Notas iniciais
Primeiro capítulo de muitos, espero que gostem

Outro navio voador... Recentemente eles haviam se tornado cada vez mais comum. Os aviões a vapor e os zeppelins eram rápidos, usados para transporte e entregas, já os navios tinham classe, eram mais lentos e bonitos, alguns diziam que a rainha Vitória frequentemente passeava em um desses, por falar nela, é justamente aí que nossa história começa.
A Rainha Vitória não podia ter filhos ou filhas, mas o desejo de ser mãe era muito mais alto que o seu bom senso, ela queria mais que qualquer coisa uma filha. Então a rainha mandou chamar na torre o doutor Victor Áurea para fazer algo que ele se arrependeria para sempre, dar à rainha estéril uma filha. Porem os métodos de Victor eram estranhos e contra uma lei, que proibia o uso de metais para curar, ou transformar.

Inglaterra, 1841

Victor estava a caminho da capital em uma fina locomotiva, a pedido da rainha. Fazia dois dias que recebera a carta, e ele lia e relia sem parar. A rainha devia estar ficando louca, o pedido era tão incomum... Os súditos Londrinos não iriam entender, deve ser esse o motivo de a rainha ter pedido total sigilo.
Victor se acomodou no banco. A sua frente havia uma pequena mesa e outros dois bancos na sua frente, felizmente estavam vazios. Victor colocou a carta sobre a mesa com a intenção de lê-la outra vez.

"Querido amigo,
peço te um último favor. Sei que lhe devo mais que a minha vida, porém não acho que poderei pagar-lhe antes da minha morte.
Peço total sigilo, ainda mais agora com essa guerra contra os irmãos chineses.
Estou deprimida e frágil, os nossos inimigos não podem saber que a rainha se encontra em desespero está sozinha.
Para caso eu morra nesses anos, preciso de uma herdeira, alguém que possa tomar meu lugar e mover ainda mais nosso império.
Mas como o senhor sabe, isso não será possível por causa de sua falha, como o senhor já deve saber, quero que você me faça uma filha.
Encontre me no palácio no dia 14 de julho, não me desaponte.
Vitória."

O lacre de cera não era o do palácio, por isso ele levara um enorme susto ao descobrir que era da rainha. Ele já a salvara de uma doença cardíaca uma vez, implantou um coração de metal para substituir aquele danificado, mas é claro, com isso veio rumores e esses rumores tiveram consequências.
Uma engraçadinha se aproveitou disso e escreveu um maldito livro de terror contando essa historia de modo implícito na obra. As pessoas então se tornaram temerosas, ainda mais com um possível assassino a solta. Muitos o associavam com o tal monstro. A repercussão foi tão grande que a rainha foi obrigada a fazer uma lei banal: Ninguém poderia ser curado por meio de máquinas novamente, ninguém poderia mais brincar de Deus.
Isso levou o emprego de Victor e dos demais médicos. Ele se sentiu tentado a revelar o vapor que enchiam as veias e abastecia o corpo da rainha, mas não fez isso.
Ele sabia que ela não tivera escolha, e então o povo começou a morrer.
Victor propôs medidas para purificar a água e para tratar o sistema de esgoto, tudo usando motor vapor e ar comprimido, essa era a sua especialidade.
Mas agora, ele não estava certo de que a rainha quebraria sua própria lei, afinal se esse segredo caísse em mãos erradas...
Se bem que a culpa era dele. A rainha fora salva, mas tinha apenas uma única consequência: não sobrecarregar o motor, isso incluía sexo.
Victor se sentia em parte arrependido, mas não podia fazer nada, o rei o entendia, a vida era mais importante que o prazer.
" Eu a avisei. " pensou o doutor. "A vida tem um sabor delicioso para quem se arrisca, algo que quem se esconde jamais sentirá... Bem, pensando melhor a menos que você seja a rainha."
— Esse é o lacre real?
Victor levou um susto e rapidamente escondeu a carta.
— É claro que não. Quem é você?
O garoto possuia olhos castanhos claros e um sorriso brincalhão. Tinha sardas nas bochechas e era bem pequeno.
— Oi sou Brandon. — ele exclamou. — desculpa pelo susto.
O homem arrumou a cartola.
— Não foi nada criança. Volta pra sua mãe.
Brandon fitou o chão.
— Eu não tenho mãe.
Victor levantou a cabeça.
— Ela morreu?
— Não. Eu não tenho mãe.
Victor balançou a cabeça.
— Bobagem. Todos tem mãe.
— Eu não tenho mãe. — Ele insistiu.
Victor deu dois tapas no banco ao seu lado, indicando um lugar para Brandon se sentar.
— Você tem um pai?
Victor sorriu.
— Ele morreu.
O doutor estranhou o comportamento. Desde quando perder o pai era algo bom? Tinha algo de errado com o garoto.
— Quantos anos você tem, criança?
— Nove.
— O que exatamente veio fazer aqui em Londres?
O menino abaixou a cabeça.
— Eu queria ser um cavaleiro. Deve ser emocionante subir naqueles cavalos de lata e atirar nos chineses. Papai me mandou procurar Sebastian de La Fountain, disse que ele me daria dinheiro.
Victor Áurea sentiu vontade de vomitar. La Fountain era um cafetão chinês que ficava nas margens da capital, suas prostitutas eram as melhores da cidade, mas que tipo de pai mandaria seu filho para um destino como esse? Ele devia ser muito pobre, Victor podia jurar que se arrependeria daquilo por anos.
— Pode guardar um segredo? — o medico sussurrou.
— Claro que sim. — disse a criança interessada.
— Meu nome é Victor Áurea, estou indo para o castelo a pedido da rainha Vitória.
O queixo do garoto caiu.
— Mas você me disse que esse não era o selo real.
— E não é. Mas a carta é da rainha.
Antes que o garoto falasse algo, ele continuou.
— Você não precisa de Fountain... -O que tem de errado com esse cara? — Bem.. ele é... chinês! É isso chinês. – Ele ignorou o murmúrio confuso de Brandon e continuou. – Se quiser pode vir comigo no palácio, mas desde que não conte a ninguém. A rainha me deve um favor, posso fazer de você um cavaleiro. Brandon estava boquiaberto.
— Por quê? Por que quer me ajudar moço? Eu não sou ninguém!
— Por isso mesmo. — Ele piscou. — É hora de começar a ser alguém.
Victor olhou para todos os lados do trem para ver se alguém o encarava. Ninguém.
— Eu te nomeio Brandon Áurea, filho de Víctor Áurea e futuro cavaleiro real.
O garoto mal pode segurar as lágrimas de tanta emoção.
— Eu... Eu...
— Você vai ter que me ajudar com a princesa. — murmurou.
— Que princesa?
Víctor mordeu o lábio.
— A rainha precisa de uma. Ela está morrendo.
— Estamos ferrados. Por que me falou isso?
— Você é meu parceiro agora, eu confio em você se você confiar em mim.
— Te conto como papai morreu se me contar isso direito.
Víctor sorriu. Seria uma conversa para o resto da viagem, que não iria demorar muito.