros ainda se encontravam em outro mundo enquanto sorrateiramente alguns vultos pulavam os muros de Candlekeep, direto para fora.
Samela era uma das órfãs que residiam em Candlekeep, assim como Imoen, Kevon, Burt e Faun. Todos possuíam por volta de seus vinte anos e não tinham outra morada ou conhecidos que não fosse o monastério e seus moradores.
Kevon, no entanto, estava próximo de partir para servir como guarda em Baldur’s Gate – a principal cidade de toda a Costa da Espada – e Burt não estava muito atrás. Faun notadamente estava abalada pela futura ausência do amigo, mas também estava feliz na mesma intensidade. Theresia, a velha cozinheira e de certa forma conselheira, sempre dizia que ela seria a única das meninas a conseguir um bom casamento, algo que era difícil para uma garota órfã, e sempre cobrava a mesma conduta de Samela e Imoen. Essas duas últimas eram inseparáveis, assim como eram as únicas que nunca conheceram nem mesmo uma cidade além dos muros de Candlekeep. Os jovens se limitavam a caçar pequenos animais nas proximidades do monastério quando mais novos, escondidos dos guardas e dos monges, é claro. E lá estavam todos eles, pulando os muros como sombras pela última vez, como uma despedida especial de Kevon.
"Um dia devemos agradecer ao tio Jondalar pelos treinamentos," disse Kevon do outro lado do muro, apoiando os braços de Faun enquanto ela descia cuidando para não se arrastar demais no muro.
"Só não podemos dizer o porquê do agradecimento." Samela deu uma piscadela em direção a ele enquanto tirava seu arco das costas. "Venham, vamos por aqui. Faz tempo que não pegamos essa trilha."
Por entre a mata fechada os cinco seguiram, cuidadosos e silenciosos. Samela, por entre os fios cor de prata de seu cabelo, olhava de soslaio para Kevon e logo em seguida para Burt; reparava como eles caminhavam como se o território fosse deles, como leões se exibindo para os seus inimigos. Queria ela ter a mesma confiança e o mesmo conhecimento do mundo de fora. Apesar de conhecer bem a mata próxima a Candlekeep, não se sentia segura o suficiente para encarar o mundo, no entanto, possuía sede de liberdade.
"Esperem." Imoen disse baixinho, cessando os passos. Sacou seu arco e flecha e correu dando pulos abafados para uma árvore próxima, escondendo-se de algo.
Todos os outros a seguiram e imitaram seus passos.
Kevon empunhou sua espada longa de um aço fajuto e se escondeu atrás de uma árvore ao lado de Imoen. Burt fez o mesmo e se dirigiu para uma moita, junto de Faun, que estava silenciosa como sempre com o seu estilingue. Samela, para dar cobertura, seguiu para uma árvore mais atrás do restante do grupo.
"Um urso. Caramba. Ele é enorme." Burt arregalou os olhos enquanto segurava sua espada um pouco mais firme.
O urso olhou lentamente para o lado oposto do grupo. Seu nariz se mexia levemente apontando para cima.
"Belo achado, Immy." Samela sussurrou enquanto preparava o arco na posição de ataque. Mestre Jondalar com certeza ficaria orgulhoso com aquela caça. Nada de coelhos ou javalis, um urso seria o suficiente para ele e todos os monges cessarem a reclamação pelo fato de, mais uma vez, eles terem saído escondidos da fortaleza. E quem sabe Gorion, seu pai adotivo e tutor, finalmente mudaria de ideia e decidiria que Samela poderia muito bem viajar para Baldur’s Gate, ou ao menos cuidar da própria vida, assim como ele próprio fazia.
Seu pensamento estava tão longe que até mesmo a doce voz de Faun a assustou levemente.
"Acho melhor irmos embora. Nunca caçamos nada tão grande, isso pode acabar mal." A voz saiu quase como um suspiro.
Todos ali presentes sabiam que não era covardia. Faun era uma poetiza, uma dançarina, uma dama, porém era leal demais para deixar os amigos sozinhos. Com a sua delicadeza, Samela pensou, era ela quem os salvava de várias encrencas. Ela conseguia convencer os monges.
No entanto, encontrar um urso era bom demais para ser ignorado, ainda mais tão próximos da despedida do Kevon. Era o presente perfeito.
Kevon, sempre todo corajoso, se arrumou em posição de ataque. Olhou fixamente para o urso, que agora mexia em algo na terra. O rapaz posicionou sua espada e fez sinal de calma com as mãos para os demais. Olhou para Imoen e logo depois para Samela, um sinal que as duas entendiam muito bem.
