Notas iniciais
O telefone tocou 3 vezes antes que ele atendesse. Falou o tempo todo com a voz um pouco cansada e ainda parecia preocupado com alguma coisa.
— Sebastian?
— Sim. Kyle!?
— É, posso te encontrar daqui a 20 minutos no parque em frente à sua casa?
— Claro! Por que?
— Nada demais, preciso conversar com você. – queria que não tivesse soado “precisamos ter uma conversa séria” e mais tipo “só quero conversar com meu melhor amigo”, como sempre fazíamos quando tínhamos vontade de só conversar.
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Não sou bom pra lembrar das coisas como elas realmente foram. Sempre perco parte do sentimento, algo de comum nessas lembranças tão perdidas, tão distantes no tempo-espaço. Sinto que perco o brilho do momento, só visualizo rostos e gestos e falas, como no roteiro de um filme que eu leio mecanicamente. Por isso lembro exatamente como tudo foi, mas não lembro o que senti, nem como foi ser feliz nos meus 8 ou 9 anos, época que conheci Sebastian.
Eu tinha acabado de mudar de escola. Minha família vinha de muito longe, então mesmo que eu quisesse, não reconheceria nenhum rosto. Mas crianças tem uma coisa muito curiosa dentro de si, coisa essa que durante a infância se descobre e redescobre, como um ciclo, e sempre parece que tudo é novo aos olhos, mas então depois se perde ou se para de buscar, não sei.
Lembro que passei pelo ritual de me apresentar na frente da sala, todos se embolando numa conversa muito alta e acho que ninguém me ouvia direito porque eu falava baixo demais. Quando a professora me indicou a cadeira ao lado de Sebastian sentei sem olhar para os lados, então senti que ele me encarava e ficou assim por alguns segundos, até que, ainda mudo, voltou o olhar para a própria carteira e continuou a fazer o quer que seja no seu caderno.
Logo no recreio, todos se sentaram em duas grandes mesas de piquenique, não era uma classe muito grande, fazendo grande alvoroço. Abri minha lancheira e peguei o que minha mãe sempre preparava pra mim: sanduíche, suco e algumas frutas. Até que escutei a voz infantil dele, muito sério apesar disso, reclamar do que tinha trago. Voz que parecia se sobrepor acima de todas as outras, não sei se isso é só um erro, uma lacuna de memória preenchida de modo exclusivo dos outros ou se era isso mesmo que havia ocorrido. Eu sentia que ele falava ao meu lado, mesmo que estivesse do lado oposto da mesa e umas quatro crianças distante de mim.
— Por que minha mãe sempre coloca isso pra eu comer? Eu odeio isso! – era um saquinho ziploc com alguma coisa verde e pastosa. – Jessy, você quer?
A menina que parecia ser a Jessy, ou pelo menos a que eu me lembro ser a Jessy, recusou com uma cara de nojo, assim ele ofereceu para mais duas ou três crianças próximas dele, todas recusando com a mesma cara que Jessy fez. Vendo que não tinha outro jeito, ele pegou uma colher de plástico flexível que estava junto do saquinho ziploc e colocou uma colherada “daquilo”, achei que fosse levar à boca, mas ele fez como numa catapulta, esticou a colher para trás e atirou. Lembro muito bem “daquilo” passando no ar como uma bala, atingindo o inspetor, que estava perto da grade falando com uma professora, bem no pescoço. De repente todas as crianças estavam olhando na mesma direção e rindo descontroladamente, o inspetor confuso queria saber de onde “aquilo” tinha vindo, olhando em todas as direções. Eu, que não tinha tirado os olhos dele, o vi esconder embaixo do banco aquela gosma verde engraçada. Ele só tinha um sorriso meio perverso enquanto olhava o inspetor ficar muito, muito bravo, até que virou os olhos e fixou bem em mim, direto, feito um tiro de pistola.
