A Princesa dos Mares
1 Capítulo Único | One Shot
Notas iniciais
Acordei numa grande cama num lugar que parecia uma câmara. Ou era um quarto? — Tentei me levantar, mas fui impedida por alguém — “Não, garota, não tão rápido!” — Disse uma voz áspera e grave. Estava sem forças, então voltei a deitar, mas ainda conseguia ouvi-los gritando — “Chamem o Capitão Esteban, a garota acordou!” — Esteban?, agora tudo fazia sentido. Capitão Esteban, um navio, eu estava na Princesa dos Mares. Mas não parecia com a velha embarcação da qual me lembrava.
— Filha?! — Era a voz do meu pai — Pensei que estivesse morta como sua mãe e seu avô! — Que bom que está viva…
— Pa…pai… — Mal conseguia falar, porém, fiz uma força para tentar dizer algo que ainda me assolava – Weib… Mi… Minha irmã?
— Não a encontramos quando voltamos na Vila da Raposa Branca. Nem você ou sua irmã. Então navegamos de volta para o outro continente. Muita coisa aconteceu. Fomos considerados piratas pela pelo Duque de Arandella.
— Pi… Piratas? — E foi tudo o que consegui dizer, antes de desmaiar novamente.
Assim que acordei, sentia-me um pouco melhor, mas ainda com dores. Um dos marujos de meu pai estava esperando pelo meu despertar. Veio ao meu encontro e me ajudou a levantar. Olhei atentamente para ele, mas percebi um engano que apesar de usar roupas masculinas era ‘ela’. Seria uma mulher tentando se passar por um homem? — E com sua ajuda, consegui sair dos aposentos do capitão, estando no convés principal da Princesa dos Mares. Muita coisa mudou. Havia mais velas e a madeira era mais resistente. Pouco do antigo navio ainda residia ali. Muitos homens que corriam de um lado para o outro das mais variadas etnias. Mais da metade eu não conhecia, era de fato um novo navio e uma nova vida que meu pai estava levando.
A mulher com vestes masculinas me deixou apoiada no mastro principal enquanto me entregava algumas roupas e uma bengala, apontando-me para o aparato como se dissesse “Use-o, lhe ajudará a se locomover melhor”. Mal havia reparado nos meus ferimentos. Ela entregou-me também minha velha bolsa. Quando reparei em meus ferimentos, havia algumas cicatrizes no rosto e braços, além de uma das pernas com o joelho quebrado devido a minha queda após a explosão em que me meti; Uma tala com madeira serviu para imobilizá-la e mal conseguia andar. Também reparei nos trapos que estava usando e as roupas que me foram entregues. Eram as minhas em partes e outras adaptadas para a minha perna. Em suma continuo usando uma camiseta larga até tapar os braços e um saiote por cima da calça, rasgada na perna esquerda até onde subia a minha tala.
Vasculhei minha bolsa, tateando até encontrar a poderosa espada: Outono! — Hoje não tão poderosa assim, pois estava quebrada pela metade, sobrando parte da lâmina e sua guarda, onde podia-se ler seu nome na língua antiga – Autumn.
Antes de sair dali perguntei para a mulher qual era o seu nome, mas não obtive resposta. Outro marujo disse-me que ela era muda e que havia perdido a língua em sua cidade natal.
— Me desculpe – Consegui dizer — Mas a mesma fez sinal para eu não me preocupar e saiu andando para outro lado.
Parte da tripulação que vivia na vila me cumprimentava. Não sei se acreditavam ser eu mesma ou a minha irmã — Éramos (e somos) gêmeas — Mas tiravam seus chapéus fazendo longas mesuras. Enfim era a filha do capitão, ou seja, jamais fariam pouco caso.
De baixo do convés, meu pai surgiu. Esteban Freiser, um grande pescador, mas agora capitão pirata procurado pela marinha real. Ele então olhou-me nos olhos. Ficamos ambos assim durante um longo silêncio, até que soltou um silvo e dando-me um susto, pegou-me pela cintura e me levantou num grande abraço — Como somente ele sabia fazer — Um de seus homens, talvez um cozinheiro, deu um alerta pois ainda estava machucada, mas papai não deu ouvidos me pondo no chão logo em seguida — Oi, pai… — Consegui dizer.