Elas miraram com suas flechas e atacaram, acertando o urso em cheio, que após um intenso urro, correu em direção ao grupo em cega fúria. Kevon e Burt correram com suas espadas preparadas para perfurar o animal, mas este, muito mais forte, acertou Burt com uma das patas. O rapaz caiu longe, e lá permaneceu com muita dor. Kevon, de sua parte, de tão preocupado com o amigo, não sabia se continuava atacando ou corria para o garoto. O urso cresceu diante dele e Samela gritou, tensa, parando de atirar por breves segundos, mas logo o animal foi acertado por um misterioso punhal e várias flechas. Ele continuou em pé, aparentemente queria acertar Kevon. Samela largou o arco no chão e começou a preparar um feitiço, mas a espada de alguém desconhecido perfurou o animal no lado esquerdo do peito. Ele mancou um pouco e tentou fugir, porém, caiu pouco longe do grupo. O feitiço de Samela se dissipou.
"Tome mais cuidado, garoto," disse o homem desconhecido, portador da espada. Logo atrás dele estavam mais dois homens – um deles era um meio-elfo e estava segurando um punhal, possuía alguns outros guardados em várias bainhas em sua cintura, o outro segurava um arco.
"Burt!" Faun gritou e correu em direção ao amigo, seguida por Imoen.
Samela andou para perto de Kevon, mantendo seus olhos desconfiados nos homens que ali estavam.
"Obrigada," ela disse num tom mais seco do que queria fazer soar. "Quem são vocês?"
O homem olhou para seus companheiros e logo depois para ela.
"Meu nome é Carbos, estes são Shank e Drario. Somos apenas aventureiros investigando a Crise do Ferro. Estamos em busca de uma boa recompensa."
"Aventureiros?" perguntou Imoen, com seus olhos atentos.
Carbos deu um sorrisinho, colocou sua espada novamente na bainha em sua cintura e andou calmamente até Burt, que estava gemendo no chão com a mão no braço. O homem se abaixou e deu uma olhada por cima, como quem analisava a lesão.
"Parece que temos um braço quebrado."
Faun prontamente colocou as mãos sobre o braço do garoto e se concentrou. Olhava firmemente para onde devia estar a lesão, até que de suas mãos saiu uma tímida luz levemente lilás.
Carbos olhou para a garota, aparentemente surpreso, logo em seguida virou-se para Samela. Parecia analisar algo em seu rosto, como quem havia descoberto uma grande surpresa.
"De onde são vocês? Parecem muito jovens para estarem andando por esses lados."
"Somos de Candlekeep," disse Kevon, "e conhecemos bem esses lados."
"Ah! Não me levem a mal, não duvido da capacidade de vocês. Apenas devem tomar cuidado. Vocês sabem, com essa Crise do Ferro muitas coisas estranhas andam acontecendo por aí. Bandidos estão soltos saqueando caravanas. Ninguém está seguro."
Nesse momento, Samela olhou, séria, para Carbos e logo em seguida para os outros dois. Shank, o meio-elfo ainda com o punhal na mão, percebeu e deu um sorriso jocoso para a garota, logo em seguida guardou o punhal numa das bainhas de sua cintura e caminhou para onde Burt continuava caído.
"Acho melhor levarem o garoto para Candlekeep," disse ele, "quem sabe se pode quebrado mais algo?"
"Não fale assim, Shank, vai assustar as crianças." Carbos se levantou e olhou para o amigo. "Mas você está certo. Bem, se vocês permitirem, gostaríamos de ajudar a levar o amigo de vocês de volta para a biblioteca."
"Não será necessário." Samela disse prontamente, e permaneceu olhando diretamente nos olhos de Carbos.
"O que disse?" O homem indagou.
"Não será necessário." Ela repetiu e continuou, "Não queremos dar mais trabalho."
Carbos permaneceu olhando para a garota por um instante, com um semblante sem expressão, então olhou para baixo e suspirou, se direcionando até Samela calmamente. Ele era muito alto e forte, e sua barba o fazia parecer ameaçador. Parou muito próximo a ela e disse olhando em seus olhos.
"Mocinha, é por isso que levaremos o seu amigo para Candlekeep. Uma pousada quente e uma galinha na mesa é tudo o que queremos, e não estamos afim de pagar um tomo para aqueles monges. Não nos dê mais trabalho, apenas nos leve até aquele maldito monastério."
A menina ainda olhava para ele, visivelmente nervosa torcendo de leve a boca. Kevon contornou a situação.
