A Primeira vez
12 Um lar
CAP.EXTRA II
O céu daquela tarde de verão estava pintado com tons pastéis, como se até ele quisesse se vestir para a ocasião.
A casa de campo da família Tokito-Shinazugawa — um lugar afastado da cidade, rodeado por árvores antigas, glicínias e lavandas — pulsava de vida. Era o aniversário de cinco anos da pequena Nanami, e também o chá revelação do segundo bebê de Sanemi e Ayla.
Mas, mais do que isso... era a primeira vez que todas as partes da família estavam reunidas. Um encontro planejado por meses, esperado por anos.
E agora, finalmente, todos estavam ali.
Genya e Muichiro estavam no jardim, organizando as mesas com balões em tons lilás e azul-claro. Genya usava uma camisa branca com as mangas dobradas, e o cabelo preso num coque frouxo. Muichiro estava em uma camiseta leve, de cor lavanda, sorrindo com calma enquanto guiava Nanami a posicionar os guardanapos nas mesas.
— Tô fazendo direitinho, papai Mu? — ela perguntava, olhos atentos.
— Tá perfeita. Só não come os docinhos antes da hora, combinado?
Ela riu e colocou um brigadeiro na boca escondido.
— Eu não prometi nada, só perguntei!
Muichiro deu risada, sacudindo a cabeça. Genya, ao longe, suspirava apaixonado.
Ayla chegava em seguida com a pequena Emi. Ela corria de um lado pro outro com seu vestido florido e seus cachos brancos-violetas, uma bolinha de energia. Ayla estava com seis meses e meio, e Sanemi, claro, agia como uma muralha protetora ao redor dela.
— Toma água, amor. Já andou demais. — disse, entregando-lhe uma garrafinha.
— Sanemi, eu estou grávida, não feita de vidro.
— Sim, mas você carrega o meu bebê. Isso te faz preciosa demais pra eu deixar desprotegida. — respondeu, com um beijo no alto da testa dela.
Ayla sorriu, mesmo fingindo impaciência. Os anos não tinham tirado o fogo do Sanemi, mas tinham acrescentado muito mais ternura e compreensão ao aprender a lidar com uma pequena princesa.
Yuichiro chegou por último, acompanhado de um bolo enorme — e de uma expressão levemente desconfortável por carregar tanta atenção. Mas Nanami correu até ele com os bracinhos abertos.
— Tio Yu! Você trouxe o bolo?
— Claro que sim. Alguém tem que garantir que isso aqui tenha açúcar suficiente pra um colapso coletivo! — Disse, entregando o embrulho à Muichiro.
Nanami agarrou o pescoço do tio e sussurrou:
— Hoje é o melhor dia de todos!
Yuichiro a segurou por mais tempo do que o habitual.
— É. Eu também acho, Naminha.
A festa se seguiu em ritmo calmo. Brincadeiras, música instrumental ao fundo, e comida feita por Hinatsuru, que agora dava aulas de culinária para jovens do distrito que moravam. Makio e Suma a ajudavam, organizando as crianças e distribuindo bexigas com seus estilos bem distintos: Makio mandona, Suma emotiva.
— Parem de correr perto da mesa! — Makio ralhava.
— Eles só estão se divertindo, Makio! — dizia Suma, já chorosa, emocionada com tudo.
— Emoção não limpa brigadeiro derramado! — retrucava Hinatsuru, segurando uma risada.
Mais adiante, sob uma árvore, Obanai e Mitsuri estavam sentados juntos com um bebê nos braços. Sim, eles também haviam adotado um garotinho de um ano chamado Haruki. Mitsuri o balançava no colo com uma felicidade transbordante e Iguro sorria ao pensar que a família também estava crescendo afinal a Iguro estava grávida de dois meses.
— Ele ama festas, né, Obanai?
— Desde que não tenha que dançar. Aí puxou você. — Respondeu ele, calmo, com a máscara pendurada no pescoço.
Todos os amigos e conhecidos estavam presentes naquela festa, espalhados, felizes e lidando com uma alegria sem dimensão e uma paz maior ainda.
E por toda parte, crianças rindo, adultos conversando, e o som constante de uma vida construída com cuidado. Nanami dividia bolinhos com Emi. Yuichiro contava histórias de insetos estranhos que tinha estudado. Muichiro e Genya dançavam em segredo atrás da cozinha, só os dois se beijando de vez enquanto.
Até que chegou o momento mais aguardado.
O chá revelação.
Todos se reuniram no centro do gramado. Sanemi segurava a mão de Ayla. Ao lado, Emi com os olhos arregalados. Nanami segurava uma bexiga que estouraria com a cor do sexo do bebê.
— Um, dois... TRÊS!
Pó rosa voou pelos ares.
Ayla estava esperando uma menina.
Emi deu um grito:
— UMA IRMÃÃÃ!!
Sanemi arregalou os olhos, completamente dominado pela emoção. Ele caiu de joelhos, agarrando Ayla com força, enterrando o rosto em sua barriga já arredondada. Lágrimas escorreram sem contenção.
— Uma menina... outra menina...
Genya o abraçou logo em seguida, com um sorriso imenso.
— Vai ficar tudo bem, mano. Você vai ser um pai incrível de novo.
Yuichiro se aproximou mais tarde, em silêncio, apenas colocando a mão no ombro do irmão. Eles trocaram um olhar. Não precisavam dizer nada.
No final da tarde, quando o sol se despedia entre os galhos, Nanami sentou-se entre os pais. Emi dormia no colo de Ayla, segurando o seio da mãe. Yuichiro descansava ao lado, encostado contra o tronco de uma árvore, observando o céu mudar de cor.
Nanami olhou para o céu e disse:
— O dia acabou?
Muichiro beijou o topo da cabeça dela.
— Acabou, mas sabe o que isso significa?
— O quê?
— Que amanhã tem mais amor. Todo dia tem um pouquinho.
Genya acrescentou:
— E a gente vai guardar esse dia aqui — apontou pro coração — pra sempre.
Nanami sorriu e apertou os dois.
— Eu amo minha família. E amo ser Nanami Tokito-Shinazugawa.
Yuichiro soltou uma risadinha baixa.
— Acho que esse nome ficou perfeito em você, pequena.
E ali, sob o céu aberto, com a brisa leve dançando entre as folhas, todos estavam inteiros. Com suas cicatrizes, suas histórias, seus caminhos improváveis — mas juntos.
Família era isso: amor construído, dia após dia. Às vezes no grito, às vezes no silêncio, às vezes no meio da risada. Mas sempre presente.
E naquele pedaço de terra com cheiro de flor e bolo recém-casado, o tempo parecia parar só para assistir aquele milagre simples:
Um lar.
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