Era uma vez, num reino pequeno e próspero, uma linda princesa amada por seus pais e adorada pelo seu povo, devido a toda sua bondade. No seu 16º aniversário, enquanto todo o reino comemorava mais um ano de vida da gentil princesa, Kurama, a raposa de nove caudas, uma velha conhecida do reino de Konoha, atacou o castelo e levou a jovem princesa, tornando-a prisioneira da torre mais alta de uma fortaleza abandonada.

Desse dia em diante, o rei — preocupado com sua herdeira-, mandou inúmeros guerreiros, os melhores do reino, em busca de sua amada menina, mas poucos foram os que voltaram e nenhum deles obteve êxito. Ouro e glória foram prometidos àquele que conseguisse resgatar a jovem, mas nem mesmo isso fora o bastante para trazê-la de volta para casa. A poucas luas de completar o segundo ano de cativeiro da jovem, com o desespero tomando o coração preocupado do monarca, uma promessa fora feita: a quem trouxesse sua menina de volta, seria dado tudo aquilo que o herói desejasse e pudesse levar em seus braços. E, assim, guerreiros de todos os lugares, tipos, alturas e idades seguiram viagem ao antigo reino de Otogakure para dar fim à aterradora raposa e resgatar a encantadora princesa.

— Ao que parece, ainda não desistiram, princesa. Apareceram tantos nos últimos dias... — o jovem rapaz brincou com um sorriso no rosto após olhar pela janela alta e ver alguém se aproximar.

— Está chegando novamente o dia do meu nome, papai deve ter esperanças que me resgatem antes que ele chegue. — sorriu para o amigo. — Como ele se parece? — perguntou a jovem animada, já começando a imaginar a face de seu salvador.

— Alto, talvez tenha a minha altura. Tem a pele morena e marcas vermelhas na face, está montado em um cavalo, mas tem um cão ao seu lado. — deu uma risadinha, achando graça do cavaleiro e seu companheiro.

— Outro velho? — perguntou retorcendo a face em uma careta fofa.

— Oh não! É jovem, princesa. — riu do suspiro de alívio da menina.

— Apareça, raposa maldita! Estou aqui para derrotar-te e levar a jovem princesa comigo.— os ombros da menina baixaram e ficou claro o desânimo que se apossou da jovem.

— Poxa, mais um cavaleiro arrogante, certo? Estava começando a ter esperanças.

— É o que parece. — concordou compadecido do desânimo da garota. — Mas, não perca a esperança ainda, certo? Logo aparecerá alguém digno de resgatá-la dessa torre. — a jovem sorriu e concordou com a cabeça, somente ele para animá-la quando já estava prestes a desistir. — Agora preciso ir, antes que ela apareça e me encontre aqui com você.

Hinata assentiu, vendo-o partir mesmo não concordando. Contrariamente ao que se esperaria de sua fama, Kurama nunca a havia machucado, amedrontado e nem mesmo tratado-a mal. A bem da verdade, se não fosse a personalidade antissocial da raposa, Hinata afirmaria que poderiam até mesmo se tornarem amigas, entretanto, o rapaz insistia em dizer que seu carcereiro não podia saber que os jovens faziam companhia um ao outro, enquanto ele estava adormecido.

— Ela poderia usar-te para me ameaçar, princesa.— fora a explicação dada por ele, e mesmo que não entendesse direito o que ele queria dizer com aquilo, resolveu fazer da maneira dita pelo amigo.

Voltou para sua cama atenta a qualquer ruído que viesse do lado de fora da torre. Sempre fora apaixonada pelas histórias de cavaleiros que sua aia, Kurenai, lhe contava quando era menor e, agora, estava ela mesma presa em uma — ainda que seu lado racional insistisse em lhe lembrar que a realidade não era tão romântica quanto os contos infantis.

Depois de algum tempo presa e algumas tentativas frustradas de resgate, Hinata passou a acompanhar o desenvolver daquelas missões como se fossem as histórias que lhe eram contadas. Em sua mente, desenhava o nobre cavaleiro, montado num cavalo, a enfrentar a fera que guardava a princesa na mais alta torre. Frustrava-se no início que sua baixa estatura não a permitisse espiar pela janela da torre, mas, com o tempo, acabara por aceitar aquilo e abusar de sua imaginação, ajudada pela descrição que, normalmente, o amigo a dava antes de partir para sua própria prisão.

∞

A risada alta e macabra ecoou pelas paredes de pedra, fazendo a jovem arrepiar cada pelo de seu corpo. Ainda que estivesse habituada com a presença da raposa, Hinata não se acostumara àquela risada e, em sua mente, mesmo apavorado pelo som demoníaco, o destemido cavaleiro empunhava sua espada a enfrentar a fera.

— Então, mandaram apenas mais um insolente cheio de si! — a voz grave retumbou, fazendo o cavalo de pelo castanho-avermelhado recuar dois passos e ser detido por aquele que o montava. — acreditei que o rei tivesse mais apreço por sua filha, ou será que ele não recebeu as mensagens que enviei?

A pergunta sarcástica deixava uma provocação no ar e a menina sentiu-se apreensiva, qual seria o próximo passo do cavaleiro? Quem sabe não seria esse seu dia de sorte e, apesar da aparência, o homem não seria apenas mais um tolo arrogante que se achava capaz de enfrentar tamanho monstro e, sim, um nobre guerreiro de coração puro que finalmente a libertaria de seu cárcere.

— Vou avisar-te apenas mais uma vez, monstro. Liberte a princesa ou sofra as consequências.

Suas esperanças caíram por terra quando tais palavras foram despejadas. A raposa não gostava de pessoas arrogantes e, com toda certeza, não consideraria alguém assim digno de resgatá-la. Ouviu novamente a gargalhada medonha e, em seguida, o vozeirão novamente retumbar.

— Se acha mesmo digno de salvar a menina, insolente? Passe por mim, então, e ela irá com você.

“Oh, não!” A menina pensou, se o jovem não fosse esperto e tentasse de fato desafiar Kurama, ele não mais voltaria para casa. Ouviu o barulho de galhos se partindo e, em seguida, o estalar da madeira em chamas. “Oh jovem cavaleiro, fuja por sua vida!” Mas ele não podia ouvi-la e Hinata temeu novamente por sua vida. Ouviu os cascos do cavalo avançando para a direção errada e pensou: “Não, não se aproxime.” Mas, o cavaleiro não fora tão longe para desistir naquele momento.

Avançou empunhando a longa espada, sendo acompanhado de perto pelo cão, seu fiel companheiro. Brandiu a espada em direção a raposa, mas de nada adiantou, Kurama desviou-se facilmente e com uma patada derrubou o cavaleiro de seu cavalo. O animal devotado, avançou em defesa de seu dono, mas também foi facilmente sobrepujado.

O jovem, ouvindo o latido de dor de seu companheiro, correu ao seu auxílio, desviando de novos golpes do titã. Pobre Akamaru, estava encolhido próximo à árvore em que havia batido e caído. “Me desculpe, princesa. Akamaru precisa de mim.” Pegou seu amigo e fugiu em disparada.

— Bom dia, princesa! – a voz grave se aproximou da torre, entretanto, seu tom era ameno, bem diferente do que era ouvido a poucos minutos.

— Bom dia, Kurama. – respondeu sorridente — Como está hoje?

— Poderia estar melhor, detesto ser acordado com tamanha algazarra, como você sabe. – a menina riu, sabia do temperamento da raposa e achava graça de suas mudanças tão drásticas de personalidade, quando ocorria tamanho estardalhaço como naquela manhã.

— Sei sim. É uma pena que não tenha sido dessa vez. – acrescentou pesarosa.

— Ah, princesa, não fique triste! Você merece ser resgatada por um cavaleiro melhor. Logo aparecerá alguém digno de participar de sua história.

— Espero que esteja certa, Kurama.

∞

Os dias foram passando e, cada vez mais, guerreiros – jovens ou não – chegavam até a torre bradando sobre salvar a princesa e derrotar a raposa para, logo em seguida, voltarem correndo por onde chegaram, com o rabo entre as pernas e a honra manchada.

Mas, a história de Kurama e a princesa aprisionada não começara há apenas dois anos quando a menina fora levada. Quando o monarca ainda era Hamura Hyuuga, o tataravô da jovem, essa história teve início.

Cego por sua arrogância, Hamura liderara uma comitiva em busca dos tesouros que Kurama guardava. Inúmeras batalhas foram travadas e incontáveis vidas foram perdidas em nome de ouro e glória, e Kurama, em sua infinita sabedoria, decidiu que melhor seria entregar o tesouro ao jovem rei e evitar novos conflitos, mas não seria sem custo algum. “Riqueza e glória sua dinastia terá até que, em cem anos, eu retornarei e levarei comigo o maior tesouro de sua família, pondo assim, fim à sua linhagem”, dissera.