"Nos perdoe, senhor. Não quisemos ofender. Ficaremos felizes com mais uma ajuda, e garanto que os monges também ficarão." O rapaz andou até Samela e cochichou em seu ouvido, "Você está louca?"
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Samela estava sentada em sua cama com Nyla, sua pseudo-dragão, em seu colo, enquanto Gorion andava a passos pesados de um lado para o outro.
"Um urso! Samela, você tem noção do que poderia ter acontecido se aqueles homens não estivessem lá? O que poderia ter acontecido com Burt? Ou com Imoen? Ou com você?"
"Pai, nós só queríamos nos despedir do Kevon e..."
"Sem desculpas!" Gorion esbravejou. Logo em seguida respirou fundo e se sentou ao lado da filha, os tecidos de seu robe dobrando nas sobras. "Escute, minha filha, eu sei que o que você busca está lá fora, eu sei que estou te preparando há anos apenas para o que está lá, mas não quero que encontre da pior maneira. Você não vai encontrar nada se não pensar nos seus atos."
"Pai, eu já tenho vinte anos..." Sua voz tremia.
"Escute!"
"Não!" Ela se levantou com seus olhos se encharcando. Nyla voou para a beira da janela. "O que você espera de mim? Eu fui treinada a vida toda para enfrentar muito mais do que ursos. Você mandou que me ensinassem muito mais do que ensinaram para o Kevon, e no fim é ele quem está indo embora daqui! Eu vou ficar aqui até quando? Até a tia Theresia decidir que eu tenho que me casar como todas as outras órfãs que passaram por aqui?"
"Samela..."
"E daí eu não vou ser propriedade sua, eu vou ser propriedade de um homem qualquer que eu nem conheço!"
"Samela!"
"O que não é tão ruim, porque pelo menos eu vou ter um sobrenome e não vou mais ser apenas uma órfã!"
Samela virou-se e saiu correndo em prantos, batendo a porta com força. Ela não queria ter falado tudo o que saiu de sua boca. Sabia que acertara Gorion em cheio, mas estava tão exausta de ser aprisionada como as princesas dos tantos livros de romance que haviam na biblioteca. Ela nem ao menos tinha um sobrenome, mesmo sendo a adorada filha de Gorion Silverkin. Era uma sem-nome, uma órfã qualquer fadada a nunca sair do monastério de Candlekeep.
Declinou-se em uma das janelas da biblioteca e do alto da torre olhou para o horizonte. Imaginava como seria a chegada de Kevon em Baldur’s Gate. Como seriam suas honrarias por se tornar um guarda, e como deveriam ser as pessoas do lugar — os comerciantes, os moradores, os visitantes. Imaginava ainda mais longe, como seria o restante da Costa da Espada, as geleiras de Icewind Dale, ou como deviam ser lindas as terras dos elfos. Todas as terras pela qual seu pai viajou, e que ela esperava viajar um dia.
Ela queria, na verdade, ser como ele.
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"Você não deveria responder o seu pai. Ele só quer o seu bem," disse Theresia. "Ali, regue aquela tulipa. Tenho certeza que Imoen cuida sempre pela metade. A pobrezinha parece estar morrendo de sede faz dias."
Theresia conversava com Samela enquanto cuidava das flores do jardim que ficava em torno da enorme biblioteca. Ela era uma senhora muito bem vestida e possuía uma postura que nem de longe parecia ser a de uma pobre cozinheira.
Samela regava as tulipas silenciosamente, embora quisesse se justificar. Olhou para Theresia e respirou fundo.
"Você pensa que um dia sairei desse monastério?"
"Você sairá em breve." Theresia deu um risinho abafado.
"Ah!? Por favor, não me diga que aceitaram." Samela parecia desesperada com o que Theresia havia acabado de falar. "Tia, você sabe que não quero. Não vou me casar com ninguém."
"Samela, você já passou da idade de casar, mas ainda há tempo. Gorion também não está muito animado, mas não tem como negar, e a crise de ferro é a hora mais oportuna para esses arranjos. Juntar riquezas é o que todos querem no momento."
"Riquezas? Eu sou órfã!"
"Uma órfã que foi adotada por um dos magos mais poderosos da Costa da Espada. Dote é o que não vai faltar. Tenha boa vontade e logo será livre."
"Serei livre casada com um desconhecido, sem poder fazer outra coisa que não seja cuidar de uma casa?"
