Notas iniciais
Depois de uma completa escuridão tomar conta do acampamento no meio do captura a bandeira, seres desconhecidos surgem para testar a coragem dos semideuses. Ravenna Whitmore, Filha de Hades, é a primeira a ver como esses seres são perigosos e mesmo ela, uma das melhores combatentes do acampamento meio-sangue, não é páreo para essas criaturas. O que seriam elas? E mais do que isso, o que eles pretendem fazer ali?

Ravenna estava acostumada com a escuridão, pois, desde cedo obrigara-se a isso. Enquanto muitos temiam o desconhecido que vinha com a noite, a semideusa sentia-se confortável e segura. Todavia, naquele momento ela não conseguia sentir o menor conforto com toda aquela escuridão, sentindo em suas entranhas que algo de muito errado estava acontecendo. Mesmo sem conseguir se mover, a filha de Hades tentou de todas as formas tocar a sua espada, pois com ela sabia que estaria um pouco mais segura. Bem, ela não tinha como saber que estava imensuravelmente errada.

Quando por fim a escuridão chegou ao fim, da mesma forma que havia surgido, a prole do deus do submundo conseguiu respirar, sentindo o ar úmido da floresta preencher o seu peito, dando-lhe um imenso alívio. -Acabou. — sussurrou, colocando uma mecha do cabelo castanho atrás da orelha, tirando-o da frente dos olhos, vendo algo se mover no mesmo momento, à alguns metros à sua frente.

A princípio Ravenna pensou que era somente a sombra de uma árvore, mas segundos depois ela chegou a conclusão que as sombras das árvores não se moviam daquela forma. Colocando a espada em posição de ataque a semideusa se preparou para o que quer que fosse aquilo. E como se conseguisse compreender cada atitude de Ravenna, a sombra que antes era disforme, assumiu uma forma. Os olhos da garota acompanharam, sem entender exatamente como, as Sombras que eram mais escuras do que a própria noite, modelar-se no ar até surgir uma espécie de manto.

—Que merda é essa? — questionou-se a garota. O manto lembrava-lhe as caricaturas do que as pessoas acreditavam ser a morte, ainda que não houvesse uma caveira como rosto, olhos vermelhos e foice. Tudo era apenas escuridão! Apesar disso o ser parecia ter vida e logo que terminou de construir-se, partiu na direção da filha de Hades.

A semideusa pulou para o lado no exato momento em que a sombra aproximou-se o suficiente para tocá-la, não sem antes mover a espada executando um golpe que perfurou o manto da criatura. Em um humano aquele ataque provavelmente teria aberto um corte suficiente para que o atingido colocasse todo o intestino para fora. Na sombra, contudo, não parecia ter causado qualquer efeito, o que não podia-se dizer da espada da semideusa. Quando Ravenna olhou para o objeto em suas mãos notou que a lâmina escurecia aos poucos, ficando mais negra do que ferro estígio. Segundos depois o metal se dissolveu virando nada mais do que uma poeira negra que em vez de cair em direção ao solo, voou em direção a criatura negra, unindo-se ao corpo da mesma.

De olhos arregalados Ravenna encarou aquele ser que fugia de todos os seus conhecimentos. Fosse um monstro saído do Tártaro ou um deus desconhecido, a única coisa que ela tinha completa certeza era que não era páreo para ele. Concentrando-se o máximo que pôde ela tentou viajar pelas sombras e sair de onde estava, mas logo notou que isso também não adiantaria! -Está de brincadeira… — reclamou, vendo que da sombra que estava a sua frente uma segunda se originava. Antes que o processo se concluísse, a semideusa pôs-se a correr tentando alcançar a maior distância possível daquelas criaturas. Tinha percorrido cerca de três metros quando olhou sobre o ombro esquerdo para conferir se estava sendo perseguida, vendo, para seu alívio e espanto, que os seres formados de Sombras não estavam mais no ponto onde ela os havia deixado. -Sumiram. — falou animada, mas sem deixar de correr. Quando olhou para frente seu coração deu um salto. As Sombras estavam paradas diante dela e os seus pés corriam em direção ao encontro delas.

