A Primeira Fronteira
1 A chegada
Retirou do bolso esquerdo um iPod Touch vermelho, aumentando o volume da música, apenas para não ouvir o barulho branco da voz da comissária de bordo retinindo nos alto-falantes do avião. No fim das contas, para ele, era tudo como barulho branco, tudo como o chiado de fantasmas em uma televisão analógica, gritando em sons agudos. Blá blá blá, máscaras de gás oxigênio vão rapidamente cair do teto, e os assentos flutuam se a alavanca for puxada, blá blá blá. “Que ser humano em sua sã consciência, sob uma situação de perigo semelhante à queda de um avião, esqueceria de família e filhos, planos e como respiraria sob o fluxo escasso de ar das máscaras amarelas desequilibradas, resolveria mandar tudo aos ares e puxaria uma alavanca? Esperança de flutuar eternamente até cair sobre o destino do voo, ou apenas obstinação obsessivamente idiota dos designers em fazer algo inútil? Por que não inflam automaticamente como as outras cadeiras?”, pensou, enquanto abaixava o som de sua música para ouvir sua mãe gritar com ele, bem no meio da apresentação das tecnológicas portas de pressão que mantinham o ar pressurizado perfeitamente a 1atm.
— Tyler? Não ouviu o que a aeromoça disse? Desligue esse telefone e todo o resto desses trambolhos tecnológicos que seu pai lhe dá, agora. — Ela parecia ameaçadora, os olhos azuis, quase cinzentos gritando de raiva. — Ou eu despressurizo isso aqui e jogo tudo pelos ares.
Ele arrancou o celular do bolso, e desligou-o, segurando impaciente o botão de energia do aparelho. Empurrou-o de volta no bolso e respirou fundo, ajustando o fone do ouvido esquerdo, bagunçando todo o cabelo preto, liso e escorrido. “Como se as Cataratas do Niagra recebessem um derramamento de óleo”, como Melanie, sua melhor amiga costumava dizer. O volume era tão alto que o som ecoava, alto e claro pelo fone livre.
— Mamãe, ele está ouvindo dance house de novo. – A pequena dedo-duro sentada na cadeira era Kara, filha do segundo casamento da mãe. Ela, Clarissa, casara-se com Peter Crowe, um executivo tão ocupado que poderia trocar uma tarde de reunião em Midtown Manhattan do que uma tarde aconchegante em família no Central Park. O fruto do enlace dos dois, Kara, agora prendia seu cinto ao colo, e junto à mãe, Tyler resolveu o prender também.
— E desligue esse iPod — disse Clarissa, com raiva. Parecia inflamar de ódio, não só por ter um filho excepcionalmente apegado à tecnologia, mas por ter também um casamento de 15 anos que foi frustrado por causa da peituda coelhinha de junho da Playboy. E por ter que encontrá-la pela primeira vez nessa viagem em família, da qual havia sido obrigada a participar, afinal de contas, Tyler não poderia viajar sozinho. — Vai explodir as torres de comando com seu wi-fi.
— E para os amigos tecnológicos, temos conexão wireless de graça, o bom e velho wi-fi. Apenas peça a senha para uma de nossas comissárias e aproveite o serviço de alta velocidade, de graça. – A aeromoça que falava no alto-falante disse, arrancando de Tyler um dedo que apontava para a frente, e uma leve chacoalhada de cabeça, ambos notados pela mãe. Soavam como se quisessem dizer “viu?”.
Depois de a aeromoça simpática dar boa viagem a todos os presentes e alertar duplamente aos tais passageiros para que apertassem bem os cintos, o avião decolou. Foi rápido e fácil de aguentar para Tyler, que ainda carregava o zumbido fino e a sensação de ouvido prestes a estourar na cabeça. Olhou para a janela e não viu um céu muito interessante. Não estavam tão alto assim, e já era meia noite. O voo havia atrasado desde as quatro horas da tarde, e até a própria Clarissa se perguntava por que Kara ainda não havia dormido como uma pedra sobre o colo dela.