— Você não sabe o alívio que estou de saber que você está bem, Heili… — Me olhou um pouco mais — Você cresceu… Se bem me lembro, agora deve estar com dezesseis anos… — Fez um longo silêncio como se estivesse perdido em seus devaneios — Era a idade que lhe prometi navegar sob essas águas comigo.
— Também estou aliviada, pai – Abracei-o – Mas…
— Sua mãe e seu avô… — Fez um longo momento de silêncio até quebrá-lo — Voltamos para a vila e sem nada a fazer fomos atrás de um elixir para trazê-los de volta, mas de acordo com as informações obtidas… Tudo indica que foi obra de uma maldição, ou seja, não existe maneiras de reverter.
— Então a mamãe e o vovô… Eles… — Era muito difícil dizer aquelas palavras. “Estavam mortos”, não somente eles como toda a vila deixará de existir.
E não falamos mais naquilo até então indo comer algo na cozinha de Jack — O Cozinheiro, que aliás foi o meu curandeiro e médico.
— Está muito bom, onde encontraram Javeiros*, pai? — Disse me deliciando com aquela carne — Pensei serem animais extintos há anos…
— É do continente de Arandella. O lugar é bem diferente de onde viemos… — Ele parou um pouco como que pensasse no que iria dizer, mas deu de ombros — Nós tínhamos aval do Duque para a pesca nos mares sob a sua jurisdição, mas assim que passamos a navegar por outros mares atrás de você e sua irmã. Não foi algo que o agradou. Ele quebrou o nosso contrato e nos colocou na lista dos piratas a serem procurados pela Marinha Real.
— E quanto a Princesa dos Mares?
— Quase afundamos após uma batalha naval contra a frota do Duque, isso mostrou para nós que um simples cargueiro não era páreo para a galês real. Então juntamos o que ainda tínhamos e melhoramos a Princesa… — E foi interrompido por um dos seus tripulantes que cochichou algo nos ouvidos de meu pai. Ele pediu licença e saiu apressado.
Estava apenas Jack e eu na cozinha.
— Como está a perna, menina?
— Dói um pouco…
— Ficará assim por uns meses, não somos desprovidos de materiais medicinais, sendo que muita coisa improvisei para tentar salvar seu joelho. Haverá sequelas, mas espero não serem tão agravantes.
Curiosa com aquele homem, perguntei:
— Sempre ouvi dizer que cozinheiros não tinham opção de não exercer a medicina, eram obrigados mesmo sem saber de nada.
— E Você não está errada, mas seu pai esteve em minha cidade natal, consumiu de todos nossos benefícios incluindo dos meus serviços como homem de cura e contratou-me como curandeiro do navio, mas acabei como cozinheiro. Sempre fiz a comida para minha esposa e meus filhos.
— Eles devem ter orgulho de você… — Nesse momento, Jack olhou para seus próprios pés e deu um breve silvo. Percebi na mesma hora o erro que havia cometido — Desculpe, eu não sabia…
— Não precisa se desculpar, minha esposa e meus filhos morreram no ataque da marinha real. Ou seja menina, esse navio está carregado de pessoas que perderam seus entes mais queridos — Ele então olhou-me e deu um sorriso — A dor de seu pai é a minha também, por isso fui com ele. Aceitei ser parte da tripulação em busca de justiça pela minha esposa e meus filhos. E se o ajudasse a encontrar suas filhas, talvez tivesse a paz que tanto preciso pelos meus.
— O fato de tê-lo na tripulação , Jack. É para que você se sinta numa família novamente. Todos nós perdemos alguém. E você é bom no que faz. Geralmente, num navio como esse o médico serve apenas para amputar uma mão ou uma das pernas. Mas não aqui! Não sob o meu comando. Todos terão esperança.
