A Profecia de Éter - A arma primordial
10 Capítulo 10 - Roubados
Muitas coisas aconteceram durante a nossa tentativa de chegar até o Olimpo. Luana estava certa quando disse que nós estávamos expostos fora das proteções do acampamento e embora tivéssemos um dragão ao nosso lado, não conseguimos nos livras dos monstros por muito tempo.
Decidimos por fazer a viagem ainda enquanto era noite porque assim seria mais fácil fugir dos olhares curiosos das pessoas que certamente estranhariam um grupo de sete adolescentes maltrapilhos e sujos, caminhando com uma grande criatura que suas mentes mortais tentariam compreender com a ajuda da Névoa.
Nas primeiras horas foi mais fácil ignorar o cansaço e a fome. Eu e Ricardo nos revezávamos na proteção de Ellene que seguia nas costas de Peleu, ainda desacordada. Eu sentia-me o pior namorado do mundo por não ter conseguido proteger a minha pequena e o mais patético filho de Apolo por não conseguir fazer nada para curá-la.
—Talvez ela apenas precise de um tempo para descansar. -Ricardo me falou, tentando me animar. Ainda assim, era difícil aceitar a opinião do filho de Hefesto, já que cada vez mais eu sentia que tudo aquilo era maior do que qualquer coisa que poderíamos imaginar.
Estávamos à uma hora de caminhada quando Ravenna, a filha de Hades que seguia à frente do grupo, parou subitamente, estendendo o braço direito de forma protetora à frente de Luana. Surpreendi-me com a atitude da garota que era conhecida no acampamento por se importar somente consigo mesma. Contudo, não tive tempo de desenvolver esses pensamentos, pois logo entendi o motivo da parada da semideusa. Não estávamos sozinhos!
Três criaturas humanoides surgiram das sombras e correram em nossa direção. No lugar de pernas os monstros possuíam duas caldas de serpentes, que deslizavam sobre o solo com uma velocidade espantosa. O ataque forçou o grupo a se separar, abrindo espaço no círculo que formávamos para desviar da primeira investida. As Dracaenaes usavam armaduras de guerra da cintura para cima e estavam munidas de armas.
—Kaleb, saí daqui com a Ellene. — falei alto o suficiente para o filho de Dionísio que estava do lado oposto ao meu escutar. Ele, que por algum motivo desconhecido tinha uma afinidade maior com o dragão que protegia o Velocino de Ouro, já estava sobre o dorso da criatura e mal escutou as minhas palavras, já estava voando para longe. Embora ele não fosse à pessoa mais responsável ou mesmo a com maior bom senso, eu acreditava que ele manteria Ellene segura.
Logo que vi o Dragão sumir na escuridão da noite puxei do pescoço o pingente de arco, sentindo o pequeno objeto transformar-se, como mágica, em um arco de verdade. Assim como outros semideuses, eu havia recebido aquela arma como um presente de reclamação do meu pai divino. Apolo, mais do que os outros deuses, parecia ter se tornado mais amável com os filhos desde que passou pela experiência de ser um humano. Acredito que com isso ele conseguiu cativar alguns dos parentes divinos.
Com o arco em punho, corri em direção a Dracaenae que também portava um arco. Eu precisava das flechas dela! Enquanto corria, consegui ver pela visão periférica as lutas que aconteciam ao redor. Sun e Moon, como era de se esperar, lutavam juntas contra a criatura que portava uma espada e mesmo que às filhas de Hermes não fossem as melhores lutadoras daquele grupo, juntas em seu estilo de luta particular, elas se davam bem. Um pouco mais ao lado, Ravenna e Luana uniram forças contra a Dracaenae que parecia ser a líder daquele trio e que estava tendo que se esforçar bastante para conseguir atacar e proteger-se dos golpes das filhas de Hades e Atena, que diferentes das gêmeas de Hermes, sabiam muito bem o que estavam fazendo.
Ricardo, mesmo não sabendo qual era minha intenção, colocou-se ao meu lado e seguiu também em direção à mulher serpente, sendo quase atingido por uma das setas que a mesma disparou na nossa direção, não fosse pelo leve puxão que eu dei no seu corpo, desviando-o da rota da flecha. -Obrigado, Rafael! — ele falou, olhando-me com sincera gratidão.
—Agradeça me ajudando a pegar a aljava dela! — falei, em tom descontraído, piscando somente o olho esquerdo para ele, formando a nossa aliança naquele instante. Agora ciente da minha intenção, o semideus não estranhou quando desviei a minha trajetória, indo na direção das árvores mais fechadas, saindo da batalha.
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Eu gostava de Rafael. O filho de Apolo sempre havia sido uma pessoa simpática com praticamente todos do acampamento e acho que foi exatamente essa característica que fez com que minha melhor amiga, Ellene, se apaixonasse por ele. Sem dúvida, o rapaz era o modelo perfeito de príncipe encantado! Mas, não fazia o meu tipo, ao contrário de certo novato do acampamento…
Enfim, focando no que é importante! Fomos atacados no meio do caminho por três mulheres cobra que facilmente conseguiriam tirar o sono de criancinhas, causando-lhes pesadelos devido tamanha feiura. Se houvesse um concurso de miss monstra, com certeza elas ganhariam. Eu já havia ouvido falar naquela espécie e mesmo que não me recordasse o nome, sabia que elas tinham sido uma das principais aliadas de Cronos durante a sua tentativa de reaparição, o que deixava ainda mais claro que não era coisa boa!