O tolo Hamura rira da raposa e voltara para casa com os bolsos abarrotados, canções foram feitas sobre suas façanhas e seu nome fora lembrado por muitos anos. Mas, as palavras de Kurama acabaram esquecidas e, quando passados os cem anos prometidos pela raposa, Konoha fora atacada e a amada princesa fora levada, mas ninguém mais conhecia toda a profecia que poderia trazer a jovem de volta para casa.

— E você não fica brava por estar aqui? – perguntou à jovem, não conseguia entender como a menina não se enfurecia com a raposa.

— Às vezes sim, mas não adiantaria de nada, então apenas me imagino em uma das histórias que Kurenai me contava. – tinha um sorriso estonteante no rosto, era uma romântica, afinal.

— Você é muito sonhadora, princesa. – sorriu de volta para ela, era impossível não se contagiar por aqueles sorrisos.

— E quem não é? Ou não sonhas em ser salvo daqui?

“Queria poder ser salvo”, pensou, mas apenas para ele, sabia que era impossível.

— O dia de seu nome está cada vez mais próximo. É uma data especial, deveríamos fazer algo. – sugeriu.

— Não digas bobagem, somos dois prisioneiros, como você mesmo gosta de lembrar-me, o que poderíamos fazer?

— Ainda não sei, mas posso sempre tentar escapar para cá e, ao menos, não precisará ficar sozinha.

— Adoraria ter sua companhia no dia de meu nome.

— Então está acertado, fugirei para cá e tentaremos fazer algo. – abriu um de seus raros sorrisos gigantes, mas os preferidos da menina, um dia ela ainda o perguntaria porque ele sorria tão pouco, mas não seria naquele dia. — Agora, deixe-me ir, antes que Kurama retorne. – e partiu rápido como fazia sempre que se despedia da jovem.

Andava pelos corredores até seus aposentos, quando ouviu a voz grave lhe chamar a atenção.

— Fugiu para se encontrar com ela novamente? – bufou irritado antes de responder.

— Ela não merece ficar tanto tempo sozinha. Seu problema não é com ela Kurama, deixe ao menos que ela tenha companhia às vezes.

— Não acha que já o teria impedido se assim desejasse?

— Às vezes, acho que sim, mas, outras vezes, penso que está apenas a zombar de mim.

— Ainda não me conhece depois de tantos anos, garoto? Achei que teria aprendido algo à essa altura.

— Não me venha com asneiras, se não impede as minhas visitas é apenas porque gosta da menina. – “Como não gostar?” — Só me pergunto porque diabos ainda a mantém presa aqui. – fez uma careta que não passou despercebida pela raposa.

— Porque ainda não apareceu ninguém capaz de quebrar a profecia. Você não escuta nada que eu lhe digo? – bufou.

— Claro que escuto, só não entendo como a grande Raposa de Nove Caudas não pode quebrar ela mesma uma simples profecia como esta.

— Não é porque uma coisa pode ser feita que devemos fazê-la, garoto! Espero que um dia você possa entender.

— Está bem. Já entendi. Você já rezou toda essa ladainha comigo, lembra?

— Claro que me lembro. Você é que nunca parece se recordar... – viu o jovem revirar os olhos. — Você insiste tanto na liberdade da menina, mas nunca mais falou sobre a sua.

— Eu sou um caso perdido, já me conformei com isso. – respondeu sério, odiava tocar naquele assunto.

— Ainda há esperança, mesmo para você, garoto. – e antes que ele conseguisse retrucar a raposa, Kurama encerrou a conversa e foi de encontro à jovem na outra torre do castelo.

∞

Sentada em sua cama, olhava ansiosa a porta de madeira pesada que fechava seus aposentos, o amigo estava demorando mais que de costume aquele dia. Será que havia acontecido algo a ele? Talvez, tivesse sido descoberto por Kurama. Ou quem sabe apenas precisara atrasar sua ida para que a raposa não descobrisse os encontros dos dois. Ela tinha certeza que, logo, ele entraria pela porta, mas, ainda assim, se sentia apreensiva.

Quando ouviu o ranger da madeira da porta contra o piso de pedra, toda a agonia que afligia seu coração deu lugar à satisfação: é claro que ele viria, ele sempre vinha. E como já era costumeiro, ela o recebeu com seu mais sincero e doce sorriso.

— Você veio! – exclamou ainda sorrindo

— Claro que eu vim, princesa! Eu disse que viria, não disse?

— Sim, mas você demorou tanto que eu imaginei que algo tivesse acontecido... – fez uma caretinha graciosa. Ficara, deveras, preocupada.

— Desculpe-me, princesa. – coçou a nuca como fazia sempre que se sentia envergonhado. — Acabei me demorando enquanto colhia isso. – e só então a jovem notou o embrulho na mão do rapaz e, de dentro, o viu tirar uma tigela de madeira abarrotado de frutinhas escuras.

— Você é maluco, Naruto! E se a Kurama descobre que você saiu do castelo? – ela lhe bronqueava, mas ele sabia que no fundo estava feliz, amoras eram suas preferidas.

Sempre a ouvia contar sobre os dedos e lábios manchados de roxo depois de se fartar de amoras, quando ainda habitava o castelo de sua família — e do quanto desejava poder ir aos arredores daquela torre, somente para colher algumas das frutinhas que nasciam em abundância por ali.

— Hoje é o dia de seu nome, princesa, merecia algo de especial! Além disso, eu fui cuidadoso, não se preocupe, tudo bem? – devolveu um de seus raros sorrisos e lhe entregou a tigelinha.

— Obrigada, Naruto! Não sei como agradecer... – pegou timidamente a primeira frutinha levando à boca e ofereceu outra ao rapaz que aceitou de bom grado. — Onde conseguiu a tigelinha? – perguntou reparando na peça de madeira oval com arabescos entalhados adornando sua volta.

— Gostou? – recebeu um aceno em resposta, ela já tinha outra frutinha na boca. — Bem, eu não sabia bem o que te dar, então fiz para você. – coçou novamente a nuca enquanto ela a olhava surpresa.

— É linda, mas não precisava. – ele deu de ombros. — Agora estou envergonhada, o dia do seu nome foi a pouco tempo e eu não lhe presenteei com nada.

— Tudo bem, princesa! Sua companhia já me foi presente suficiente. – pegou outra frutinha, desviando o olhar para a porta de onde entrara. — Já se decidiu sobre o que faremos hoje?

— Nesse momento, só quero comer essas amoras. Além disso, não quero lhe trazer problemas, já se arriscou demais por mim hoje.

— Bobagem, já aprendi a me esgueirar pelos cantos do castelo.

— Ainda assim, vamos apenas ficar aqui conversando. Ainda tenho que terminar minhas amoras.

Resolveram então observar as nuvens de um dos pátios cujo teto já havia ruído.

— Você não sente falta de casa às vezes? – ela divagava enquanto observavam as nuvens deitados lado a lado em um dos salões da parte superior da construção, cujo teto já não mais existia. Ele nada respondeu. — Você nunca fala sobre sua família ou sobre como você veio parar aqui. – acrescentou sabendo que era improvável que recebesse uma resposta para seus questionamentos.

— Aquela parece um cavalo. – apontou para uma nuvem pequena que acabara de ser soprada para o seu campo de visão.

— Puff! Você sempre muda de assunto. – resmungou baixinho meio emburrada.

— Por que você quer tanto saber sobre isso? – perguntou, achando adorável o biquinho que ela fazia.

— Porque sou curiosa. – deu de ombros. — Além disso, eu fico pensando no quão preocupado eles devem estar com a gente.

— Certamente devem preocupar-se com você, princesa. Mas não comigo, não há ninguém à minha espera. – continuou a olhar para o céu, evitando olhar para a garota.

Ao contrário do que acreditou, seus questionamentos apenas aumentaram com aquela resposta, mas ela não teria coragem de verbalizá-los, as possibilidades eram inúmeras e a maioria delas era trágica o suficiente para justificar porque Naruto era tão arredio quanto àquele assunto. Resolveu aproveitar-se da mania do amigo e mudar repentinamente de assunto, falando novamente das nuvens.

— Aquela parece uma sela. – apontou para um pequeno aglomerado branquinho que atravessava o céu vagarosamente.

— Deveria aproveitá-los e ir embora daqui. – brincou, ganhando a atenção da menina.

— Às vezes tenho vontade, mas aí quem faria companhia a Kurama? – brincou de volta.

— Não consigo entender como você não sente raiva dela por estar aqui. – comentou casualmente.

— Ah, ela me contou a história e, bem, como vão aprender a lição se não cumprirem a profecia? – perguntou conformada.

— Você é boa até demais, princesa. – voltou a olhar para as nuvens, até que algo iluminou sua mente, fazendo levantar-se imediatamente e olha-la. — É isso, essa é a resposta, você é boa até demais.

Hinata, que nada entendia, levantou-se mais vagarosamente e o olhou curiosa: tudo bem, ela realmente costumava ser alguém bondosa, só não entendia para quê aquilo era a resposta. Continuou a olhar interrogativa para o amigo que, de tão entusiasmado, esquecia-se de explicar-se.

