A Primeira Profecia
1 Prólogo - Suicídio parte 1
Verdandi
Brasil, uma cidade qualquer próxima da metrópole São Paulo.
Era tão alta quanto uma das anciãs, mais de três troncos se retorciam em torno um do outro, formando um corpo marrom e nodoso com espinhos pipocando aqui e ali, os galhos longos quase não apareciam cobertos pelas inúmeras folhas grandes e avermelhadas. Estava distante, sozinha em uma pequena clareira, rodeada de longe pela grama alta e pelos arbustos mal cuidados. Os raios vermelhos do entardecer recortavam sua imagem gigante e solitária, mesclando-se a cor rubra de suas folhas e fazendo-as ter um brilho tão próximo do sobrenatural que pareciam sangrar. Ela sangrava, sangrava tanto que suas folhas poderiam gotejar rios inteiros de sangue até que toda aquela vasta clareira ficasse coberta do mesmo liquido espesso e vermelho.
Ela se retorcia lentamente na minha direção, o vento fresco do entardecer chacoalhou suas rubras folhas e poderia jurar que aquele mínimo som era sua voz que sussurrava Dinna...
Mas então era eu que sangrava, o sangue escaldante e rubro que fazia desenhos lúgubres no azulejo branco saia de mim, meus pulsos abertos ardiam e reclamavam de tanta dor e tudo o que eu fazia, sentada ali, entre a parede gelada e a pia de porcelana, era encarar a janela aberta e observar aquela enorme arvore no jardim que sangrava tanto quanto eu.
Eu ainda segurava fracamente a afiada navalha de barbear do meu irmão mais novo, minhas mãos estavam caídas ao meu lado assim como meus longos cabelos negros, espalhados ao meu redor fazendo borrões de nanquim no novo piso escarlate.
Já não tinha mais forças, o silêncio era tanto que até o escorrer do sangue que brotava dos cortes era audível... audível o suficiente para alguém bater na porta.
– Dinna?
Isso era um adeus, o adeus que eu tentava desesperadamente dar ao mundo, o adeus que minha boca agora dormente não conseguia pronunciar.
Meu vago olhar dirigiu-se lentamente para o sol, tão sangrento quanto eu, vermelho e poente, tal claridade cegou-me por alguns instantes, mas não movi meus olhos... fixar a atenção nele me fez lembrar que aquilo era real, talvez mais real do que eu mesma poderia agüentar. Eu não precisava mais fingir suportar algo, não precisava mais suportar fingir, não precisava mais olhares piedosos ou de palavras falsas e acolhedoras.
Lágrimas escorriam dos meus olhos já manchados de antigas, as senti escorrer pelo meu queixo juntarem-se aos borrões de sangue na minha camisa escolar.
Mais batidas ocas da porta e o som desfaleceu, começou a morrer... assim como eu.
– DINNA?! Abra essa porta já!!
Tudo ficou distante, o frio do azulejo, o cheiro ácido da limpeza, o barulho ressoante das batidas na porta, o som de alguém me chamando desesperadamente; tudo desfragmentou-se... não existia mais um bainheiro branco com uma vermelha garota moribunda, não existia mais o condenado presente e nem culpas.. ali era somente eu, o rubro sol poente e aquela triste arvore sangrenta; nada mais, e nada mais importava.
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