Meu pai era um bom líder e passava confiança em suas palavras. Fiquei sabendo que boa parte da tripulação que não conhecia, eram de pessoas que foram presas ou estavam sendo perseguidas pela marinha real. A mulher muda a qual me ajudou na locomoção era um caso à parte. Ela se vestia de homem porque era homem, mesmo num corpo feminino. Era perseguida desde que começou a se vestir assim. Acusavam a mesma por heresia. Arandella não permitia pessoas que se passassem pelo sexo oposto. Meu pai disse que Lina… Que dizer, Lino, sofria um certo preconceito e ao ser pego pelos guardas a pena foi perder sua língua e ser exilada da cidade. Lino, por incrível que pareça, tinha bonitos traços e teria sido uma linda camponesa. Mas ELA jamais seria ELE e como homem sentia-se bem. É muito complicado entender, mas de uma coisa eu tinha certeza. Podemos ser quem nós quisermos.
Subi no deck principal com meu pai.
— Gostaria de navegar com a Princesa, minha filha?
— Claro! — Expressei, pois sempre foi o meu sonho de um dia comandar tudo aquilo — Mas o que eu tenho que fazer? — E me dei conta que não sabia nada sobre navegação.
— Haha! Venha aqui, coloque as duas mãos no timão… Não se preocupe, estarei aqui atrás lhe ajudando — Foi o que ele disse, sendo didático — Todo movimento que você faz aqui, ajusta o curso que está atrás do navio. É necessário muita força, que às vezes nem mesmo o capitão possui. Por conta disso temos sempre um bom timoneiro, forte o bastante para esse serviço. Mas quando as águas estão calmas, permito-me navegar um pouco.
— É relaxante…
— Não deixe de acreditar somente nisso. Houve pescas em alto mar com chuvas torrenciais que eu mesmo tive de estar no comando do timão.
Aquela era uma sensação única. Vivi a minha vida para chegar ali e ser como meu pai e poderia de aquele dia em diante seguir em viagem. Me sentiria feliz apesar dos pesares. Mas nem tudo são flores e foi naquele momento que percebi que jamais teria paz novamente, quando um navio da marinha real apareceu no horizonte.
— Navio a estibordo! — Gritou um dos homens de cima do mastro principal e o rosto do meu pai mudou de expressão.
— Heili, vá para os meus aposentos e se tranque. Se algo acontecer, por trás do vitral existe um pequeno barco, use-o para escapar!
— Mas pai, agora que eu encontrei você, não quero perdê-lo!
— Você nunca me perdeu… — E me colocou no caminho até seu aposento — Agora vá.
E fui mesmo à contra gosto. Mas eu não poderia fazer nada, pois em questões marítimas, tinha pouca experiência. E para piorar a situação começou a chover. Não demorou muito para que ataque começasse, o que não era tão audível por conta da chuva e as brigas de canhões. O que eu conseguia ouvir era os tripulantes passando perto dos aposentos, gritando coisas como: “As balas de canhão; Levem a pólvora; Eles estão atacando”. Tiros para todos os lados e eu sem fazer nada. Seria assim a minha morte? — Morrer apenas como uma simples camponesa? — Não! Não seria assim — Levantei-me da cama, mesmo com o navio balançando e as coisas indo para todos os lados e abri a janela, mas o vento estava forte e a chuva bateu violentamente em meu rosto atrapalhando minha visão. Lembrei que eu não iria conseguir subir, então voltei para dentro e arranquei a minha tala. Fazia quase uma semana e apesar dos avisos, tinha de estar bom. Não sei se por um milagre ou se pela magia que corria por meu corpo, eu estava quase curada. Apesar de algumas pequenas dores, podia me locomover. Sai pela janela com uma faca nos dentes. Cortei a corda do barco, caso precisássemos fugir, mas não calculei direito e ao cair na água, o mesmo se afastou devido a forte maré. Subi toda a corda do lado de fora até o convés superior. Ao chegar consegui ver um grande torso que só podia ser do timoneiro que levava a Princesa dos Mares de um lado para o outro de maneira hábil. Ele não percebeu a minha entrada. E vi meu pai preparando-se para o ataque de frente com o navio galês.