— E o que tem isso, Naruto? – incentivou-o a se explicar

— Você não percebe? Só alguém realmente bom de coração pode tirar-lhe daqui. – continuava a olhar-lhe efusivamente, como se esperasse a compreensão da parte dela. Desistiu da espera. — Você é a pessoa boa de coração, Hinata. Você pode te resgatar daqui.

— Não diga bobagens, Naruto. Eu não sou um cavaleiro de armadura, como poderia resgatar alguém, quanto mais a mim mesma? – perguntou descrente.

— Mas a profecia não dizia nada sobre cavaleiros, dizia? – refutou.

— Bem, ela dizia que somente alguém de coração verdadeiramente bom e livre de arrogâncias conseguiria recuperar o tesouro de minha família. – respondeu meio duvidosa

— Então, não disse nada sobre um cavaleiro de bom de coração. – sorriu abertamente com sua constatação, como raramente fazia. Finalmente, poderia tirá-la daquela prisão.

— Ainda assim, Naruto. Essas profecias são sempre cavaleiros salvando princesas, veja todas as histórias que Kurenai me contou, devo apenas não ter prestado bem a atenção, ou então Kurama esqueceu de falar. – tentou, mas não foi suficientemente convincente.

— Essas histórias são apenas fantasia, Hinata. – tentou mais uma vez, mas sabia que, provavelmente, ela apenas o ignoraria como todas as vezes em que lhe dissera aquilo. Hinata era irritantemente romântica e aquilo era gracioso.

— É muito arriscado... – dizia em um misto de preocupação e excitação. A ideia de rever sua família lhe era tentadora, mas tinha receio das consequências.

— Ainda assim, acredito que valha a pena a tentativa. – incentivou-a, não conseguia conforma-se que Hinata ainda estivesse presa àquela torre.

— Eu posso esperar mais um pouco. – tentou, mesmo sabendo o quão cabeça dura o rapaz poderia ser. Naruto não tiraria aquela ideia facilmente da cabeça.

— Não queres ver sua irmã tornar-se uma mocinha? Não sentes saudades de seus pais? O que você perderia em tentar? – outra paixão de Hinata era a família e, se quisesse convencê-la de algo, com certeza aquilo amoleceria seu coração.

— Bem, isso poderia deixar Kurama furiosa. – tentou resistir mais um pouco, mas já estava muito tentada com a ideia de Naruto.

— Não se preocupe com ela. – ele sorriu já sabendo que a estava convencendo.

— Claro que me preocupo. E se ela for atrás de mim?

— Eu te dou cobertura, a distraio, enquanto você foge. – dizia já entusiasmado com a ideia de ajudá-la a livrar-se de seu cativeiro.

— De modo algum. – respondeu categórica, deixando-o surpreso

— Como?

— De modo algum você ficará para trás.

— Mas, princesa…

— Eu já disse, Naruto. É você quem insiste nessa ideia sem cabimento, só aceitarei se você for comigo.

— Eu não posso. – respondeu desanimado, ela não entendia.

— Por que não? – perguntou desafiadora, esperando que ele desconversasse como sempre.

— Porque eu não tenho uma profecia que diz que alguém bom de coração me salvaria daqui. Não funciona assim para mim. – respondeu cabisbaixo, não era tão simples para ele.

— Então, me conte como funciona, quem sabe te arranjamos uma solução também. – pediu uma vez mais, o jovem era sua única companhia – fora a raposa – há dois longos anos. Já havia criado laços com ele e se preocupava. Não era apenas sua imensa curiosidade que a fazia querer saber mais sobre ele.

— Eu não tenho solução, princesa, é melhor voltarmos a focar na sua ida. – respondeu ainda triste, não a preocuparia com seus problemas sem solução.

— Não! Já disse que não te deixarei para trás. – amaldiçoou-se pelos anos de convivência tê-la tornado tão cabeça dura quanto ele.

— Vai desperdiçar sua chance de liberdade por alguém sem futuro?

— Você não é alguém sem futuro, Naruto. E não importaria se eu estivesse livre ou não, jamais poderia ser verdadeiramente feliz se eu o deixasse aqui.

Abriu a boca algumas vezes tentando argumentar, mas nada saiu. Ela podia ser difícil quando queria.

— Tudo bem, você venceu. Pensarei em um modo, certo. – ela sorriu pela primeira vez sem ressalva alguma quanto àquela ideia maluca.

— Obrigada. Você é incrível! – deu-lhe um beijo na bochecha e voltou a deitar-se.

E se, de fato, conseguisse fugir dali com ela? Bem, talvez pudesse recomeçar a vida em Konoha, sabia manejar bem uma espada, mas aceitaria qualquer função que pudesse exercer no castelo. Chegou a esboçar um sorrisinho, mas dispersou logo esses pensamentos, sua preocupação naquele momento é que ela conseguisse partir em segurança. Deitou-se novamente, com as mãos embaixo da nuca, voltou a observar as nuvens e conversar amenidades.

∞

O dia da fuga havia chegado e o coração de Hinata palpitava, enquanto esperava a chegada de Naruto. Ao seu lado, na pequena cama, uma trouxinha embalava apenas os objetos mais importantes, aqueles que ela não poderia deixar para trás.

“Levaremos apenas o necessário, princesa, ou nos atrasaremos”. E assim ela o fez

Algum tempo se passou — o que para ela pareceu uma eternidade – e a porta do quarto rangeu baixinho e, por ela, Naruto passou deixando-a surpresa. Era a primeira vez que o via naqueles trajes. Por cima das costumeiras roupas de algodão, era possível ver um gibão de couro.

— Vamos logo, ela ainda não acordou. – disse aos cochichos para evitar que Kurama os ouvisse.

Apressadamente, Hinata levantou de sua cama, pegou sua trouxinha e correu até a porta juntando-se a ele em silêncio, rumo a uma das saídas do castelo. Quando chegaram à entrada, espantou-se com um cavalo selado amarrado a uma árvore próxima.

— Vários desses ficam perdidos pela floresta, por causa da Kurama, sabe? – apressou-se a explicar e voltou a mexer em um embrulho escondido em meio as pedras, até tirar de lá uma enorme espada e uma armadura desgastada, que pareceu um dia ter detalhes laranja e preto, além de um redemoinho desgastado, que era parcialmente visto na couraça e na manopla. Aqueles símbolos não lhe eram estranhos, mas não conseguia se lembrar naquele momento e nem tinha tempo para tal.

— Precisarei de sua ajuda com isso, Hinata. – pediu, tirando-a de seus devaneios.

— Isso é novo para mim. – comentou, ajudando-o a colocar as primeiras peças da armadura.

— Imagino que sim, não é algo do qual tenhamos falado com frequência. – respondeu, mostrando-a a próxima peça que deveria ser colocada.

— Algo sobre o qual jamais conversamos, você quis dizer. – falou mais consigo mesma, entretanto, fora ouvida.

— Me desculpe, princesa. Não gosto muito de falar sobre isso. – respondeu envergonhado. Talvez, se tudo ocorresse como a menina sonhava, ele se sentiria melhor para compartilhar com ela um pouco de sua história.

— Ei, eu não quis te acusar, mas saiba que quando chegarmos a Konoha, não te deixarei em paz até que me conte mais sobre seu passado, entendeu? – sorriu para ele prendendo a última peça.

— Tenho certeza que sim, mas antes precisamos sair daqui, vamos? – prendeu a espada na bainha e subiu no cavalo, estendendo a mão para que Hinata subisse.

Já cavalgavam a algum tempo, quando a curiosidade finalmente venceu Hinata e ela não mais se segurou.

— Por que a armadura? – perguntou ainda o abraçando pela cintura.

— Como?

— Por que você está de armadura?

— Posso precisar entrar em alguma luta, preciso estar preparado.

— Luta? – perguntou preocupada. — Você acha que chegará a esse ponto?

— Bem, é possível, além disso, Kurama não é a única ameaça, podemos encontrar um alguém mal-intencionado no caminho.

— Entendo. – não lhe era muito agradável aquela ideia, mas fazia sentido. Resolveu deixar a preocupação de lado, entretanto, não conseguiu parar de pensar em toda aquela situação: a armadura que Naruto vestia lhe era familiar de algum modo e, como boa curiosa que era, não conseguiu segurar a próxima pergunta. — Onde conseguiu essa armadura?

— É minha. De antes.

— Antes de ser levado para a torre?

— Sim.

— Não sei porque, mas ela me é familiar.

Naruto ficou rígido e sentiu a garganta secar, e sem que se controlasse, acabou gaguejando ao tentar responder.

— Deve ser impressão sua, princesa.

Não era impressão e o agir estranho de Naruto apenas confirmava sua teoria. Mas, não insistiria naquele assunto por hora, era absurdamente curiosa, mas a convivência de tanto tempo com o rapaz a fizera saber quando tinha que recuar, se quisesse ter alguma informação substancial vinda dele.

