A Primeira Loucura por um Novo Amor
1 A Carta
Notas iniciais
Já era de manhã quando acordei, talvez nove ou dez horas, não tenho certeza. Minha família havia marcado uma viagem rápida. Sairíamos ontem e passaríamos 3 dias numa dessas cidades turísticas do interior. Não era surpresa que tudo havia sido cancelado. De novo. Mas estava tudo bem. Eu estava acostumada com esse tipo de coisa. Tinha que estar, afinal, não era a primeira vez, nem a décima, que isso acontecia.
Levantei da cama e fui fazer tudo o que tinha direito de um dia comum de férias escolares. Em duas semanas, as aulas voltariam, por isso estava tentando aproveitar o máximo delas, do meu jeito. Estava tudo bem se eu passasse mais uma das minhas férias escovando o cabelo, tocando violino e conversando com as minhas amigas. Era feliz desse jeito. Meus pais trabalham bastante para dar a mim e aos meus dois irmãos todo o luxo que podem. E eu realmente agradeço por eles.
O calor não dava trégua. Desde quando eu havia ido dormir, até quando despertei. Chega a ser insuportável. Mas digo isso porque ainda não temos, e provavelmente não teremos, nenhum ar condicionado, já que mamãe preferiu comprar outros 4 ventiladores.
Estava me atualizando nas redes sociais quando meus pais chegam muito mais cedo do que de costume. Pareciam apressados, porém muito contentes. Imaginei que boas notícias estavam chegando, então a empolgação e a expectativa já começaram a tomar espaço dentro de mim.
...
Uma viagem.
...
Queriam viajar naquele instante. Para qualquer lugar. Desde que todos fossem.
...
Viagem surpresa depois de termos acabado de cancelar uma.
...
É como uma recompensa por ter esperado devidamente.
Foi então que uma maré de surpresa (boa) e alegria me atingiu.
Para onde vamos? Não importava. Apenas iríamos todos juntos, e era o que importava.
Certo, corremos e, enquanto eu decidia o lugar com a minha mãe, o resto da família começava a aprontar as malas se preparando para qualquer coisa. Piscina, praia, frio, roupa de noite, pijama de frio e de calor, o que for. Nos revezamos para fazer as malas para otimizar o tempo. Em pouco mais que 20 minutos, por incrível que pareça, estávamos todos de malas prontas e preparados para sair, já com um destino certo: uma cidade fria do interior. Malas no carro. Todos colocam o cinto. E a partir de agora, mais uma aventura começava.
No meio do caminho meus pais insistiram que deveríamos almoçar num shopping que não íamos há tempos. Um restaurante que costumávamos ir quando crianças, que havia fechado, reabriu e fora reformado. Segundo eles estava bem melhor, apesar de ter mudado de nome, preservou o espaço físico com pequenas melhoras. Estávamos em clima de viagem. Desde que todos concordassem, por que não?
Depois do almoço todos estavam satisfeitos. A comida realmente tinha o mesmo gosto da infância que tivemos. Gordurosa, feliz e “economicamente deliciosa”, como papai costuma dizer sempre que gasta pouco. E estava tudo bem... Nem imaginaria que eu daria uma de louca no shopping, e ainda com a minha família junto.
Mamãe estava olhando a vitrine de uma loja e... E era uma bem legal. Cheia de canecas, camisetas e acessórios, mas, diferente da maioria, eram de jogos, bandas, filmes e animes. Uma loja bem destacada, com uma vitrine convidativa. Meus olhos passavam rapidamente entre os objetos da vitrine. Percebi que, dentro da loja, dois moços me encaravam. E não havia problema nenhum... Até que... Meu olhar se cruzou com um deles.
Seus olhos atiraram em mim, imobilizando-me e prendendo-me em correntes que queimavam a minha pele. Era doloroso a tal ponto que chegava a ser viciante. Estava estupefata. Meu coração acelerou. Prendi minha respiração. Meus olhos se arregalaram. Algo dentro de mim mudara. Me pareceu instantâneo. Uma conexão. Foi mágico, se essa palavra é capaz de descrever tal cena. Ele pode não ter sentido nada disso. É provável que não tenha. Mas... Naquele momento, um desejo nasceu dentro de mim. Uma promessa de um futuro.