Ficou sério por alguns segundos, que na hora me pareceu ser minutos, as coisas pareciam em câmera lenta, mas meu coração pulsava forte, rápido, leve e ansioso, tudo isso ao mesmo tempo. Aí ele abriu um sorriso. Um sorriso de criança, sabe? Daqueles que não se consegue evitar sorrir de volta, e foi o que eu fiz. Até que começamos a rir, ainda nos olhando. É nessa parte da história que eu já não sei o que é real ou fantasia, sempre me vejo nesse túnel infinito em que a realidade nos espreme com sutileza e envolve, e rimos eternamente do inspetor com a coisa-verde-engraçada grudada no pescoço. Guardo essa pequena peça de recordação com carinho, apesar de não poder senti-la terna como foi, apesar do momento ter significado muito, visto que agora 8 anos depois, nos tornamos amigos, não consigo ama-lo tanto quanto naquele dia, nem me sentir tão ansioso para conhece-lo, nem rir da mesma maneira, a felicidade tão completa e cheia de nós. Aquela foi a primeira vez que rimos juntos.
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Quando cheguei ao parque, vazio, sentei na gangorra. Olhei para a esquina onde se encontrava a casa dele, não muito longe, consegui ver sua silhueta recortada no fundo luminoso da rua.
Assim que chegou, convidei gentilmente que sentasse do outro lado do brinquedo. Passamos alguns poucos minutos assim, só olhando o que passava a volta: os pássaros, as flores das amendoeiras caindo, as longas sombras esverdeadas se movendo furiosamente no vento. E ele, com os cabelos que pareciam longas ondas em cacho se misturando e desciam na sua maciez lisa até um pouco do pescoço, os olhos castanhos muito escuros, quase pretos até, meio cansados, a cara de sono.
— O que você tava fazendo? – perguntei, começando a conversa de alguma forma.
— Vendo filme. – ele respondeu meio não se importando.
— Qual?
— A gente já viu juntos, aquele que sempre passava no sábado de madrugada, mas aí sempre dormíamos antes do final.
— Sei, “Adeus, meninos”! O final é bom?
— Não sei, você me chamou antes do filme acabar. – ele deu aquela risada fraca e eu sorri meio sem graça com aquilo.
— Sabe que eu saí com a Caren mais cedo. Tentei explicar aquela história toda que aconteceu. – ele olhou para mim, parecia mais desperto agora, piscou algumas vezes mais, esperando que eu continuasse a falar. – Ela me contou que ficou um tempão me esperando, depois foi embora achando que eu tinha dado um bolo nela. Ela não acreditou muito em mim.
— E então? – ele falou quando eu dei uma pausa.
— Então que eu pedi pra ela falar com o Timothy, porque foi ele o princípio de toda aquela merda que aconteceu.
— E o Timothy falou o que?
— Falou do diretor Brown, mas o diretor já tinha dito que aquilo era mentira... Então eu o pressionei, ameacei um pouco, me sinto um pouco culpado por isso agora... – tentei disfarçar o olhar, evitando olhar para ele diretamente, porque olha-lo me deixava nervoso e eu tinha vontade de desistir. – Mas ele me disse que foi você. Foi você que mandou ele trancar a sala e tirar a chave assim que a gente tivesse entrado.
Achei que ele fosse reagir. Gritar, xingar, sei lá, negar tudo, dizer que Timothy estava inventado aquela história toda, mas ele só deu uma assentida meio lezada de cabeça, como se estivesse pensando em outra coisa.
— Porque você fez isso? – perguntei. Eu não estava bravo, acho que não, quero dizer... Eu só queria saber porque, só.
— Agora eu não sei! – ele ainda parecia meio perdido. – No dia me pareceu uma ideia divertida! Você não achou divertido?
Eu não acreditava nele, nem sequer um pouco. Bastava só olhar a linha da sua boca torcida e as sobrancelhas contraídos, o olhar vago e a voz perdida no tom meio rouco.
— Sebastian, não faz isso, okay? Não mente pra mim se você não consegue fazer direito. Se não quiser me contar tudo bem, me sinto menos ofendido. – ele olhou pra mim os olhos meio lacrimosos, não sabia se ele ia chorar ou se era o brilho que ele sempre teve. Alguns dias ele parecia o tempo todo prestes a chorar, apesar dele raramente fazer isso, salvo o funeral da sua mãe, que havia morrido há dois anos.