Quando começou a escurecer, mesmo preocupado com a falta de sinal de Kurama, Naruto resolveu que seria melhor fazerem uma pausa, não haviam parado nenhuma vez desde que partiram aquela manhã, e seriam três dias de viagem. Hinata poderia não estar acostumada a tamanho esforço, além disso, o tempo havia esfriado e era arriscado viajar à noite. Procurou um local onde pudessem se abrigar e o cavalo se alimentar. Encontrou uma caverna rasa e, ali, depositou seus pertences; na entrada, amarrou o cavalo. Retirou alguns tecidos de um alforje preso à sela e cobriu um amontoado de folhas, que colocou ao fundo da caverna, e estava a juntar folhas e gravetos secos na entrada, quando Hinata se manifestou.

— O que posso fazer para ajudar?

— Não se preocupe, está tudo sob controle.

— Não é justo que cuide de tudo sozinho. Bem, deixe-me ajudá-lo.

— Tudo bem, junte folhas secas e gravetos para acendermos uma fogueira, vou procurar por alguma lenha. — tirou do alforje algo como uma machadinha e voltou em direção à saída da caverna, passando por Hinata, que já tinha um montinho de gravetos em mãos.

Observou Naruto se afastar, a machadinha em mãos, a espada embainhada. A armadura ainda encaixava perfeitamente em seu corpo, apesar dos pelo menos dois anos em que já estava ali. Naruto chegara a torre ainda antes dela e ele tinha uma postura um tanto mais imponente vestido com aquelas peças. Sempre achara Naruto muito bonito, mas ali, vestido daquela maneira, sentiu até mesmo as bochechas coradas, imaginando o rapaz como o personagem de uma de suas histórias.

Quando voltou com a madeira em seus braços, Hinata já tinha preparado um montinho de folhas e gravetos no lugar em que a fogueira seria montada, e estava aproveitando os últimos resquícios de claridade, colhendo algumas frutinhas num arbusto próximo ao local. Enquanto produzia as primeiras chamas, observava a garota de longe. O sorriso sempre presente, o modo como colocava uma mecha de cabelo atrás da orelha, sempre achara Hinata encantadora, mas tinha que admitir que ela estava se tornando uma mulher linda. O homem que a desposasse poderia se considerar de extrema sorte.

Um vento gelado passou pelo lugar e Hinata sentiu todos os pelos arrepiarem, passou as mãos sobre os braços, tentando esquentá-los um pouco, e sentiu um pano macio sendo colocado sobre suas costas. Olhou para trás e viu Naruto sorrindo pequeno para ela, enquanto amarrava a capa a sua volta. Se perguntou o porquê ele sorria tão pouco, achava-o tão mais bonito com um sorriso no rosto. Agradeceu também.

— O que você está colhendo?

— Amoras. – ampliou o sorriso.

— Você a trouxe. – apontou para a tijelinha nas mãos da menina.

— Trouxe apenas meus maiores tesouros, não a deixaria para trás. – continuou sorrindo, enquanto acrescentava mais amoras ao potinho.

— Mas é algo tão bobo. – arrancou umas frutinhas do pé e juntou às dela.

— Foi você quem me deu, não é algo bobo.

— Você me dá mais importância que eu realmente mereço, princesa.

— É você quem não se dá a devida importância.

A noite caiu e sentaram-se próximos à fogueira para aproveitarem sua luz e calor. Aproveitaram também para comerem das frutas colhidas por Hinata e algumas outras coisas trazidas por Naruto, conversaram mais um pouco, antes que Hinata resolvesse se deitar

— Preparei para você, espero que esteja do seu agrado. – falou fazendo uma reverência exagerada e apontando para a cama improvisada que havia preparado.

— E você, onde irá dormir?

— Não se preocupe comigo. – a viu levantar as sobrancelhas de modo questionador. – Passarei a noite de vigia.

— E não irá dormir? – perguntou desgostando da ideia

— Não se preocupe, certo? – tentou desviar do assunto, conhecendo onde ele chegaria, se dependesse da menina.

— Sim, me preocupo. Não passará a noite com essa armadura pesada e sem pregar os olhos, não aguentará a viagem desse modo.

— Estou acostumado a dormir pouco, princesa. – e aquilo não era uma mentira

— Então lhe farei companhia. – afirmou categórica.

— Você precisa descansar, Hinata. – mas ela nada respondeu, apenas o olhou desafiadora e aquele olhar era o suficiente para que ele soubesse que ela não mudaria sua postura. — Certo, certo. Tirarei essa armadura e me encostarei em algum canto que possa cochilar. Está certo assim?

— Não. – olhou para ela um pouco irritado, o que ela inventaria agora. — Você preparou a cama, não é justo que durma em um canto qualquer.

— Fora preparada para você, princesa, eu me viro.

— Há espaço para nós dois.

— De maneira alguma, isso não seria de bom tom.

— Divida-a ao meio, não me importo, ou também dormirei no chão.

— Droga, Hinata. Não é de bom tom que uma moça solteira divida a cama com um homem.

— Também não é de bom tom que um homem entre nos aposentos de uma donzela, ou que permaneçam sozinhos no mesmo ambiente, e ainda assim o fazemos há tanto tempo.

— É diferente, não havia intimidade alguma entre nós.

— E não haverá agora também, iremos apenas dormir, certo? – olhou o rosto contorcido em desgosto do rapaz, sabia que ele não aprovava aquela ideia, mas ela não suportaria vê-lo se sacrificar tanto por ela, sem ao menos receber seus cuidados como agradecimento. Tinha um carinho muito grande por ele e cuidaria dele, como ele vinha fazendo com ela.

— Porque eu me deixo convencer tão facilmente por você? – esbravejou aborrecido e recebeu um olhar fulminante de Hinata, de maneira alguma havia sido fácil convencê-lo de qualquer coisa.

— Pare de reclamar, é melhor que descansemos e partamos cedo, certo? – recebeu como resposta apenas uma bufada e se pôs a ajudá-lo com a armadura.

Foram dormir em seguida, mas não sem antes travarem mais um discussão sobre quem ficaria com a única capa levada por Naruto e que, até então, a estava aquecendo, mas dessa vez ele sara vitorioso.

Quando a manhã chegou, os primeiros raios de sol adentraram a pequena caverna acordando o rapaz, que sentiu um calor aconchegante em seu corpo e um peso em seu peito, abriu os olhos com certa dificuldade e, quando se acostumou com a claridade, flagrou-se enrolado na capa que deveria cobrir apenas Hinata e a menina deitada em seu peito, com seus braços a envolvendo. Seu primeiro pensamento foi levantar-se rapidamente e sair daquela situação inapropriada e constrangedora, mas a menina dormia tão suavemente e confortável abraçada a si, que lhe faltou coragem para tal.

Passou a observá-la, como só fazia quando ela estava tão distraída que não perceberia os olhares destinados a ela. Ela era realmente linda, a pele branquinha e aveludada com aquele vermelhinho gracioso na bochecha, que se intensificava quando se sentia envergonhada; os enormes olhos de cores exóticas sempre tão brilhantes e observadores; os lábios carnudinhos de coloração rosadinha, que pareciam tão macios; os longos cabelos lisos e pesados tão sedosos e escuros como jamais vira igual. Hinata era de fato uma bela mulher e nem mesmo parara para refletir sobre suas curvas adquiridas ao longo daqueles dois anos em que se conheciam. Esperava que, o homem que um dia a desposasse, fosse realmente merecedor de uma pessoa de tamanha beleza e bondade, como apenas sua princesa tinha.

Sem ao menos se dar conta de seus movimentos, havia começado a lhe acariciar os fios azulados ao longo das costas, enquanto seus olhos azuis não desviavam dela nem por um segundo, flagrando uma das cenas mais lindas que presenciaria em toda sua vida, e que guardaria com um carinho especial até que a morte lhe roubasse seu último suspiro: os olhinhos curiosos e de enormes cílios da garota se abriram vagarosamente e, manhosamente, ela roçou o rosto contra seu peito para espantar o sono e, depois, espreguiçou-se, antes que percebesse como havia dormido aquela madrugada e suas bochechas tomassem um tom de vermelho semelhante aos morangos silvestres que ocasionalmente encontravam nos entornos do castelo.

— Bom dia, princesa! – saudou-a como um sorriso incomum.

— Bom dia! – respondeu saindo daquela posição, com a voz tão baixinha, que ele mal a escutou.

— É melhor levantarmos acampamento e partimos o quanto antes. – tentou agir naturalmente, percebendo o desconforto da menina.

— Me desculpe. – falou novamente baixinho. — A fogueira tinha apagado e você estava tremendo muito, não podia deixar que passasse frio, então eu dividi a capa com você... – dizia apressada e desajeitada, enquanto batia os dedos indicadores, tentando se explicar como fazia sempre que se sentia constrangida.

— Obrigada por cuidar de mim. – deu-lhe uma piscadela, seguido de um sorrisinho que Hinata estranhou, mas não falaria nada, ele ficava tão mais bonito sorrindo.

