A Princesa Verde : Sementes
2 🌿 Capítulo 1 – Antes da Aurora
Notas iniciais
🌿 Capítulo 1 – Antes da Aurora
Havia uma época em que as manhãs dançavam leves sobre os Bosques Verdejantes,
e as árvores riam com os pássaros, e as pedras sabiam dormir.
Os ventos sopravam em espiral, penteando as folhas em melodias gentis,
e a luz do sol caía como orvalho quente sobre a relva encantada.
Era o tempo da Grande Harmonia.
🦉 Tilla, a Coruja Alada
No topo da Árvore do Silêncio, onde os galhos alcançavam as nuvens e os ninhos guardavam pergaminhos antigos,
vivia Tilla, a coruja mais velha entre as aladas.
Ela não era apenas sábia. Era memória viva.
Seus olhos viram a primeira névoa descer das Montanhas Geladas,
e seus cantos eram ecoados pelas corujas menores em toda a floresta.
A cada entardecer, ela abria suas asas longas, de penas douradas e brancas,
e sobrevoava os campos límpidos, os vales escondidos, e as árvores cantantes dos Ents Jovens.
— “Hoje é dia de raiz e sol,” disse certa vez, pousando numa clareira.
— “As plantas estão em festa, e os ventos sussurram segredos alegres.”
Os animais ouviam. Os cervos de galhada luminosa dançavam em círculos,
os passarinhos de penas translúcidas assobiavam canções esquecidas,
e até os ursos de mel verde cantavam em uníssono com os Ents.
E no centro de tudo, estava ela: Neredithia.
👑 Neredithia e a Harmonia
A Guardiã caminhava pelos bosques como uma sombra maternal.
Para alguns, parecia uma mulher feita de folhas e orvalho.
Para outros, era um feixe de luz esverdeada em forma de rosto.
Ninguém sabia ao certo sua forma verdadeira.
Mas todos a reconheciam.
Ela falava com as árvores sem abrir a boca.
Fazia chover flores com um gesto.
E, quando tocava a terra, o chão suspirava.
— “O mundo respira... e enquanto respirarmos juntos, haverá paz,”
murmurou ela ao lado da Fonte de Pedras Musgosas, onde fadas se banhavam.
🌈 A Celebração dos Quatro Ventos
Naquele mês, os Quatro Ventos se encontraram no alto da Torre do Trovão,
e os Pégasos de Cristal dançaram em espiral, cobrindo os céus de luzes celestes.
Do sul, dragões de nuvem sobrevoaram os bosques em sinal de saudação.
No Vale dos Unicórnios, os corcéis brancos brilharam por três noites consecutivas.
Era uma era tão pacífica, que até os gólems dormiam,
e os ogros cantavam canções de ninar para os pequenos entezinhos.
Mas então...
Na noite da Estrela Esmeralda, ela desapareceu.
🌫️ O Desaparecimento
Não houve aviso.
Nenhum grito. Nenhuma sombra.
Apenas o silêncio súbito.
Tilla, que voava sobre os Bosques naquela madrugada, sentiu a mudança no ar.
As árvores se encolheram. O vento fugiu.
E um vazio cobriu a clareira onde antes Neredithia costumava se deitar entre as raízes.
Ela não estava mais lá.
Nem seu perfume de relva úmida.
Nem sua presença morna e calma.
Somente um musgo novo, em forma de círculo, crescia no chão.
E em seu centro... uma luz verde pulsante.
🔍 A Reunião das Criaturas
Alarmados, os anciãos se reuniram no Santuário das Corujas Aladas.
— “Algo antigo foi tocado,” disse Tilla.
— “Ela não sumiria. Não sem deixar um presságio.”
Os unicórnios falaram de uma música esquecida que ouviram no vento.
Os Ents contaram de sementes que germinaram sozinhas.
E os dragões do trovão relataram um tremor mágico vindo do sul profundo.
— “Talvez ela tenha partido para plantar algo,” sugeriu um pequeno ente.
— “Algo maior que nós...”
Mas ninguém sabia o que.
Nem quando.
Nem por quê.
🌌 Uma Nova Espera
Sem sua guardiã, o mundo não se tornou sombrio...
mas ficou mais silencioso.
Mais atento.
Como se prendesse a respiração.
A cada dia, os animais olhavam para o horizonte.