Antes que pudesse frear, as criaturas seguiram em sua direção mais rápidas do que a semideusa poderia prever, deslizando sobre as folhas caídas, deixando uma trilha de cinzas por onde passavam. Parando de súbito, Ravenna apenas conseguiu esguiar o corpo para trás sentindo o que deveria ser a mão do ser desconhecido encostar de raspação em seu tórax. Abaixando-se em seguida, a semideusa desviou de um segundo ataque e rolando para o lado tentou afastar-se mais uma vez do seu oponente. Estava de pé uma segunda vez quando notou que algo estava errado com a sua cota de malha. Tal qual acontecera com a espada, a blusa do time azul e a cota que protegia-lhe estavam enegrecidas e dissolvendo-se, virando cinzas que logo ficavam negras como as Sombras. A distração com o que acontecia rendeu-lhe um ataque do lado esquerdo corpo e antes que pudesse compreender, o seu corpo estava sendo jogado a metros de distância, parando somente ao colidir com uma das árvores da floresta, que permanecendo imóvel, lançou o corpo da semideusa ao chão.

O lado esquerdo onde a criatura das Sombras havia tocado-a formigava. Dor estava espalhada por todo o seu corpo e apesar disso a filha de Hades não perdeu tempo e logo estava de pé. Sentia o peito começar a esquentar e temeu ter quebrado algum osso naquela região, mas o que ocorria na verdade era que o efeito que o ataque da criatura já estava alcançando a pele de Ravenna. Notando isso a semideusa arrancou a parte superior da roupa, livrando-se do que sobrara da blusa do time e da cota de malha, que a essa altura já quase não existia mais. Antes de conferir os danos sofridos, a semideusa olhou ao redor a procura das Sombras, vendo-as mais uma vez indo em sua direção.

Ravenna sentia todo o lado esquerdo do corpo doer e notou rapidamente que o braço daquele lado estava assumindo uma coloração arroxeada. Se o efeito do golpe que recebera das Sombras naquela parte do corpo fosse o mesmo que o que acometera sua espada e armadura, logo o seu membro seria somente cinzas. Inclinando-se, a semideusa pegou sua adaga de bronze que guardava ali para casos mais urgentes. -Isso é bem urgente. — falou entredentes, indo de encontro as criaturas. -Não vou fugir de vocês seus malditos. Não mais! — declarou, executando vários movimentos precisos com a adaga quando estava perto o suficiente para atacar.

O lado ruim de lutar com adagas, no entanto, é que para conseguir realizar um golpe realmente efetivo faz-se necessário que a distância entre ambas as partes seja mínima. Nesse caso, estar perto das Sombras daquela forma não era uma das melhores opções e Ravenna sabia disso, mas seu espírito valente fazia com que a semideusa pouco se importasse com as consequências que não tardaram a aparecer.

De fato ela conseguira cravar a adaga de bronze em vários pontos do “corpo” daquelas criaturas. Cada golpe acertado parecia dissipar um pouco da escuridão que os compunham, mas segundos depois a parte atingida se refazia naturalmente. Além disso, outras partes do corpo da semideusa foram atingidas pelas Sombras e não demorou muito para que ela se sentisse fraca demais para continuar. A última coisa que Ravenna viu antes de tudo ser somente escuridão mais uma vez, foi uma das Sombras envolver-se em seu pulso que segurava a adaga, mostrando para ela que além de se regenerar, aquelas criaturas conseguiam moldar o corpo, criando uma espécie de tentáculos. As partes do corpos da semideusa onde as Sombras a havia tocado agora estavam tão negras quanto as próprias criaturas e mesmo com toda dor que sentia a única coisa que a semideusa conseguia lamentar era o fato de ter perdido uma batalha sem antes vencer o filho de Ares, seu maior inimigo e sem antes vingar-se do semideus novato que atrapalhara todos os seus planos. Aliás, era aos dois que ela atribuía a culpa de tudo aquilo. Se não fosse por eles a semideusa não estaria naquela parte da floresta…

No chão, Ravenna sentiu as Sombras deitarem-se sobre o seu corpo e tudo tornar-se intensamente frio. Sua mente foi preenchida com imagens assustadoras que poderiam fazer o pior pesadelo de qualquer pessoas tornar-se mil vezes mais preferível, de tal forma que a semideusa sequer percebeu que estava gritando a plenos pulmões. Tudo estava perdido… Ou nem tudo! Ainda que a semideusa não tenha visto, uma luz capaz de cegar qualquer ser humano desceu dos céus e extinguiu, sem esforço algum, as criaturas compostas de sombras, libertando a filha de Hades do que seria sua morte certa. Tudo tornara-se quente e acolhedor e horas depois, quando Ravenna acordasse na enfermaria, aquele momento não pareceria mais do que uma vaga lembrança.

—Ainda lutará por mim, minha bela criança.