Comeram algumas frutas, levantaram acampamento. Hinata ajudou Naruto novamente com a armadura e, em seguida, passaram a cavalgar novamente rumo a Konoha, mas daquela vez, a viagem fora extremamente silenciosa. Hinata sentia os braços fortes de Naruto à sua volta – apesar da armadura, – enquanto ele tentava ignorar a sensação de ter a menina novamente em seus braços. A situação era deveras desconcertante, mas nenhum dos dois poderia negar que era agradável e, tal constatação, apenas os deixavam ainda mais envergonhados.

Ao chegar a tardezinha, como no dia anterior, mesmo estranhando que Kurama ainda não tivesse ido atrás deles, Naruto resolveu fazer outra pausa, precisavam se alimentar e descansar, mas dessa vez, assim que encontraram um local onde pudessem se abrigar e desceram do cavalo, Hinata correu para os arredores procurando por gravetos e folhas secas para a fogueira, enquanto Naruto adentrava a floresta atrás de lenha e, talvez, um animal pequeno que pudessem assar.

Colheram frutas, montaram a cama, assaram um coelho, tudo conversando apenas o necessário, até que a hora de dormirem finalmente chegou, e não poderiam mais fugir do assunto.

— Farei uma fogueira maior essa noite, talvez assim, ela não apague.

— Tomara que não, mas ainda assim usará a coberta, já estava muito frio usando apenas ela. – corou novamente, lembrando-se que procurara inconscientemente por calor acordando abraçada a ele. Torcia para que não o fizesse novamente naquela noite.

Pegaram mais folhas e madeiras, alimentaram a fogueira e deitaram-se de costas um para o outro, cada um numa extremidade do colchão improvisado, e ficaram assim em silêncio até que conseguissem, enfim, pegar no sono.

Acordaram novamente com os primeiros raios solares na manhã seguinte, ainda deitados de costas e com a fogueira ainda com algumas brasas, que garantiram um pouco mais de calor aquela noite.

— Bom dia, princesa! – Naruto foi o primeiro a dizer algo.

— Bom dia, Naruto! – respondeu ainda um pouco envergonhada da manhã anterior.

— Se a viagem continuar a correr bem, chegaremos a Konoha essa tarde. – acrescentou com um sorriso e a viu sorrir de volta. A notícia era maravilhosa, estava ansiosa em voltar para casa, além disso, ele andava mais sorridente que o de costume e aquilo a deixava muito feliz.

— Isso é maravilhoso. Vamos juntar tudo logo, quero chegar a Konoha o quanto antes.

E assim o fizeram, com todos os pertences organizados montaram no cavalo e partiram para o último trecho da viagem, dessa vez, muito mais animados. Hinata a todo momento falava de casa e de seus pais e irmã, falava também sobre como era sua vida no castelo e como sua infância fora animada. Naruto, por outro lado, sentia-se feliz em podê-la acompanhar até ali e, mesmo com o temor que Kurama aparecesse logo no final de sua jornada, prometera a si mesmo que faria o que pudesse para que a menina conseguisse voltar para casa.

Caminharam durante algumas horas, antes que Naruto começasse a se sentir mal. Sentiu o estômago revirar e uma pontada em seu estômago, as vistas embaçaram e ficou tonto. “Droga, não agora!” Parou o cavalo descendo o mais rápido que conseguia para afastar-se do local. Quando Hinata fez menção em descer do cavalo para segui-lo, o ouviu dizer para ficar e, mesmo estranhando, acabou por obedecer, ao menos por um tempo.

Quando ouviu barulhos estranhos vindo da direção em que Naruto fora, preocupou-se e desistiu da espera seguindo naquela direção. Caminhou entre os arbustos até que escutou a voz exaltada do rapaz e acelerou o passo.

— Não! Não, não, não. Não agora.

O que estava acontecendo com ele? E porque ele não falava com ela? Estava chegando à clareira onde Naruto estava em pé quando viu um brilho estranho e alaranjado à sua volta. O que era aquilo? Aproximou-se devagar, observando a cena estranha que acontecia à sua frente, ouvindo Naruto urrar de dor e surpreendendo-se com o que presenciara.

No centro da clareira, Naruto desesperava-se. Porque logo agora e daquela maneira? Será que quando finalmente começava a acreditar novamente que poderia ser feliz, ela tinha que aparecer para acabar com sua felicidade? Sentiu suas entranhas revirar-se mais uma vez e seu corpo foi envolvido naquele brilho alaranjado que ele conhecia bem e detestava. Soltou um urro fechando os olhos com a dor que sentia e quando finalmente voltou a abri-los, deparou-se com a enorme figura da raposa à sua frente.

— Quem diria que logo você fugiria assim, às escondidas.

— O que você faz aqui? – perguntou de dentes trincados.

— Ora! Vim atrás dos meus dois prisioneiros fujões. – sorriu, mostrando exageradamente as presas.

— E esperou tanto para aparecer agora que estamos chegando lá?

— Você me deixou para trás, Naruto. Esqueceu-se?

— Pare de brincadeiras, Raposa. Sei que consegue viajar mais rápido que dois de nós em um único cavalo.

— E perder a chance de fazer essa exibição para nossa pequena princesa? – como se ainda fosse possível, alargou ainda mais o sorriso e viu a expressão de fúria de Naruto transformar-se em pavor.

De olhos arregalados e sobrancelhas levantadas, olhou na direção em que viera ainda pouco e viu o olhar assombrado de Hinata, que os observava da margem da clareira.

— Hina...

— Como?

— Você não contou para ela?

— Cale a boca. – esbravejou para a raposa mesmo sabendo que de nada adiantaria.

— O que você não me contou, Naruto?

— Não dê ouvidos a essa raposa traiçoeira, princesa. Não há nada a contar.

— Vamos, garoto. Você sabe tudo sobre ela, é justo que compartilhe também um pouco sobre você. – recebeu um novo olhar fulminante do rapaz, mas pouco se importou.

— Eu não sou apenas um prisioneiro dele... – sentia os olhos curiosos de Hinata sobre si, afoitos por cada detalhe que lhe seria ofertado. — Kurama vive dentro de mim, Hinata, e era por isso que eu não poderia vir contigo. – Acrescentou, por fim, derrotado.

— Como? Isso tudo não faz sentido.

E para a jovem princesa realmente não fazia, mas ela ainda não conhecia a história do Príncipe Uzumaki e a Raposa de Nove Caudas.

Antes de tornar-se prisioneiro de Kurama, Naruto estava a aprender o ofício de seu pai, viajava pelos reinos em sua companhia – e algumas vezes em seu nome – fechando acordos comerciais, assinando tratados diplomáticos e participando de importantes reuniões.

O jovem também era um excelente guerreiro, treinado pelos melhores mestres do reino, desde a mais tenra idade sabia manejar uma espada como ninguém, mas nem tudo eram flores. Tanto talento tornou Naruto uma pessoa arrogante e cheia de si e, numa dessas viagens, sua arrogância foi sua ruína.

Voltando de um reino muito distante, a caravana que acompanhava o Rei Minato e o príncipe fora pega no meio de uma tempestade, e acabara por se abrigar nas ruínas do castelo de Otogakure. A princípio, os cavaleiros que os acompanhavam, conhecedores das histórias sobre a temida Raposa Demônio que habitava aquelas terras, temeram por se abrigarem ali e despertar a fúria da besta. Naruto, por outro lado, no alto de sua arrogância e descrença, zombou do temor de seus homens e ordenou que levantassem acampamento ali mesmo e os homens, mesmo a contragosto, acabaram por acatar as ordens de seu superior.

Kurama que havia assistido a tudo de longe, preparou-se para visitar o príncipe aquela noite e, logo que a maioria foi deitar-se — e apenas uns poucos soldados fazia a vigia -, um brilho alaranjado e uma fumaça tomou o local, deixando-os desnorteados. Uma gargalhada horripilante foi ouvida e, em seguida, a imagem do demônio se fez presente apavorando a todos.

— O que fazem em meus domínios? – a voz grave retumbou fazendo todos os pelos dos presentes se eriçarem. — Não irão me responder? A raposa comeu sua língua? – exibiu as enormes presas, fazendo os melhores guerreiros de todo o Exército Real tremerem as pernas e desejarem nunca terem adentrado aqueles muros.

— Não vejo seu nome em lugar algum, raposa. – uma voz grave se fez ouvir do lado oposto ao que Kurama fez sua aparição.

— Ora, moleque! E desde quando é necessário ter os nomes rabiscados nas paredes para provar que o castelo pertence a seu senhor?

— E desde quando raposas são senhores de terra?

— Sua língua é afiada, menino.

— Minha espada é mais, raposa.

— E você acredita que ela de algo adiantaria contra mim?

— Nas mãos corretas...

Outra gargalhada alta reverberou nas paredes de pedra e foi possível ouvir o barulho de espadas caindo contra o chão por ali.

— E essas mãos seriam as suas? – provocou.

— Naruto, não. Por favor. – Minato pediu

— Escute o rei, Naruto. – repetiu o nome em tom de zombaria.

— Não a temo, papai. O que poderia uma raposa contra mim?

— É melhor não descobrirmos, filho. Estamos em seus domínios, não é dessa maneira que hóspedes se portam perante seus anfitriões.