Ele estava vestindo uma calça roxa escura e colada. Tênis preto com uma tira branca na base. Seu cabelo era castanho claro, parecia ter sido arrumado para parecer bagunçado. Olhos castanhos escuros. E uma camiseta de banda, característica da loja. Na certa, ele trabalhava lá.
Adentrei a loja e, enquanto olhava alguns itens, disfarçadamente eu o encarava. E ele devolvia o olhar... Mas não havia problema em ele estar olhando para mim, afinal, eu era uma cliente na loja. Poderia estar precisando de algum tipo de ajuda. Era normal da parte dele me olhar, afinal. Eu era a única bancando a estranha, secando a beleza alheia.
Seria o Destino agindo? Meu coração estava começando a acelerar um pouco mais. De vez em quando ele chegava mais perto. E então se afastava. Perguntou umas 3 vezes se eu precisava de algo. E eu ria e dizia que não. Mas sim, eu queria uma chance. Uma chance para esse desejo. Uma chance para essa oportunidade. Uma chance para esse futuro.
Mas talvez não era a hora.
Mamãe estava nos apressando para irmos. Afinal, tínhamos uma viagem nos aguardando. E... E eu sabia que aquilo não podia ficar daquele jeito. Eu precisava fazer algo.
Mas... O que?
...
Me aproximar dele e dizer que o achei interessante? Que ele parecia legal? Passar meu e-mail? Pegar o telefone dele?
Parecia uma infinidade de coisas a fazer.
Mas uma me parecia mais insana do que a anterior.
...
Não havia o que fazer. O meu mundo não funciona desse jeito. E sabemos disso. Resisti um pouco a sair. Mas não havia escolha.
Antes de sair da loja, olhei para trás, arrependida por não ter feito nada. Eu não tinha o direito de reclamar ou ficar triste por isso. Querendo ou não, a chance havia sido me dada. E eu a perdi.
...
Enquanto seguia minha família e me distanciava da loja, sabia que ainda poderia fazer alguma coisa. Mas o quê? Eu não conseguiria falar diretamente com ele. Não tinha coragem para isso. Não, definitivamente não. Essa não seria quem sou.
...
"Então o quê? O quê?"
Até cheguei a procurar algum papel na minha bolsa, não sei, qualquer coisa para escrever. "Escrever o quê?" Não importa. Primeiro o papel e a caneta. Depois eu pensaria nisso.
...
Mas... Não havia papel. Quanto menos caneta. Não havia coragem. Quanto menos ousadia. Apenas o desejo dentro de mim. E aquilo não bastava. Me dei por vencida e continuei andando.
...
...
...
Mamãe comentou de tomar aquele sorvete mexicano, que por sinal esqueci o nome. Era perto dali. Pouco antes de virar a esquina.
E... Não agi com a consciência. Simplesmente fui possuída. Não estava mais agindo por mim mesma.
Meu coração se agitou dentro de mim, em protesto. Minha cabeça estava pulsando, em resposta. Fiquei com calor, afrouxei a echarpe. Minha perna começou a tremer. Minhas mãos suaram. Fiquei ofegante. Estava queimando.
E o Destino agiu sobre mim.
Pedi uma caneta à atendente da sorveteria e puxei um guardanapo. Dobrei do avesso. E... Como se por mágica... Lá estava. O papel. E a caneta. Coloquei a caneta próxima ao papel, parando um pouco antes de tocá-lo.
...
"É insano", eu pensava, enquanto estava visivelmente tremendo, antes de ter escrito qualquer coisa.
...
Eu escreveria uma carta para ele então?
Dizendo que me interessei por ele?
O número do meu celular?
E se ele fosse comprometido?
Estava assustada.
Assustada com ele.
Com a situação.
Mas, principalmente, assustada comigo.
Sem ter pensado em nada, minha mão se move. Senti dor. Machucara meu pulso direito antes de ontem, quando fui patinar com umas amigas. Mas aquilo não me fez parar. Nem sequer diminuir a velocidade. Não me lembro das exatas palavras.
Estava imersa em demência pura.
Em loucura pura.
Em adrenalina pura.
"Se estiver interessado, me ligue talvez.
Prazer, sou Akemi. *-*”
E escrevi o número do meu celular no canto esquerdo, embaixo.