Os dois haviam se chocado e eu quase caí para fora, se não fosse por Jack ter me segurado. Ele me olhou com curiosidade e percebeu que minha perna estava bem. Não entendeu, mas nada disse, olhou para o meu pai e depois para mim balançando a cabeça negativamente. Deu-me passagem até ele, bem na hora que o exército real adentrou na Princesa dos Mares. Lutas de espada tiveram início e muitas mortes vieram também. Tentei chegar até meu pai, mas o navio se mexia muito o que me impedia de ir até ele. Esperei até que se estabilizasse. Quando percebi que meu pai perdia a briga. Aquele militar tinha anos de experiência com a espada, algo que um mero pescador não possuía. E aos poucos o prendia até o mastro principal, ficando estocado diante da ponta de sua lâmina e a madeira. A morte era certa, mas eu não podia perdê-lo. Peguei Outono, a poderosa lâmina dos Magiliter, que apesar de quebrada, ainda possuía um grande poder — Pulei por cima do barril, caindo no militar que deu de cara no chão. Nós dois perdemos a espada. Como era mais forte que eu, subiu por cima de mim dando-me socos na cara, mas antes do último foi impedido por meu pai que segurou seu braço e o puxou por cima de si. E nisso Esteban era bom, tinha massa muscular e sempre carregou peso com facilidade. Puxou para cima e o jogou em uma pedaço de madeira cheia de farpas pontiagudas que havia sido formado por conta de um tiro de canhão. Os olhos dele se fecharam lentamente e então a vida abandonou o seu corpo.
Esteban chegou perto de mim, um pouco furioso, mas levantou-me dando um longo abraço, dizendo ao pé do meu ouvido.
— Não queria que fosse assim, mas agora eu sei que é o melhor para você — Olhou pra minha cara que agora estava com hematomas das porradas que tomei e chorou. Ele se levantou comigo em seus braços e foi até um dos botes salva vidas. Olhou para Lino e o chamou — Quero que proteja minha filha com a sua vida! Ela é importante e quero a ajude em sua jornada — Lino fez que sim com a cabeça e entrou no bote, segurando-me quando meu pai passou-me para dentro. Ele cortou as cordas com apenas um golpe de espada caímos na água violentamente.
Lino entregou-me Outono que havia caído e começou a remar. Não sei quando aconteceu, mas adormecemos. Talvez pelo cansaço, mas o que ocorreu quando abri os olhos, era algo inacreditável.
Estávamos diante de um galês que já nos havia visto. Na proa via-se escrito: “Arandella”. Descobrimos que não foi o mesmo navio que nos atacou, mas eram os mesmos militares. O capitão nos resgatou e veio ao nosso encontro. Perguntou pelo nosso nome e eu preferi mentir. Estava suja e portanto um pouco irreconhecível.
— Meu nome é Frey e esse é meu irmão mais velho, Lino. Ele não fala — E preferi me passar por homem, esconder quem eu era.
— O que faziam em alto mar? — Perguntou o Capitão.
— Fugimos de nossa vila no outro continente. A Vila que havia se tornado pedra, queremos vingança por essa maldição e para isso queremos nos alistar para a guarda real do Reino de Arandella.
O Capitão que se apresentou como Haramir, coçou o longo queixo e disse.
— Posso talvez arranjar algo para vocês — Fez um sinal para seus homens — Quero que os leve para um bom banho. Deem algumas roupas e também comida. Em menos de uma semana voltaremos para Arandella — Deu as costas e saiu andando. E um dos tripulantes a mando de Haramir fez um sinal para segui-lo.
Assim uma nova fase na minha jornada deu-se início. Não de Heilignet Freischalten, mas sim de Frey. Um garoto de dezesseis anos com um sonho de ser da guarda real.
Javeiros* – Nesse universo, alguns animais terão outra pronúncia. Esse é uma espécie de Javali.
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