— O rei é mais sábio que você, garoto. Escute-o antes que seja tarde.

— Deixe disso, papai, como pode ser uma raposa nossa anfitriã, esse é apenas um lugar sem dono, deveríamos aproveitar que aqui já estamos e conquistá-lo? — debochou.

— És um homem sábio, majestade. Mas não soube criar bem o filho que teve, é uma lástima!

— Ora, raposa maldita. – empunhou a espada avançando contra a besta deixando, Minato apavorado atrás de sim. Sabia que o filho tinha um temperamento estourado e diariamente tentava ajudá-lo a melhorar aquele traço, para que aquilo não viesse a prejudicá-lo quando, enfim, se tornasse rei.

Infelizmente Minato não tivera tempo suficiente para ajudar o filho, antes que conseguisse fazer algo, viu Naruto ser preso em meio à neblina alaranjada que voltara a tomar o local e a raposa subir em um brilho de mesma cor que adentrara o corpo do jovem príncipe e, quando enfim toda a luz e neblina dispersaram, Naruto voltara a falar, mas a voz da raposa é que foi ouvida.

— De hoje em diante, habitarei seu corpo e apenas quando o garoto enfim dispersar de seu coração a arrogância e ganância, ele estará livre para ir, não antes disso.

— Eu não posso deixar meu filho para trás, raposa.

— Entretanto ele ainda não poderá seguir em frente.

— O que eu posso fazer, então?

— Ter esperanças de que um dia ele reconhecerá seus erros e aprenderá com ele. Enquanto isso, cuide de seu reino com a sabedoria que demonstrou aqui ter. Vocês estão livres para ir. – e desapareceu numa nova nuvem de fumaça, deixando-os finalmente reparar na claridade que vinha da entrada da caverna indicando o amanhecer.

Seguindo o conselho de Kurama e governando com sabedoria, o rei Uzumaki ordenou que seus homens levantassem acampamento e dali partiram em direção às suas terras e, daquela data em diante, não houve ao menos um dia em que não rezasse para que seu filho fosse enfim liberto e pudesse retornar ao seu lar.

No castelo, o espírito rebelde do jovem príncipe não se acalmou tão facilmente e, no princípio de sua estadia, planejara e tentara fugir inúmeras vezes, até que enfim aprendera que Kurama não o deixaria partir, enquanto sua própria profecia não se cumprisse. E com o tempo, começara a perder as esperanças de que chegaria o dia em que realmente pudesse partir dali.

A amargura tomou seu coração e seus dias eram solitários, ignorava a raposa o quanto podia e, quando não o conseguia, acabava por estourar com ela, até que uma manhã Kurama partira – como sempre fazia para se alimentar – e quanto retornara mais tarde que o de costume, trazia com sigo uma jovenzinha assustada. O coração de Naruto se enchera de revolta da hipocrisia da raposa, como poderia acusá-lo de arrogante e ganancioso quando ela separava uma jovem indefesa de sua família? Daquele dia em diante, assumiu a felicidade da menina como sua missão ali. Fez-lhe companhia diariamente, cuidou-lhe quando ficou enferma, ouviu seus lamentos quando se sentia triste e aprendeu a fantasiar com ela quando alguém aparecia para tentar salvá-la.

Com o tempo, precisou admitir que seus dias também se tornaram melhores com a presença dela e, num pensamento egoísta, sentia-se feliz pelo dia em que ela fora levada para ali. Mas, quando surgiu a primeira oportunidade para que ela retornasse para casa, decidiu que mesmo que voltasse a ser solitário como antes, faria de tudo para que ela se livrasse daquela prisão.

— Você é o príncipe desaparecido de Uzushiogakure. – não era uma pergunta, apenas a menina compreendendo todas as informações recém recebidas. – Sua armadura, é por isso que me era familiar.

— Me desculpe. – pediu envergonhado.

— Por que nunca me contou?

— Não gosto de falar sobre isso. – não conseguia olhá-la nos olhos.

— Eu não sou o bicho papão ou alguém desconhecida, sou sua amiga, Naruto.

— Já entendemos, Naruto malvado não te contou a verdade sobre ele, mas agora vocês podem terminar essa conversa de volta ao castelo, certo?

— Não! – ele finalmente levantou o olhar desafiando a raposa. — Ela não vai voltar para aquele lugar.

— Ora, Naruto, você sabe muito bem que ela não pode ir sem cumprir primeiro a profecia.

— Ela já cumpriu. – respondeu apressadamente, despertando curiosidade na raposa. — Hinata. Hinata é boa de coração, ela é livre de ganância e arrogância, ela mesma pode se libertar daquela torre.

— E onde você entra nessa história? – perguntou zombeteira.

— Vim para garantir que ela chegaria em segurança. – respondeu firme.

— Konoha é logo ali, ela pode ir sozinha e você voltar comigo para o castelo.

— Não! – Hinata quase gritou.

— Não? – Kurama perguntou.

— Não deixarei você para trás, Naruto. Já falamos sobre isso.

— Bem, então podemos voltar os três.

— Você não vai levá-la. – Naruto se colocou entre Hinata e a raposa, levando a mão à bainha em busca da espada. Kurama, por sua vez, ergueu uma de suas sobrancelhas e questionou.

— E você acha que dessa vez conseguirá me impedir?

— Eu não sei, mas eu morreria tentando. Ela não merece voltar para lá. – Hinata o olhou assustada. Ele não podia estar falando sério.

Mas, antes que pudesse se opor àquela ideia, ouviu a conhecida gargalhada da raposa, o que a fez desviar a atenção de Naruto por um instante.

— Então você se sacrificaria para que ela voltasse para casa? – sorriu maliciosa. — Você está apaixonado por ela, não está?

Hinata desviou o olhar surpreso direto para Naruto, Kurama falava sério? Mas ele não a olhava de volta, continuava a encarar a raposa.

— Vo… você gosta de mim? – ele nada disse, mas quando abaixou o rosto olhando para os pés, Hinata teve certeza de que o que Kurama dizia era verdade. — Por que você nunca me disse?

— Você não merece alguém como eu, princesa.

— Alguém que cuida de mim, que me alegra quando não estou bem, que me protege se for preciso? Alguém que está disposto a se sacrificar para que eu seja feliz? – perguntou, segurando em seu rosto e o fazendo olhar fundo em seus olhos.

— Não era sobre isso que eu falava, princesa. Você merece muito mais. Merece alguém muito melhor, alguém que tenha o coração realmente bom, como o seu. – sorriu sem humor e tentou novamente desviar o olhar, mas Hinata o impediu.

— Alguém exatamente como você.

— Você me dá mais importância que eu realmente mereço, princesa.

— É você quem não se dá a devida importância.

— Que cena linda! – a raposa debochava, deitada no gramado com a cabeça sobre as patas dianteiras. — Mas não tenho o dia todo.

— Desculpa, Hinata. Mas não posso permitir que você volte para aquele lugar. Sei que prometi que viria com você, mas não posso permitir que volte para aquele lugar por minha causa. Kanoha está próxima, vá para casa e seja feliz com sua família, eu ficarei feliz em saber que você está feliz.

Hinata abriu a boca para retrucar, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, ouviram palmas e uma gargalhada estridente.

— Ora, ora! Parabéns, princesa. – exclamou, chamando a atenção da menina. — Quem diria que no fim seria você a cumprir a profecia desse moleque cabeça dura.

— Do que você está falando, raposa?

— Você não percebe, seu tolo? – ela sabia que não, mas não perderia a chance de provocá-lo. — Bastou Hinata em sua vida para que você aprendesse com ela a ser uma pessoa melhor. Logo você, que desejava conquistar meus domínios, escapou de minha torre levando apenas aquilo que já lhe pertencia quando ali chegou, e os sonhos de uma garota que você cativou. Quando nos vimos pela primeira vez, sua arrogância o cegava e você acreditava ser capaz de derrotar-me usando apenas sua espada e seu talento, hoje, por essa jovem, você se jogaria no desconhecido, sem a mínima certeza se sairia vitorioso, apenas para garantir que ela fosse feliz. Hinata o ajudou ser uma pessoa menos arrogante e ganancioso, agora você é realmente bom de coração, de qualquer outra forma, não teria conseguido sair com ela do castelo.

Naruto olhava atônito para a raposa, tentando processar as informações recebidas, enquanto Hinata tinha um sorriso enorme em seu rosto. Será que ela tinha ouvido direito? Ela sabia que não estava enganada, ele não era a pessoa ruim, que dizer, ao menos não mais e aquilo só podia dizer uma coisa, que ele estava livre para ir também, certo? Ela tinha que ter certeza.

— Não, ela saiu porque ela é boa. – retrucou.

— Sim, ela é. Mas, se você também não fosse, não teriam saído juntos. – deu de ombros

— Eu te disse, Naruto. Sempre te disse, você é melhor do que julga ser. – acrescentou entusiasmada. — Agora, você pode cumprir sua promessa e me levar para Konoha. – acrescentou com um sorriso que iluminou o coração do rapaz.