Apertando os olhos, que sentiam a horrível sensação de areia arranhando os globos oculares, Tyler pode ver pela janela um grande flash negro, como uma sombra que se movia rapidamente. Muito rapidamente. Ele podia sentir através das portas pressurizadas e fechadas um cheiro salgado e metálico de sangue fresco, forte como se estivesse ao lado dele. Chacoalhou a cabeça e esqueceu o que tinha visto – como se não o tivesse feito – e voltou a aproveitar as batidas fortes e os graves exagerados do intra-auricular novo que havia ganhado de sua mãe. O único presente tecnológico e trambolhento que tinha ganhado de sua mãe. Era um Sennheiser preto, com pequenas borrachinhas brancas e design luxuoso. “Talvez tenha sido fruto de uma promoção em algum site de compra online”, pensou, “mas quem sabe?”
A mãe e a irmã já tinham dormido, Kara amassando os cachos delicados no colo de Clarissa. Tyler cedeu ao cansaço e reclinou sua cabeça na mão direita, que estava apoiada pelo cotovelo, acima do braço da cadeira branca, típica da American Airlines. Tudo bem que iria ser difícil dormir ouvindo LMFAO com o volume próximo ao máximo, mas dormiu.
Já eram duas da tarde. Na frente da grande mansão, o pai de Tyler, Leonard, estava de braços abertos. Tinha um chapéu panamá na cabeça, escondendo os cabelos pretos, bermudas brancas, chinelos cáqui e uma camisa de manga curta desabotoada até a linha do peitoral. Logo atrás dele, uma mulher de cabelos loiros e porte um tanto engraçado estava de mãos atadas, uma na outra, e as duas sobre o queixo, exprimindo sorrisinhos de alegria falsa, mostrando os dentes brancos como raspas de coco e sendo extremamente deslocada.
Andando em direção a eles estavam os fatigados Tyler, Kara, e Clarissa, que parecia não estar muito animada – mas com certeza, estava realmente mais animada do que Eiza, a mulher de Leonard – com a ideia de passar um mês com o ex-marido. Tyler parou, arrancando os fones do ouvido e os enrolando na mão esquerda e com a direita, pegando a mala e tornando a andar. Nas costas, carregava uma mochila preta, com o peso mal distribuído no ombro esquerdo do garoto. Abraçou o pai e saudou Eiza com uma estranheza excepcional de quem conhece o novato da classe. Ela se abaixou para acenar para Kara, que parecia não ligar muito.
Na verdade, a única que parecia ligar era Clarissa.
— Olá, Leonard Fray. Como vai? – Olhou para a direita com desdém – E essa aí é Eiza, suponho? – Apontou com desgosto e segurou ainda mais fortemente a mão da filha, que queria sair correndo pelos canteiros bonitos de flores de vários tipos e algumas muitas plantas venenosas do jardim de Leo.
— Sou Eiza Benson. Prazer em conhecê-la. – A loira mulher estendeu a mão bronzeada artificialmente para Clarissa, que, quase que com nojo, apertou superficialmente a mão de Eiza.
— Acredite, o prazer é todo seu. – Ela respondeu e voltou o olhar para Leonard, enquanto Eiza, sem graça, recolhia lentamente a mão e franzia os lábios, arrancando uma risada sufocada de Tyler. Não importava a situação, Clarissa conseguia ser sagaz e irônica, e essa característica da mãe o debulhava em risadas. Mas não dessa vez. Eles estavam na casa do pai dele, uma mansão excêntrica da Califórnia, digna de um executivo da Playboy. “Um executivo bem saidinho, a julgar pelas bermudas apertadas e a camisa aberta até demais”, pensou Tyler. – Eu trouxe Kara, pois Peter não tinha tempo para cuidar dela enquanto eu estivesse aqui. Perdão.
— Não há problema nenhum nisso. Posso pagar toda e qualquer despesa de Kara. Além disso, essa mansão é sempre vazia quando não há festas, ou pessoas fazendo sexo nas camas dos quartos de hóspedes, e quando não há bêbados dormindo pelos corredores, e quando o chão é visível, pois copos de cerveja e slushie não tomam mais o espaço literal do carpete. Temos quarto pra todos, e temos pra mais, caso queira trazer alguma gatinha. – Ele parou de olhar para Clarissa para olhar para o filho, e deu um pequeno soco em seu ombro. Tyler cutucou o ombro e voltou a olhar para a mãe, que olhava para Leonard, esperando sua deixa. — Oh, entrem — ele falou.