"Você nasceu mulher, é a única liberdade que poderá encontrar tendo uma vida justa e digna." Theresia deixou as plantas de lado para olhar firmemente para a garota perplexa em sua frente, pegando suas mãos sobre suas palmas. "Acredite, não é tão ruim quanto parece. Quando conheci Elinor tive medo. Me desapontei quando soube que ele não era um príncipe encantado, mas descobri que a realidade é a melhor coisa que poderia acontecer. Me casei com um tecelão e fui feliz com ele, jamais optaria pelo príncipe se pudesse voltar no tempo. Eu poderia dizer que trocaria qualquer coisa para trazê-lo à vida, mas eu não trocaria a vida real. Samela, é a única coisa que temos. Na vida real somos mulheres, é isso o que somos."
Samela permaneceu parada enquanto Theresia segurava suas mãos. Jamais me casarei, pensava. Poderia ser um príncipe, um rei, ou um tecelão. Jamais sairia de uma prisão para entrar em outra. Fugiria se fosse preciso. O que a deixava segura era saber que seu pai não era favorável à união, e esse foi um dos motivos para nunca ter se casado até então.
"Quem é ele?" perguntou baixinho.
"É um jovem guarda chamado Danel, da família Brightwood. Eles residem em Elturel, capital de Eltugard. É filho do conselheiro do Alto Supervisor. Você não será uma mulher rica, mas terá todas as regalias de uma. Faz alguns dias que a família está vindo para cá, para o noivado."
"E ninguém me avisou?" Samela estava incrédula. "Eu vou noivar daqui, sei lá, cinco dias, e ninguém se importou em me avisar?"
"Na verdade, devem chegar amanhã ou depois, Eltugard não fica tão longe daqui. Não contei porque eu sabia que teria essa reação. E sim, é óbvio que Gorion sabe, ele relutou, mas não tinha motivos para não permitir fora aquela eterna enrolação dele. Você deve viajar para Elturel em seguida e passará a viver na casa da família. Samela, digo a você desde quando não passava da minha cintura que é uma menina sortuda. Aliás, digo isso desde quando você era um bebezinho no colo de Gorion. Irá se casar com um homem que pertence a uma família de bom nome e em toda a minha vida em Candlekeep nunca vi uma órfã conseguir isso. Tymora deve olhar por você."
"Eu acredito que a senhora não entendeu, tia. Eu não quero me casar, não quero ser uma senhora em um casarão, regando as plantas e rindo para as visitas. Eu quero construir o meu próprio destino, a minha realidade. Vocês estão me jogando em uma vida que não é a minha."
Theresia passou a mão na bochecha de Samela carinhosamente com o olhar de quem lamentava o pensamento da menina.
"Querida, você irá se acostumar," disse, olhando em seus olhos. Logo em seguida se dirigiu à biblioteca, deixando Samela sozinha.
Samela olhou tristemente para o céu, imaginando o que o destino estava planejando. Queria ela ser uma adivinha, mas aparentemente Mystra não estava ao seu lado. Quase toda vez que Samela tentava completar um feitiço, ele se desfazia ou se transformava em outro, muitas vezes perigoso, assim como os feitiços dos Magos Selvagens. Estaria o destino ao lado das palavras da tia Theresia?
Ela então olhou para os magos que cantavam sem descanso as profecias de Alaundo que ainda não haviam sido cumpridas. Estavam sempre no mesmo lugar, ao lado da biblioteca. Dizia a lenda que eles nunca pararam de cantar desde a morte de Alaundo, um velho profeta que morou durante muitos anos em Candlekeep. Um pouco distante deles, no entanto, ela avistou Shank, o misterioso meio-elfo. Ele acenou com a cabeça e sorriu com um ar malicioso.
Samela sentia algo de errado nele, estava certa disso.
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Imoen quase cuspiu toda a água que estava tomando.
"O QUÊ? ELES ESTÃO VINDO MESMO?"
"Sim, a carruagem está vindo de Elturel. Eu não sei o que fazer. Quero sumir."
"Se você vai se casar, significa que deixará Candlekeep?" Immy se curvou e olhou nos olhos de Samela.
"Sim." Saiu seco. Rápido. Quase um suspiro.
Imoen colocou as mãos no ombro de Samela, em seguida se abraçaram. Todas as brincadeiras e as caças teriam que ficar na memória. A dor da saudade parecia bater forte no peito mesmo naquele instante.
"Eu não vou te deixar nunca, Samela."
"Eu sei, irmã. Eu sei.
Notas finais
Mirtul ?“ mês equivalente ao mês de maio no universo de Dungeon & Dragons
Tymora ?“ deusa da boa sorte no universo de Dungeon & Dragons
Mystra ?“ deusa da magia no universo de Dungeon & Dragons
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