— Ela está certa? – perguntou temeroso, não queria criar esperanças que seriam destroçadas pela raposa.

— Sempre esteve. – e, antes que qualquer um dos dois pudesse ter qualquer reação, Hinata correu em direção a raposa envolvendo-a em um abraço.

— Até a próxima, Kurama. – e voltou correndo, puxando Naruto pelo braço, de volta pelo caminho onde vieram. — Vamos, Naruto! Estou ansiosa para chegar em casa.

O cavalo atravessava as ruas estreitas e movimentadas, chamando atenção para o casal que o montava, um homem alto e loiro de armadura e uma jovem mulher de longos cabelos azulados e um sorriso contagiante no rosto. Não demorou para que se iniciasse os burburinhos entre os moradores. “Quem seria aqueles forasteiros?” Alguns se perguntavam. “Não seria aquela a princesa há muito levada?” Outros especulavam. E antes mesmo que conseguissem chegar aos portões, os boatos chegaram à sala do trono, deixando um rei alvoroçado e uma rainha chorosa. “Seria possível sua menina estar de volta?” Não esperaria mais para ter certeza, foi ele mesmo em direção à entrada do castelo para saber a veracidade daquela informação e, ao chegar na entrada, deparou-se com a jovem de que todos falavam

— Papai! — correu em direção ao patriarca, ignorando toda e qualquer regra de etiqueta que lhe fora ensinada durante os anos que vivera no castelo.

— Minha menina, é mesmo você! Temi que jamais voltasse a vê-la.

— Estou aqui agora, papai. Senti tantas saudades.

— Eu também, minha menina. Agora vamos logo, sua mãe está aos pranto., Hanabi e ela ficarão muito felizes em vê-la.

A chegada da princesa foi muito acalorada, mal esperaram que a menina se banhasse e recebesse novas roupas, e a família lhe encheu de abraços e carinhos. Repetiam a todo momento os quão aflitos ficaram a lhe esperar e o pai ressaltou as inúmeras missões que enviara ao seu salvamento e logo ela o tranquilizara.

— Não se preocupe, papai. Sei que não esqueceram de mim e eu também não esqueci de vocês, estou tão feliz de estar de volta.

Enquanto contava animada aos pais – e principalmente à Hanabi – sobre os inúmeros cavaleiros que chegavam todos cheios de si e logo a seguir fugiam com o rabo entres as pernas, vários criados adentraram o salão com tigelas e baixelas abarrotados de alimentos com aparência apetitosa e cheiro convidativo, arrumando-os sobre uma imensa mesa de madeira disposta no meio do recinto.

Ao contrário do que normalmente faziam, os criados não retornaram imediatamente aos seus afazeres, aglomerando-se num canto do salão a observar a jovem princesa que não demorou a entender o recado e logo foi cumprimentá-los.

— Sentimos tanto sua falta, Alteza. Esse castelo nunca mais foi tão alegre desde que você partiu. – disse uma das criadas

— Fiz as tortinhas de amora que você adora. – cochichou a cozinheira enquanto a abraçava.

— Cuidei bem de seu cavalo, ele também sentiu sua falta – escutou do cavalariço e depois que passara cumprimentando cada um daqueles criados que tanto lhe tinham estima, encontrou ao fim da fila aquela que, talvez, mais lhe fez falta entre seus criados

— Kurenai! – exclamou jogando-se nos braços da mulher que trazia um barrigão. — Eu perdi isso. – exclamou acariciando o ventre de sua aia.

— Mas voltou a tempo de vê-lo nascer. Estou feliz em vê-la novamente, pequena Alteza. – beijou-lhe a testa no gesto de carinho que sempre tivera com ela.

­Enquanto isso, sentado num canto afastado, Naruto observava a recepção que Hinata estava recebendo e sentia-se feliz por vê-la tão alegre. Será que receberia algo minimamente parecido se resolvesse voltar para casa? Claro que não, era só mais um nobre arrogante, quem sentiria falta dele? Seus pais? Ele os havia envergonhado, porque iria querê-lo de volta? Nem mesmo uma caravana sequer fora tentar salvá-lo e ele não os culpava, não mais, devia ser um alívio para seus pais saber que o reino não seria mais deixado em suas mãos incapazes.

— Marcarei um baile em comemoração ao seu retorno, minha filha. – começou o rei animado, quando já estavam todos acomodados ao entorno da mesa.

— Podemos comemorar o dia de seu nome, não estamos tão atrasados. – acrescentou a rainha.

— E você, rapaz, será nosso convidado de honra. O bravo cavaleiro que, finalmente, trouxe nossa menina de volta para casa. – acrescentou animado.

— Senhor, eu não... – parou quando sentiu Hinata apertar suas mãos embaixo da mesa e balançou a cabeça em negativa.

— Até lá, pense bem em sua recompensa.

∞

Uma dezena de dias se passaram e Naruto ainda era hóspede no castelo – o rei fizera questão que ele permanecesse ali até o grande baile – e, durante aqueles dias, ele e Hinata aproveitaram ao máximo o tempo que ainda tinham juntos: passeavam pelas terras, andavam a cavalo, faziam piqueniques, brincavam com Hanabi e, até mesmo quando Naruto pedira para conhecer o Exército Real, fora acompanhando pela menina.

— Não precisava me acompanhar, princesa. Será uma visita maçante para você.

— Não tem problema, eu gosto de estar na sua companhia. Agora me diga, porque quis vir aqui?

— Estou pensando em pedir a seu pai para integrar o Exército. Como minha recompensa, sabe. – riu da careta que ela fizera, dissera a ela que não era merecedor de recompensa alguma, mas ela insistia que se não fosse por ele não estaria ali.

— Não voltará para casa?

— Pensei em ficar por aqui. Por que? Não me quer por perto? – brincou e Hinata sorriu, estava gostando de como ele estava mais risonho desde que chegaram ao reino.

— Sua família deve estar sentindo sua falta. – viu o semblante dele se fechar, esse ainda era um assunto delicado apesar de toda a melhora. — Tudo bem, não insistirei no assunto.

— Eu envergonhei meus pais. – falou, surpreendendo Hinata. Ela achou que ele iria fugir novamente do assunto. — Eu não era uma pessoa boa como você e não seria um bom rei. Eles devem ter ficado aliviados por se livrarem de mim e eu não os culpo, é melhor que continue assim.

— Eu duvido que isso seja verdade, Naruto. Eles devem sentir muito a sua falta, dê uma chance a eles.

— Você tem mesmo um coração muito bom, princesa.

∞

A noite chegou trazendo com ela o baile. Nobres de Konoha e reinos aliado vieram prestigiar a jovem princesa que acabara de retornar a segurança de seu lar. Traziam consigo presentes, cada qual mais luxuoso que o anterior. Hinata que há anos levava uma vida simples no alto de uma torre, se espantava com tanto excesso.

Aproveitara a noite para divertir-se como fazia nos bailes antes de ser levada, comeu o que gostava, brincou com Hanabi, fofocou com suas antigas amigas, descobrindo que a maioria delas estavam ou casadas ou prometidas, e aproveitou também para dançar com Naruto, até que a música foi interrompida e seu parceiro foi solicitado diante da atenção de todos.

— Apresento a vocês meu convidado especial dessa noite, o jovem valente que trouxera minha menina de volta para casa. – o rei proclamara e o salão se explodira em palmas.

— Não mereço tamanha honra, majestade. – respondeu, abaixando-se e colocando-se sobre um dos joelhos de frente ao trono. — Vossa Alteza merece bem mais do que eu fiz por ela.

— Deixe disso meu jovem e, agora, me diga o que você deseja como recompensa por ter trago minha menina de volta? – o rei lhe sorria, enquanto aguardava a resposta do jovem.

Naruto por outro lado esquadrinhou o salão procurando os lindos olhos perolados que o olhava com carinho e curiosidade. Ainda de joelhos. levou uma mão ao peito e abaixou a cabeça em respeito, antes de revelar seu pedido e surpreender a todos.

— Quero me casar com Hinata, se assim ela também quiser.

— O que? – o rei fora pego de surpresa, esperava que o garoto pedisse riquezas, terras, títulos e tudo mais, mas Hinata?

— Eu a amo, majestade. E sua felicidade é tudo que eu desejo, então, se ela acreditar que sou capaz de fazê-la feliz, essa será minha recompensa.

— É um pedido inusitado, devo admitir, mas sou um homem de palavra. Hinata, minha filha. – chamou. — O que tens a dizer sobre isso?

— Nada no mundo me agradaria mais, papai. – falou com um enorme sorriso no rosto e para Naruto aquele era o sorriso mais bonito que já presenciara.

— Que assim seja, então. Marcaremos em breve a data. – todos no salão aplaudiam eufóricos, enquanto o recém casal se abraçava de modo apaixonado.

— Você me pegou de surpresa, nunca imaginei que quisesse passar o resto de seus dias comigo... – disse baixinho em seu ouvido.

— É que, quanto mais perto chegava hora de nos separarmos, mais eu tinha a certeza de que eu queria passar o resto dos meus dias com você.