As corujas escutavam o vento.
Os Ents, de troncos jovens, falavam menos.
E o solo, mesmo fértil, parecia esperar algo.
Em algum lugar sob a terra,
na escuridão viva da Caverna Verde,
uma semente pulsava.
O mundo havia sido regado.
Mas não com água.
Com destino.
🌘 Uma Nova Névoa
Os dias que seguiram o desaparecimento de Neredithia foram estranhamente belos.
O céu tingia-se com cores que os pássaros não sabiam nomear,
e uma névoa suave, esverdeada, cobria os campos ao amanhecer — como um cobertor tecido por antigos espíritos.
Mas o mundo já não sussurrava com a mesma leveza.
Nos Campos Antigos, as fadas que antes voavam despreocupadas agora batiam asas mais baixo.
Em vez de músicas, suas bocas murmuravam lendas esquecidas:
— “Quando a Guardiã dorme, os portais se mexem...”
— “As raízes sabem antes dos ramos...”
— “Algo se prepara nas profundezas...”
🦉 Tilla e a Revoada da Noite
Tilla, a coruja anciã, continuava a sobrevoar os céus, mas agora em trajetos circulares, vigiando.
Ela pousou certa noite na Torre do Trovão, onde os Pégasos de Cristal estavam inquietos.
As nuvens, antes ordenadas, estavam dispersas.
E os dragões do trovão rugiam sem razão.
— “Eles sentem... o céu vai abrir caminhos que estavam fechados,” disse um dos pégasos, agitando as asas.
— “E há algo se mexendo sob as Terras Magma...”
Tilla respondeu com uma frase que faria eco por muitos dias:
— “O mundo não está doente. Está... gestando.”
🌲 O Sussurro dos Ents
Nos Campos Límpidos, onde os Ents Jovens cresciam com os pés enraizados e os braços feitos de folhas,
algo novo começou a brotar: sementes que ninguém havia plantado.
E de cada semente, nasciam pequenas árvores que falavam — mas não com vozes de plantas.
— “Mãe...” diziam.
— “Acorda...”
Os Ents mais velhos se reuniram junto ao Grande Tronco da Memória e chamaram isso de A Semente Verde,
um sinal de que o coração do mundo começava a se mexer.
🐺 Panteras e Lobos
Nas duas aldeias divididas pelo rio — Pantera e Lobo — os animais começaram a andar de forma estranha.
As panteras viam luzes nos Bosques Azuis.
Os lobos uivavam para a lua mesmo em tardes sem luar.
Nas noites mais silenciosas, ambas as aldeias sonhavam com a mesma imagem:
uma árvore em flor, uma coroa de folhas e olhos que brilhavam como a aurora.
O velho xamã da Aldeia Lobo dizia:
— “A floresta sonha... e, quando ela sonha, prepara seu herdeiro.”
🧭 A Marcha das Sombras
Mas nem todos dormiam em paz.
Na Floresta Escura, os vampiros brancos começaram a se mover mais cedo, antes do crepúsculo.
Criaturas antigas, como os felinos de seis olhos, os ratos com caudas de espinhos e os pássaros-negros sem sombra, começaram a se reunir em círculos silenciosos.
— “Se a Guardiã não vigia, voltaremos a caminhar,” disse um velho vampiro de asas rasgadas.
E nas Cavernas Escuras, as runas nas pedras começaram a brilhar, uma a uma, como olhos despertando do sono.
Os gólems de basalto abriram os olhos.
Os elementais de cinza começaram a se mover.
E vozes ancestrais começaram a ser ouvidas nos cantos mais profundos, onde nem o som alcançava.
🔥 Ecos do Sul
Nas Terras Magma, as montanhas estremeceram.
Seres de fogo, até então adormecidos, despertaram.
— “Há um coração batendo embaixo de nós,” murmurou um salamândrico de rubi.
E um dragão antigo, chamado Fulgar, sussurrou para a lava:
— “Ela virá. A pequena herdeira. O verde nascerá do sangue e da chama.”
🌊 O Mar Se Agita
No Mar Grande, os gigantes azuis que dormiam sob as águas começaram a subir.
Não para atacar. Para observar.
— “Há uma nova canção no fundo do mundo,” disse um golfinho de prata a um cardume de sereias.