— Se eu te contar você não vai gostar, vai parar de falar comigo. – ele disse calmo, parecia estar tentando calcular os danos que havia de causar. – O que eu posso fazer pra isso não acontecer?
Ele falou baixo, não pra mim, pra si mesmo. Mas me senti no direito de responder.
— Eu não sei! Você não me contou o que é ainda!
— Eu fiz aquilo porque eu... Porque eu gosto da Caren! Achei que depois daquilo, ela iria parar de falar com você. Eu fiz sem querer, quero dizer... Foi por impulso, depois eu me senti culpado, mas...
— O que? Como assim? Você gosta da Caren? – nem por um minuto aquilo tinha me passado pela cabeça, logo então me senti péssimo por nunca ter notado, nunca ter perguntado, mesmo que ele não tivesse demonstrado.
— É, eu gosto! – ele colocou a mão na cabeça, achei que fosse toda culpa querendo sair de uma vez. Culpa por algo que todos fizemos e que não tem mais conserto. Então ele saiu do brinquedo e ficou de pé, parado.
— Desde quando? – disse ainda sentado na gangorra numa posição ridícula.
— Muito tempo, mais tempo do que você a conhece, mais ainda do que ela me conhece. – ele sentou num banco próximo, passou a mão nos cabelos meio embaraçados, os olhos ainda brilhantes.
— E por que você nunca me disse? Por que não me avisou antes? Eu teria me afastado, sei lá! – falei me levantando, de pé diante dele.
— Não, não! Isso só me faria ridículo, se eu nunca tive coragem de falar com ela antes, não ia fazer diferença nenhuma você se afastar. Achei que fosse só uma coisa boba, como sempre é, sempre foi! Mas aí...
— Oh Sebastian, eu não sei o que... Não sei o que te dizer! Não achei que isso fosse acontecer. Logo você que sempre me ajudou, e me aconselhou a falar com ela, por que fazer isso tudo? – eu me sentia perdido, fiquei buscando alguma coisa na minha cabeça pra dizer a ele, mas nada vinha. E foi como se eu tivesse chegado no meu limite de experiência; um muro bem na minha frente e que tudo depois dele fosse algo que eu nunca tivesse visto antes, na hora eu pensei que pudesse ultrapassa-lo, mas o tempo me mostrou que o muro nunca cai, a gente nunca consegue transpô-lo, só empurra ele pra frente, carregando o fardo da limitação.
— Kyle, você sabe que eu sou um idiota. Não sei fazer as coisas direito, você sabe. – ele levantou a cabeça e sorriu pra mim meio triste. – Depois que eu descobri que ela gostava de você, e quando você reparou nela e me disse que ela era bonita, não me senti no direito de atrapalhar, afinal eu sou o intrometido nessa história toda.
— Mas por que ajudar?
— Porque você é meu único amigo, porque você é mais importante que tudo isso e... Você merece alguém legal! Ela é legal! – sentei ao lado dele, quando coloquei minha mão na sua nuca ele chorou. Um choro mudo, seco, rasgando o seu peito na força de uma correnteza, as bochechas ficando coradas, os cachos lhe caindo frente ao rosto, escondendo a vergonha.
— Não chora, por favor!
— Eu gosto de chorar. Não adianta de muita coisa, mas me ajuda quando eu sinto saudade. – eu o envolvi nos meus braços, sua cabeça se encaixou no meu ombro e ele ficou ali meio mole, cansado. – Sinto falta da mamãe.
Ele chorou por mais algum tempo. E por esse tempo ele me mostrou o vazio que ele tinha, ou não tinha, me mostrou o que era insubstituível, algumas coisas que o tempo leva e a gente não percebe ou não liga que ele leve. Queria ser capaz de livra-lo de toda a amargura do mundo, sentia que isso era a única coisa que eu podia fazer (embora impossível), mas eu nunca poderia livra-lo da própria tristeza, da sua escuridão. Então só o abracei e o aqueci, tentei ser um amigo melhor.
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