Empunhei o meu martelo logo depois que elas proferiram o primeiro ataque. Por azar talvez, fui o único a não ficar próximo de alguém depois que Kaleb abriu fuga, levando Ellene para longe do combate. Rapidamente os outros formaram duplas e passaram a enfrentar nossos oponentes e me restou fazer parceria com Rafael. E logo de cara o garoto me salvou de levar uma flechada no meio do peito! Junto com o meu agradecimento ele me contou o seu plano, o que impediu que eu achasse que ele estava fugindo da luta quando desviou o caminho e desapareceu no meio das árvores. Eu seria a distração que ele precisava!
—Ei, sabia que essa armadura não é nem um pouco eficiente para cobras? -gritei a Dracaenae que não estava na vibe para conversa, já que logo atirou duas flechas na minha direção, me obrigando a jogar o corpo para o lado. -Sem troca de shades, então? — não esperei resposta e lancei meu martelo na direção do monstro, que talvez não esperasse por esse tipo de ataque. As pessoas, sobretudo os guerreiros, subestimam a eficiência de um martelo. Aquele meu bebezinho, por exemplo, além de me ajudar na forja com as minhas criações era ótimo para combate de curta distância e em casos de desespero, como aquele, serviam como peso de arremesso surpresa!
O martelo atingiu em cheio o meio da testa da feiosa, arrancando o elmo que ela portava o que acreditem meus amigos, foi a pior coisa que eu poderia ter feito. Se antes ela já não tinha uma boa aparência, agora sem aquela parte da armadura… Beu Teuses! — Já pensou em fazer uma plástica, querida? — levantei e corri na direção dela, aproveitando ainda o seu estado atordoado. Das costas, puxei meu conjunto de tonfas retráteis, que com um simples movimento se expandiram para o tamanho ideal. Contudo, diferente da função a qual os outros costumam usar aquela arma, as minhas projetavam fogo pela sua extremidade. Quando as construí, usei os lança chamas como inspiração e uni as duas coisas, assim quando o combustível da tonfas chamas acabasse eu ainda poderia usá-las como arma de concussão.
O fogo atingiu uma daquelas pernas de cobra (cobra tem perna?) e fizeram com que ela recuasse e em seguida soltasse mais flechas na minha direção. Bem, ao menos até quando ela conseguiu encontrar flechas! Enquanto eu desviava dos projéteis e lançava fogo nela, Rafael sorrateiramente, como um gatuno, lhe furtava a aljava. Quando a dracaenae se deu conta, já era tarde demais! O filho de Apolo encaixou três flechas de uma única vez no arco e com graciosidade atirou na mulher serpente que tombou aos nossos pés. -This girl is on fire! — tentei imitar o agudo da Alicia Keys sem muito sucesso enquanto incinerava o corpo que se transformou em poeira e desapareceu.
As outras duplas venceram seus oponentes não muito tempo depois e somente às gêmeas que precisaram de uma ajudinha de Ravenna no final. Depois que nos reunimos chegamos a consenso que aqueles seriam apenas os primeiros monstros que surgiriam na noite. -Uma quantidade de semideus dessa reunida, fora da proteção do acampamento, deve estar exalando o cheiro para os monstros no mais profundo do Tártaro. — comentei, lembrando-me das aulas que já havia tido com Quíron no acampamento. Lembrar do centauro me fez pensar o que teria acontecido com ele…
—Eu sei de um lugar que podemos passar a noite. Não é muito longe daqui e pela manhã cedo podemos pegar uma condução até a ferrovia de Long Island. — Rafael falou, revezando o olhar entre o grupo e os céus. Sabia que ele estava preocupado, esperando Kaleb voltar com Ellene.
— Descemos na estação Penn, corremos até o Empire State, seiscentésimo andar e esperamos que nossos papais e mamães nos recebam com os presentes de Natal? — perguntei, sem conseguir deixar de ser irônico. Até aquele momento somente havíamos pensado em ir até o Olimpo, ignorando a possibilidade de como sempre os deuses não ajudarem em questões às quais semideuses podem morrer para salvar o mundo.
—Na verdade… — a voz veio das nossas costas e eu fui um dos primeiros a ver quem era. -Talvez a nossa única chance seja que eles nos ajudem. -Ellene carregava Kaleb de forma desajustada e o estado do garoto não parecia nada bom. Eu, Rafael e Luana corremos para ajudar.
—O que aconteceu? — perguntei espantado, pois eles pareciam ter enfrentado um exército inteiro.
—As Assombrações. — ela começou explicar ainda enquanto abraçava Rafael. -Quando acordei Kaleb estava lutando com meia dúzia delas. Elas levaram o dragão e o Velocino de ouro.
—Algo me diz que isso era exatamente o que eles queriam. — Luana falou, no exato momento em que Sun, Moon e eu caímos ao chão. Senti como se o peso do mundo tivesse sido jogado sobre as minhas costas e por segundo foi difícil respirar. Quando a sensação passou, sentia-me diferente, como nunca antes. Eu estava fraco, estava com medo e sabia que algo havia sido tirado de mim. E pelo que ouvi das filhas de Hermes, algo havia sido arrancado delas também.
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