A Primeira vez
2 Depois da Primeira Vez
A luz suave do abajur no canto do quarto pintava a parede com tons alaranjados, como se o pôr do sol ainda resistisse em permanecer ali por mais alguns minutos. Muichiro estava deitado de lado, a cabeça apoiada no braço de Genya, que ainda sentia o coração aquecido com tudo que tinha acontecido horas atrás.
Os corpos agora estavam cobertos por um lençol fino, as pernas entrelaçadas de forma instintiva, como se o universo estivesse tentando mantê-los próximos até mesmo no descanso.
Muichiro acariciava com a ponta dos dedos os músculos definidos do peito de Genya, como se quisesse decorar cada curva, cada linha, cada detalhe. Ele não dizia nada. Não precisava. Estava tudo ali: nos toques, no silêncio confortável, nos olhos que piscavam lentamente, tentando lutar contra o sono só para aproveitar mais um pouco daquela paz. Foi difícil segurar os sentimentos por tanto tempo, agora ele só queria aproveitar a constância dos dias ao lado do maior.
— Você tá bem? — perguntou Genya, com a voz baixa e rouca de sono.
— Eu tô ótimo. E você? — respondeu Muichiro, puxando o lençol até a cintura dos dois, se aninhando mais ainda no peito quente de Genya.
— Nunca me senti tão bem. — Houve uma pausa, um pequeno sorriso sem graça surgiu nos lábios dele. — Na verdade, nunca imaginei que dormir de conchinha fosse tão bom...
Muichiro soltou uma risadinha baixa, abraçando mais forte a cintura do Shinazugawa mais novo.
— Claro que é. Mas você me esmagou umas três vezes tentando me puxar pra mais perto.
— Desculpa, é que... as vezes eu sou meio bruto. — Desviou o olhar. — Fora que... eu queria ter certeza que você estava ali, sabe?
Muichiro levantou o rosto, os olhos verdes encontrando os castanhos.
— E agora?
— Agora sei que você está.
Beijaram-se de novo, mas dessa vez foi mais lento, sem pressa. Um beijo cheio de carinho, daqueles quando não se quer desgrudar mais. Quando se separaram, Muichiro encostou a testa no queixo de Genya e sussurrou:
— Vamos dormir. Ainda quero te ver pela manhã.
E dormiram. Entrelaçados. Corações calmos. Como se o mundo lá fora pudesse esperar só mais um pouco...
No dia seguinte tudo ainda estava calmo. Era domingo. O céu estava claro demais, e a claridade invadia o quarto de Genya pelas frestas da persiana mal fechada. Quando acordou, a cama estava vazia, mas o cheiro de Muichiro ainda estava ali, presente no travesseiro, na coberta, no próprio corpo.
No celular, uma mensagem:
>"Fui só tomar um café com os meninos, volto mais tarde. Beija minha ausência 💚"
Genya riu sozinho pela ironia. E então congelou.
Sanemi.
Estava marcado de irem juntos ao mercado hoje. E como sempre, o irmão mais velho chegava cedo demais, provavelmente havia dormido na casa da namorada, então chegaria pontualmente para o compromisso marcado. Quando Genya saiu do quarto com os cabelos bagunçados, camisa larga demais e uma cara de sono idiota que mal conseguia esconder, deu de cara com Sanemi no sofá.
O albino o olhou de cima a baixo, arqueando uma sobrancelha.
— Dormiu aqui em casa mesmo ou voltou de alguma festa?
— Dormi aqui. — Genya respondeu rápido demais, vermelho demais, culpado demais.
Sanemi pegou o controle da TV, desligou, e cruzou os braços.
— Tá com essa cara de... sei lá, quem transou pela primeira vez e ainda tá flutuando.
Silêncio. Mortal. Até Sanemi se tocar que provavelmente havia acertado de primeira.
— ...Foi isso mesmo? — Sanemi perguntou, de forma direta, mas sem julgamento algum.
Genya hesitou. Engoliu seco. Respirou fundo.
— ...Foi.
— Com uma garota?
Outro silêncio.
Genya olhou para os pés, como se a vergonha fosse engoli-lo vivo e, murmurou quase inaudível:
— ...Com um garoto.
Sanemi ficou em silêncio por um instante. Longo. Tão longo que parecia eterno. Genya apertava as mãos suadas, com medo, com o coração acelerado, com a alma quase pedindo desculpas por existir daquele jeito.
Até que Sanemi bufou... e deu um tapa na cabeça dele.
Um daqueles estalinhos secos e fraternais.
— Idiota.
— Ei! — Genya resmungou, levando a mão à cabeça.
— Você é um idiota. Ficou com essa cara de cu achando que isso ia mudar alguma coisa? Que eu ia te odiar? Me trata como se eu fosse um bicho, porra!
Genya mordeu o lábio inferior, os olhos marejando. Não sabia se era do susto, do alívio, ou do amor que sentia pelo irmão.
— ...Eu só não queria decepcionar você.
Sanemi o olhou com um misto de raiva e ternura.
— Genya. Olha pra mim.
Ele obedeceu. E o olhar que recebeu não tinha raiva. Tinha orgulho.
— Você é meu irmão. Se você gosta de meninos, de meninas, ou dos dois, foda-se. Isso não muda o que você é. O que você sempre foi. Um idiota. Um bom idiota. E eu tô orgulhoso de você, entendeu?
Genya deixou uma lágrima escapar. Mas sorriu.
— Obrigado, aniki...
— Mas se esse moleque te magoar, eu quebro ele no meio!
— Ele não vai. — disse Genya, limpando os olhos. — Ele é incrível.
Sanemi ficou de pé, deu um tapinha no ombro do irmão e sorriu de canto.
— Então você também tem que ser. Pro bem dele. E do seu. Agora chega dessa conversa mole e vai se arrumar, encher a barriga que temos de fazer compras e Ayla está torrando a minha paciência dizendo que eu tenho que cozinhar mais pra você.
O Shinazugawa mais novo sorriu, aliviado. E agradeceu mentalmente a buda por ter uma família tão boa e um irmão tão...querido.
[...]
Naquela mesma noite Sanemi precisou sair para substituir um colega na delegacia, Genya deixou claro que ficaria bem e sorriu com o simples se cuida do irmão.
Muichiro voltou mais tarde, como prometido. Com um docinho na mão, um beijo na bochecha e uma certeza:
— Você tá mais leve hoje. — Afirmou já subindo as escadas para o quarto como quem mora naquela casa há anos.
Genya sorriu.
— Eu contei pro meu irmão.
Muichiro arregalou os olhos.
— E?
— Ele me chamou de idiota. — riu. — Mas me deu o maior abraço depois.
— Eu sabia que ele entenderia.
— Eu não sabia. Mas... agora eu sei. E é tão bom.
Muichiro o puxou para a cama outra vez. Deitaram lado a lado, e Genya enlaçou o menor pela cintura, mais seguro, mais inteiro.
— Dorme aqui hoje também? — Perguntou, com a voz mansa.
Muichiro assentiu, os olhos já fechando, os dedos entrelaçando nos dele.
— Claro. Sempre que você quiser.
Naquela noite, com a respiração calma e o coração em paz, Genya Shinazugawa estava aliviado por ter sido sincero consigo mesmo e com aquele que tanto amava e, agora poderia desfrutar do Tokito sem se preocupar com mais nada.
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