Em suma, era isso.
Fui preenchida por um sentimento de vitória. Alívio. Como se estivesse respirando após ter segurado o ar por um longo tempo.
Mas...
Por mais difícil que tenha parecido, aquela havia sido a parte fácil. E eu não havia percebido. Devolvi a caneta para a moça. Quando estendi a caneta em sua direção, ainda estava tremendo. E eu sei que ela percebeu, mas não falou nada.
Dobrei o papel ao meio e o apertei em minhas mãos. Como se já tivesse acabado.
Mas não.
Agora eu precisava entregar para ele. Só para começar, como eu iria até lá, entregaria e voltaria sem que ninguém notasse? Já pensei em desistir novamente. E depois despensei. O Destino estava lá.
Eu já tinha dado um grande passo, mas aquilo ainda não seria nada se eu desistisse agora. E eu realmente precisava fazer algo. Discretamente, comecei a me afastar devagar... Quando saí da vista de todos, andei rapidamente em direção à loja. Sem hesitar, adentrei a loja e o vi.
...
E a confiança? Bem... A vergonha acabara de dar uma bela surra nela.
...
O cumprimentei com um aceno com a cabeça.
...
...
...
Pensei em algum jeito de entregar a carta.
...
Nada parecia mais fácil. Ainda mais que um senhor estava andando por ali perto, dificultando ainda mais.
Eu poderia encará-lo e deixar o bilhete no balcão, quem sabe? Ah! Parecia um ótimo plano! O encarei por alguns breves segundos. Mas acabava tendo vergonha e desviando o olhar. Não, não daria certo. Precisava de outra tática.
Bom... Me aproximei dele algumas vezes, enquanto olhava algumas canecas, mas ele acabava se afastando, provavelmente querendo me dar espaço, para que eu me sentisse à vontade.
Passou pela minha cabeça, então, que eu não poderia demorar, já que minha família só tinha ido pegar sorvete. Logo dariam por minha falta.
...
Não havia tempo.
Mas também não havia coragem.
...
Era aquela hora, se fosse para ser.
E eu desejei muito que fosse.
Caminhei em sua direção.
Chamei sua atenção.
Estendi o papel.
E sorri.
...
Mas ele não entendeu. Fez uma expressão estranha, como se eu tivesse acabado de recitar uma poesia em alemão.
Meu estômago parecia borbulhar agora. Era como se estivesse numa montanha-russa, em altíssima velocidade. Tive vontade de sair correndo, afinal, não frenquentava mais aquele shopping, quanto menos aquela loja. Se eu saísse dali, provavelmente não teria que encará-lo novamente.
...
Mas... Essa ideia de nunca mais vê-lo... Foi bem maior do que tudo que estava me dizendo para fugir dali.
...
Abri um pouco mais o sorriso e insisti com o papel, sacudindo-o levemente para cima e para baixo. E então... Sua expressão mudou. Ele disse algo bem baixinho, que soou como um “Ah sim!”, como se soubesse do que se tratava. Talvez soubesse mesmo. Será que eu sou tão óbvia assim? É... Talvez tenha sido mesmo.
Ele pegou o papel. Não consegui ver sua reação. Aquilo era muito mais do que eu acreditaria ter aguentado. Abaixei a cabeça e me virei, andando rapidamente para a saída e, uma vez fora do campo de visão da vitrine, me coloquei a correr.
O que eu havia acabado de fazer?
Não conseguia acreditar.
Estava com o coração a milhões.
Me senti doida. Maluca. E até besta, talvez.
Mas completamente envolvida e preenchida com um desejo alcançado.
Afinal, acontecera.
O destino cruzou meu caminho. E eu o segui. Fiz o que pude.
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Mais tarde, enquanto estava na estrada... Recebi uma mensagem de um número desconhecido.
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“Olá! Tudo bem com você?
Prazer, Akemi, meu nome é Christian.
Eu sou o rapaz que trabalha na loja de artigos de fãs, no shopping.
Perdão pela demora para fazer algum contato. Na verdade, acabei de ser liberado aqui.
Sei que na sua carta estava escrito para ligar, mas... Como está tarde, não queria incomodá-la.
E então... Gosta de Linkin Park?
Abraços.”
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