— Eu pensei que seu plano era entrar para o Exército Real.

— Ainda pretendo fazê-lo, não posso passar meus dias sem uma ocupação. – ele sorria lindamente e os olhos dela brilhavam.

—Você me escolheu. – sussurrou feliz

— Eu te escolhi e te escolheria outras mil vezes.

∞

Não mais que dois meses foi o tempo dispensado na organização do casamento real, lindas flores enfeitavam o jardim preferido da princesa. Inúmeras cadeiras foram espalhadas pelo local, a fim de acomodar o número exorbitante de convidados que viriam de terras próximas e longínquas para testemunhar a união do jovem casal. Flâmulas e estandartes que carregavam o brasão da família Hyuuga foram espalhados por todo o espaço, reafirmando a importância daquele matrimônio, era a princesa Hyuuga a se casar, afinal. Lindos arranjos em vasos adornados foram espalhados sobre as enormes mesas de madeira dispostas pelo jardim e inúmeros pratos brilhantes eram ali descansados, esperando as guloseimas que seriam consumidas após a cerimônia. Naruto a tudo observava com um brilho raro nos olhos, aquele era talvez o casamento mais bonito que já presenciara, não se sentia tão feliz assim há anos, e era tudo graças a sua menina, faria de tudo para retribuí-la a altura.

— Ansioso, meu jovem? – escutou o rei perguntar.

— Muito! – não conseguiu muito bem disfarçar um sorriso que brotou em seu rosto, era assim toda vez que pensava em seu futuro com Hinata.

— Também me senti assim quando meu dia chegou, eu e Yumi éramos prometidos desde muito novos e, por isso, fomos criados juntos, para que aprendêssemos a conviver um com o outro. Acabamos nos apaixonando e nosso casamento foi a melhor coisa que me aconteceu, depois do nascimento de nossas meninas. Sabe rapaz, permiti esse casamento pois vi em vocês o mesmo tipo de amor que vejo em mim e em minha esposa, e a nossa felicidade é o que eu desejo a vocês.

— Obrigada pela confiança, majestade.

— Agora vamos, o casamento logo vai começar

∞

Quando retornou ao jardim algumas horas depois, o local já estava abarrotado de pessoas, algumas ele reconhecia daqueles dias em que vinha vivendo em Konoha, outras ele lembrava vagamente de quando ainda vivia em Uzushiogakure, mas a grande maioria, Naruto nunca havia visto em toda sua vida. Mas ele não se importava, agora ali, parado de pé embaixo daquele arco de flores brancas e cor-de-rosa, ao som de arpas, flautas e alaúdes, ele só conseguia pensar no quão sortudo era.

Ao final do corredor criado pelas inúmeras cadeiras, ele podia ver a imagem mais bonita que um dia sonhara ver, Hinata vinha a seu encontro num belo vestido rendado com uma tiara delicada em sua cabeça e um lindo buquê em suas mãos. Segurava-se para manter-se parado ali a sua espera, seu desejo era mesmo ir de encontro a ela, tomá-la em seus braços e beijá-la nos lábios como só a pouco pudera finalmente fazer. Sua menina era perfeita e todas as vezes que seus olhos caíam sobre ela, tentava puxar em sua memória o que poderia um dia ter feito para merecer tamanha benção. Ele não conseguia se recordar de nada que estivesse à altura, mas também não se fazia de rogado, se recebera tão belo presente, faria o que estivesse ao seu alcance para merecê-lo.

Quando enfim ela chegou ao altar, beijou-lhe a testa em sinal de respeito e viraram-se em direção ao padre. Não saberia dizer como fora a cerimônia, não conseguia prestar a atenção em mais nada que não fosse ela, a não ser quando finalmente pode demonstrar em frente a todos, aquele amor sublime que cresceu por ela, a cada dia que cuidavam um do outro naquela torre abandonada.

— Você está ainda mais maravilhosa, meu anjo. – acrescentou ao separar seus lábios dos dela.

— Assim como você, meu amor.

— Hoje você me fez o homem mais feliz do mundo. – acariciou a face rosada de sua agora esposa, maravilhado com tamanha beleza.

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— Espero que ainda haja espaço para felicidade em seu peito, tenho uma surpresa para você. – acrescentou, deixando-o curioso.

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A música tocava e os convidados rodopiavam pelo jardim, enquanto a bebida era servida abundantemente. De seus lugares, Naruto continuava a importunar Hinata sobre a tal surpresa e a menina, em sua calma habitual, sempre o pedia um pouco de paciência. Começaram a receber os cumprimentos dos convidados – e alguns presentes – a começar com os soberanos, seguidos de Hanabi, e quando finalmente o cumprimentos acabara, Hinata anunciou.

— Também tenho um presente a você. – e apontou para os convidados, de onde vinha um casal muito distinto, vestidos em roupas muito luxuosas. O homem era alto e loiro, tinha lindos olhos azuis, uma espada em sua cintura e uma coroa dourada em sua cabeça, enquanto a mulher tinha longos cabelos vermelhos, olhos azuis levemente mais escuros e trazia uma tiara prateada, com várias pedrinhas brilhantes em sua cabeça.

Naruto nada conseguiu falar, seus olhos lacrimejaram, mas em nenhum momento conseguiu desviá-los. Levantou de súbito, indo de encontro à mulher vários centímetros menores que ele, abraçando-a como um menino que corria para o colo de sua mãe. As lágrimas presas em seus olhos finalmente caíram, quando sentiu suas costas serem abraçadas pelo homem que àquela proximidade podia-se perceber ser igual ao mais jovem.

— Você cresceu tanto e está tão lindo, meu menino. – disse com as mãos em seu rosto.

— Sentimos tanto a sua falta, porque não voltou para casa, meu filho? – o homem perguntou.

— Eu não tive coragem. – finalmente admitiu. — Eu tive medo que vocês não me quisessem em casa.

— Como não, Naruto!? Senti sua falta todos os dias, meu amor! Queria eu mesmo resgatá-lo daquela torre, mas seu pai me contou que apenas você poderia fazê-lo, então, eu rezei todos os dias que você aprendesse logo e voltasse para casa.

— Me desculpa, mamãe. Eu temi tanto que fosse rejeitado quando lá chegasse, que não tive coragem de procurá-los.

— Que bobagem, somos seus pais, jamais te rejeitaríamos. – o homem respondeu, observando-o.

— Me desculpem... – respondeu envergonhado olhando para os pés.

— Não há o que desculpar, agora precisamos agradecer essa jovem linda por não nos deixar perder o seu casamento. – foi abraçada ao filho em direção à menina, que esperava em pé ali do lado. — Ela não parece uma bonequinha, Minato?

Hinata corou e Minato negou com a cabeça, a esposa era muito expansiva às vezes.

— Majestades, é um prazer em finalmente conhecê-los! – fez uma reverência como aprendera ainda muito nova.

— Ora, minha querida! Não é necessária tamanha formalidade conosco – Minata respondeu

— Sim, somos uma família agora. – Kushina acrescentou abraçando-a. — Obrigada por nos devolver nosso filho. – sussurrou no ouvido da menina. — E, por favor, não demorem a me dar netinhos. – acrescentou em voz alta fazendo a menina corar.

— Mãe! – Naruto ralhou ficando tão vermelho quanto sua querida esposa.

∞

Estava sentada no alto de uma colina observando Naruto com uma espada de madeira em punho brincar com Hanabi e Mirai – a filhinha de sua aia — na campina logo à frente, ao seu lado, deitada em cima das patas dianteiras, tal qual um bichinho de estimação, jazia uma pequena raposa de pelos avermelhados e semblante preguiçoso.

— Ainda há algo que me intriga, Kurama.

— Diga-me princesa

— Por que a profecia não fora cumprida por inteiro?

— O que quer dizer?

— Na profecia diz que você colocaria fim na linhagem de Hamura, mas isso não aconteceu.

— Responda-me uma coisa, princesa, como eram mesmo os nomes que vocês escolheram para essa criança que carrega?

— Boruto ou Himawari Uzumaki. — respondeu sorridente ao lembrar-se de sua criança, até que teve um momento de clareza e voltou a olhar a raposa. — Uzumaki, é isso, a próxima linhagem será Uzumaki. — falou com um sorriso ainda maior no rosto. — Você sempre soube?

— Sempre.

— E era tudo um plano?

— Era.

— Sua raposa traiçoeira. — implicou risonha — Mas, eu tenho que te agradecer, ele está tão feliz agora, sinto que tudo valeu a pena.

Kurama apenas sorriu de olhos fechados, ainda deitada, ela sabia que no fim, tudo valeria a pena.

Notas finais
Couraça ??“ que protege o tronco do cavaleiro

Manoplas ??“ luvas

Tive essa ideia quando vi essa imagem (https://br.pinterest.com/pin/339458890639032455/) perdida pelo facebook e depois a postaram também no grupo Fanfic NaruHina, então aproveitei para colocá-la no desafio da página Naruto Shippers Design. Espero que tenham gostado.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!