A mansão era estupenda. Ela tinha oito quartos, uma cozinha gigantesca com uma mesa ridiculamente grande — Leonard gostava de comer junto com os empregados, todos os inúmeros empregados — que era sempre cheia de arranjos de flores naturais ou de candelabros judaicos, dos quais pendiam velas de parafina que sempre derretiam para fora do candelabro e queimavam a faixa de tecido da grande mesa de madeira. Periodicamente, os empregados arrumavam conjuntos coloridos de faixas novas. A mansão também tinha um escritório-biblioteca, com um acervo largo de livros que variavam de Hans Christian Andersen até ensaios curtos de autores anônimos sobre economia e marketing, lombadas finas e contrastantes com as coletâneas macabras de histórias dos Irmãos Grimm.
Uma delas chamava a atenção de Tyler. Era a de Cinderela, onde a garota plantava uma oliveira, da qual saia uma pombinha — ele preferia imaginar que era uma fada – e os corvos furiosos arrancavam fora os olhos das irmãs invejosas de Cinderela, que tinham cortado os dedos dos pés para que eles coubessem nos sapatos. Digamos que não deu muito certo, pois o príncipe escolheu a maltrapilha e rejeitada Gata Borralheira.
Naquele momento, eles andavam por um longo corredor, com um teto alto sustentado por abóbodas de nervura, das quais pendiam lustres de cristal poderosos em luz amarela incandescente, que deixava a parte da mansão incrivelmente quente. Kara apontava para tudo, exprimindo murmúrios de surpresa com a altura da sala, os delicados detalhes em ouro e os lustres reluzentes que faziam Clarissa – que não se importava muito com o luxo da mansão de Leonard em Anaheim Hills, uma espécie de condomínio planejado para magnatas e celebridades americanas, presente de fidelidade do próprio Hugh Hefman — suar em polvorosa.
— Esta mansão é muito antiga, e foi um pouco cara. Eu diria muito, mas não sou do tipo que se gaba. — Leonard, em tom de ironia, falou e arrancou alguns sorrisinhos de Eiza. Eles haviam chegado no hall principal da mansão, uma sala luxuosa com um piso preto, reluzente como o lustre gigante de cristal que pendia do topo. Nas laterais, janelas panorâmicas com vista transparente do jardim, se você olhasse do lado direito, e da piscina, se olhasse do lado esquerdo. Em frente a eles, uma escadaria com um tapete vermelho de veludo. Leonard estendeu as mãos e, com pretensão no rosto, tornou a falar — Subam, por favor.
Subiram a escada que se dividia em duas no seu topo, e dobrando ao lado direito, viram os quartos, que espiralavam num anel na parte superior da escada, até o lado esquerdo; Mas os quartos de hóspedes reservados para eles estavam no lado direito. Kara e Clarissa entraram no primeiro quarto, e Tyler, no segundo. Eram suítes grandiosas, que em seu fundo tinham janelas gigantes que mostravam a face mais bela e reflexiva do rio Santa Ana. Tyler jogou sua mochila contra a cama, jogando o corpo contra ela logo em seguida. Era um colchão de molas grande que tinha camadas e camadas de lençóis e edredons sobre ele, o que fez Tyler pular contra o colchão algumas longas vezes e cair na maciez das camadas de lençóis. “Quase como um colchão de hotel, sendo que melhor, muito melhor”, ele pensou.
Começou a arrancar as roupas das malas, e encontrou o básico para o verão californiano: uma bermuda azul, uma camiseta branca de gola v, e chinelos. Tudo que ele queria era tomar um bom e longo banho, para apagar a viagem cansativa de Nova York até Los Angeles. Esqueceu de pegar uma toalha, mas ao chegar no banheiro, encontrou um set de toalhas lacrado, com pequenos coelhos pretos engravatados bordados à mão em ponto cruz.
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