E no fundo mais escuro do oceano, uma flor verde nasceu — sem raiz, sem semente, apenas vontade.
🌀 O Começo do Começo
Tilla retornou a Neredithia e pousou diante da clareira onde a luz pulsante ainda respirava.
— “Você está sem forma... mas não sem força,” ela murmurou.
— “O mundo espera... e começa a se dobrar para o que virá.”
E então, pela primeira vez em dias, o vento voltou a cantar.
Um canto lento, grave, como um tambor no coração da terra.
E os animais começaram a seguir esse som.
Não sabiam para onde.
Não sabiam por quê.
Mas todos sabiam.
Algo se aproximava.
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No coração dos Bosques Verdejantes, o som dos ventos se calou.
Era um amanhecer sereno, como tantos outros no continente. As criaturas matinais saíam de suas tocas e ninhos: as lebres de cauda musgo farejavam o orvalho entre as folhas, e os cervos de chifres dourados pastavam sob os salgueiros ancestrais. As borboletas-vagalume dançavam por entre as flores. Mas naquele dia, algo estava errado. Profundamente errado.
Na planície onde antes se erguia o glorioso reino de Neredithia, não havia mais nada.
Nada.
Nem as muralhas de musgo branco. Nem as torres de galhos trançados e pedras vivas. Nem os portões cantantes, que abriam-se com versos em línguas antigas. Nem os jardins suspensos com raízes luminosas que brilhavam à noite. Tudo havia desaparecido, como se jamais houvesse existido.
O vazio ocupava seu lugar. Uma clareira onde até a luz parecia relutante em tocar o chão.
Tilla, a velha coruja de olhos âmbar, sobrevoava a região em círculos cada vez mais amplos, sem compreender. Ela crocitava alto, chamando por Rainha Neredithia, por qualquer guardião, qualquer druida... Mas apenas o eco lhe respondia. Nenhum som vinha da terra. Nenhum sussurro da floresta. Nem mesmo o zumbido das abelhas canoras.
Na Vila Cometas, distante dali, o primeiro sinal foi sentido pelas raízes.
Os anciãos Ents dos Campos Límpidos estremeceram ao mesmo tempo, seus galhos se encolhendo com um arrepio invisível. "O centro caiu", murmuraram com vozes de trovão abafado. "O coração da floresta foi arrancado..."
Na Aldeia Pantera, as feras começaram a se agitar. Os panteras de olhos prateados, sempre calmos, estavam inquietos. Alguns corriam em círculos. Outros uivavam para a lua, mesmo sob o sol do meio-dia.
Na Aldeia Lobo, os ventos mudaram. Os xamãs sentiram um cheiro novo no ar — o cheiro da terra recém-partida, da mágica recém-liberta.
E então… ele surgiu.
No céu sobre os Bosques Azuis, sem nuvens ou chuva, um enorme arco-íris se formou. Mas não era feito de luz comum: seus tons iam além do visível. Havia um violeta profundo que vibrava, um dourado que parecia líquido e um verde esmeralda pulsante como se estivesse vivo. Ele se erguia alto, tão alto que tocava as Torres do Trovão e se estendia além do horizonte, apontando para um destino incerto.
Os povos o chamaram de “o Arco da Semente”.
Os unicórnios, no alto do Vale, ergueram seus pescoços e relincharam juntos, em um som de lamento e esperança. As Entidades da Floresta Escura se esconderam em silêncio. Os dracos anciãos que dormiam sob as Terras Magma se remexeram nos túneis escaldantes.
Mas ninguém sabia ainda o que significava aquilo.
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No centro da clareira vazia, Tilla pousou. Seus olhos refletiam o céu colorido e o vazio. Ela ficou ali, imóvel, tentando entender o que nenhum dos livros antigos jamais previu.
Uma única coisa restava no chão.
Entre a grama queimada, havia uma semente. Verde e quente ao toque, pulsando como um coração recém-nascido. Ela não pertencia ao que existia antes. Era algo novo. Algo que ainda germinaria.
Mas havia uma marca no ar, um rastro invisível de Neredithia.
Ela não desaparecera por completo.
Ela estava… em algum lugar.
E a semente era a chave.
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“A Rainha se foi, mas deixou o eco do seu poder. E onde há eco, há retorno.”
– Tilla, ao Conselho dos Quatro Círculos.
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